Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 17 de 53

Páginas do PDF

Uma Questão de Segundos

capítulo 17

EMA ESTAVA ESPERANDO NOS fundos do estacionamento dos alunos quando eu cheguei. Essas vagas eram cobiçadas e acho que houve uma época em que os alunos começaram a brigar por causa delas. Agora a escola sabiamente ganhava dinheiro cobrando por seu uso. Se você quisesse uma boa vaga para o ano escolar, isso lhe custaria mil dólares. O que mais me surpreendia era que não só as vagas eram vendidas em tempo recorde como havia uma lista de espera.

 

Eu estava carregando uma bolsa de ginástica com minhas coisas de basquete. Era o primeiro dia dos testes. Apesar de tudo o mais que estava acontecendo na minha vida, ainda sentia um frio na barriga ao pensar nisso.

Eu ia a pé para a escola. Acho que Ema também. Quero dizer, nunca vi um pai a deixar lá. Em geral, ela saía do bosque atrás do campo. Quando me aproximei, não pude deixar de notar que Ema parecia um pouco... diferente. Não sabia dizer por quê. Ela continuava toda vestida de preto, sem nenhuma corzinha. Sua pele ainda estava pálida e o batom que ela escolhera era de um tom um pouco mais malicioso de vermelho.

– O que foi? – perguntou Ema.

Dei de ombros.

– Você parece diferente.

Ela estreitou os olhos.

– Diferente como?

Eu não fazia ideia, mas, definitivamente, havia algo, talvez na tatuagem em seu braço... Enfim, agora não era o momento.

– Não importa. Você disse que descobriu algo sobre o Carniceiro de Lodz?

De repente, Ema pareceu cautelosa.

– O que foi?

– Você precisa prometer que não vai me perguntar sobre minhas fontes.

Franzi a testa.

– Você está brincando, certo?

– É, claro, que piada poderia ser mais engraçada do que essa? – Ela mordeu seu lábio inferior. – Você precisa prometer que não vai me perguntar.

– Não entendo isso.

– Apenas prometa, está bem?

– Nem mesmo entendo o que estou prometendo, mas, ok, não vou perguntar sobre suas fontes ou seja lá o que for.

Ema hesitou, examinando meu rosto para se certificar de que minha promessa era legítima. Então disse:

– Usei um pouco de Photoshop na foto do Carniceiro. Se eu enviasse para alguém a foto de um cara com uniforme nazista e perguntasse se ele trabalhava como paramédico, achariam que eu estava louca.

Assenti. Aquilo fazia sentido.

– Então transformei as roupas dele em algo mais atual. Também enviei a fotografia original, em preto branco, e a que colori.

– Para quem você enviou as fotografias?

Ema me lançou um olhar duro.

– Ah, espere. Essa é a fonte de que você estava falando? Sobre quem não devo perguntar?

– Na verdade, não – respondeu Ema.

Mais uma vez ela hesitou. Grupos se formavam ao nosso redor. As pessoas batiam papo, riam ou, como nós, tinham conversas sérias. Eu me perguntei quantos estavam falando sobre velhos nazistas da Segunda Guerra Mundial. Duvidei que fossem muitos.

– Enviei as fotografias para o diretor do serviço médico emergencial de San Diego – falou, por fim, Ema. – Minha fonte é a pessoa que me colocou em contato com ele. Mas isso não importa.

– Ok. E o que o diretor contou?

– Oi, colegas!

Eu me virei. Era Colherada. Ema não pareceu satisfeita.

Colherada empurrou os óculos para cima.

– Estou atrasado?

– Acabamos de começar – respondi.

Nós dois nos viramos na direção de Ema. Ela pareceu ainda menos satisfeita.

– Espere.

– O quê?

Ema apontou para Colherada.

– O que ele está fazendo aqui?

– Ele é parte disso, Ema.

Ela olhou para Colherada. Ele arqueou as sobrancelhas e abriu os braços.

– Gosta do que está vendo? – indagou.

Ema franziu a testa.

– Você realmente está usando um protetor de bolso?

– Você quer que a caneta arruíne a minha camisa?

– Essa camisa? Sim.

– Mas xadrez verde está de novo na moda.

– Ok – falei, ficando entre eles. – Podemos voltar ao assunto?

Ema me encarou.

– Ele é parte disso – repeti.

Ela abaixou os olhos.

– Está bem, como quiser, o nazista é seu.

– Por favor, continue – pediu Colherada.

Ema o ignorou.

– Enfim, eu enviei as fotografias para o escritório do serviço médico em San Diego. São eles que atendem qualquer vítima de acidente de carro naquela área. Também informei a data do acidente.

– Uma pergunta – começou Colherada, esfregando o queixo. – Qual é sua fonte?

