Uma Questão de Segundos
capítulo 12
CORRI PARA O LADO DELA. Havia uma atadura em sua cabeça, mas Rachel parecia relativamente bem. Não havia um monte de tubos ou algo do tipo saindo dela. Suas mangas estavam arregaçadas. Meu olhar foi atraído para aquela velha e horrível marca de queimadura na parte interna do seu braço – a única falha, que parecia aumentar o resto de sua perfeição. Os olhos dela pareciam marejados.
Quis abraçá-la ou fazer alguma coisa, mas em vez disso fiquei ao lado da cama e esperei.
– Como você entrou? – perguntou Rachel.
– Colherada está desviando as atenções.
Ela tentou sorrir, mas caiu em prantos.
– Minha mãe...
Eu me aproximei e me sentei na beira da cama. Peguei a mão dela.
– Eu soube. Sinto muito.
A cabeça de Rachel caiu de novo sobre o travesseiro. Ela piscou várias vezes e encarou o teto.
– A culpa é minha.
– Não se culpe.
– Você não entende – disse ela com uma voz sumida. – Eu causei a morte dela.
Gelei. Rachel começou a chorar de novo.
– O que você quer dizer? – perguntei.
Ela apenas balançou a cabeça.
– Rachel?
– Você precisa ir embora.
Eu a ignorei.
– O que você quis dizer com “Eu causei a morte dela”?
Ela balançou a cabeça de novo.
– Não quero colocar você em perigo também.
– Não se preocupe comigo, ok? Apenas me diga o que está acontecendo. Você está bem?
A porta do quarto começou a se abrir.
Tenho reflexos rápidos. Sei que isso é genético: minha mãe foi um dos maiores prodígios do tênis da época dela e meu tio, um jogador de basquete de nível profissional. Não hesitei. No momento em que ouvi a porta se abrindo, mergulhei embaixo da cama de Rachel.
– Oi, Rachel – cumprimentou alguém.
Meu estômago se embrulhou quando reconheci a voz.
Ouvi Rachel se ajeitando na cama.
– Chefe Taylor?
– Já faz muito tempo – disse ele. Algo estranho para se dizer a uma adolescente baleada, pensei. Vi os sapatos marrons dele se movendo na direção da cama. – Como está se sentindo, Rachel?
Havia algo estranho na voz do chefe Taylor – uma espécie de tensão. Ele tentava parecer o policial confiante, mas algo não se encaixava.
– Bem, obrigada.
Na voz dela também. Havia um atrito, algo por trás das palavras casuais deles.
– Os médicos me disseram que você teve muita sorte.
– Ah, sim, muita – retrucou. Senti um tom de raiva na voz dela. – Minha mãe está morta. Sou muito abençoada.
– Eu não quis dizer isso – desculpou-se Taylor, o eterno idiota. – Estava me referindo à sua saúde física. Parece que a bala passou de raspão pelo seu crânio, mas não o penetrou.
Rachel ficou calada.
– Lamento sua perda – disse o chefe Taylor com uma voz que não pareceu triste.
– Obrigada – agradeceu ela com uma voz que não pareceu grata.
O que estava acontecendo ali, afinal?
– Você sabia que fui o primeiro a chegar à cena do crime? – perguntou Taylor.
– Não, não sabia.
– Sim. Chamei a ambulância para você.
Silêncio.
– Do que você se lembra sobre os tiros? – indagou Taylor.
– Nada – respondeu Rachel.
– Não se lembra de ter levado um tiro?
– Não.
– Do que você se lembra?
– Chefe Taylor?
– Sim.
Rachel bocejou.
– Não estou me sentindo muito bem agora.
– Mas você acabou de dizer que estava se sentindo bem.
– Ainda estou sob medicação. Estou com muito sono. Pode voltar outra hora?
Houve uma longa pausa. Então o chefe Taylor continuou:
– É claro que sim, Rachel. Eu entendo. Talvez possamos conversar depois.
– Certo.
Vi os sapatos marrons dele se afastarem da cama e pararem junto à porta.
