Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 2 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 2

UMA HORA DEPOIS, EU ESTAVA sentado em meu quintal – ou melhor, no quintal do meu tio Myron –, contando tudo para Ema. Como sempre, ela estava toda vestida de preto, combinando com seus cabelos. Também usava maquiagem preta nos olhos. Havia um anel de prata em forma de caveira e ossos cruzados no dedo do meio e mais brincos do que eu podia contar.

 

Ema tendia naturalmente para o lado sombrio, mas agora me olhava como se de repente tivesse brotado um terceiro braço em mim.

– Você simplesmente foi embora? – perguntou.

– O que eu devia fazer? – retruquei. – Arrancar à força a informação da velha?

– Não sei. Mas como conseguiu não fazer mais nada?

– Ela foi para o andar de cima. O que eu ia fazer, segui-la? Sei lá, imagine se ela começasse a tirar a roupa ou algo do gênero.

– Argh, que nojo!

– Está vendo?

Ema ainda não tinha 15 anos, mas exibia uma boa quantidade de tatuagens. Devia ter 1,60 metro e era o que a maioria das pessoas consideraria gordinha. Quando nos conhecemos, poucas semanas antes, ela estava sentada sozinha na mesa dos excluídos, almoçando. Disse que preferia assim.

Minha amiga olhou para a velha fotografia em preto e branco.

– Mickey?

– Sim?

– Você não acredita de verdade que é o mesmo cara, não é?

– Sei que isso parece loucura, mas...

Esse era o jeito de Ema. Ela ficava na defensiva e se mostrava mal-humorada com quase todo mundo. Não tinha o que costumamos chamar de beleza convencional, mas quando me olhava como agora com seus grandes olhos castanhos e o rosto revelando concentração e interesse, brilhava nela algo quase celestial.

– Continue – pediu Ema.

– O acidente foi o pior momento da minha vida, dez vezes pior do que qualquer outro. Meu pai...

As lembranças inundaram minha mente. Eu era apenas uma criança. Nós três tínhamos morado no exterior durante a maior parte da minha vida, viajando alegremente pelos cantos mais obscuros do mundo. Eu achava que éramos nômades despreocupados, boêmios internacionais que trabalhavam para várias instituições beneficentes. Não percebia que havia muito mais por trás daquilo.

– Certo – disse Ema.

Mas era difícil revelar mais. Quando você viaja muito, não consegue fazer muitas amizades (ou realmente não tem nenhum amigo). Esse era um dos motivos de eu querer tanto fincar raízes. Foi por causa disso que meu pai largou o emprego, se mudou conosco para a Califórnia, me matriculou em uma escola de verdade e... morreu. Então, veja bem, o que aconteceu depois que voltamos para os Estados Unidos – a morte do meu pai, a ruína da minha mãe – foi culpa minha. Não importa o quanto se negue, a culpa foi minha.

– Se você não quiser me contar... – começou Ema.

– Não, eu quero.

Ela me encarou de novo com seus grandes olhos, que pareciam tão concentrados, compreensivos e gentis.

– O acidente acabou com tudo – continuei. – Matou meu pai e destruiu minha mãe.

Não me dei o trabalho de falar como me afetara, como eu sabia que nunca superaria aquilo. Não era importante. Eu estava tentando descobrir como conectar o paramédico e o homem na fotografia.

Falei mais devagar:

– Quando você passa por algo assim, que de repente acaba com tudo em sua vida... você se lembra de tudo. De cada detalhe. Isso faz sentido?

– Claro.

– Aquele paramédico foi o primeiro a me dizer que meu pai tinha morrido. Então não tenho como esquecer a aparência dele. Não mesmo.

Ficamos sentados ali por mais um minuto, em silêncio. Olhei para a cesta de basquete. Tio Myron havia comprado uma nova quando soube que eu ia morar com ele. Ambos encontrávamos consolo no basquete, no drible lento, no arremesso durante um salto, no modo como a bola atravessa o aro e balança a rede. O basquete é a única coisa que tenho em comum com meu tio, com quem sou forçado a morar e a quem não consigo perdoar.

Não consigo perdoá-lo. E acho que também não consigo me perdoar.

Talvez esse seja outro aspecto que tio Myron e eu temos em comum.

– Não fique zangado comigo, ok? – disse Ema.

– Ok.

– Eu entendo tudo o que você falou. Você sabe disso. E, bem, esta última semana foi louca. Mas podemos encarar isso racionalmente por um segundo?

– Não.

– Ahn?

– Se fizermos isso, chegamos à conclusão de que eu deveria estar trancado em uma cela acolchoada.

Ema sorriu.

– Bem, sim, isso é verdade. Mas só para termos certeza de que não deixamos nada de fora, vamos rever tudo passo a passo, ok? Só para garantir que está tudo claro.

Assenti de má vontade.

– Primeiro – ela ergueu um dedo com a unha pintada de vinho –, na semana passada, a caminho da escola, você passou pela casa sinistra de dona Morcega e, embora não a conhecesse e nunca a tivesse visto, ela lhe disse que seu pai está vivo.

