Uma Questão de Segundos
capítulo 46
RACHEL CONTINUOU A ME TELEFONAR. Continuei a ignorá-la.
De uma árvore a uns 100 metros de distância, vi o Sr. Caldwell chegar em seu BMW. As luzes da quadra estavam acesas, mas ninguém jogava agora. Ele saiu do carro com uma bola de basquete. Acho que isso era para me deixar à vontade. Como eu pedira, ele usava short e camiseta. Era possível esconder uma arma em algum lugar, mas eu duvidava que houvesse alguma.
Nós nos encontramos no meio da quadra. Henry Caldwell parecia exausto. Havia bolsas suficientes sob seus olhos para uma companhia aérea cobrar por excesso de bagagem. Seus cabelos eram frágeis, como se um vento forte pudesse arrancá-los de sua cabeça.
– O que você quer, Mickey?
Agora eu estava em pé no trampolim. Podia mergulhar.
– O senhor estava lá quando sua ex-esposa foi assassinada. Quero saber o que aconteceu.
Ele olhou para a bola em suas mãos.
– Como sabe que eu estava lá?
– Rachel disse que ouviu vozes, de homem e mulher. Uma era a sua. A outra era a de sua ex-esposa.
Ficamos imóveis. Eu devia ter entre 10 e 15 centímetros a mais que ele. Ele ergueu seus olhos escuros para mim.
– Está usando um microfone, Mickey?
– Um microfone?
– Sim. Alguém mais está ouvindo isso? Você está gravando? Erga sua camisa.
Obedeci.
– E quanto ao celular? – perguntou.
Ops.
– O que tem ele?
– Algumas pessoas o deixam ligado para poderem ser ouvidas do outro lado da linha.
Tirei meu celular do bolso, apertando discretamente a tecla de encerrar ligação, e o entreguei para ele. O Sr. Caldwell olhou para a tela. Perguntei-me se ele tinha visto todas as mensagens de texto e chamadas não atendidas de sua filha. Se tinha, não disse nada. Tudo o que fez foi tirar a parte de trás do meu telefone, remover a bateria e me devolvê-lo.
– Comece a falar – pediu ele.
– Olhe, Sr. Caldwell, vi o relatório da polícia.
– Como?
– Isso não é importante.
– Você entrou na casa do chefe Taylor?
– Sr. Caldwell...
– Responda.
– Sua ex-esposa tinha resíduos de pólvora na mão.
– Como?
– Resíduos de pólvora. Isso significa que ela puxou o gatilho.
O rosto dele perdeu a cor.
– O quê? Você ficou maluco? – A voz dele estava cheia de arrogância. Nem raiva nem fúria, mas arrogância. Soava falsa, como se ele estivesse lendo um roteiro. – Aqueles dois bandidos deram os tiros.
Balancei a cabeça.
– Não, senhor, foi sua ex-esposa que deu.
Ele abriu a boca para retrucar, mas nada saiu. Seus ombros arriaram, suas pálpebras pareceram pesadas.
– Sua ex-esposa cometeu suicídio – continuei.
Os olhos do Sr. Caldwell começaram a se encher de lágrimas. Quando abaixou a cabeça, vi o carro de polícia vindo devagar por trás dele. Meu pulso começou a se acelerar.
– É o chefe Taylor? – perguntei.
– Sim.
– O senhor o chamou?
– Você deixou o arquivo aberto na escrivaninha dele. Ele tirou as próprias conclusões.
Senti minha boca seca.
– Você se esqueceu de uma coisa, Mickey.
– O que foi?
– Se a mãe de Rachel atirou nela mesma, quem atirou em Rachel?
Agora estávamos chegando ao ponto que eu queria. Eu sabia, porque no final apenas uma resposta fazia sentido. Nossos olhos se encontraram. Vi dor nos dele. Não havia mais dúvida alguma em minha mente – o Sr. Caldwell estivera lá. Vira sua própria filha levar um tiro.
Mas não foi ele quem atirou nela.
– Sua ex-esposa – concluí, com uma voz que era apenas um sussurro. – Sua ex-esposa atirou em sua filha.