– Mais uma coisa – falou ele.
Rachel esperou.
– Uma investigadora da Divisão de Homicídios chamada Anne Marie Dunleavy virá interrogá-la. Não se sinta obrigada a falar com ela antes de conversarmos de novo, está bem?
Ahn?
– Se você falar com ela – prosseguiu Taylor –, bem, você acabou de falar que não se lembra de nada. Pode lhe dizer isso.
Ahn?
O chefe Taylor abriu a porta para sair, mas deu de cara com uma enfermeira.
– Precisamos levá-la para tirar raios X – informou ela.
– Eu seguro a porta para você – ofereceu-se Taylor.
Eu estava preso em uma armadilha.
Quando a enfermeira entrou, continuei onde estava. O policial também. Da cama, ouvi a enfermeira puxar uma alavanca e as grades laterais se erguerem.
Eles iam empurrar a cama de Rachel.
Não havia como eu não ser descoberto.
Olhei para a esquerda e a direita. Nada. Podia tentar rastejar, mas para onde iria? Taylor me veria no mesmo instante. A enfermeira estava na posição para empurrar a cama. O chefe Taylor segurava a porta aberta.
Não havia onde eu me esconder.
– Esperem... – falou Rachel fracamente.
– Pelo quê, querida?
– Primeiro eu queria ir ao banheiro.
Ah, Rachel! Boa ideia.
– Há um banheiro no lugar aonde vamos – avisou a enfermeira com uma voz que não admitia contestação. – Será mais fácil ir lá.
– Mas...
A enfermeira começou a empurrar a cama. Fiz a única coisa que podia fazer. Havia barras debaixo do móvel. Agarrei-as e me ergui. Apertei meus pés contra a parte de baixo do estrado e levantei todo o meu corpo do chão.
A enfermeira parou, talvez por causa do peso adicional.
– As rodas ainda estão com trava?
Aguentei firme enquanto ela checava. Você já fez aquele exercício chamado prancha em que mantém seu corpo erguido em uma flexão de solo até começar a tremer? Bem, era mais ou menos isso que eu estava fazendo, só que de cabeça para baixo. Senti-me como um morcego ou algo no gênero.
Não sabia por quanto tempo aguentaria ficar pendurado.
A enfermeira passou com a cama perto dos sapatos do chefe Taylor.
Meus dedos começavam a se cansar. Meu estômago estava se transformando em gelatina.
A enfermeira seguiu pelo corredor. Vi a distância entre nós e os sapatos de Taylor aumentar. Perguntei-me se Rachel sabia o que eu estava fazendo. Achava que sim. Quando chegamos ao elevador, não consegui aguentar mais. Soltei-me, caindo no chão.
– Enfermeira? – chamou Rachel.
– Sim?
– Pode trazer meu coelhinho de pelúcia?
– Perdão?
– Realmente sinto muito. Kirbie, o meu coelhinho, está no meu quarto. Eu... eu fico com medo de ir a qualquer lugar sem ele. Por favor?
A enfermeira suspirou.
– Por favor? – repetiu Rachel.
– Está bem, querida. Espere aqui.
Assim que a enfermeira se afastou, saí de debaixo da cama.
– Você tem um coelhinho de pelúcia?
– É claro que não. Saia daí antes que ela volte.
– Quero saber...
– Mais tarde, está bem, Mickey? Vá embora.
As portas do elevador ao meu lado se abriram. Entrei e apertei o botão. Vi as portas começarem a se fechar. Rachel tentou sorrir para mim, mas não conseguiu. E, então, meio segundo antes de as portas se fecharem por completo, vi outra pessoa ao lado dela.
Era o chefe Taylor. E estava olhando direto para mim.
– Segurem aquele elevador!
Mas desta vez não precisei usar meus reflexos. As portas se fecharam totalmente. Houve uma pequena demora, como se pudessem se abrir de novo e deixar o chefe Taylor entrar. Mas isso não aconteceu.
Cheguei ao saguão e corri para fora do hospital.