Uma Questão de Segundos
capítulo 44
NADA DE DORMIR.
O garoto com cabelos cacheados e olhar triste assombrou meus sonhos. Dylan Shaykes. Ele estivera em caixas de leite e noticiários. Quando vi pela primeira vez aquela fotografia no corredor de dona Morcega, achei o rosto dele familiar. Pode ter sido por causa das histórias de crianças desaparecidas que ouvi ao longo dos anos. Mas eu duvidava.
Procurei na internet reportagens sobre o que acontecera conosco. Talvez porque nenhum de nós fosse importante, eram muito poucas. No site do canal de notícias local, o Kasselton Patch, havia um vídeo de uma coletiva de imprensa com o chefe Taylor anunciando as prisões de Brian Tart e Emile Romero – dois traficantes de drogas famosos com condenações anteriores por assalto à mão armada – pelo assassinato de Nora Caldwell e por atirarem na filha dela. O chefe Taylor deixou claro que agora eles tinham “evidência física que mostra sem sombra de dúvida” que Óculos Escuros e Scarface eram culpados. O caso de assassinato, enfatizou o policial, estava oficialmente resolvido.
Fiz uma careta. O chefe Taylor parecia muito ansioso para dar aquele assunto por encerrado, não parecia?
Às seis da tarde, Rachel, Ema e eu nos encontramos na Coventry Road, perto do shopping. Achei que nenhum de nós conseguiria dar uma escapada, mas fomos bem-sucedidos. Angelica Wyatt estava filmando uma cena importante e adiá-la por apenas um dia custaria aos estúdios meio milhão de dólares. Isso nos livrou de Angelica e de tio Myron. E Rachel foi deixada em paz depois que seu pai declarou que ela não falaria com as autoridades.
Eu tinha a sensação de que não havia muita vigilância na casa de Rachel.
– Ok, precisamos rever o plano? – perguntou Rachel.
– Acho que não – respondeu Ema. – Nós esperamos na porta dos fundos até você abri-la. Então entramos. Simples, não é, Mickey?
Elas duas olharam para mim. Eu estava com a testa franzida.
– Não gostei.
– Por que não? É perfeito – comentou Rachel.
Um olhar divertido surgiu no rosto de Ema. Mais uma vez, ela me entendia, porém, nesse caso, preferia que fosse o contrário.
– É, Mickey, qual é o problema?
– Não quero que mais ninguém se machuque – respondi.
Esse motivo não soou sincero para mim e, a julgar pelos olhares de Rachel e Ema, para elas também não.
Eis o plano de Rachel: quando ela namorou Troy – primeiro argh –, ficou sabendo que o chefe Taylor guardava cópias de todos os arquivos policiais importantes na casa dele. Não eram muitos. Kasselton não é uma cidade com muitos crimes – pelo menos, não até pouco tempo antes. Rachel sabia que os arquivos ficavam no escritório, perto da cozinha. Troy, o Grande Idiota, havia lhe explicado no início do “relacionamento” deles – segundo argh – que o escritório do pai era uma zona proibida para todos, inclusive os membros da família.
O plano? Simples. Rachel já havia telefonado para Troy e perguntado se podia passar na casa dele. Troy estava ansioso por uma “reconciliação” – terceiro argh –, embora Rachel tivesse salientado várias vezes que o relacionamento não havia sido “sério” e nem “importante”.
– Se não foi importante – perguntei-lhe quando ela me contou isso –, como você conhece tão bem a planta da casa?
Ema pisou no meu pé. Eu não sabia se ela queria que eu calasse a boca ou se estava irritada comigo por eu me preocupar. Acho que as duas coisas.
Enfim, voltando ao plano: Rachel entraria na casa para “discutir a relação” – preciso continuar com os arghs? – com Troy. Ela pediria para usar o banheiro, deslizaria para a cozinha e abriria a porta dos fundos para nós. Ema e eu entraríamos no escritório do chefe Taylor. Lá, procuraríamos nos arquivos para tentar descobrir algo sobre os tiros na casa dos Caldwells, enquanto Rachel mantinha Troy “ocupado”.
Ok, um último argh.
– O que você quer dizer com “ocupado”? – eu tinha lhe perguntado, o que fez Ema pisar no meu pé de novo.
O que exatamente procuraríamos nos arquivos do chefe Taylor? Eu não fazia a menor ideia.
Dez minutos depois, vimos Rachel se aproximar da porta da frente. Ela tocou a campainha da casa dos Taylors e, então, fez aquela coisa com os cabelos que alguns poderiam chamar de “ajeitar”, mas sempre me deixava com a boca um pouco seca. Perto de mim, ouvi Ema suspirar.
Troy abriu a porta com o peito estufado como um galo presunçoso. Minhas mãos se fecharam, como que por vontade própria. Troy convidou Rachel a entrar e a porta se fechou atrás deles.
– Vamos – sussurrou Ema.
Nós nos dirigimos aos fundos pela casa vizinha e entramos no quintal dos Taylors. Eu adorava a ideia de ter acesso aos arquivos do chefe Taylor e descobrir o que ele tramava, porque eu sabia que ele escondia algo.
