Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 37 de 53

Páginas do PDF

Uma Questão de Segundos

capítulo 37

COLHERADA ATENDEU o telefone:

– Central do Colherada.

– O que você está fazendo?

– Estou assistindo com meu pai ao último episódio da terceira temporada de Glee. Pela quarta vez. Você assistiu?

– Não.

– É muito emocionante.

– Tenho certeza de que sim.

– Não se preocupe. Eu tenho o DVD. Posso emprestar. Sabia que Lea Michele era a Wendla original em O despertar da primavera?

– Sim, isso é incrível. Ouça, Colherada, você pode sair?

– Sair? Quer dizer, de casa?

– Sim.

– Quer dizer agora?

Suspirei. Ema estava perto de mim. Tínhamos voltado para a rua e seguíamos na direção da Kasselton High.

– Sim, quero dizer agora.

– Ainda estou de castigo, está lembrado? Por quê, o que você está tramando?

– Tenho que abrir o armário de Ashley.

– Ah, eu sabia que tinha algo errado.

– Com o quê?

– Com o armário de Ashley. Veja bem, havia um cadeado Sevier com segredo nela.

– E daí?

– A escola só usa cadeados Master Lock. Se um aluno novo tivesse ficado com o armário de Ashley, usaria um Master Lock. A escola nunca permitiria uma marca diferente.

Isso só confirmava o que agora eu percebia ao olhar para a foto. Dona Morcega, Cabeça Raspada ou alguém em uma posição elevada no Abrigo Abeona a deixara no chão do porão para que a mensagem fosse clara: Ajudem Rachel.

Essa era nossa missão atual. Esquecer o incêndio. Não pensar em encontrar dona Morcega ou Cabeça Raspada. Nossa primeira missão tinha sido salvar Ashley. Agora precisávamos salvar Rachel.

– De qualquer maneira, quando o episódio terminar vai estar na minha hora de dormir – avisou Colherada. – Vou pegar minha xícara de leite morno, subir, apagar as luzes e depois sair pela janela. O que você acha?

– Parece ótimo – respondi.

– Talvez eu coloque alguns travesseiros debaixo do cobertor para dar a impressão de que ainda estou lá. Acha que isso é uma boa ideia?

– Você é quem sabe, Colherada.

– Ok, o episódio está quase terminado. Vou me encontrar com você naquela mesma porta da última vez.

Então me ocorreu outro pensamento.

– Espere.

– O que foi?

Ema olhou para mim, confusa. Como eu podia explicar? Colherada era muito jovem. Sim, todos nós éramos, mas ele parecia mais novo. Estava em casa inocentemente assistindo a Glee com o pai. Eu não podia lhe pedir para entrar de forma ilegal na escola de novo.

Estava prestes a lhe dizer para esquecer o que eu tinha falado – para ficar em sua bela e aconchegante cama e beber seu leite morno – quando me lembrei de outra coisa. Colherada era dono da própria vida e podia tomar suas próprias decisões. Ele não tinha me dito que já fora preso uma vez? Talvez não fosse mais tão inocente e eu não devesse agir como seu irmão mais velho superprotetor.

Além disso, na última vez em que Colherada quebrou as regras, ele salvou a vida de Ema.

– Algo errado, Mickey? – perguntou Colherada.

Apertei o telefone com mais força. Não sabia o que fazer. Não queria metê-lo em mais nenhuma encrenca, mas precisávamos dele.

– Não, nada. A gente se vê daqui a pouco.

Desliguei. Ema e eu nos encolhemos perto da porta lateral da escola. Quase lugar nenhum é mais vazio e sem vida do que uma escola à noite. Passava das nove quando Colherada se juntou a nós.

– Ponham isto – pediu. – Para esconder o rosto.

Colherada entregou máscaras para mim e Ema. Ficou com uma. Mas elas não pareciam, digamos, máscaras de esqui, como era de se esperar.

– São...? – comecei a perguntar.

