Uma Questão de Segundos
capítulo 32
AINDA ATORDOADO, SEGUI EMA para dentro da mansão escura e depois até um porão ornamentado. Havia uma bela sala de cinema com poltronas grandes e confortáveis e uma tela gigantesca. Uma máquina de pipoca estava em um canto. Na parede havia pôsteres de filmes com Angelica Wyatt.
Olhei para eles e para Ema. Ela baixou a cabeça e deu um passo para trás, torcendo as mãos. Voltei a fitar os cartazes.
– Eu deveria ter imaginado – comentei.
– O quê?
– Os olhos.
Ema não disse nada.
– Quando conheci Angelica Wyatt, fiquei pensando em como o olhar dela era acolhedor e reconfortante. Como eu poderia conversar com ela para sempre. Não sabia por que me sentia assim, mas agora sei.
Ema ergueu os olhos para mim.
– Angelica Wyatt é sua mãe? – perguntei.
– Sim.
– Não entendo, todos aqueles boatos...
– Sobre eu morar em um barraco e meu pai ser um homem perigoso que bate em mim?
Assenti.
– Eu os espalhei – explicou Ema. – Foi um modo de manter as pessoas afastadas.
Como ela não continuou, indaguei:
– Mas por quê?
– Você está brincando, não é?
– Não.
– Você já viu como os garotos na escola falam que Angelica Wyatt é gostosa? Imagine se descobrissem que ela é minha mãe.
– Acho que isso poderia ser estranho.
– “Poderia”?
– Ok, acho que seria.
– E agora imagine aquelas garotas mesquinhas que não me dão a mínima. Imagine como elas me tratariam se soubessem que minha mãe é uma estrela de cinema de fama mundial.
– Elas provavelmente tratariam você como uma princesa.
– E você acha que eu quero isso, aquelas falsas me convidando para suas festas e ter que me sentar com elas no almoço? Como eu poderia confiar em alguém se as pessoas soubessem? Como poderia saber que gostam de mim pelo que sou?
Ema me deu as costas. Seus ombros caíram.
– O que foi? – perguntei.
– Quando eu soube que seu tio estava cuidando da segurança da minha mãe, sabe o que pensei?
– Não.
– Que talvez você soubesse a verdade. Que soubesse o tempo todo que eu era filha de Angelica Wyatt e por isso tivesse começado a ser gentil comigo.
– Eu não sabia – afirmei.
Ela continuou de costas.
– Ema, olhe para mim.
Ela se virou lentamente na minha direção.
– Eu não sabia – repeti. – Isso não importa para mim.
– Está bem – disse ela baixinho. – Então por que nós ficamos amigos?
– Não sei. Acho que me sinto atraído por gente que é um pé no saco.
Ema se permitiu sorrir.
– Eu também. Mas entende o que quero dizer?
– Sim – respondi, minha cabeça ainda girando. – Mas isso parece um pouco extremo. E como você consegue? A escola não sabe?
– Meu nome oficial agora é Emily Beaumont, não Emily Wyatt. A casa está no nome de solteira da minha avó. Minha mãe meio que leva secretamente uma vida dupla. Em uma é a estrela de cinema glamourosa; na outra, uma mãe normal. Tomamos muito cuidado com nossos encontros. Esta casa é isolada. Ela pode vir de carro ou helicóptero.
Eu não disse nada, mas minha expressão deve ter revelado algo.
Ema se aproximou de mim.
– Diga o que você está pensando.
– Quer saber a verdade?
– Sim.
Dei de ombros e falei:
– Por que não me contou? Quero dizer, entendo o argumento quando se trata de Troy e Buck. Mas eu conto tudo para você. Depois de tudo pelo que passamos, tudo que contei para você...
– Você se sente traído – completou Ema.
– Sim.
– Adiantaria se eu lhe dissesse que ia contar?
Não respondi.
– Ou que estava tentando encontrar o momento certo? Adiantaria se eu lhe dissesse que é muito difícil para mim confiar em alguém?
– Entendo tudo isso.
– Mas não totalmente.
– Tudo bem.
Ema desviou os olhos. Vi lágrimas neles.
– Tudo bem – repeti.
– Quero lhe mostrar uma coisa... que talvez ajude a explicar isso. – Ema abriu um armário e olhou para mim. – Você é bem mais alto do que eu. Importa-se de pegar aquela caixa de sapato? A do lado esquerdo.
– Isso não é necessário.
– Por favor, apenas faça isso, Mickey, antes que eu perca a coragem.
Peguei a caixa de sapato na prateleira de cima e a entreguei para ela. No centro da sala havia um sofá. Ema se sentou nele e me convidou a fazer o mesmo.
Ema abriu a caixa e tirou um recorte de jornal. Era de um tabloide e dizia: O SEGREDO SENSACIONAL DO BEBÊ DE ANGELICA WYATT.
Ela pegou outro: QUEM É O VERDADEIRO PAI DO BEBÊ DE ANGELICA? E mais um: NINHO DE AMOR SECRETO DE ANGELICA NA FRANÇA. E outro: EXCLUSIVO: PRIMEIRAS FOTOS DO BEBÊ DE ANGELICA! Um dizia que o pai de Ema era o ator que contracenava com Angelica em seu filme na época. Uma última matéria afirmava que era o primeiro-ministro britânico.
– É difícil falar sobre isso – explicou Ema.
– Então não fale.
– Não, eu quero contar para você. Quero que entenda por que minha mãe e eu fizemos isso.
– Está bem.
Ela segurou os recortes em suas mãos.