Ema o fulminou com os olhos.

– Colherada – alertei-o.

Ele olhou para mim. Balancei a cabeça para que ficasse em silêncio.

– Então as fotografias foram enviadas para o Departamento de Recursos Humanos. Eles consultaram os arquivos. Mostraram as fotos para todos os funcionários que conseguiram encontrar. Depois, só para provar, me enviaram um link para um site com fotos de todos os paramédicos licenciados que trabalharam para o condado nos últimos três anos.

Ema engoliu em seco e eu soube o que ela estava prestes a dizer.

– Não há nenhum registro dele. Ninguém o reconheceu. Segundo o escritório, esse cara nunca trabalhou para eles.

Silêncio.

– Há empresas de ambulância particulares, certo? – arrisquei. – Talvez uma delas...

– É possível – replicou Ema –, mas elas não seriam chamadas para um acidente em uma rodovia interestadual. Essa é a jurisdição do condado.

Tentei assimilar o que Ema estava me dizendo... Mas o que eu queria que ela descobrisse? Que um nazista de 90 anos com aparência de 30 havia trabalhado para o serviço emergencial em San Diego? Ainda assim, o paramédico louro se parecia com o Carniceiro de Lodz. Alguém deveria ter conseguido identificar o sujeito, certo? Se eles mostraram a fotografia por todo o lugar ou procuraram em seus arquivos, alguém não deveria ter dito “Ei, esse cara se parece com...”, bem, qualquer que fosse o nome dele?

Olhei na direção de Ema.

– Então chegamos a um beco sem saída?

Ema me encarou com aqueles seus olhos atenciosos.

– Quero dizer, quem era o louro de olhos verdes que vi naquele dia? O que levou meu pai do local do acidente?

Colherada permaneceu em silêncio. Ema deu um passo na minha direção e pôs a mão em meu ombro.

– Nós apenas começamos a investigar. Esse é só o primeiro passo.

Colherada assentiu.

– Deve ter um registro do acidente – acrescentou ele. – Os nomes de todos os envolvidos estariam nele. Nós podemos conseguir uma cópia.

– Boa ideia, Colherada – elogiou Ema.

Ele estufou o peito.

– Sabe, não sou apenas um colírio para os olhos.

“Nós podemos”. Eles continuavam a dizer nós. Aquilo parecia ridículo – nós éramos apenas um grupo de crianças bobas – e ainda assim era ridiculamente confortador ter aqueles dois do meu lado.

Ema se virou para mim.

– Vou acionar minha fonte.

– A fonte sobre a qual eu não deveria perguntar? – perguntei.

– Sim.

O sinal tocou. Os alunos começaram a entrar na escola. Nós nos despedimos e fomos para dentro. Meus primeiros três tempos passaram devagar e monotonamente. Nenhum tédio se compara ao tédio na escola. Você olha para o relógio e tenta usar algum truque mental para fazer os ponteiros se moverem mais rápido. Eles nunca se movem.

Eu teria aula com a Sra. Friedman no quarto tempo, minha última antes do almoço. Talvez já tenha mencionado isso, mas a Sra. Friedman era minha professora favorita. Ela lecionava havia muito tempo – tio Myron era um de seus ex-alunos –, mas não tinha perdido nem um pouquinho do entusiasmo. Eu adorava isso nela porque aquele entusiasmo era contagiante. Nada parecia entediá-la. Todas as perguntas eram dignas de resposta. Todos os momentos eram dignos de estudo.

A Sra. Friedman vivia em um globo de neve feliz dos estudos avançados de história.

Mas hoje até mesmo a Sra. Friedman parecia diferente. O sorriso ainda estava presente, mas não tinha nem de longe sua vivacidade normal. É claro que eu sabia por quê. E acreditava que o resto da turma também. Os olhos da Sra. Friedman ficavam o tempo todo voltando para aquela carteira vazia.

A carteira de Rachel.

Rachel se apresentara para mim ali. Sim, isso mesmo. A garota mais gostosa da escola tinha sorrido para mim e começado uma conversa comigo nesta mesma sala. Eu havia ficado ao mesmo tempo chocado e satisfeito. Só estudava na escola havia algumas semanas e, mesmo sendo novato, já atraíra a atenção daquela garota.

Eu devia ser muito legal e incrivelmente charmoso, certo?

Não. Logo fiquei sabendo que Rachel tinha motivos ocultos para flertar comigo.

Depois de tudo o que acontecera, quase havia me esquecido disso. No início, Rachel me iludira. Ela podia ter seus motivos, mas agora eu pensava... confiava mesmo nela, como confiava em Ema e Colherada? Rachel havia feito parte do nosso grupo quando pegamos alguns caras repugnantes. Ela fora corajosa e habilidosa, e se colocara em risco.