– É, máscaras de O Rei Leão – respondeu Colherada. – Ema, eu lhe dei a de Mufasa. Ia dar a de Pumba, mas ele é um javali e, bem, achei que você ia me matar.

Ela fitou a máscara em sua mão com a testa franzida.

– Ia mesmo.

– Então, Mickey, você será Pumba e eu serei – ele pôs a máscara – Timão. Entendeu? Timão e Pumba? Hakuna matata. Vamos, ponha a sua. Isso será prático, mas também divertido.

Não me mexi.

Colherada tirou a máscara do rosto.

– Há câmeras de vigilância lá dentro. Se algo der errado, não queremos que alguém nos reconheça.

Olhei para Ema. Ela deu de ombros. Colherada tinha razão.

Ele pôs de novo sua máscara e se tornou um suricato sorridente.

– Mickey, com a altura que você tem deveria se curvar. Na verdade, todos nós deveríamos mudar nosso modo de andar. Ema, em vez de seu costumeiro andar altivo e irritado, você podia rebolar ou algo do gênero.

– Rebolar?

– Ou algo do gênero. Para que não possam identificá-la.

– Não vou rebolar.

– Ou algo do gênero.

– Também não vou fazer algo do gênero.

– Acho que as máscaras serão suficientes – concluí.

Colherada encolheu os ombros.

– Façam como quiser.

Fomos na direção da porta da escola. Colherada passou seu cartão-chave. Ouvi um clique e a porta se abriu. Olhei para Ema em busca de conforto, mas em lugar do rosto dela vi o de Mufasa. Bem, Mufasa parecia bastante resoluto, por isso segui Colherada para dentro.

– Não há gravação de áudio aqui – explicou Colherada em sua voz normal, sem diminuir o volume. O som foi alto e estridente e ecoou no corredor silencioso. – Há câmeras em todos os corredores. Elas filmam de cima, mas, como estamos usando máscaras, isso não importa muito.

Ele virou para a direita. Nós o seguimos.

– Aquela é a sala de aula da Sra. Nelson. Vocês sabem o que meu pai me disse? Que ela guarda velhas roupas íntimas e meias debaixo da escrivaninha. E não são do tipo sexy. Vocês já viram a Sra. Nelson? É de dar medo, não é? Mas meu pai disse que ela tem uma bela coleção de meias. De todas as cores e estilos. Querem vê-la?

– Não – respondi.

– Tudo bem. As portas das salas de aula nunca são trancadas. Por risco de incêndio ou algo assim. A menos que haja um confinamento. Vocês sabem o que é isso? Vejam bem, todas as salas têm um botão do pânico debaixo da escrivaninha da professora. No caso de um tiroteio na escola ou algum tipo de emergência, ele envia um alarme e a escola entra em confinamento. Legal, não é?

Felizmente, chegamos ao armário de Ashley. Colherada examinou o cadeado.

– É, como eu suspeitava. Um cadeado Sevier com segredo. – Ele balançou a cabeça. – Realmente uma pena.

– Você tem uma chave para abri-lo?

Timão olhou para mim. Era muito estranho olhar para meu amigo e ver o rosto sorridente de outro ser.

– Não, é claro que não. Não está dentro do regulamento.

– Então o que devemos fazer? – perguntou Ema.

Colherada pegou uma alavanca de pneu, enfiou-a na argola da tranca e virou-a com força. Ela cedeu com um clique como se fosse feita de porcelana.

– Voilà – disse Colherada.

Foi quando ouvi um barulho. Fiquei paralisado.

– Vocês ouviram isso? – sussurrei.

– Ouvimos o quê? – perguntou Colherada/Timão.

Olhei para Ema/Mufasa. Encarei sua máscara como se pudesse ver o rosto dela.

– Ema?

– Vamos nos apressar.

Colherada removeu o resto da tranca quebrada. Quando terminou, deu um passo para trás e fez um gesto para eu assumir o controle. