Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 22 de 53

Páginas do PDF

Uma Questão de Segundos

capítulo 22

NINGUÉM SABE QUANDO dona Morcega chegou à cidade.

Estou certo de que há registros da mudança e alguém provavelmente poderia descobrir, mas, se você perguntar a qualquer pessoa em Kasselton, ela dirá que dona Morcega sempre morou naquela casa sombria e caindo aos pedaços. Até mesmo tio Myron se lembra da velha e sinistra Morcega da sua infância. Ele contou que os garotos costumavam passar correndo na frente da casa dela. Falou que um dia, quando estava com 12 ou 13 anos, meu pai tinha ido à casa de dona Morcega em um ato ousado... e quando saiu de lá, não era mais o mesmo.

Eu acreditava nisso. Também tinha ido àquela casa. Também tinha conhecido dona Morcega. E agora não estou certo se algum dia voltarei a ser o mesmo.

Sabia que os boatos sobre dona Morcega que assustavam as crianças eram totalmente falsos. A lenda dizia que ela as raptava. Os habitantes locais afirmavam que, em algumas noites, se você passasse pela casa dela devagar, podia até ouvir o choro delas. Alguns declaravam ter visto dezenas de crianças trancadas na casa, prontas para serem... o quê? Mortas, abusadas, devoradas...

Ou, talvez, apenas salvas.

Estava escuro como breu quando cheguei à casa de dona Morcega. O vento uivava. Ele sempre parecia se intensificar quando eu atravessava o terreno dela. Tenho certeza de que isso estava apenas na minha mente (e nas mentes de muitas outras pessoas que passavam por lá), mas o salgueiro balançava e até mesmo de onde eu me encontrava, na calçada, podia ouvir a varanda ranger.

Todas as luzes estavam apagadas, menos a de uma lâmpada solitária no quarto do andar superior. Era um bom sinal. Da última vez em que eu fora ali, quando ninguém atendera à porta, não havia nada aceso.

Dona Morcega devia estar de volta.

A noite estava silenciosa, quase quieta demais, quando me aproximei da casa. Bati à porta. O som ecoou. Senti um arrepio e prestei atenção para ver se ouvia algum movimento. Nada. Bati de novo e encostei meu ouvido à porta. Silêncio. E então, de repente, o silêncio foi quebrado.

Por música.

Dei um pulo para trás. Lembrei-me da antiga vitrola, a que tocava discos de vinil, na sala de estar dela. Era difícil imaginar uma velha esquisita ouvindo os álbuns que eu tinha encontrado empilhados ali: My Generation, do The Who, Pet Sounds, dos Beach Boys, Abbey Road, dos Beatles, e o que agora estava tocando e parecia sempre tocar, Aspect of Juno, do HorsePower.

Bati de novo.

– Abra!

Ainda nenhuma resposta, apenas o som de Gabriel Wire, o vocalista do HorsePower, dizendo que “o tempo parou”.

Com toda a certeza, sim.

Comecei a esmurrar a porta. Nenhuma resposta. Eu não sabia ao certo o que fazer. Não podia continuar a bater – a última coisa que queria era chamar atenção para mim mesmo –, mas também não estava pronto para ir embora.

Tentei olhar pela janela, mas ela estava fechada com tábuas. Ainda assim, consegui ver a sala de estar por uma fresta. Tudo na escuridão. Mantive meu olho ali por um segundo.

Então uma sombra passou.

– Alô! Abra!

Voltei para a porta e bati um pouco mais. Fiquei tentado a pô-la abaixo, mas então me lembrei da garagem. Na última vez em que estive dentro da casa – quando Cabeça Raspada me levou para conhecer dona Morcega e falar com ela cara a cara –, ele tinha estacionado e entrado comigo por um túnel subterrâneo. Talvez eu pudesse entrar assim.

Comecei a ir na direção dos fundos. A casa de dona Morcega era bem junto ao bosque. Não quero dizer que o quintal dos fundos dava para o bosque, mas que a casa realmente brotava do bosque, como se sua estrutura fosse parte dele. Tentei abrir a porta dos fundos, mas a fechadura nova não deixou.

Tirei uma pequena lanterna do bolso. Estava ainda mais sinistro ali atrás. Atravessei um emaranhado de árvores até chegar à construção. Eu sabia que lá dentro havia um alçapão que levava a um túnel. Mas a porta da garagem estava trancada. E agora?

Não sei dizer exatamente por quê, mas me dirigi ao viçoso jardim atrás da garagem. Algo, não sei o quê, me atraiu para lá. Ema e eu o havíamos descoberto em nossa última noite ali. Eu não tinha a menor ideia de como dona Morcega mantinha suas plantas tão cheias de vida nesta época do ano, mas isso era a menor das minhas preocupações. Havia um caminho no meio do jardim. Eu sabia onde terminava.

