Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 6 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 6

QUINZE MINUTOS DEPOIS, eu me encontrava no que devia ser uma sala de interrogatório em uma delegacia de Newark. Uma mulher pequena entrou e se sentou à minha frente. Ela vestia um terno elegante e os cabelos estavam presos em um coque. Calculei que tinha uns 30 anos.

Ela estendeu a mão e eu a apertei.

– Sou Anne Marie Dunleavy, investigadora da Divisão de Homicídios do condado – apresentou-se.

Homicídios?

– Ahn... sou Mickey Bolitar.

– Obrigada por vir falar conosco.

Ela pegou uma caneta e pressionou o topo com força exagerada para que a ponta aparecesse. Atrás dela, a porta se abriu. Quando olhei, meu coração parou. O chefe Taylor entrou pisando duro na sala, como se o chão o tivesse ofendido. Usava uniforme e, apesar de estar em um ambiente fechado e pouco iluminado, óculos escuros em estilo aviador.

Esperei que dissesse algo sarcástico, mas ele ficou calado. Cruzou os braços e se encostou na parede. Olhei de novo para a investigadora.

– Sabe, sou menor de idade – informei.

– Sim, nós sabemos. Por quê?

– Pode me fazer perguntas sem a presença do meu responsável?

Ela deu um rápido sorriso, mas não havia nenhuma cordialidade nele.

– Você vê televisão demais. Se você fosse suspeito de um crime, tudo seria diferente. Por enquanto, só precisamos que responda a algumas perguntas, está bem?

Eu não sabia ao certo o que dizer, mas concordei:

– Acho que sim.

– Quem é seu representante legal?

– Minha mãe.

Tio Myron quisera ser, mas fiz um acordo. Eu viveria com ele na condição de que minha mãe, apesar de estar em reabilitação, continuasse a ser minha única representante legal.

– Se você fizer questão, podemos telefonar para ela.

– Não – respondi de pronto. Essa era a última coisa de que a mente já frágil da minha mãe precisava. – Tudo bem, não se preocupe com isso.

– Sabe por que está aqui? – perguntou ela.

Eu ia dizer que tinha algo a ver com um “tiroteio”, mas essa suposição não ajudara muito no carro.

– Não.

– Não tem a menor ideia?

Não queria mais fingir.

– Bem, o policial disse que tinha algo a ver com um tiroteio.

– E tem mesmo. Na verdade, duas pessoas foram baleadas.

– Quem?

– Há algo que possa nos dizer sobre isso?

– Sobre o quê?

– Sobre o tiroteio.

– Nem sei quem foi baleado.

Anne Marie me encarou sem acreditar.

– Não sabe mesmo?

– Não sei.

– Não faz a menor ideia?

O chefe Taylor continuou em silêncio. Não gostei disso. Olhei para ele e, mesmo a distância, pude ver meu reflexo em seus óculos.

– É claro que não faço a menor ideia. Quem foi baleado?

Ela mudou de assunto.

– Você pode nos dizer onde estava na noite passada?

Não gostei do rumo que aquilo estava tomando. Arrisquei outro olhar para o policial. Ele continuava com os braços cruzados.

– Eu estava em casa.

– Quando você diz casa...

– A casa onde vocês me encontraram.

– Está morando com seu tio, não é? Myron Bolitar?

Ao ouvir o nome do meu tio, o chefe Taylor contraiu o rosto.

– Sim, estou.

Ela assentiu e anotou algo.

– Então me conte o que fez na noite passada.

– Fiz um pouco do dever de casa. Vi televisão. Li um livro.

– Seu tio estava em casa?

– Não, ele tinha saído.

– Para onde?

– Ele não disse.

– E quando ele voltou para casa?

– Não sei. Eu dormi.

– A que horas?

– A que horas eu dormi?

– Sim.

– Por volta das onze.

A investigadora registrou isso também.

– Seu tio ainda não havia chegado em casa?

– Acho que não. Não sei com certeza. Meu quarto fica no porão e eu estava com a porta fechada.

– Ele não vai ver como você está quando chega em casa?

– Geralmente, sim.

– Mas não na noite passada.

– A menos que tenha ido quando eu estava dormindo.

Ela fez outra anotação.

– O que mais você fez na noite passada?

– Só isso.

Ela enfim olhou de relance para o chefe Taylor. Ele cruzou novamente os braços e me lançou um olhar duro.

– O que foi? – perguntei.

– Você conversou com alguém ou enviou alguma mensagem de texto? – perguntou Anne Marie.

– Sim.

– Qual dessas coisas?

– As duas.

O policial falou pela primeira vez:

– Mas não mencionou isso, não é, Mickey?

– Como assim?

– A investigadora Dunleavy lhe perguntou o que você fez na noite passada. Você veio com o papo de dever de casa e televisão, mas não falou nada sobre conversar ou enviar mensagens. Isso parece um pouco suspeito, não acha?

