Uma Questão de Segundos
capítulo 38
POR UM BREVE INSTANTE, ninguém se moveu.
Foi como um flash – um instante fugaz que ficará para sempre na minha mente. Você já teve um momento como esse, que durou menos que um piscar de olhos e, contudo, permanece com você para sempre? Foi como se o tempo de fato tivesse parado. Eu me lembro de tudo. Do som do tiro. De Colherada caindo para trás. De Ema gritando. De Colherada no chão, da mancha vermelha em sua camisa se espalhando, seu rosto perdendo cor, seus olhos fechados.
Nunca me esquecerei de nada disso.
Mesmo naquele flash, que não pode ter durado mais de meio segundo, senti-me dominado por uma culpa nauseante.
Eu tinha provocado aquilo. Tinha feito Colherada levar um tiro.
Mas embora parte de mim estivesse arrasada e em pânico, outra parte confiou em meu treinamento de artes marciais. Em algum lugar dentro de mim, de repente fiquei calmo. Não podia deixar o sacrifício de Colherada ser em vão. Com toda a sua imaturidade, ele entendera a verdade. Aqueles dois homens iam nos matar. Ele percebeu que alguém precisava tomar uma atitude. Alguém tinha que fazer algo, mesmo se isso significasse se sacrificar.
Colherada os havia distraído. Eu podia ficar parado e chorar.
Ou tirar vantagem da situação.
O que houve depois foi um ataque de fúria rápido. Parecia que uma centena de coisas haviam acontecido durante um longo período de tempo, mas quando pensei mais tarde sobre os acontecimentos, soube que só tinham se passado alguns segundos desde o momento em que Colherada levou o tiro até quando tudo terminou.
Primeiro todos nos movemos ao mesmo tempo. Foi como se alguém de súbito tivesse nos descongelado e nos carregado para um tornado. Fui o primeiro a reagir. Comecei a ir na direção de Óculos Escuros, embora Scarface estivesse no caminho. Ema se jogou no chão para cuidar de Colherada. Scarface se virou para mim. E Óculos Escuros apontou sua arma.
Eu estava muito longe dele.
Fui rápido; tinha me antecipado a eles. Mas ainda estava a muitos metros de distância para alcançar Óculos Escuros antes de ele puxar o gatilho de novo. Tentei calcular as probabilidades. Podia esperar que ele errasse, mas as chances eram remotas. Eu era um alvo fácil demais.
Então o que fazer?
Para começar, não ser um alvo fixo. Quando Óculos Escuros começou a puxar o gatilho, saltei de repente para a esquerda e me engalfinhei com Scarface. A bala passou zunindo por mim. Então mantive o corpo de Scarface entre a trajetória da arma e eu. Scarface não esperava aquele ataque. Enquanto caíamos para trás, envolvi seu pescoço com meu braço. Ao atingirmos o chão, dei um mata-leão, apertando com força. Seus olhos se esbugalharam e ele emitiu um som de sufocação.
Era exatamente o que eu queria.
É claro que se aquilo fosse tudo, se minha única preocupação fosse Scarface, eu poderia ter ficado bastante feliz. O maior problema era Óculos Escuros. Ele havia se recuperado rapidamente da surpresa provocada pelo meu ataque e agora ia em nossa direção com sua arma apontada.
Eu só podia me esconder atrás de Scarface por algum tempo – e por “algum tempo” quero dizer “talvez mais um segundo”.
Óculos Escuros ficou em pé acima de nós. Ele mirou em mim. Mesmo deitado, dei-lhe um chute na canela. Ele praguejou, sacudiu a perna, deu um passo para trás e apontou a arma de novo.
Percebi que era o fim. Eu não podia fazer nada. Estava acabado.
Scarface rolou para o lado, tossindo, tentando recuperar o fôlego. Isso demoraria um pouco, mas realmente não importava. Até lá, eu já estaria morto. Óculos Escuros mudou um pouco de posição para que meu peito ficasse na mira. Eu ia erguer as mãos em rendição, mas sabia que não adiantaria. Estava olhando para aquele sorrisinho de novo, a última coisa que veria, quando ouvi um grito.
Era Ema.
Ela pulou sobre as costas de Óculos Escuros, seu impulso o jogando para frente. Ele conseguiu se manter em pé, mas com dificuldade. Ema pôs os braços ao redor do pescoço dele e o apertou com toda a força que tinha. Sem hesitar, rolei na direção de Scarface e desferi um golpe em seu pescoço, mas não o atingi em cheio.
