Uma Questão de Segundos
capítulo 14
EU NÃO SABIA O QUE FAZER com o que tinha acabado de saber.
Ema era minha melhor amiga. Sei que isso podia parecer patético – só nos conhecíamos havia algumas semanas –, mas era verdade. Na realidade, éramos mais do que melhores amigos, embora eu ainda não soubesse bem o que isso significava.
Mas se ela estava em perigo... Se alguém a estava machucando...
Ema falara para eu não me intrometer.
Mas eu conseguiria?
A três casas de distância, avistei tio Myron em pé à porta da frente. Por um momento, fiquei ali olhando-o. Tentei entender meus sentimentos por ele, mas estavam todos confusos.
Myron me viu e acenou. Fiz o mesmo e corri em sua direção.
– Você está bem? – perguntou. – Como está se sentindo?
Eu sabia que ele tinha boas intenções, mas desejei que parasse.
– Estou bem.
– Deu no noticiário que, mesmo com os ferimentos, Rachel não corre risco de morte.
– Sim, foi isso que disseram na escola – menti.
– Você tem muito dever de casa?
– Um pouco.
– Vamos – disse Myron, indo na direção do seu carro. – Quero mostrar uma coisa.
– O quê?
– É surpresa. – Eu o segui. – E pode explicar por que não estarei muito por aqui nas próximas semanas.
“Não estarei muito por aqui?” Isso seria bom. Não me interprete mal. Eu entendia por que precisava morar com tio Myron. Ele se esforçava. Eu me esforçava. Mas queria minha mãe de volta. Meu pai, bem, estava morto. Não tinha jeito. Mas minha mãe estava apenas... enfraquecida, eu acho. Quando alguém está enfraquecido, pode se fortalecer, certo?
Lembrei-me da fotografia do nazista que se parecia com o paramédico do meu pai. Por um segundo, apenas um segundo, me perguntei se devia contar a Myron sobre isso. Mas o que ele faria? Pensaria que eu estava louco. E mesmo se não pensasse, eu queria envolvê-lo nisso? Confiava o suficiente nele para contar? Cabeça Raspada não tinha me avisado para não fazer isso?
Boas perguntas.
Deslizei para o banco do carona. Myron tinha um Ford Taurus. Passamos os primeiros dois minutos sentados em um silêncio desconfortável. Lido bem com silêncios desconfortáveis. Tio Myron, não.
– Entããão – começou ele, esticando a palavra –, como foi a escola hoje?
“É sério que você quer saber?”, pensei, contendo um suspiro.
– Bem.
– Fico muito feliz por você ser aluno da Sra. Friedman. Ela era minha professora favorita nos velhos tempos.
– É.
– Ela dá vida à história, sabe?
– Sei.
Olhei pela janela.
– Os testes de basquete começam na segunda-feira, certo?
“Deixa pra lá”, pensei.
– É.
– Boa sorte.
– Obrigado.
Ao passarmos pelo Instituto Coddington de Reabilitação, percebi que Myron estava tenso. Pisou um pouco mais forte no acelerador, tentando ser sutil. Já havia entendido: minha mãe estava lá. Depois de sua última recaída – que tinha sido feia –, disseram que eu não poderia visitá-la por pelo menos mais duas semanas. Não gostei disso. Achava que talvez a “cura” deles fosse muito cruel. Mas fiz o que me ordenaram. Ainda assim, olhava pela janela e imaginava o que acontecia no alto daquela colina. Minha mãe agora estava em abstinência. Imaginei-a sozinha em um quarto escuro, encolhida, com dor, enquanto o veneno saía de suas veias.
– Ela vai ficar bem – garantiu Myron.
Como se eu estivesse no clima para ouvir amenidades. Mudei de assunto.
– Para onde estamos indo?
– Espere mais um minuto e verá.
Myron dobrou numa estrada lateral. Logo à frente vi uma entrada para automóveis com um portão escuro ornado, como os que você vê em filmes de terror antigos. Dois leões de pedra guardavam a porta. Myron parou o carro. Inclinou-se para fora da janela e acenou para o guarda. Com um lento ranger, o portão se abriu.
– Ainda estamos em Kasselton? – perguntei.
– Sim, nos limites da cidade.
