Uma Questão de Segundos
capítulo 19
HÁ MUITAS COISAS DE QUE eu não gosto nos esportes. Não gosto de como os atletas são venerados porque conseguem, por exemplo, atirar uma bola com maior velocidade ou passá-la por um aro metálico com mais facilidade do que a maioria das pessoas. Não gosto da importância que se dá aos jogos, comparando-os com verdadeiras batalhas e até mesmo guerras. Não gosto que isso seja a única coisa de que todos falam em cidades como Kasselton. Não gosto de críticas ofensivas (na verdade, odeio) e comemorações excessivas (como meu pai costumava dizer, “Aja como se já tivesse feito isso”). Não gosto do modo como o público grita com juízes e reclama dos treinadores. Não gosto da obstinação e do egoísmo inerentes a todos os competidores, inclusive eu. E, em uma cidade como esta, não gosto das conversas fiadas sobre se tornar um atleta profissional quando é oito vezes mais provável que você caia e morra em seu banheiro (é verdade!).
Mas há muitas coisas de que eu gosto. Gosto do senso esportivo, por mais que isso possa parecer cafona. Gosto dos apertos de mão depois do jogo e de cumprimentar o oponente com um aceno de cabeça. Gosto de partilhar um grande momento com meus companheiros de equipe, da alegria nessa conexão singular. Gosto de suar. Gosto de me esforçar, até mesmo quando a bola não vem na minha direção. Gosto de ser envolvido pelo frenesi – e ainda assim estar totalmente só. Gosto do som da bola quicando no chão do ginásio. Gosto do escape que só uma quadra proporciona. Gosto da pureza do jogo. Gosto da competição – e com isso quero dizer “vencer”, não “bater”, “superar” ou “menosprezar” o oponente, embora entenda como tudo isso pode se confundir. Gosto da aleatoriedade dos intervalos. Gosto de realmente não saber como a bola vai quicar. E gosto da honestidade. Gosto do fato de que mesmo se seu pai for o treinador, se você não tiver talento não vai conseguir nada.
No meu caso?
Demorou um pouco. No início eu estava nervoso. Errei mais arremessos do que o normal. A princípio, meus possíveis novos companheiros de equipe se mostraram frios comigo porque eu era novato, o intruso, e já tinha feito inimigos como Troy e Buck. Mas quando começamos a disputar a bola, a correr de um lado para o outro e gastar energia, quando fui para aquela “zona” mágica em que o resto do mundo desaparece – meu lugar favorito –, comecei a fazer passes e arremessos que deixavam as pessoas boquiabertas.
O treinador Stashower, um jovem inglês, não disse nada durante algum tempo, mas cerca de uma hora depois eu o vi ir para o Ginásio 1 falar com Grady, que ficou à porta observando um pouco, com os braços cruzados. Me esforcei ainda mais. Acertei dois arremessos de três pontos, corri na direção da cesta e fiz o passe para um dos meus companheiros de equipe, que encestou de bandeja com facilidade. Agarrei rebotes. Marquei na defesa. Concentrei-me no jogo e por um momento cheguei a me esquecer de que o técnico do time principal estava me observando.
Mas eu sabia.
Foi isso que eu quis dizer com honestidade do jogo. Na quadra, você pode correr, mas não pode se esconder. Do mesmo modo, você pode bloquear alguém, mas se essa pessoa descobrir seus pontos fracos, poderá passar adiante. O treinador Grady talvez quisesse tudo perfeito, simples e previsível. Tinha todos os seus seniores prontos para entrar em ação. Mas os esportes em geral nunca são perfeitos, simples e previsíveis. Se fossem, não precisaríamos observar, nem mesmo jogar, não é?
– Ok – gritou Stashower. – Basta por hoje. Vão para o chuveiro. Amanhã os testes serão às cinco da tarde. Até lá.
Quando começamos a nos dispersar, muitos garotos vieram me parabenizar. Eles me fizeram perguntas sobre onde eu havia aprendido a jogar, de onde era, que aulas estava tendo. Sei que eu disse que gostava dos apertos de mão pós-jogo. E eu gosto. Aprecio o respeito que você demonstra por um oponente ou companheiro de equipe. Mas não gosto que as pessoas de repente queiram ser suas amigas só porque você pula mais alto ou demonstra uma coordenação acima da média.
