Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 20 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 20

MAS EU NÃO TINHA NENHUM interesse em descansar. Ainda estava nas nuvens.

 

O que queria de fato fazer era jogar mais basquete. Sei que isso pode parecer óbvio, mas quanto mais você joga, melhor fica. Além do mais, eu adorava esse esporte.

Consultei o relógio. As partidas em Newark talvez ainda estivessem rolando. Eu poderia pegar o próximo ônibus e estar no centro da cidade dali a meia hora.

Enviei uma mensagem de texto para Tyrell Waters, um aluno do terceiro ano da Weequahic High School, em Newark, que vivia naquelas quadras: ainda está tendo jogo?

Percebi que provavelmente não obteria resposta – Tyrell poderia estar jogando –, mas acabei recebendo.

Tyrell: sim, venha.

Peguei o ônibus no ponto da Northfield Avenue. Ele estava cheio de empregadas domésticas e babás cansadas, que sempre lançavam olhares curiosos para este garoto branco. A distância entre o subúrbio arborizado de Kasselton e as ruas sujas de Newark era de pouco mais de 10 quilômetros, mas muito maior em todos os outros aspectos.

Os jogos eram realizados no asfalto rachado, com aros enferrujados. Começara a ir para lá um mês antes porque é onde se joga o melhor basquete. Você pode me chamar de preconceituoso, mas é como aquela questão da falsa modéstia. Se você quer melhorar seu jogo e mantê-lo em um bom nível até os testes, essas ruas são o melhor lugar para ir.

Tyrell viu que eu me aproximava, acenou e sorriu.

– Deixei de participar de um jogo para podermos ficar na mesma equipe.

– Obrigado.

Eu era o único garoto do subúrbio próspero a fazer aquela viagem por conta própria. Quando apareci pela primeira vez, fui recebido com muita desconfiança e até mesmo menosprezo, porém, mais uma vez, essa era a beleza do esporte. Por mais que pareça brega, quando entrávamos na quadra, deixávamos tudo para trás. Joguei basquete em todo o mundo, na maior parte das vezes em países cujo idioma eu não conhecia. Isso não importava. Você cria vínculos na quadra. Todos falam, ou pelo menos entendem, a mesma linguagem. As outras besteiras simplesmente desaparecem.

– E aí, o que está rolando? – perguntou Tyrell.

– Primeiro dia de testes.

– Como você foi?

– Muito bem.

Tyrell sorriu.

– Aposto que sim. Ei, a Weequahic vai jogar contra a Kasselton este ano. Vai ser um jogo divertido.

– Estou ansioso por isso.

Na quadra, alguém enterrou a bola, alcançando a vitória. Sempre havia gente assistindo aos jogos. À direita, um grupo de sem-teto torcia, caçoava e apostava garrafas de bebida. Vários treinadores e pais estavam mais perto, encostados à cerca, sem perder nenhum movimento.

O basquete de rua é simples: os vencedores ficam, os perdedores se sentam. Ninguém gosta de perder, por isso os jogos são muito competitivos. Tyrell é um ótimo armador. Vê toda a quadra com apenas um rápido olhar. Ele me serviu duas vezes e logo assumimos a dianteira. A partir daí seguimos tranquilamente. Não me lembro de quantas vezes jogamos ou quanto tempo aquilo demorou. Tudo foi apenas uma válvula de escape maravilhosa. Por algum tempo não pensei em meu pai, em minha mãe, em Rachel, em nada.

A noite caiu e alguém acendeu os refletores. Continuamos a jogar. Estava ficando tarde, mas realmente não me importei. Depois de ganhar mais uma partida – Tyrell correu por toda a quadra até fazer a cesta final –, olhei para o celular. Tio Myron havia ligado três vezes e mandado um torpedo perguntando onde eu estava. Achei melhor telefonar para ele.

– Onde você está? – perguntou tio Myron.

– Nas quadras em Newark.

– Os testes de hoje não bastaram, não é?