Só não gostava da ideia de Rachel ficar sozinha com Troy.
Ema e eu nos escondemos atrás de um arbusto perto da porta dos fundos. Eu sabia que Ema também estava pensando em Colherada, mas não podíamos nos distrair agora. Não havia nada que pudéssemos fazer por ele além de investigar quem atirara em Rachel.
Então era isso que iríamos fazer.
Pensei de novo no vigésimo quinto aniversário do desaparecimento de Dylan Shaykes. Não falei com Ema sobre isso porque não era algo urgente, ainda mais com toda a situação por que passávamos. Mas o Abrigo Abeona estava se tornando cada vez mais misterioso. Primeiro, a fotografia manipulada do Carniceiro de Lodz. Agora, a imagem daquele garotinho de olhar triste.
Mas não havia tempo para isso agora. Um som veio da porta dos fundos – uma fechadura de correr se abrindo.
– Está pronto? – perguntou Ema.
Assenti. Tínhamos combinado de não falar enquanto estivéssemos lá dentro, exceto em caso de emergência. Ema ficaria na porta do escritório e me informaria se Troy começasse a vir em nossa direção ou outra pessoa chegasse à casa. Eu vasculharia a escrivaninha do chefe Taylor.
Quando minha mão tocou na maçaneta, um pensamento veio à tona: e as impressões digitais? Eu devia usar luvas. Agora não dava para fazer nada e, além disso, quem procuraria digitais? Não planejávamos roubar e, se fôssemos pegos em flagrante, ninguém precisaria procurar evidências físicas adicionais.
Girei a maçaneta e empurrei a porta. Ela se abriu com um rangido alto que me fez parar. Então ouvi Rachel dando uma horrível risada.
– Ah, Troy! – exclamou ela em alto e bom som, com uma voz melosa. – Isso é tãããoo engraçado!
Fiz uma careta, como se tivesse acabado de sentir um cheiro muito ruim.
Rachel deu mais algumas risadinhas. Confesso que, de repente, ela pareceu menos atraente. Então lembrei que aquilo era apenas uma encenação engenhosa para encobrir minha entrada sem jeito, e ela voltou a se tornar mega-atraente.
Ema e eu deslizamos para dentro e fechamos a porta. Rachel já havia nos informado de que o escritório do chefe Taylor ficava à esquerda. Andei na ponta dos pés naquela direção. Ema me seguiu. A porta do escritório estava totalmente aberta. Ema se virou e apoiou as costas na parede da cozinha. De lá, podia ver a porta dos fundos e a do escritório e o corredor que levava à saleta onde Rachel estava rindo com Troy.
O cômodo era cheio de troféus, placas e citações, todas envolvendo a polícia. Dois dos troféus – na forma de revólveres de bronze – eram por tiro ao alvo. Fantástico. Também havia um monte de fotografias de vários times de beisebol, basquete e futebol americano que o chefe Taylor treinara. Na parede do outro lado, havia diplomas e menções aos seus tempos de esporte, inclusive o título de melhor jogador de futebol americano do estado e...
Espere.
Não pude evitar. Aproximei-me para ver melhor. Era uma fotografia do time de basquete campeão estadual da Kasselton High School de 25 anos antes. Na fila da frente, segurando uma bola, estavam os capitães, Eddie Taylor e Myron Bolitar. Sim, tio Myron. Os dois pareciam amigos na foto e me perguntei o que dera errado.
Mas isso não importava agora.
Sentei-me à escrivaninha do chefe Taylor e pensei de novo nas digitais. Não havia tempo para isso. Vi uma cesta cheia de arquivos. Ao pegar um, ouvi Rachel dizer da outra sala:
– Troy, não faça isso.
A raiva aflorou. Estava pronto para me erguer e ir até lá, mas então parei. O que ia fazer, aparecer de supetão na frente deles? Além disso, Rachel parecia no controle. Se precisasse de mim, pediria ajuda, certo?
Eu não gostava daquela situação, mas era parte do plano de Rachel. Se eu fosse lá agora, ela me mataria. Hora de voltar ao trabalho.
O primeiro arquivo que peguei era bem leve. Vi a etiqueta. Tinha apenas três palavras: NORA CALDWELL – HOMICÍDIO.
Bingo. Achei que ter encontrado o arquivo tão facilmente havia sido um golpe de sorte, mas o assassinato de Nora Caldwell era de longe o caso mais importante da cidade. Por que não estaria na frente e no centro?
Ema olhou para mim. Ergui o polegar e abri o arquivo. Folhas de papel – coisa mais antiquada...
Na primeira página, estava escrito: RELATÓRIO DO EXAME DE BALÍSTICA . Tinha a data daquele dia.
Havia três colunas, uma para a Arma A (a que alvejara Colherada), uma para a Arma B (a portada por Scarface) e uma para a Arma C (a usada para atirar na Sra. Caldwell e em Rachel). Havia muitas expressões específicas como tipo de amostra, sequência de tiros, tipo de arma, peso do projétil, tipo de cartucho/projétil, velocidade de impacto e energia de impacto – para você ter uma ideia. Como nada disso me seria útil, passei para o resultado: NEM A ARMA A NEM A ARMA B EQUIVALE À ARMA C.
