Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 31 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 31

TIVE QUE PASSAR PELO GINÁSIO para ir ao vestiário. Troy ainda estava sorrindo como um idiota e precisei de toda a minha força de vontade para não correr e lhe dar um soco. Sentia-me vazio. Como aquilo podia ter acontecido? O basquete era a minha vida. Meus pais deixaram o Abrigo Abeona e voltaram para os Estados Unidos só para eu ter uma chance de jogar basquete no ensino médio.

 

Agora isso, junto com tudo o mais na minha vida, se fora.

Ouvi uma risada e então Troy gritou em um tom zombeteiro:

– Nos vemos por aí, Mickey.

– É, nos vemos por aí, Mickey – repetiu Buck.

Senti minha raiva aumentar, mas sabia que esmurrar aqueles dois palhaços não iria ajudar. Naquele momento, só precisava ir para o mais longe possível dali. Troquei rapidamente de roupa e corri na direção da saída.

Foi um alívio chegar lá fora. Fechei os olhos com força e respirei o ar fresco. Sentia-me como se estivesse me afogando, perdido. Eu sei, eu sei, é apenas um esporte. Mas o basquete era mais do que isso para mim. Era o centro da vida, minha essência. Não me definia, porém era o que eu mais queria fazer. Vê-lo ser arrancado de mim dessa maneira – algo que sempre acontecia – fazia com que meu mundo voltasse a ser inseguro.

– Você chegou cedo.

Era Ema. Quando ela viu minha expressão, seus olhos se arregalaram de preocupação.

– O que aconteceu?

– Acabei de ser expulso do time.

Ema ficou sentada ao meu lado, me observando, enquanto eu lhe contava o que se passara. Quando a encarei – sim, sei como isso soará –, vi gentileza, bondade e muitas outras coisas boas. Seu olhar era quase... angelical. Tirei força deles.

Mais cedo, Rachel havia me acusado de não confiar nela tanto quanto em Ema. A verdade é um pouco mais complexa: eu confio em Ema mais do que em qualquer pessoa. Não escondi meus sentimentos dela. Não fingi que não me sentia irritado, amargo e arrasado. Não me importei com a impressão que isso pudesse causar. Apenas desabafei e Ema apenas me ouviu.

– Você tenta fazer a coisa certa – disse ela – e é assim que retribuem? Isso não é justo.

Ela me entendia. Simples assim. Havia outra coisa notável em Ema: ela era capaz, até mesmo agora, de fazer com que eu me sentisse melhor. Lembrei-me daquele momento terrível na boate, quando eu não sabia se ela ia morrer. Havia uma faca encostada em seu pescoço e nunca me senti tão impotente ou assustado.

Meus olhos se encheram de lágrimas.

– Tudo vai ficar bem – consolou-me Ema. – Vamos encontrar uma saída. Tem que haver um modo de você voltar para o time...

Sem pensar, dei um abraço apertado nela. Por um momento, ela se retesou, mas enfim retribuiu. Ficamos abraçados, ela com a cabeça em meu peito, sem que nenhum de nós se mexesse, quase como se temêssemos o que aconteceria depois que nos soltássemos.

– Ahn, o que vocês dois estão fazendo?

Era Colherada. Ema e eu nos afastamos na mesma hora.

– Nada – respondi.

Colherada olhou para mim, depois para Ema, e então para algum ponto entre nós dois.

– Estudos mostram que abraços podem curar a depressão, reduzir o estresse e melhorar o sistema imunológico.

Ele abriu os braços.

– Que tal um abraço coletivo?

– Não me faça dar um soco em você – retrucou Ema.

Colherada ficou parado de braços abertos.

– Isso vai fazer bem para a saúde.

Ema e eu nos entreolhamos. Encolhemos os ombros e demos um abraço em Colherada. Ele ficou feliz e eu me perguntei o quanto todos nós de repente parecíamos ansiar por contato físico.

– Eu faço isso com meus pais o tempo todo – falou Colherada. – É ótimo, não é?

Interpretamos isso como uma dica para nos soltarmos. Sentamos no meio-fio.

– Por que você não está nos treinos? – perguntou Colherada.

Ema fez “shhh” para ele, mas lhe expliquei rapidamente. Primeiro falei sobre a fotografia do Carniceiro de Lodz ter sido manipulada.

– Dã! – exclamou Colherada. – Nós de fato achávamos que ele era um nazista estranho que nunca tinha envelhecido?