Óculos Escuros tentou usar sua mão livre para soltar o braço de Ema, mas ela era muito mais forte do que ele esperava. Ele ergueu a arma na direção de Ema, como se fosse tentar atirar nela. Ema estava preparada para isso. Tirou o braço direito do pescoço de Óculos Escuros e bateu na mão dele.
A arma caiu no chão.
Agora era a minha hora!
Mergulhei para pegar a arma, mas Óculos Escuros ainda não estava fora de combate. Ele chutou a arma com o pé direito um momento antes que eu a alcançasse. Ela deslizou pelo chão recém-encerado. Não havia tempo para ir atrás dela. Scarface começava a se recuperar. Ele também tinha uma arma.
Óculos Escuros cambaleou, tentando tirar Ema de cima dele, mas ela resistiu. Então ele cambaleou para trás e bateu com ela nos armários duas vezes, atingindo o rosto de Ema com a parte de trás da própria cabeça. Isso funcionou. Ema afrouxou os braços e caiu no chão, zonza. Óculos Escuros se virou na direção dela, mas, quando gritei, se voltou para mim. Ema aproveitou a distração para rolar para dentro de uma sala de aula, fora do alcance dele.
Enquanto isso, Scarface estava se mexendo de novo – ainda com uma arma.
Saltei para trás na direção do bandido, mas dessa vez ele estava preparado. Rolou sobre suas costas e deu um chute em meu plexo solar. Fiquei sem ar. Ao cair no chão, apliquei-lhe um desajeitado golpe com o cotovelo. Fui bem-sucedido – atingi o nariz dele e, pelo som, eu soube que tinha quebrado.
Mas antes de eu conseguir me levantar, Óculos Escuros também veio sobre mim. Ele me chutou com força nas costelas. Estatelei-me no chão. Ele deu outro chute. Gemi. O terceiro fez minha cabeça começar a girar. Achei que ia vomitar. Fiquei deitado lá, indefeso.
O chute seguinte me tirou o resto das forças.
Eu estava perdendo a consciência, quase pronto para me entregar, quando meu olhar passou por Scarface e repousou em Colherada. Seus olhos ainda estavam fechados. Seu rosto estava totalmente pálido. O sangue vertia da ferida aberta. Eu não sabia se ele estava vivo ou morto, mas de modo algum o deixaria sangrar até a morte.
Eu tinha que fazer algo, e a resposta de repente foi óbvia.
A arma de Scarface.
Estava no bolso de trás dele. Se eu conseguisse alcançá-la...
Óculos Escuros percebeu o que eu ia fazer. Sorriu para mim e se preparou para me dar outro chute que provavelmente acabaria comigo, mas de súbito o ar foi sacudido pelo som de um alarme.
– Confinamento! – entoou uma voz pelo alto-falante. – Confinamento... Confinamento!
Ema! Por isso ela tinha rolado para dentro da sala de aula – para apertar o botão do pânico do qual Colherada nos havia falado. A distração era tudo de que eu precisava. Com um último gemido, estendi a mão para a arma no bolso de trás de Scarface. Eu a puxei, mas ela não saiu. Óculos Escuros olhou para mim. Ele recuou para me dar outro chute, mas não teve tempo.
Consegui pegar a arma e a apontei para ele.
– Parado!
Óculos Escuros parou e ergueu aos poucos as mãos acima de sua cabeça. Arrastei-me para longe, continuando a apontar a arma para ele e me certificando de que também estava longe o suficiente de Scarface.
O alto-falante continuava a entoar:
– Confinamento... Confinamento...
Ema correu de volta para o corredor e se ajoelhou perto de Colherada.
– Colherada? Arthur? – Sua voz foi uma súplica chorosa. Ela segurou a cabeça de Colherada. – Fale comigo, está bem? Por favor?
Ema chorava. Eu chorava. Mas Colherada não se moveu.
Ouvi sirenes distantes se aproximando. Virei-me e olhei para Scarface e Óculos Escuros. Parte de mim esperava que fizessem um movimento, porque queria atirar neles pelo que haviam feito.
Eles devem ter percebido por minha expressão. Nenhum dos dois se moveu.
Olhei para Ema.
– Ele está...?
– Não sei, Mickey. Não sei.