Ergui minha lanterna, iluminando a lápide. Li as palavras agora familiares:

 

TRABALHEMOS PARA ENGRANDECER NOSSO CORAÇÃO

À MEDIDA QUE ENVELHECEMOS,

COMO O CARVALHO ANTIGO OFERECE MAIS ABRIGO.

AQUI JAZ E. S.

UMA INFÂNCIA PERDIDA EM PROL DAS CRIANÇAS

A30432

 

Eu havia imaginado que E. S. era Elizabeth “Lizzy” Sobek, mas agora percebia que podia ser seu irmão, Emmanuel, ou sua mãe, Esther, embora eles tivessem morrido na Polônia mais de meio século antes. Então como poderiam “jazer” ali?

Mas esse não era o ponto principal.

Não, Sra. Friedman, Lizzy Sobek não tinha sido morta pelo Carniceiro de Lodz. Ela havia sobrevivido à guerra e fora uma espécie de hippie e agora todos na cidade a conheciam como dona Morcega, a velha sinistra que morava na casa sinistra.

Perguntei-me o que a Sra. Friedman faria se soubesse que Lizzy “Borboleta” Sobek, a lendária lutadora da resistência que perdeu a família em Auschwitz, morava a menos de 500 metros da Kasselton High School.

Eu me aproximei da lápide. Ao fundo, uma canção do HorsePower terminava e outra começava. Eu sabia o que havia atrás da lápide – aquela mesma borboleta Abeona com olhos nas asas. Eu a tinha visto em minha visita anterior, mas de novo algo me atraiu para aquele lugar, por isso tive que conferir.

Meus passos ecoaram no escuro. Eu estava com minha lanterna na mão e a apontei para o local. Sufoquei um grito. A borboleta estava ali, mas alguém a riscara. Alguém tinha feito um X enorme com spray sobre ela.

Virei-me na direção da casa e dessa vez ouvi uma risada zombeteira.

Um arrepio percorreu meu corpo.

Vá para casa, Mickey, disse a mim mesmo.

Havia perigo. Dava para senti-lo. Era quase possível estender o braço e tocá-lo. Eu sabia que deveria ir. Sabia que deveria me recompor e pensar sobre isso. Mas não havia como ir, não porque eu fosse particularmente corajoso ou, nesse caso, imprudente, e não porque quisesse ser um daqueles adolescentes estúpidos que entram na casa do serial killer nos filmes de terror.

Eu só não queria que o que estava me assombrando escapasse de novo. Ok, se ele me vencesse eu poderia viver (ou morrer) com isso. Porém, eu precisava de respostas e não deixaria a pessoa que poderia fornecê-las escorregar por entre meus dedos mais uma vez.

Corri para a porta dos fundos e bati. Idiota. Ninguém havia respondido antes. Por que achei que seria diferente agora?

Coloquei as mãos em concha ao redor dos olhos e espiei a cozinha pela janela. Escura. Então, vi uma sombra passar ao longe. Alguém subia a escada.

Por quê?

Tentei visualizar dona Morcega se movendo rápido como aquela sombra, mas não consegui.

Havia outra pessoa naquela casa. Ela fizera um X com spray sobre a lápide. E tinha ligado a vitrola e debochado de mim.

Dei a volta correndo para a frente da casa e ergui os olhos para a janela iluminada do quarto de dona Morcega. Inclinei a cabeça tentando ver algo – talvez uma sombra, uma silhueta, qualquer coisa – e, quando fiz isso, alguém apagou a luz.

Escuridão total.

Ah, não.

Eu não sabia o que fazer. Pensei em chutar a porta, mas e depois? Provavelmente aquilo não era nada – apenas uma visita ou até mesmo a própria dona Morcega apagando a luz antes de dormir. Ainda assim, meu coração batia forte no peito. Eu tinha que agir.

Estava pensando no próximo movimento quando a luz na janela foi acesa de novo. Recuei para enxergar melhor. Coloquei as mãos em concha como se fossem um megafone e gritei “Alô?”. Não sabia como chamá-la. Sua identidade era secreta, por isso não funcionaria falar “Srta. Sobek”. Também não tinha certeza de que berrar “Dona Morcega” seria apropriado.

– Alô? Pode me ouvir?

Nada.

– É o Mickey. Alô? Pode abrir a porta? Por favor?

Vi algo se movendo na janela. A cortina fina como gaze foi afastada para o lado e então um rosto espiou para fora.

Dessa vez gritei bem alto.

Ali, da janela do andar superior, o Carniceiro de Lodz me encarava.