Então eu lhe contei que tinha sido expulso do time. A reação de Colherada a essa notícia foi interessante. Em vez de sentir pena de mim, ele apenas ficou com o rosto vermelho de raiva por causa da injustiça. Era como se o garoto doce e ingênuo subitamente estivesse indo para um lugar sombrio. Ema mudou de assunto.

– Então, você foi visitar Rachel? – perguntou Ema.

– Sim.

– Ela está bem? – indagou Colherada.

– Os ferimentos foram apenas superficiais. Ela está com uma atadura na cabeça.

– Mas não no rosto? – Colherada pareceu aliviado. – Graças a Deus.

Ema lhe deu um soco no braço. Então ficamos sérios. Eu relatei cada detalhe da minha visita a Rachel. Quando terminei, Ema perguntou:

– O que você concluiu disso?

– Não sei bem. Primeiro a mãe de Rachel faz essas acusações malucas contra o pai dela...

– E acaba morta – completou Colherada.

Silêncio.

Ema se levantou e começou a andar de um lado para o outro.

– Você disse que Rachel começou a acreditar na mãe dela, quero dizer, em relação ao pai?

Refleti sobre isso.

– Não sei se acreditou tanto. Acho que em algum momento ela concluiu que, se não ficasse do lado da mãe, quem ficaria?

– Ok, então vamos pensar mais a respeito. A mãe de Rachel diz que o marido é um homem horrível que a trancafiou porque ela sabia de coisas ruins sobre ele, certo?

– Acho que sim.

Ema continuou a andar.

– Então Rachel quer dar à mãe o benefício da dúvida. O que ela naturalmente faria?

– Investigaria a acusação da mãe – respondi.

– Como?

– Investigando o pai... Minha voz sumiu. E foi quando entendi tudo.

Ema e Colherada viram minha expressão.

– O quê?

Tentei concatenar minhas ideias enquanto falava.

– Rachel tinha a borboleta Abeona na porta do quarto dela no hospital – comecei.

– E daí?

– Ela estava de algum modo trabalhando para eles.

– Tudo bem – falou Ema. – Já suspeitávamos disso. Qual é a novidade?

– Quando aquele cara com a cabeça raspada apareceu na manhã em que Rachel levou um tiro, a primeira coisa que me perguntou foi muito estranha.

– O que foi?

– Ele disse que sabia que Rachel e eu tínhamos nos tornado próximos...

Ema se mexeu um pouco, desconfortável, ao ouvir aquilo.

– Mas imediatamente começou a perguntar se Rachel tinha me dado algo.

– Como o quê? – indagou Colherada.

– Foi o que eu perguntei. Ele respondeu que um presente ou pacote. Quero dizer, Rachel acabara de levar um tiro. A mãe dela estava morta. Logo antes, eu falara com a polícia. E a primeira coisa que Cabeça Raspada pergunta é se Rachel me deu um presente ou pacote? Vocês não acham isso estranho?

Eles concordaram.

– Qual é sua teoria? – perguntou Ema.

– Suponham que Rachel tenha descoberto alguma coisa – respondi. – Não sei o quê. Algo ruim sobre o pai, uma prova de que a mãe dizia a verdade. Talvez ela o tenha colocado em um pacote ou algo assim e iria entregá-lo para o Abrigo Abeona.

– Mas levou um tiro antes de poder fazer isso – completou Ema.

– E a mãe dela, a mulher que fez a acusação, acaba morta – concluiu Colherada.

Silêncio.

– Devemos estar chegando perto – continuou Ema. – Por um lado, tudo isso faz sentido. Por outro, não. Rachel ainda está viva. Mesmo se ela não tiver mais esse presente ou pacote, sabe o que era.

– O que pode significar que ela ainda está em perigo – acrescentou Colherada.

– Estamos deixando escapar algo – comentei.

– O quê?

– Sei lá. Mas tem alguma coisa. O pai não atiraria nela. Pelo amor de Deus! Simplesmente não atiraria, nem mesmo para se proteger.

– Pode ter sido um acidente – arriscou Ema.

– Como?

– Talvez quando ele atirou na ex-esposa, atingiu Rachel sem querer.

Achei que aquilo fazia mais sentido, mas ainda não parecia se encaixar. Estávamos deixando passar algo. Eu não fazia ideia do quê. Conversamos um pouco mais enquanto o céu começava a escurecer. A certa altura, me dei conta de que os testes deviam estar terminando e de que todos os membros do time principal apareceriam. Eu não queria encontrá-los. Sugeri que déssemos a noite por encerrada.