Epa. Se eu estava lendo direito – e a conclusão não parecia muito difícil de entender –, as armas A e B não eram do assassinato da Sra. Caldwell.
Isso era muito importante.
Era mesmo?
Apesar de ser uma ótima evidência física contra Óculos Escuros e Scarface, certamente não provava que eles eram inocentes. A menos que você nunca tivesse assistido a um filme na vida, saberia que, se cometesse um crime com uma arma, seria melhor se livrar dela. Essa não era a conclusão mais lógica? Óculos Escuros ou Scarface tinha simplesmente substituído a arma do crime por uma nova.
Só que, é claro, o chefe Taylor não mencionara essa descoberta naquela coletiva de imprensa. Na verdade, fez parecer justo o contrário. Dissera que eles tinham evidência física para prender aqueles caras pelo assassinato de Nora Caldwell.
Mas se os tipos de bala não batiam, qual outra “evidência física” poderia haver? Ou ele estava mentindo? Esse relatório não era uma cópia. Era o original. Por que estaria no escritório particular do chefe Taylor?
Da saleta, ouvi Troy dizer:
– Vou pegar alguma coisa para a gente beber.
Gelei.
– Não precisa. Não estou com sede – recusou Rachel.
Ouvi o sofá ranger, como se Troy estivesse se levantando.
– Só vou demorar um segundo, querida.
Querida?
– Troy? – A voz de Rachel soou coquete, embora eu nem mesmo saiba ao certo o que coquete significa.
– Sim?
– Por favor, não me deixe agora.
Ah, droga. Eu tinha que me apressar.
Dei uma olhada nas próximas páginas até chegar a uma intitulada RELATÓRIO DO MÉDICO-LEGISTA. O nome no topo era NORA CALDWELL. Havia dois desenhos do corpo humano – de frente e de costas. Passei os olhos por eles, tentando ignorar os jargões científicos. Segundo as descobertas, a morte se devia a grandes lesões causadas por um ferimento a bala na cabeça. Eu já sabia disso. O médico-legista podia dizer pelos “padrões de queimadura” que aquele era um “tiro de contato” – isto é, o cano da arma fora encostado na cabeça da vítima. Rachel também havia me dito isso e algo ainda me incomodava.
Mas o quê?
Tentei visualizar a cena do crime. O atirador entra na saleta dos Caldwells. Encosta o cano da arma na cabeça da Sra. Caldwell e a executa. Ouvindo aquele tiro, Rachel entra correndo na sala. O atirador ergue a arma e a aponta para ela...
Espere. Agora eu via o problema.
Rachel não havia me dito que ouviu um tiro. Só falara de vozes altas. Foi isso que a fez descer a escada e ir dar uma olhada na saleta. Não o tiro. Vozes.
Ouvi um barulho lá fora e olhei pela janela. Um carro de polícia acabara de parar em frente à casa.
Ah, não.
Olhei para Ema. Ela estava fazendo um gesto para eu me apressar. Fiz-lhe um sinal para ir embora. Ela assentiu e desapareceu. Olhei de novo pela janela. O chefe Taylor já estava fora do carro, indo para a casa. Parecia perturbado.
Ouvi Troy dizer:
– Droga, meu velho voltou.
Ao me levantar depressa, dei uma última olhada no arquivo. Foi quando vi as palavras resíduos de pólvora na mão destacadas em amarelo. Espere. Arrisquei mais uma espiada e, quando fiz isso, o chefe Taylor mudou de direção bruscamente e começou a ir para...
A porta dos fundos!
Ah, droga, eu estava encurralado.
Procurei um lugar no escritório para me esconder, mas não havia nenhum. Fiquei agachado e espiei. O policial estava se aproximando. Eu não tinha chance alguma de sair dali. Talvez eu pudesse sair pela janela quando ele entrasse. Tentei abri-la, mas estava emperrada.
Eu teria que sair correndo. O que mais poderia fazer?
Minhas esperanças haviam se esgotado quando a porta da frente se abriu.
– Chefe Taylor?
Era Rachel.
– Chefe Taylor? Oi, sou eu.
Rachel começou a dar risadinhas de novo. O som era ridículo e irritante. Mas o policial parou e se virou para ela.
– Oi, Rachel.
– Ahn, posso falar com o senhor por um segundo?
Ela saiu da casa. Taylor pareceu inseguro. Olhou de relance para o caminho dos fundos, suspirou e começou a ir na direção dela.
– O que é? – perguntou ele.
Não esperei nem um minuto.
Virei-me, passei rapidamente pela cozinha e saí pela porta dos fundos. Corri na direção do bosque do terreno. Ema tinha planejado um ponto de encontro. Ela estava lá esperando por mim.
Eu a estava quase alcançando quando percebi duas coisas.
Uma era que agora eu sabia quem havia matado a Sra. Caldwell e atirado em Rachel.
A outra era que eu havia deixado o arquivo do assassinato aberto na escrivaninha do chefe Taylor.