Esperei ver imediatamente uma casa, mas o caminho terminava no alto de uma colina. Não sei quanto tempo demorou para chegarmos lá, mas acho que ficava a uns 800 metros da entrada, e então vi a... bem, não se podia dizer que aquilo era uma “casa”. E também não era uma “mansão”. Era mais como um castelo escuro, uma versão de pesadelo do castelo da Disney. Tinha torres pontiagudas, quase como uma fortaleza.
– Um gângster famoso morou aqui durante quase cinquenta anos – comentou Myron. – Quando seu pai e eu éramos crianças, bem, ouvimos todos os tipos de boatos sobre este lugar.
– Como o quê?
Myron deu de ombros.
– Apenas histórias. Como as da casa de dona Morcega. Provavelmente não havia nada de verdadeiro nelas.
Se ao menos ele soubesse...
– Então, quem mora aqui agora? – perguntei.
– Você verá.
O carro parou. Havia um fosso ao redor do castelo. Acho que eu nunca tinha visto um. Um segurança corpulento fez um sinal afirmativo com a cabeça para nós. Myron assentiu também. Atravessamos a ponte. Meu tio bateu à porta.
Alguns segundos depois, um homem de fraque e cabelo penteado para trás nos cumprimentou.
– Boa noite, Sr. Bolitar.
Ele tinha um forte sotaque britânico e parecia saído de um daqueles documentários históricos ingleses entediantes.
– Boa noite, Niles.
Aquele cara era um mordomo?
– Este é o meu sobrinho, Mickey.
Niles sorriu para mim, mas não havia muito calor humano ali.
– Muito prazer.
– Muito prazer – respondi.
– Vocês podem esperar um pouco na sala de estar.
Não sei de onde vem a expressão “sala de estar”, mas aposto que Colherada poderia me dizer. É tão vago que daria para fazer qualquer coisa nesse cômodo. Ou nada. As cadeiras lá eram forradas de veludo vermelho. Fiquei em pé porque a mobília era velha e parecia que iria se quebrar se nos sentássemos. Notei que Myron ficou em pé também. Havia um globo antigo e muita madeira escura.
Niles entrou trazendo duas latas de Yoo-hoo. Myron sorriu alegremente. Yoo-hoo, para quem não sabe, é um tipo de bebida achocolatada. Myron adora. Eu acho que tem gosto de terra.
Myron pegou sua lata e começou a sacudi-la. Niles se virou para mim.
– Não, obrigado – recusei.
Niles nos deixou sozinhos. Voltei-me para Myron. Ele estava olhando para o Yoo-hoo como se fosse sua nova namorada. Pigarreei.
– E então? – perguntei.
Myron fez um gesto para nos sentarmos. Foi o que fizemos. Cautelosamente.
– Lembra quando meu amigo telefonou ontem? – começou Myron.
– Sim.
– Ele me pediu para lhe fazer um favor e vigiar alguém.
Estreitei os olhos.
– Vigiar?
– Sim.
– Como você me vigia?
Ele bebeu o achocolatado.
– Não foi bem isso.
E então ela entrou na sala.
Assim como não se podia dizer que aquele lugar era uma “casa”, dizer que ela “entrou” era pouco. Mas exato. Quero dizer, ela não fez nada de extraordinário. Realmente não. Não deslizou para a sala de estar, chegou em um cavalo branco ou fez algo do tipo. Mas foi como se tivesse feito.
Ela causou impacto apenas entrando.
Eu não disse “uau” em voz alta, mas foi por pouco.
Nós dois nos levantamos rapidamente, não porque estávamos sendo cavalheirescos, mas porque algo na entrada dela exigia isso. Lá, em carne e osso, estava o assunto da cidade, o pôster que ganhou vida, Angelica Wyatt.
– Você deve ser Mickey – disse ela.
Em suma, Angelica Wyatt era deslumbrante. Veio até mim e tomou minha mão na dela.
– Um rapaz muito bonito.
Olhei para Myron, que sorria como um idiota, e percebi que eu também devia estar assim.
– Ahn... obrigado.
Até mesmo com estrelas de cinema eu me mantinha sedutor.
– Estou muito feliz em conhecê-lo – comentou ela.
– Ahn... eu também.
Eu tinha que parar de babar.
– Vamos nos sentar – sugeriu ela.
Nós obedecemos. Myron e eu ficamos no sofá. Angelica, na cadeira de frente para nós. Ela cruzou as pernas devagar, querendo chamar atenção. Seu sorriso era suficiente para fazer um homem tropeçar.