Essa era a única coisa que tio Myron entendia perfeitamente.

– Eu só queria jogar mais um pouco – respondi.

– Então, como você foi hoje?

– Bem.

Era óbvio que ele queria detalhes, mas, como eu disse, é sempre melhor deixar seu jogo falar por si. Myron devia entender isso também.

– Vou chegar em casa tarde – informou ele. – Angelica filmará esta noite e preciso estar lá. Você vai ficar bem?

Por que eu sentia tanto alívio quando sabia que Myron não estaria por perto?

– Vou ficar bem, não se preocupe.

Dissemos que manteríamos contato e desligamos. Tyrell e eu tentamos arranjar jogadores suficientes para mais uma partida, mas vimos que já estava na hora de encerrar. Os garotos se despediram e foram embora até só restarem nós dois. Fizemos lançamentos e demos algumas risadas. Eu o venci em uma disputa de acertos e ele imediatamente exigiu uma revanche. Fomos dificultando os arremessos e então – porque essa era a outra mágica do esporte – começamos a conversar de verdade.

– Minha amiga levou um tiro – contei. – A mãe dela foi morta.

Tyrell ficou imóvel.

– Sério?

– Sim.

Ele quis saber os detalhes. Eu falei sobre Rachel, Ema e Colherada, sobre o discurso de Troy no ginásio e tudo o que havia acontecido na boate Plano B.

Quando terminei, Tyrell balançou a cabeça e disse:

– Cara, você sabe ir atrás de problemas.

– Gosto de pensar que os problemas é que vão atrás de mim.

– E eu gosto de pensar que todas as garotas da escola me desejam – retrucou Tyrell. – Mas isso não faz com que seja assim. De qualquer modo, meu velho disse que você estava envolvido em todas as prisões naquela boate. Ele também não soube o que concluir disso.

Eu devia ter imaginado. O pai de Tyrell era investigador do condado de Essex.

– Na verdade, provavelmente meu pai interrogaria você se ele não estivesse trabalhando na sua cidade, numa região com tráfico de drogas.

Como se seguindo uma deixa, ouvimos uma voz dizer:

– Bom ver vocês treinando.

O pai de Tyrell sorriu ao se aproximar. Tinha tirado a jaqueta, por isso pude ver seu distintivo e o revólver pendurado no cinto. O Sr. Waters abraçou o filho. Se Tyrell ficou constrangido com isso, não o demonstrou. Ele retribuiu o abraço e senti uma pontada de inveja.

O Sr. Waters se virou para mim.

– Oi, Mickey.

– Oi, Sr. Waters.

– Como estão as coisas?

Na última vez em que estive ali, o pai de Tyrell me levou de carro para casa. Ele tinha visto Cabeça Raspada me seguindo e ficara preocupado. Quando chegamos à casa de Myron, ele me deu seu cartão e me disse para telefonar caso houvesse algum problema.

– Bem.

Ele continuou me encarando. Eu me dei conta de que, como o Sr. Waters era investigador do condado, talvez trabalhasse na mesma divisão de Anne Marie Dunleavy. Fiquei pensando se ele soubera que eu havia sido interrogado sobre os tiros na casa dos Caldwells.

– Que tal fazermos um lanche rápido? Depois eu levo Mickey de carro para casa.

– Obrigado pela oferta – agradeci –, mas posso pegar ônibus.

– Não é incômodo algum. De qualquer modo, tenho que ir a Kasselton por conta de um caso. Será bom ter companhia.

Ele falara o mesmo na última vez, mas havia um motivo oculto: ele estava preocupado comigo.

– Já é tarde e estou morrendo de fome – continuou o Sr. Waters. – O que vocês acham, rapazes?

Tyrell se virou para mim.

– Vamos. Temos que comer, não é?

Era difícil argumentar. Fomos para a Hobby’s Deli e nos sentamos em um canto. Nós três pedimos sanduíches de três camadas do tamanho aproximado de uma luva de beisebol. Foi o melhor sanduíche que já comi. Em uma escala de um a dez, se esse ganhava dez, o segundo melhor recebia apenas três.