Colherada consultou o relógio.

– Meu pai sai daqui a meia hora. Acho que vou ficar e pegar uma carona.

Ema e eu andamos sozinhos pela Kasselton Avenue. Atrás de nós, as portas pesadas do ginásio se abriram e os jogadores começaram a sair. Eles riam, com os cabelos molhados da chuveirada, e caminhavam um pouco inclinados para a frente, cansados do treino, mas alegres. Vê-los multiplicou por dez minha sensação de vazio.

– Vamos andar mais rápido – falou Ema.

Fizemos isso. Deixei-a ir na frente. Ela virou para a direita e depois para a esquerda, e eu soube aonde íamos. Minutos depois, estávamos no fim da rua de dona Morcega. A casa tinha vindo abaixo, consumida pelo fogo. Apenas algumas vigas permaneciam de pé. Depois de todos esses anos e todas as histórias para assustar crianças, a lendária casa assombrada de dona Morcega fora reduzida a cinzas. Oficiais do corpo de bombeiros se encontravam na frente, fazendo anotações em pranchetas. Pensei naquela velha vitrola, nos velhos discos de vinil do The Who, do HorsePower e dos Beatles. Pensei em todas aquelas fotografias – dona Morcega como uma hippie na década de 1960, Ashley em Kasselton High, o garoto com cabelos cacheados e olhar triste e todas aquelas crianças resgatadas.

Tudo ardera em chamas.

Então onde estava Lizzy Sobek, mais conhecida como dona Morcega? Onde estava Cabeça Raspada, vulgo Não Tenho a Menor Ideia de Qual é o Nome Dele? A propósito, onde estava o falso Carniceiro de Lodz, também chamado de Incendiário/Paramédico de San Diego?

Ema ficou parada ao meu lado.

– Você acha que acabou?

– O quê?

– O Abrigo Abeona. O Carniceiro o destruiu?

Pensei sobre isso.

– Eu não sei. Não acho que seja assim tão fácil destruir um grupo que existe há tanto tempo.

Movi-me um pouco para a esquerda, para poder olhar o bosque nos fundos.

– O que você está fazendo? – perguntou Ema.

– A garagem nos fundos. Está lembrada?

– Ah, sim. Por onde Cabeça Raspada entrava.

– E por onde ele me levou para dentro da casa, através de um túnel subterrâneo, para me encontrar com dona Morcega. Havia corredores e outras portas.

O bosque era denso demais para permitir que se visse a garagem, ainda mais da distância em que nos encontrávamos. Devia ser intencional. Era para ficar escondida.

– Precisamos dar uma olhada – afirmei.

– No quê? Na garagem e nos túneis?

Assenti.

– Obviamente não podemos fazer isso agora. Talvez esta noite, quando o corpo de bombeiros não estiver aqui e ninguém puder nos ver.

Olhei para ela e algo voltou a me incomodar.

– O que foi? – perguntou Ema.

– Há algo de diferente em você.

Vi uma mancha escura no braço dela. Ema percebeu meu olhar e abaixou a manga.

– O que foi isso? – indaguei.

– Nada.

Mas continuei pensando nos boatos que Colherada me contara, sobre ela viver no bosque e o pai abusar dela.

– Isso foi... uma contusão?

– O quê? Não. – Ela se afastou, agarrando de novo a manga. – Tenho que ir.

– Não faça isso de novo, Ema.

– Estou bem, Mickey. De verdade.

– Então por que nunca me convida para ir à sua casa?

Em vez de me encarar, como normalmente fazia, ela fixou o olhar em uma árvore distante.

– Meus pais não gostam muito de companhia.

– Nem sei onde você mora.

– Que diferença isso faz? Olhe, tenho mesmo que ir para casa. Vamos nos falar por mensagem mais tarde. Se nós dois pudermos sair, voltamos aqui e tentamos encontrar aqueles túneis.

Ema começou a se afastar depressa. Quando chegou nos limites do bosque, olhou para trás, como se para se certificar de que eu não a seguia. Então desapareceu na vegetação densa. Eu não sabia ao certo o que fazer, por isso, como era do meu estilo, não fiz nada. Só fiquei parado como um idiota. Algo em meu subconsciente continuava a me incomodar. Comecei a vasculhar minhas memórias recentes, tentando descobrir o que era, quando percebi uma coisa.