Ainda assim, se aproximara de nós pela primeira vez escondendo a verdade.

Eu poderia deixar aquilo pra lá? E o que era toda aquela conversa misteriosa no quarto do hospital? O que era a borboleta Abeona em sua porta?

Rachel ainda guardava segredos?

– Para amanhã – anunciou a Sra. Friedman, perto do fim da aula –, por favor, leiam o capítulo 17 do livro.

Abri o meu para ver o tamanho do capítulo 17 e, ao começar a folheá-lo, vi o título do capítulo 36, algo que só estudaríamos no último trimestre:

 

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E O HOLOCAUSTO

 

O sinal tocou. Fiquei sentado por um tempo. A Sra. Friedman era especialista em Segunda Guerra e Holocausto. Talvez se eu mostrasse aquela velha fotografia em preto e branco... Bem, não. Isso poderia ser demais. E do que adiantaria? Mas, se eu perguntasse sobre o Carniceiro de Lodz, talvez ela pudesse esclarecer um pouco daquilo tudo.

Eu não conseguia imaginar como, mas que mal havia?

A Sra. Friedman estava apagando o quadro-negro. Era a única professora que eu conhecia que ainda o usava. Ela era das antigas e eu a adorava por isso.

– Sra. Friedman?

Ela se virou e sorriu.

– Sim, Sr. Bolitar.

Ela sempre se dirige a nós como “Sr.” ou “Srta.”. Se outros professores falassem assim, os alunos gemeriam ou revirariam os olhos. Mas não quando era a Sra. Friedman.

Não sabia como começar, por isso fui direto ao ponto:

– Eu queria perguntar uma coisa para a senhora sobre história.

Ela esperou. Quando permaneci calado por um tempo longo demais, ela falou:

– Bem, continue. Não achei que você quisesse me fazer uma pergunta sobre matemática.

– Sim, claro.

– Então qual é a pergunta, Sr. Bolitar?

Engoli em seco.

– Sabe alguma coisa sobre o Carniceiro de Lodz?

Os olhos da Sra. Friedman se arregalaram.

– Hans Zeidner? O Carniceiro de Lodz da Segunda Guerra Mundial?

– Sim.

Ela pareceu quase abalada ao ouvir o nome dele.

– Não entendo. Isso é para outra aula?

– Não.

– Então é para quê?

O que eu iria responder? Ela era muito mais baixa do que eu, mas me senti encolher sob seu olhar. Fiquei imóvel, tentando encontrar uma resposta plausível. Após um tempo, a Sra. Friedman ergueu a mão como se entendesse e eu não precisasse falar nada.

– Lodz fica na Polônia – explicou. – Havia um gueto judeu lá na década de 1940. Hans Zeidner servia como um oficial nazista lá. Era da Waffen-SS. Eles foram os mais terríveis de todos. Responsáveis pelo assassinato brutal de milhões de pessoas. Mas o Carniceiro é mais conhecido por seu tempo em Auschwitz.

Auschwitz. Apenas aquela palavra já silenciava o ambiente.

– Você sabe sobre Auschwitz? – perguntou ela.

– Sim.

Ela tirou os óculos de leitura.

– Diga o que você sabe.

– Auschwitz foi um famoso campo de concentração nazista – respondi.

Ela concordou com a cabeça.

– A maioria das pessoas usa esse termo. Campo de concentração. Eu prefiro o mais exato: campo de extermínio. Bem mais de um milhão de pessoas foram assassinadas lá, noventa por cento judias. – Ela fez uma pausa. – O campo era dirigido por Rudolph Hess, mas o Carniceiro de Lodz era um de seus subordinados mais cruéis. Conhece a lenda de Lizzy Sobek?

Mais uma vez, eu não sabia como responder, então disse algo vago:

– Ela era uma criança na época do Holocausto, não é?

A Sra. Friedman assentiu.

– Lizzy Sobek era uma garota de 13 anos de Lodz.

– Lodz. Como o Carniceiro?

– Exatamente.

– Ela morou naquele gueto?

– Por algum tempo.

Ela desviou o olhar por um momento, perdida em pensamentos, e me perguntei para onde sua mente a estava levando.

– Grande parte da história de Lizzy Sobek... bem, a documentação é superficial – continuou. – Não sabemos o que é verdade e o que é lenda.

Engoli em seco.

– Você está bem? – perguntou a Sra. Friedman.

– Sim.

– Você está pálido.

– É só que isso tudo é muito violento. Mas quero ouvir.

A Sra. Friedman examinou meu rosto. Não sei o que tentava descobrir – talvez o motivo para eu estar interessado em algo tão horrível ou que conexão especial eu teria com aquelas pessoas.