Ele não disse nada. Não precisava.
– Não sei exatamente como tudo se passou. Rachel encontrou sua sacola de ginástica e a escondeu. Contou à mãe que agora sabia a verdade, que acreditava nela. Mais tarde o senhor voltou para casa. Deu falta da sacola. Ficou zangado. Confrontou sua ex-esposa. Foi o que Rachel ouviu, vocês dois discutindo. Sua ex-esposa sacou uma arma. Rachel entrou correndo na sala. Essa era uma das coisas que estava me incomodando. Se Rachel tivesse sido alvejada primeiro, sua ex-esposa nunca teria ficado parada, permitindo que o assassino encostasse a arma na cabeça dela e disparasse daquela maneira.
– Então talvez Nora tenha levado o tiro primeiro – replicou ele, mas não havia nenhuma convicção em sua voz.
– Não, senhor. Rachel foi clara. Ela não ouviu nenhum tiro. Escutou vozes, desceu a escada e correu para a sala. Sua ex-esposa estava segurando a arma. Não sei o que aconteceu de fato. Acho que ela entrou em pânico. Ou talvez tenha tentado atirar no senhor, mas errou o alvo. De qualquer forma, atirou na própria filha. Rachel caiu no chão. Sua ex-esposa não pôde acreditar no que havia feito. Ficou arrasada. A arma ainda estava em suas mãos...
Parei. O chefe Taylor estacionou o carro bem longe, mas não saiu.
– Estou certo? – indaguei.
– Não totalmente – respondeu o Sr. Caldwell. Ele respirou fundo algumas vezes. – Nora não atirou em mim e errou. Sim, ela sacou a arma. Sim, apontou na minha direção. Mas quando Rachel entrou... ela apenas se virou e atirou. Vi o sangue jorrar. Vi Rachel cair no chão. – Ele fechou os olhos, tentando manter o controle. – Corri na direção da minha filha e tentei estancar o sangue. Nem olhei para Nora. Então ouvi a arma disparar de novo. Eu me voltei e... pensando depois nisso, acho que não fiquei surpreso. Nora estava muito perturbada e com tendências suicidas. Havia atirado na própria filha. Tenho certeza de que pensou que Rachel estava morta.
O chefe Taylor saiu do carro e veio em nossa direção.
Será que devia sair correndo? Eu sabia o suficiente. Agora sabia quem atirara em Rachel. Como o chefe Taylor reagiria ao fato de eu saber a verdade?
– Meus amigos sabem onde eu estou – afirmei. – Sabem a história.
– Não acredito em você, Mickey. Não acho que você teve tempo para contar a alguém. De qualquer maneira, isso não importa. – O Sr. Caldwell ergueu seus olhos marejados para mim. – Terminamos?
– Quase. Sua filha foi ferida. Sua ex-esposa se matou. O senhor não ligou imediatamente para o 911, ligou?
– Não, não liguei.
– O senhor telefonou para o chefe Taylor.
– Sim.
– Por isso ele foi o primeiro a chegar à cena do crime. Assim o senhor pôde esconder a verdade e inventar uma invasão aleatória.
Eu não esperava que ele admitisse isso, mas o Sr. Caldwell respirou fundo e confessou:
– Sim.
– Estava com medo de que as pessoas descobrissem a verdade sobre o senhor. Que era um traficante de drogas.
– Não.
O chefe Taylor chegou.
– Oi, Mickey – cumprimentou ele.
Eu o ignorei e mantive meus olhos no Sr. Caldwell.
– O que quer dizer com “não”?
– Quero dizer que você está errado. Eu não estava preocupado com o que as pessoas descobririam sobre mim. Se tudo isso tivesse sido para me proteger, por que acha que o chefe Taylor concordaria em ajudar?
– Ele está na sua folha de pagamentos.
Vi a raiva surgir nos olhos do chefe Taylor, mas não recuei.
– Acha que eu sou um escroque?
– Vá com calma, Ed – pediu Caldwell.
– Ouviu o que ele acabou de dizer?
– É compreensível da perspectiva dele. Apenas se acalme. Ele ainda não entendeu.