– Eles nunca nos deixaram em paz. Durante toda a minha vida, os tabloides nos seguiram. Se íamos ao parque, os paparazzi estavam lá. Se eu ia para o set com minha mãe, mesmo se fosse fechado, alguém com lentes de longo alcance tirava uma foto minha. Aquilo era... sufocante, para dizer o mínimo. Comecei a ter pesadelos. Frequentei um psiquiatra. Minha mãe até deixou o cinema por algum tempo. Parou de trabalhar para cuidar de mim, mas isso só levou a mais boatos. E a verdade é que minha mãe adora ser atriz. Mesmo quando eu era criança, entendia isso. Não queria tirar isso dela. Sabe o que quero dizer?
– É claro.
– Foi difícil, mas finalmente decidimos viver, bem, assim. Minha mãe espalhou o boato de que eu estava em um internato no exterior.
– Então quem mora com você aqui?
– Meus avós. E, ahn... – Ela pareceu um pouco constrangida.
– Ahn o quê?
– Acho que ele é uma espécie de ajudante. Chama-se Niles.
Lembrei-me dele de minha visita anterior – Niles, o mordomo. Ficamos em silêncio. Eu estava folheando os artigos, sem saber ao certo como fazer a próxima pergunta.
– Eu deveria perguntar o óbvio?
Ema esboçou um sorriso.
– Você quer saber sobre meu pai.
– Não é da minha conta...
– Não sei quem ele é. Minha mãe não me contou.
– Ah.
– Ela disse que um dia vai me contar, no momento certo. Mas não agora. Acredite em mim, nós já brigamos muito por causa disso. Eu quero saber, mas minha mãe fica aflita quando pergunto. Como se tivesse medo de que eu soubesse.
– Do que ela teria medo?
– Não sei – respondeu Ema, como se pensasse nisso pela primeira vez. – Mas por enquanto tenho que deixar pra lá. Quero dizer, o que posso fazer?
– Certo. Eu entendo. – Outro pensamento me ocorreu. – Quando você descobriu aquela informação sobre o paramédico de San Diego, não queria me revelar sua fonte. Era...?
Ema fez um gesto afirmativo.
– Sim. É impressionante como o nome Angelica Wyatt abre portas.
Achei que aquilo fazia sentido. Ainda estava dando uma olhada nos artigos, especialmente os que mostravam fotos de Ema pequena.
– Dá para reconhecer você nessas fotos – comentei.
– Mas estou diferente, não é?
– Acho que sim.
– Pode dizer, Mickey.
– O quê?
– Que eu era mais magra. Era mais... normal.
Não retruquei.
– Para mim isso foi parte de tudo – explicou ela.
– O quê?
– Me vestir toda de preto. Pintar meus cabelos de preto. Os adereços, as tatuagens. Acho que até o aumento de peso. Eu não queria ser a garota requisitada. Queria me tornar alguém diferente. Então talvez isso tenha começado como um disfarce, mas gosto da minha aparência agora. De alguma forma, é mais como eu mesma, sabe? Então agora não sei se uso isso como um disfarce ou me visto como sempre quis me vestir.
Ergui um dos velhos recortes.
– Você não mudou tanto – afirmei. – E está deixando algo de fora.
– O quê?
– As tatuagens. Essa foi a primeira pista real de que havia algo estranho. Pensei ter visto uma contusão em seu braço. Mas era uma mancha. Eu não conseguia descobrir o que em você estava diferente, mas então me ocorreu que suas tatuagens tinham mudado. E sua mãe... ela não deve deixar você marcar seu corpo com um monte de tatuagens. Não na sua idade. Elas são temporárias, não são?
Ema pareceu quase contente.
– Puxa, não posso acreditar que você tenha notado.
– Sabe o que é estranho?
– Ahn, tudo isso?
– Bem, sim, mas é outra coisa: nossas mães se conheceram quando eram adolescentes.
– Sim, elas tinham mais ou menos a nossa idade. Isso é esquisito. Ah, e por que seu tio de repente está cuidando da segurança da minha mãe?
– Também não sei. Ele disse que um amigo próximo lhe pediu. Sei que tio Myron é mais do que apenas um agente, gerente ou seja lá o que for. Acho que ele é um detetive particular, um guarda-costas ou algo do gênero.
– Então ele ajuda a proteger minha mãe quando ela está na área?
– Acho que sim. Por que não pergunta para ela?
– Eu perguntei. Ela só disse que precisava de segurança extra e Myron era um velho amigo.
– Então talvez seja isso.
– Talvez.
Não acreditávamos de fato.
– Dona Morcega disse que eu não deveria contar para Myron sobre o Abeona – comentei. – Nunca. E meu pai também nunca contou para ele.
– Eu não contei para minha mãe. Quero dizer, é só que isso parece algo que devemos guardar para nós, sabe?
Eu entendia.
– Há outra coisa que preciso lhe contar – começou Ema.
– O quê?
– Você está certo sobre as tatuagens. Agent, da Tattoos While U Wait, as faz para mim. Todas são temporárias. Exceto, bem...
Ela arregaçou a manga da blusa até mostrar o ombro. Por um momento, arregalei os olhos como se aquilo fosse um prelúdio para um strip-tease ou algo assim. Ema deve ter visto minha expressão, porque revirou os olhos e disse:
– Pare com isso.
– O quê?
– Deixe pra lá. – Ela se virou e me mostrou suas costas. – Aqui, dê uma olhada. Agent diz que não sabe como isso aconteceu, mas por alguma razão essa tatuagem nunca sai.
Não precisei olhar, porque sabia a que tatuagem ela se referia. A imagem de que nunca me esqueço. Ou, eu acho, nunca nos esquecemos.
Era a tatuagem de uma borboleta com olhos nas asas.