– Pelo que se fala, os Sobeks eram uma família muito unida. Os pais se chamavam Samuel e Esther. Os filhos eram Emmanuel, de 16 anos, e, é claro, Lizzy. Eles eram judeus e se esconderam no gueto de Lodz até os subordinados do Carniceiro os encontrarem e transportarem para Auschwitz. A mãe e o irmão foram imediatamente mortos em câmaras de gás. O pai foi posto em um campo de trabalhos forçados.

– E Lizzy?

A Sra. Friedman deu de ombros.

– Deixe-me prosseguir com o que de fato sabemos, está bem?

– Sim.

– De algum modo, Samuel Sobek escapou de Auschwitz com dezenas de prisioneiros. Eles tentaram se esconder no bosque, mas a Waffen-SS, liderada pelo Carniceiro, os encontrou. Não se deram o trabalho de levá-los de volta para o campo: os enfileiraram, atiraram neles e os jogaram em um buraco no chão. Simples assim. O pai de Lizzy Sobek foi um dos executados e jogados em uma cova coletiva.

Um ar frio tomou a sala. De repente, todos os sons silenciaram. Se meus colegas de classe continuavam no prédio, a esta altura deviam estar longe.

– E quanto a Lizzy? – perguntei.

– Bem – respondeu a Sra. Friedman, indo na direção da estante de livros –, essa é a parte mais difícil de documentar. Temos registros de Lizzy Sobek entrando com sua família em Auschwitz em setembro de 1942, mas nada do que aconteceu com ela depois. Apenas as lendas.

– E quais são as lendas? – perguntei lentamente.

– Que Lizzy Sobek também escapou de Auschwitz. Que de algum modo conseguiu não ser capturada e se juntou à resistência. Que mesmo quando menina lutou contra os nazistas. Mas a história mais famosa de Lizzy Sobek envolve uma missão de resgate que ela teria liderado no sul da Polônia.

– Que tipo de resgate?

A Sra. Friedman tirou um livro da estante.

– De alguma forma, um grupo de combatentes da resistência conseguiu parar um trem que transportava judeus para Auschwitz. Não por muito tempo. Apenas por um breve instante. Eles puseram troncos de árvores no trilho. Os guardas tiveram que saltar para removê-los. Nesse trem havia um vagão especial que transportava crianças.

Gelei ao ouvir aquilo. Crianças. Lizzy Sobek tinha tentado salvar crianças.

– Alguém abriu a porta do vagão e as crianças conseguiram escapar para o bosque. Mais de cinquenta. E elas afirmam que a pessoa que abriu a porta, a pessoa que liderou o resgate... era uma menina.

– Lizzy Sobek.

A professora assentiu. Ela abriu o livro em sua mão. Só consegui ver parte do título – algo sobre ilustrações do Holocausto –, mas ela começou a folhear o livro rapidamente.

– A senhora acredita na lenda? – perguntei.

– Há evidências que confirmam essa história – disse ela com muita cautela, como se estivesse lendo um roteiro em que não acreditava por completo. – Sabemos que essas crianças foram resgatadas. Sabemos que a maioria afirmou que a líder era uma menina cuja descrição bate com a de Lizzy. Mas, por outro lado, nenhuma das crianças de fato conheceu ou falou com Lizzy Sobek. Se a história for verdadeira, ela as resgatou e conduziu colina acima, e depois seguiu seu próprio caminho.

– Ainda assim, com tantas testemunhas...

– Sim, tem isso. Mas há outras questões que põem em dúvida essa história.

– Quais?

Ela ainda estava folheando as ilustrações.

– Todas as testemunhas eram crianças. Elas eram muito novas. Estavam assustadas e com fome. Estava escuro.

– Então quem elas viram poderia não ter sido Lizzy Sobek.

A Sra. Friedman anuiu, mas vi que seu rosto se obscureceu.

– Mas há outra coisa.

– O quê? – perguntei.

– Era fevereiro. Na Polônia. Havia neve no chão.

– Então estava frio.

– Congelante.

– E a senhora acha que isso afetou o julgamento delas?

A professora parou em uma página. Tirou seus óculos de leitura e vi lágrimas em seus olhos.

– Isto – disse ela, apontando para a página – foi desenhado por uma das crianças resgatadas naquele dia.

Ela ergueu o livro e me mostrou a imagem. Quando a vi, meu coração parou.

Eram crianças correndo colina acima na noite. Estavam fugindo de um trem, se dirigindo a um bosque. A figura central no desenho era uma menina solitária sentada, esperando por elas. E ao redor da menina solitária havia dezenas de...

– Borboletas – falei em voz alta.