Taylor me fuzilou com os olhos.
Ele estava certo. Eu não tinha entendido.
– Do que vocês estão falando?
– Eu não sou um traficante, Mickey.
– E eu não sou um policial corrupto – acrescentou Taylor.
Então, eu soube a verdade. De fato, quando parei para pensar sobre isso, talvez eu a soubesse antes de todos nós chegarmos ali. Houve um motivo para eu marcar aquele encontro sem contar a Rachel ou responder às mensagens de texto constantes dela. De forma subconsciente – ou talvez nem tanto –, eu também não queria que ela soubesse a verdade.
– Você encobriu isso para proteger Rachel – falei.
Taylor manteve a cabeça baixa.
– Não gosto que você fale que encobrimos.
– Mickey – disse o Sr. Caldwell dando um passo à frente de Taylor –, você já notou a marca de queimadura no braço de Rachel?
– Sim.
– Sabe como ela a conseguiu?
Balancei a cabeça.
– Nora fez isso com ela com um ferro de passar.
Eu não sabia o que responder. Olhei para o chefe Taylor. Agora ele estava com a cabeça erguida.
– Na verdade, essa foi a gota d’água. A mãe de Rachel era desequilibrada havia anos. Tentei ficar com ela o máximo que pude. – Ele piscou os olhos com força. – Eu amava Nora. Quando nos conhecemos... – A voz dele sumiu. – Mas a doença roubou tudo dela. Se você tem uma doença cardíaca, as pessoas entendem. Quando o cérebro adoece, bem, é quase impossível entender. Vivi tentando negar aquilo durante muito tempo. Amigos me avisaram. Droga, o Ed aqui me avisou. Eles viam que Nora estava sofrendo um colapso, que ela não estava bem. Tentei obter ajuda, mas ela ficou cada vez pior e então um dia pensou ter visto pequenos insetos atacando sua garotinha. Foi atrás deles com um ferro a vapor na temperatura máxima.
Engoli em seco.
– Rachel se lembra disso?
– Talvez. Não sei. Talvez tenha bloqueado a memória. De qualquer maneira, eu não podia arriscar mais. Enfim, enviei Nora para longe. Ela não queria ir, mas um juiz determinou que fosse internada. Essa foi a decisão mais difícil da minha vida. Falei com muitos médicos. Todos concordaram. Ela era um perigo para si mesma e para nossa filha.
Senti um nó na garganta. Pobre Rachel.
O Sr. Caldwell sorriu para mim, mas não havia nenhuma alegria no seu rosto.
– Tentei contar a Rachel. Tentei explicar. Mas ela era muito nova. Talvez ainda seja.
Às vezes ela entendia. Às vezes não. Eu deveria ter passado mais tempo com ela. Não deveria ter me casado de novo tão rápido. Não sei, talvez isso tivesse ajudado. Mas agora não importa. Os anos se passaram. Rachel começou a precisar de alguém. Uma heroína. Alguém que a amasse incondicionalmente.
– A mãe dela?
– Sim.
– E Rachel agora queria acreditar que a mãe estava bem?
– Naturalmente.
– Então Rachel ajudou a mãe a sair do hospital. Ajudou-a a parar de tomar os remédios. Trouxe-a para casa. Convenceu-a de que ela não estava doente.
– Mas a ironia é que ela estava. Nora estava muito doente. Não entende o que aconteceria se Rachel soubesse a verdade, que a mãe tinha atirado nela e depois se suicidado? Pode imaginar a culpa que Rachel sentiria? Por trazê-la para casa? Por ajudá-la a parar de tomar os remédios? Ela nunca superaria isso. Ela se culparia.
Eu entendia.
– Mas espere. Rachel encontrou as drogas que o senhor estava escondendo. Encontrou dinheiro.
– Sim.
– Então talvez tenha sido isso que causou a doença ou ao menos a piorou. O senhor é um traficante.
– Não – insistiu o Sr. Caldwell.
Taylor suspirou.
– Ele trabalha para nós. Bem, para alguém que você conhece no escritório do condado.
Pensei sobre isso e a resposta agora era muito clara.