Você conhece o jogo dos sete erros, certo? Fiz mais ou menos isso com as imagens de Ema. Fechei os olhos. Visualizei minha amiga alguns dias atrás. Visualizei-a hoje. O que era diferente e por que estava me incomodando?

Primeira diferença: a possível contusão no braço.

Eu realmente precisava de uma segunda?

Permaneci parado. Ema tinha sido muito clara: eu não devia me intrometer. Mas isso não significava que eu precisava obedecer. Apesar de sua pouca idade, Ema saía toda hora tarde da noite. Eu também saía, mas minha situação era bem melancólica. Além disso, ela tinha muitas tatuagens. Que pais as permitiriam em um filho tão novo? É claro que isso não provava nada. Só era um pouco suspeito. Mas somando-se ao segredo, ao bosque, à possível contusão, aos boatos...

Às vezes os gritos mais altos por ajuda são silenciosos.

Decidi segui-la. Agora.

Ema estaria com uma vantagem inicial, mas não correndo. Se eu mantivesse a calma e andasse rápido, poderia alcançá-la. Tentei adivinhar que direção ela seguira, mas não havia como. Eu não era um cão farejador. Corri em linha reta, procurando sinais de... quê?

Ema, eu acho.

Pensei de novo no jogo dos sete erros enquanto avançava por entre a densa vegetação. Pensei na tatuagem na nuca de Ema. Lembrei-me do desenho do rabo de uma cobra naquela região. A cobra era verde e agora... espere, isso era ao menos possível? Hoje parecia mais roxa.

Continuei a correr. Talvez fosse isso. Comecei a pensar nas tatuagens de Ema e percebi que de algum modo tinham... mudado.

E daí? Alguns dias antes, nós fomos à Tattoos While U Wait e nos encontramos com Agent, o tatuador dela. Sim, ele era excêntrico, mas eu gostava dele. Além disso, nos ajudara. Talvez ela tivesse voltado para um retoque.

Mas isso em geral não exigia gaze e tempo para cicatrizar?

Eu estava pensando sobre isso, avançando às pressas por entre a vegetação, quando ouvi um som à frente. Escondi-me atrás de uma árvore e espiei. Em uma pequena clareira, a menos de 50 metros, estava Ema.

Eu a tinha encontrado. Ela percorria uma trilha na floresta, que seguia na direção oeste, aparentemente. Eu não tinha uma bússola nem fazia o tipo escoteiro, mas, sério, quem se importava com o ponto cardeal?

Fiquei o mais longe possível, sem perdê-la de vista. Essa área florestal era parte da reserva de Kasselton. Havia placas informando que você não deveria estar ali, mas a mata era enorme e não patrulhada. Como tio Myron não consegue ficar calado, contou-me que todos os alunos da quinta série do tempo dele, inclusive, é claro, meu pai, tinham que colher flores do campo, identificá-las e prensá-las dentro de um livro. A maioria dos estudantes as encontrava naquele lugar. Por alguma razão, Myron pensava que eu acharia isso fascinante.

Mais uma vez me perguntei: por que eu estava pensando nisso agora?

No início, esperei que Ema acabasse chegando a algum tipo de barraco de chapas metálicas enferrujadas no meio do mato, porém agora percebia que isso não fazia sentido. Sim, eu nunca tinha visto patrulhas por ali, mas isso não significava que não existiam. Aquela era uma reserva florestal. Não havia como construir uma casa ali, mesmo caindo aos pedaços. Você teria que se deslocar. Talvez precisasse morar em tendas e ficar de olho em tudo.

Nada fazia sentido.

O céu começou a escurecer. Pensei de novo que eu não tinha uma bússola. Estávamos nos embrenhando cada vez mais na mata, e embora eu talvez fosse capaz de reconstituir meus passos, não tinha certeza de que conseguiria fazer isso à luz do celular. Achando que era melhor não perder Ema de vista, apertei o passo.

Ema virou à esquerda e começou a subir uma colina íngreme. Parei e observei. Se eu fosse logo pelo mesmo caminho, ela certamente me veria. Esperei que saísse do meu campo de visão para prosseguir. Agora, temia perdê-la. Corri colina acima, mantendo-me abaixado.

Senti uma pontada de culpa no peito. Eu estava seguindo minha melhor amiga. Aquilo não parecia certo, ainda que fosse para o seu bem. Para o seu bem. Quantas vezes isso tinha sido usado para justificar atos estúpidos? Como este.

Eu deveria parar e ir para casa.