– Os policiais sempre conhecem os melhores lugares para comer – explicou o Sr. Waters.

Ele perguntou sobre nosso dia, os estudos e o basquete. Ouviu atentamente e percebi o quanto ele gostava daquilo. Eu também estava gostando, mas aquela pontada de inveja em momento algum desapareceu.

O Sr. Waters deixou Tyrell na casa deles na Pomona Avenue. O garoto deu um beijo no rosto do pai antes de sair. Outra pontada.

Tyrell se despediu de mim dando um soquinho no meu punho cerrado e disse:

– Dê um chute no traseiro desse Troy.

– Vou dar.

O Sr. Waters esperou até Tyrell entrar antes de voltar a dirigir. Ficamos calados por alguns minutos. Então ele quebrou o silêncio.

– Soube que você foi interrogado pela minha colega, a investigadora Dunleavy.

Como eu havia suspeitado.

– Sim, senhor.

Ao ouvir o nome dela, me lembrei de outra coisa – de quando eu estava escondido debaixo da cama de Rachel no quarto do hospital e ouvi o chefe Taylor...

Uma investigadora da Divisão de Homicídios chamada Anne Marie Dunleavy virá interrogá-la. Não se sinta obrigada a falar com ela antes de conversarmos de novo, está bem?

Por que ele havia dito aquilo?

– Está tudo bem, Mickey?

– Sim, está. É só que eu sou amigo de Rachel Caldwell.

– Entendo.

– Nós nos falamos pelo telefone antes dos tiros.

O Sr. Waters assentiu, mantendo as duas mãos ao volante e olhando direto para frente.

– Aquilo foi terrível. O que aconteceu com a mãe dela. Ser atingida por um tiro daquela maneira.

Eu não disse nada.

– Você a conhecia? – perguntou ele.

– A mãe de Rachel?

– Sim.

– Não, nunca a encontrei.

– Como Rachel está reagindo?

Eu me remexi no banco. Não queria contar que tinha me esgueirado para dentro do hospital, mas também não queria mentir.

– Ela parece melhor.

– Isso é bom. E quanto a Henry?

– Quem?

– Henry Caldwell. O pai dela. – Paramos em um sinal de trânsito. O Sr. Waters se virou e me encarou. – Como ele está?

– Não conheço o Sr. Caldwell.

– Não? – Ele arqueou uma sobrancelha. – Eu achei que, sendo tão amigo de Rachel, você conhecesse a mãe ou o pai dela.

– Não conheço – respondi gentilmente. – E também não conheço Rachel muito bem.

– Mas vocês se falaram pelo telefone logo antes dos tiros.

Aquilo estava parecendo cada vez menos uma conversa casual.

– Ela era minha dupla em um trabalho de história – expliquei.

Ele esperou. Quando não acrescentei mais nada, continuou:

– E vocês dois estavam envolvidos naquela confusão na boate Plano B?

– Sim.

Paramos em frente à casa de Myron. O Sr. Waters desligou o motor.

– Mickey?

– Sim?

– Tem certeza de que não há nada que precise me contar?

– Não sei o que o senhor quer dizer.

– Não? Primeiro há um careca estranho seguindo você em um carro preto. Depois você se envolve em uma importante prisão em uma boate para adultos. E agora, bem, esses tiros em sua cidade.

Eu gostava do Sr. Waters. Realmente gostava. Além disso, achava que ele fazia tudo para o meu bem. Mas não sabia o que falar ou ao menos por onde começar. Muitas coisas haviam acontecido na semana anterior e dona Morcega tinha me falado para não contar a ninguém. Mesmo se eu a desobedecesse, o que diria?

– Mickey?

– Realmente não sei de mais nada.

Ele esfregou o rosto por um momento.

– Você ainda tem meu cartão?

– Sim.

– Ponha meu número em sua discagem rápida. Tenho a sensação de que você vai precisar dele.