– O detetive Waters?
– Essa foi uma operação à paisana – explicou o Sr. Caldwell. – Eu estava trabalhando em segredo. Aquelas drogas deviam ser usadas para pegar Brian Tart e Emile Romero.
Ao longe, ouvi o alarme de emergência da cidade soar.
– Tenho que ir – avisou o chefe Taylor. Ele olhou para mim. – Você vai contar?
Não respondi. Eu tinha pensado que Taylor era um escroque de proporções bíblicas. Agora eu sabia a verdade. Ele a encobrira para proteger Rachel.
O alarme de incêndio soou mais uma vez. Taylor voltou a me encarar. Assenti. Ele fez o mesmo. Uma concordância sem palavras entre nós.
O Sr. Caldwell se aproximou de mim.
– Sei que você e o chefe não se dão bem, mas Ed fez isso por Rachel e por mim. Ele arriscou a própria carreira para nos ajudar. Entende isso?
Olhei para ele.
– O senhor vai contar a verdade para Rachel?
– Sobre eu trabalhar para a polícia? Sim. Vou contar em breve.
Balancei a cabeça.
– Não. Sobre o que realmente aconteceu naquela saleta.
– Não.
Eu fiquei em silêncio.
– Ouça, Mickey. Eu sou o pai dela. Quero o melhor para a Rachel. Você entende isso, não é?
Eu ainda não sabia o que dizer.
Ele colocou a bola de basquete no chão e pôs as mãos em meus ombros. Inclinou-se para perto para ter certeza de que eu o estava olhando bem nos olhos.
– Isso a mataria – explicou o Sr. Caldwell, com uma voz suplicante. – Rachel ficaria confusa. Muito confusa por a mãe ter atirado nela. Não foi o conteúdo daquela sacola que matou Nora. Foi a doença, mas Rachel não vai ver por esse ângulo. Vai achar que, se tivesse deixado as coisas quietas, a mãe ainda estaria viva. Que contribuiu para os delírios da mãe. Que trouxe a mãe para cá e seus atos levaram à morte dela. Vai se dar conta de que a mãe atirou na própria filha e ficou tão aflita com isso, tão atormentada com essa última visão, que pôs fim à própria vida. Entende, Mickey? Eu sou pai. Meu trabalho é proteger minha filha. Entende por que eu não podia deixar Rachel passar o resto da vida com essa culpa?
– Porque a culpa foi dela – concluí, minha voz soando distante mesmo para mim. – Pode haver desculpas. Isso pode ser compreensível. Mas no final o que aconteceu foi culpa de Rachel.
– Sim – concordou o Sr. Caldwell com brandura. – O que é mais um motivo para os que a amam deixarem isso quieto.
Senti-me como se alguém tivesse arrancado minhas entranhas.
– Então o senhor simplesmente deixou Brian Tart e Emile Romero levarem a culpa?
– Há tantas acusações contra eles que essas duas não farão diferença. De qualquer modo, o promotor nunca poderia provar isso. Esse será um daqueles casos em que todos sabem quem fez, mas não haverá necessidade de prová-lo. A polícia não vai investigar muito porque não quer que a verdade apareça. Ainda sou útil trabalhando à paisana. Se isso se tornasse público, arruinaria tudo. Muitos criminosos ficariam livres.
Senti uma nova pontada de tristeza.
– Então todos nós ficaremos calados.
– Para o bem de Rachel. Pode fazer isso, Mickey?
Mas não senti vontade de responder. Eu me virei e caminhei na direção de uma árvore distante.
– Mickey?
Não olhei para trás. Apenas continuei a caminhar. Por fim, o Sr. Caldwell voltou para seu carro. Parei e esperei que ele fosse embora. Então terminei minha caminhada.
Tio Myron estava atrás da árvore.
– Fiquei assustado quando ele pediu para ver seu celular.
– Desliguei antes de entregá-lo.
– Eu ia aparecer, mas em momento algum você me fez o sinal de perigo.
– Eu estava bem – respondi, voltando com ele para o carro –, mas me senti melhor tendo você aqui como apoio.