– Obrigada por me emprestar seu tio – agradeceu ela. – Acham que preciso de proteção extra durante a filmagem.
Fitei Myron. Não estava entendendo direito. Ele era um agente de artistas. Como poderia proteger uma atriz famosa?
Será que, como meu pai, Myron também tinha alguns talentos ocultos?
Angelica pareceu examinar meu rosto.
– Sua semelhança com seu tio é óbvia – falou ela. – Mas também vejo muito de Kitty aí. Você tem os olhos dela.
Quando ouvi o nome da minha mãe, senti um nó na garganta.
– Você conhece minha mãe?
– Conheci – explicou ela. – Anos atrás. Quando ela era um prodígio do tênis e eu, bem, acho que você poderia me chamar de uma estrela iniciante.
Eu não sabia o que dizer.
– Como ela está? – perguntou Angelica.
Olhei de relance para Myron, mas ele desviou a vista. Então não havia lhe contado.
– Está passando por um momento difícil agora – respondi.
– Lamento saber – falou Angelica. – Quando eu soube sobre seu pai... – Ela engoliu em seco. – Eles eram muito próximos. Sinto muito.
– Também conheceu meu pai?
Dessa vez, foi ela que olhou de relance para Myron. Senti um peso, algo esmagando meu coração.
– Sim, conheci.
– Pode me dizer como?
Myron se remexeu um pouco, incomodado. Angelica desviou o olhar e um pequeno sorriso brincou em seus lábios. Minha mãe só tinha 33 anos. Calculei que Angelica era um ou dois anos mais velha.
– Foi uma época divertida – começou ela. – Talvez divertida demais, se entende o que eu quero dizer.
– Não entendo – retruquei.
– Acho que se pode dizer que éramos jovens celebridades. Sua mãe estava atraindo muita atenção com sua habilidade no tênis, para não mencionar sua beleza. Eu participava de uma série de TV, fazendo o papel de uma garota na universidade. – Seu sorriso foi melancólico. – Sua mãe... ela era tão divertida! Tinha uma risada maravilhosa e um jeito característico. Arrastava as pessoas até ela. Todos queriam ficar perto de Kitty Hammer.
Ela parou. Myron estava com a cabeça abaixada. Lembrei-me da risada da minha mãe. Era um som com que eu já estava acostumado e daria tudo para ouvi-lo de novo.
– E meu pai? – perguntei.
– Bem, ele veio e mudou tudo.
– Como?
Angelica pensou antes de responder.
– Dizem que o amor é como uma reação química. Já ouviu falar nisso?
– Acho que sim.
– Foi o que aconteceu. Foi como se sua mãe fosse uma pessoa antes de eles se conhecerem e do nada – Angelica estalou os dedos – se transformasse em uma diferente. – Ela sorriu. – Todos nós éramos muito jovens. Tudo foi rápido demais.
– Como assim? – perguntei.
– Quantos anos você tem, Mickey?
– Quase 16.
– Quando sua mãe tinha 16, já estava nas capas das revistas. Era considerada a grande promessa do tênis. As revistas de fofocas escreviam a seu respeito. E então, poucos meses depois, ela se apaixonou por seu pai.
A sala ficou em silêncio. Angelica deixou de fora a parte importante da história, é claro – o elefante na sala de estar.
Poucos meses depois, Kitty Hammer estava grávida. De mim. Ela foi forçada a parar de treinar no auge de sua carreira. Nunca mais jogou. Perdeu tudo.
Por quê?
Porque estava grávida, sim, mas também porque as pessoas mais próximas dos meus pais eram contra o casamento. Pressionaram o jovem casal. Disseram que eles eram jovens demais, que estavam sendo tolos, que havia muitas coisas que não sabiam um sobre o outro. Até mesmo falaram coisas horríveis e escandalosas sobre minha mãe na esperança de que meu pai enxergasse a “verdade”.
Virei-me e encarei Myron. A velha raiva voltou.
– Com licença.
Era Niles, o mordomo.
– A Srta. Wyatt tem uma entrevista pelo telefone para a Variety.
Angelica suspirou e se levantou e nós fizemos o mesmo. Ela pegou de novo minha mão nas suas e me fitou. Havia algo de reconfortante em seu olhar, algo cordial e genuíno.
– Voltaremos a nos falar, está bem?
– Seria muito bom – respondi.
E então ela se foi.