Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 47 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 47

EU TINHA QUE COMEÇAR A RESPONDER às mensagens de Rachel.

Quando cheguei em casa, disse-lhe que não descobrira nada de importante nos arquivos do chefe Taylor. Em resumo, menti. Ou pelo menos ganhei mais tempo, porque não sabia o que fazer. Ema também queria saber o que estava acontecendo. Eu não tinha certeza de como agir, mas, no fim das contas, aquilo era um assunto particular de Rachel, não meu, por isso o guardei para mim mesmo.

A campainha da porta tocou.

Myron estava ao telefone.

– É o entregador de pizza. Pode atender? O dinheiro está na mesa da cozinha.

Dei o dinheiro para o homem e peguei a pizza. Coloquei-a sobre a mesa, enchi dois copos de água e esperei por tio Myron. Ele veio e se sentou perto de mim.

Tio Myron abriu a caixa. O cheiro delicioso se espalhou como se evocado pelos deuses que estudamos na aula de mitologia. Ele me deu a primeira fatia e depois se serviu de uma. Mordeu-a e exclamou:

– O paraíso.

– Muito boa – concordei.

Ele engoliu.

– Você ainda não quer me dizer com o que tudo aquilo tinha a ver?

– Agradeço o seu apoio.

– Mas?

Estava ficando tarde. Eu estava cansado e confuso.

– Você acha que às vezes é certo mentir?

Myron colocou a fatia na caixa e limpou as mãos em um guardanapo.

– Claro.

– Sério?

– Sério. Essa é a eterna pergunta: os fins justificam os meios?

– E justificam?

Myron sorriu.

– Se alguém tiver uma resposta certa para isso, desconfie. Qualquer um que responda, sem sombra de dúvida, “sim” ou “não” é uma pessoa que não está refletindo bem sobre as coisas.

– Então a resposta é “às vezes”?

– Se fosse sempre ou nunca a vida seria muito mais simples. Mas a vida não é simples.

– Então às vezes é certo mentir?

– É claro. Você já está namorando?

– Não.

– Bem, eis um exemplo: se sua futura namorada lhe perguntar se um determinado vestido a faz parecer gorda, responda que não.

– Não foi isso que eu quis dizer.

– Ahn?

– Quis dizer algo importante. É certo mentir sobre algo importante se a verdade realmente machucará a pessoa?

Myron refletiu.

– Gostaria de dar uma resposta definitiva, Mickey. Mas depende.

– E se um pai lhe pede para mentir para o filho? Para o próprio bem deles? Quero dizer, você não pode simplesmente ir contra a vontade do pai, pode?

– Nossa. Você está mesmo confuso.

Fiquei calado.

– Uma vez eu menti para meu pai – contou tio Myron. – Isso me custou meu relacionamento com seu pai. Às vezes eu me pergunto se, caso eu tivesse dito a verdade...

Ele parou e desviou o olhar. Lágrimas surgiram em seus olhos e escorreram pelo rosto. Sua cabeça pendeu. Senti a raiva começar a crescer em mim. Sim, tio Myron, talvez se você tivesse dito a verdade, talvez se tivesse sido mais compreensivo e gentil, meu pai estivesse vivo, minha mãe não estivesse na reabilitação e eu estivesse longe de você.

Quase explodi naquele momento, mas tio Myron, como se pressentindo o que eu estava prestes a fazer, pôs a mão em meu antebraço.

– Você precisa saber de uma coisa, Mickey. Sempre há um preço a pagar quando você mente. Quando introduz uma mentira em um relacionamento, mesmo com a melhor das intenções, ela sempre fica lá. Sempre que você está com essa pessoa de novo, a mentira também se faz presente. Pesa em seus ombros. A mentira para o bem ou para o mal sempre estará com você. Será sua companhia constante. Você entende?

– Entendo. – Afastei a mão dele do meu braço e baixei os olhos para a pizza. – Mas suponha que a verdade arrase a pessoa.

– Então talvez você deva mentir. Porém, precisa saber o preço. Precisa se perguntar se está disposto a pagar por ele.

Eu estava?

Terminamos a primeira fatia em silêncio. Quando pegamos a segunda, Myron disse:

– Está tudo arranjado.

Parei.

– Tudo o quê?

– A exumação do corpo do seu pai. Voaremos para Los Angeles amanhã à tarde. O oficial do condado disse que poderemos trazer o caixão dele no dia seguinte.

Fiquei imóvel, pasmo.

– Tem certeza de que ainda quer levar isso adiante? – perguntou tio Myron.

– Sim, com certeza. – E então, talvez porque eu quisesse me aproximar um pouco dele ou porque meu tio realmente parecesse precisar disto, completei: – Obrigado, Myron.