Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 15 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 15

MAIS UMA VEZ O PERCURSO de carro começou em silêncio. Mais uma vez Myron teve que quebrá-lo.

 

– A que horas são os testes de basquete?

– Não entendi – comentei, tentando manter a calma. – Por que você?

– O quê?

– Por que você deveria “vigiar” – perguntei, fazendo aspas com os dedos – Angelica Wyatt?

– É como às vezes eu obtenho clientes – explicou ele. – Veja bem, Angelica Wyatt está deixando a agência dela. Eu esperava...

– Achei que você tinha vendido a empresa.

– Eu vendi – confirmou Myron.

– E então?

– É complicado.

– Não entendo. Você vai ser contratado como segurança?

– Não.

– Então o quê?

Paramos em um sinal de trânsito. Myron se virou e me encarou.

– Eu ajudo pessoas.

– Ajuda como?

– Vigio pessoas. Resolvo problemas difíceis. E às vezes...

– Às vezes o quê?

– Às vezes eu as salvo.

Myron voltou a dirigir.

– É o que você acha que está fazendo comigo? – indaguei. – Me salvando?

– Não. Você é da família.

– Seu irmão também era. Por que não o salvou?

Vi a dor surgir no rosto dele. Mas eu ainda não havia terminado.

– Sabe, você podia tê-lo salvado – continuei, e sentia que a represa de sentimentos havia se rompido. – Podia ter salvado os dois. Minha mãe e meu pai. Desde o início. Podia ter entendido que eles eram jovens e estavam assustados. Podia ter aceitado que se amavam em vez de tentar fazer com que se separassem. Ela poderia ter voltado a jogar tênis depois de eu nascer. Poderia ter sido a grande estrela que devia ser. Meus pais não precisariam ter fugido. Poderiam ter me criado até agora. Eu poderia ter desenvolvido de fato um relacionamento com meus avós. Você e eu poderíamos ser tio e sobrinho de verdade. Poderíamos estar jogando basquete juntos.

Myron ficou olhando direto para a frente. Uma lágrima escorreu por seu rosto. Meus olhos também começaram a marejar, mas eu não deixaria uma lágrima escapar.

Não dei trégua.

– E se você tivesse feito qualquer uma dessas coisas, minha mãe não teria se fechado em si mesma e hoje não estaria em uma clínica de reabilitação. Estaria dando aquela risada. E meu pai estaria vivo e nós todos sairíamos juntos. Nunca pensa nisso, Myron? Nunca olha para trás e se pergunta o que teria acontecido se você tivesse acreditado neles?

De repente, me senti vazio e exausto. Fechei os olhos. Deixei minha cabeça cair de novo sobre o encosto do banco.

Alguns momentos depois, Myron falou com uma voz branda e sofrida:

– Penso. Penso nisso todos os dias.

– Então por quê, Myron? Por que você não ajudou?

– Talvez você possa aprender com meus erros.

– Aprender o quê?

– Como eu já disse – continuou Myron, virando na entrada para automóveis, seu rosto se entristecendo –, ser um herói sempre traz consequências. Mesmo quando você tem certeza de que está fazendo a coisa certa.