Ponderei sobre isso por um momento. Estava prestes a dar meia-volta quando cheguei ao topo da colina. Ali, bloqueando meu caminho, havia uma cerca de malha de arame.

Nenhum sinal de Ema.

Olhei para os dois lados. A cerca parecia se estender até onde os olhos podiam alcançar. Mais ou menos a cada 10 metros, havia uma placa de NÃO ULTRAPASSE, avisando, acho que a lenhadores, que eles seriam processados, com todo o rigor da lei, se entrassem.

Para onde Ema tinha ido?

Fui até a cerca e olhei através dela. Havia mais vegetação, a uns 20 ou 30 metros de distância, e acho que uma clareira. Ainda não sabia ao certo como isso podia ajudar. Não havia abertura alguma na cerca. Ema poderia ter dado a volta enquanto eu subia? Era possível, mas parecia duvidoso. Talvez ela tivesse me visto. Talvez estivesse escondida atrás de uma árvore.

Frustrado, estendi o braço e segurei a cerca. Eu a sacudi... e ela cedeu.

Que diabo...?

Olhei mais de perto. Alguém havia cortado os arames junto às barras de metal. Não dava para notar apenas olhando, mas se você encostava na cerca, ela se abria quase como uma porta. Atravessei e, um segundo depois, ignorando as placas de aviso, estava dentro.

Bem, eu já tinha sido expulso do time de basquete por um monte de infrações. Achei que poderia acrescentar invasão de propriedade à lista.

E agora?

Continuei a andar até enfim ver de fato a clareira. Por um momento, reduzi o passo. Quando estivesse fora das árvores, ficaria exposto. Não fazia ideia do que havia na minha frente, mas não seria sensato apenas prosseguir. Ao mesmo tempo, a essa altura Ema provavelmente estava com uma boa vantagem sobre mim, por isso também não podia perder tempo.

Cheguei ao fim da vegetação. Quando olhei para a clareira, fiquei boquiaberto.

A primeira coisa que vi foi um enorme jardim. Não estava muito florido, mas tinha arbustos podados na forma de animais. Topiaria, é assim que era chamado. Havia um cisne, um leão, uma girafa, um elefante – tudo em tamanho natural, feito de arbustos verdes. Também havia estátuas brancas que pareciam da Roma ou Grécia antiga. Vi uma piscina e um gazebo, mas o que me surpreendeu foi a casa atrás disso tudo.

A casa, mesmo vista dos fundos, ainda parecia um castelo misterioso saído de um pesadelo da Disney. Eu estivera nela, embora tivesse vindo pela entrada de automóveis.

Tio Myron havia me levado ali para conhecer Angelica Wyatt.

Não entendi nada.

Fiquei parado por um tempo, totalmente pasmo. A solução mais simples era que Ema usava aquele caminho como um atalho. Talvez houvesse uma abertura na cerca em outra parte da propriedade que levasse ao precário barraco que eu continuava a visualizar. Mas de repente essa resposta não pareceu muito provável.

Segui em frente, aproximando-me da casa. A área era tão aberta que o único modo de fazer isso sem ser visto era correr de um esconderijo para o outro. Então, primeiro fui em disparada para o arbusto em forma de elefante e fiquei abaixado atrás de suas grossas pernas. Depois corri pelo heliporto e me escondi atrás de uma estátua branca de uma mulher usando o que parecia ser uma toga e segurando uma lança em uma das mãos e um escudo na outra. Dali, fui depressa para a lateral da casa.

Encostei-me à parede e deslizei lentamente para o lado. Mickey Bolitar, o Superespião. Eu não sabia mais para onde estava indo ou mesmo o que estava fazendo. Pensei em enviar um torpedo para Ema e lhe perguntar de seu paradeiro naquele momento, mas eu já tinha ido longe demais. Não podia voltar atrás.

Quando fiz uma curva, parei de imediato. Ema estava no meio do pátio. Ela me olhou com a testa franzida e os braços cruzados.

– Ah, oi – cumprimentei.

Mais uma vez, minha desenvoltura me tirava de uma dificuldade.

– Temos câmeras em todo lugar, gênio – falou Ema. – Você teve sorte de os seguranças não lhe darem um tiro.

Eu não sabia o que dizer, por isso continuei:

– Desculpe. Eu só estava preocupado com você.

Ema se virou e começou a se dirigir à porta. Não me movi.

– Venha comigo – mandou ela. – Você também pode saber a verdade.