Mas isso não significa que não gostei da atenção.
Algumas pessoas poderiam dizer que isso é hipocrisia. Provavelmente eu concordaria.
Os juvenis tinham acabado antes do time principal, por isso pude tomar banho e me vestir sem dar de cara com Troy e Buck. Enquanto me acalmava, comecei a pensar no discurso de Troy. Talvez, por mais que me fosse desagradável, ele estivesse sendo de algum modo sincero. Talvez ele e Rachel ainda tivessem um relacionamento. Eles haviam namorado, não é? Talvez tivessem voltado. Talvez a proximidade de Rachel da morte os tivesse unido de novo.
Desejei que esse pensamento não me revirasse tanto o estômago.
Enxuguei-me e tomei fôlego por um segundo. Quando olhei para o celular, meu coração disparou de novo. Havia uma mensagem curta de Rachel: oi.
Sorri. Ela devia ter frequentado o Curso de Escrita de Introdução de Mensagens de Mickey Bolitar. Conferi a hora da mensagem. Rachel a enviara uma hora antes. Digitei rapidamente uma resposta formidável: oi, vc ainda tá aí?
Nenhuma resposta. Coloquei o telefone de lado e me vesti, olhando para ele e esperando que vibrasse. Estava calçando meus tênis quando ele vibrou.
Rachel: sim. onde vc tá?
Eu: testes hoje.
Rachel: como foram?
Eu: bem. quem se importa? como vc tá??
Rachel: melhor. a bala passou de raspão pela minha cabeça, mas não causou nenhum dano. vou ter alta amanhã de tarde.
Por mais que aquilo parecesse imaturo, tive vontade de perguntar se ela estava mantendo contato com Troy, mas a) isso não era da minha conta; b) você poderia imaginar algo mais ridículo? Além disso, lembrei-me do discurso de Troy: Aquela garota especial que roubou meu coração está em uma cama de hospital, lutando pela vida.
A garota que receberia alta amanhã? Mentiroso!
Rachel: pode passar na minha casa amanhã depois da escola?
Está bem, tenho que admitir que senti meu peito se estufar e que um sorriso apareceu em meu rosto. A escola terminava às três. Os testes começavam às cinco.
Eu: sem problemas.
Rachel: meu pai vai voltar às quatro. não quero que ele veja vc, por isso temos que ser rápidos.
Eu não soube como interpretar aquilo.
Eu: algo errado?
Rachel: tenho que ir. por favor, não conte a ninguém que te enviei uma mensagem. ninguém mesmo. até amanhã.
Fiquei olhando para o telefone por mais um ou dois minutos e então finalmente me vesti. Quando saí, Stashower estava à minha espera.
– Tem um minuto, Mickey?
– É claro, treinador.
Stashower tinha cabelos cacheados grossos e usava uma camisa com o camelo de Kasselton, a mascote da nossa escola. Fomos para a sala dos professores de educação física e ele fechou a porta.
– Você é um ótimo jogador, Mickey – elogiou ele com algo que se aproximava do assombro.
Sem saber o que falar, respondi:
– Obrigado.
– Quero dizer, esse é apenas o primeiro dia. – Ele pigarreou, sua voz agora se tornando mais séria. – Os testes durarão o restante da semana. Isso pode ter sido apenas um golpe de sorte.
Eu fiquei em silêncio. Eu sabia. Ele sabia. Mais uma vez, não quero parecer metido e arrogante. Detesto que a garota maravilhosa sempre finja não saber que é bonita. Isso é desonesto. Esse tipo de falsa modéstia pode ser tão irritante quanto a vaidade. Então eu não disse nada – não era preciso, pois a quadra diz tudo –, mas Stashower sabia que aquilo não tinha sido um golpe de sorte.
– O treinador Grady vai trabalhar com o time principal por mais uma hora e não quis que você o esperasse. Ele também precisa pensar sobre algumas coisas. – Fez uma pausa, sem saber ao certo como prosseguir. – De qualquer modo, ele perguntou se você poderia ir à sala dele amanhã, na hora do almoço. Você pode?
Eu me esforcei muito para não sorrir.
– Sim, treinador.
– Então está bem. Vá para casa descansar um pouco.