– Certo.

– Estranho, não é? Quero dizer, como ela sabia quem você era ou que seu pai morreu, e o que deu nela para dizer uma coisa dessas?

– Não tenho a menor ideia.

– Nem eu. Então vamos para o segundo item. – Ema ergueu o dedo com o anel de caveira e esmalte amarelo-canário. – Na semana seguinte, depois de passarmos por poucas e boas, dona Morcega lhe disse que na verdade ela é Lizzy Sobek, a famosa heroína do Holocausto que não era vista desde o fim da Segunda Guerra. Então lhe entregou uma fotografia desse velho nazista que matou o pai dela. E você acha que é o mesmo cara que levou seu pai embora na maca. – Ema abriu as mãos. – Isso resume tudo?

– Quase tudo.

– Ótimo. Agora estamos chegando a algum lugar.

– Estamos?

Ela fez um sinal com a mão para eu me calar.

– Vamos esquecer por um momento o fato de que de algum modo o cara não envelheceu nem um dia em setenta anos.

– Certo.

– Outra coisa: você sempre descreve o paramédico com cabelo louro e olhos verdes.

– Certo.

– É disso que você mais lembra nele, não é? Dos olhos verdes. Acho que você disse que havia círculos amarelos em torno das pupilas ou algo assim.

– Sim, e daí?

– Mas, Mickey – Ema inclinou a cabeça e sua voz se suavizou –, essa fotografia é em preto e branco.

Eu não disse nada.

– Não dá para ver nenhuma cor. Como você pode saber, por exemplo, que os olhos dele são verdes? Não pode, não é?

– Acho que não.

– Então deixe-me falar claramente. Que cenário é mais provável: o Carniceiro de Lodz possui uma ligeira semelhança com o paramédico e você inventou o resto ou um velho nazista de 90 anos agora é um jovem paramédico que trabalha na Califórnia?

Ela tinha razão, é claro. Eu sabia que não estava raciocinando direito. Na última semana, eu havia sido agredido e quase morto. Sem poder fazer nada, eu vira um homem levar um tiro na cabeça enquanto Ema quase tivera a garganta cortada.

E isso para não mencionar a parte de fato surpreendente.

Ema se levantou, alisou sua roupa e começou a andar.

– Preciso ir.

– Para onde?

– Vejo você amanhã.

Ela fazia isso o tempo todo: ia embora de repente.

– Quer que eu acompanhe você? – perguntei.

Ema pôs as mãos nos quadris e me olhou com a testa franzida.

– Está ficando tarde. Pode não ser seguro.

– Está brincando comigo, não é? Por acaso eu tenho 4 anos?

Mas esse não era o problema. Por algum motivo, Ema não queria me mostrar onde morava. Ela sempre desaparecia no bosque. Sim, tínhamos ficado próximos em pouco tempo, talvez os melhores amigos que já havíamos tido, mas ainda assim guardávamos nossos segredos.

Ema parou quando chegou ao fim do quintal.

– Mickey?

– O que foi?

– Sobre a fotografia.

– Sim?

Ela demorou antes de responder:

– Não acho que você seja louco.

Esperei que continuasse, mas ela não falou mais nada.

– E então? – perguntei. – Se não sou louco, sou o quê? Iludido?

Ema pensou um pouco.

– Provavelmente. Mas há outro lado nessa história toda.

– Qual?

– Talvez eu também esteja louca, mas acredito em você.

Levantei-me e fui em sua direção. Tenho mais de 1,90 metro, por isso me elevei acima dela. Estou certo de que formamos um estranho par.

Ema ergueu os olhos para mim.

– Não sei como ou por quê... e conheço todos os argumentos contrários... mas acredito em você.

Fiquei tão grato que tive vontade de chorar.

– A questão é: o que nós vamos fazer? – perguntou Ema.

Arqueei uma sobrancelha.

– Nós?

– É claro.

– Desta vez não, Ema. Já bastam as vezes em que coloquei você em perigo.

Ela franziu a testa.

– Dá para ser mais paternalista?

– Tenho que lidar com isso sozinho.

– Não, Mickey, não tem. Independentemente do que esteja acontecendo com você e dona Morcega, faço parte disso.

Eu não sabia ao certo o que responder, então me limitei a dizer:

– Vamos pensar nisso até amanhã e depois conversamos, está bem?

Ela se virou e recomeçou a andar pelo quintal.

– Sabe o que é engraçado?

– O quê?

– Tudo isso começou com uma velha maluca lhe dizendo que seu pai ainda está vivo. Mas agora, bem, não tenho tanta certeza de que ela seja maluca.

Ema desapareceu na noite. Peguei a bola de basquete, envolvido pelo caráter zen do arremesso (sim, sei como isso soa estranho). Depois de tudo o que acontecera, ansiava por um pouco de paz e tranquilidade.

Mas não as teria.

Eu achava que aquela situação era ruim, mas logo descobriria que poderia ficar bem pior.