– Eu também fiz um sanduíche com manteiga de amendoim e geleia. E tomei banho. A marca do xampu era Pert.

O chefe Taylor não gostou disso.

– Engraçadinho como o tio. Está bancando o engraçadinho com um representante da lei, Mickey?

Eu estava. Às vezes eu era capaz de dizer coisas estúpidas, mas em geral não sou suicida. Então parei.

A investigadora pôs uma das mãos no braço do policial.

– Ele achou que isso não era importante, chefe. Não foi, Mickey?

Talvez eu realmente visse televisão demais, mas, mesmo se não visse, aquilo se parecia muito com a clássica dupla de bom e mau policial. O chefe Taylor me encarou de novo, franzindo a testa, e voltou a se encostar na parede como se ela pudesse cair caso não a apoiasse.

– Vamos começar por suas conversas – continuou Anne Marie. – Você falou com alguém pessoalmente, pelo telefone ou de outra forma?

Engoli em seco. O que estava acontecendo?

– Pelo telefone.

– E com quem falou?

– Só com uma amiga.

– Qual é o nome dela?

– Rachel Caldwell.

A investigadora agora olhava fixamente para o papel, mas vi algo de que não gostei no modo como seu corpo se contraiu quando respondi.

Meu sangue gelou.

– Ah, não...

– A Srta. Caldwell lhe telefonou ou você telefonou para ela?

– Foi a Rachel? Ela está bem?

– Mickey...

– O que aconteceu?

– Ei, garoto!

Olhei irritado para o chefe Taylor, vendo mais uma vez meu próprio reflexo.

– Abaixe o tom. Você está aqui para responder às nossas perguntas, não o contrário. Entendeu?

Fiquei em silêncio.

– Entendeu? – repetiu ele.

Nenhuma. Palavra.

– Mickey? – Anne Marie pigarreou. Estava com a caneta a postos. – Você telefonou para a Srta. Caldwell ou ela telefonou para você?

Minha cabeça girava. Tentei compreender a situação. O que estava acontecendo? De repente, lembrei-me das palavras de Rachel: Preciso fazer uma coisa.

O que aquilo significava?

– Mickey?

Consegui falar:

– Hum, ela me telefonou.

– Do nada?

– Bem, não. Primeiro eu mandei um torpedo para ela. Então ela me telefonou.

Falei rapidamente sobre a breve troca de mensagens. Também relatei que havia mandado um torpedo para Colherada, mas eles não demonstraram nenhum interesse nisso. O que quer que tivesse acontecido... tiros... duas pessoas baleadas... homicídio... envolvia Rachel.

– Então, depois das suas mensagens, a Srta. Caldwell telefonou?

– Sim.

– Sabe a que horas aconteceu isso?

– Talvez nove da noite.

– Os registros telefônicos nos dizem que foi às 21h17.

– É possível.

– Então, sobre o que vocês dois falaram?

– Eu só queria saber se ela estava bem. Tivemos um problema na quarta-feira. Vocês provavelmente sabem disso.

Eles não disseram nada.

– Então eu queria me certificar de que ela estava bem, dizer oi, esse tipo de coisa. Também tínhamos que entregar um trabalho na escola. Achei que poderíamos conversar sobre isso.

– E você fez isso?

– Fiz o quê?

– Conversou sobre o trabalho?

– Na verdade, não.

– Há quanto tempo você conhece Rachel Caldwell?

– Há pouco tempo. Acabei de entrar na escola...

O chefe Taylor se intrometeu:

– Não perguntamos quando você entrou para a escola. Perguntamos...

– Não sei exatamente. Talvez há uma semana.

– Há pouco tempo.

– Sim, pouco. – Eu estava ficando assustado, e quando isso acontece, costumo ficar irritado e até mesmo sarcástico. Então, acrescentei: – Veja bem, foi o que eu quis dizer quando respondi “Há pouco tempo”. Lamento não ter deixado isso claro.

Eles não gostaram nada do meu comentário. Nem eu.

– Mesmo assim, vocês dois estiveram aqui em Newark na quarta-feira – disse Anne Marie. – Envolveram-se naquela confusão na boate Plano B, certo?

– Certo.

– Interessante. Você conheceu o pai de Rachel Caldwell?

Essa pergunta me surpreendeu.

– Não.

– E a mãe?

– Não.

– Algum membro da família?

– Não. Por favor, o que está acontecendo? Rachel está bem?

– Fale sobre sua conversa ao telefone com Rachel Caldwell.

– Já falei.

– Desde o início. Palavra por palavra.

– Não entendo. Por que vocês precisam saber isso?

A investigadora respondeu:

– Porque logo depois que você falou com ela, alguém deu um tiro na cabeça de Rachel Caldwell.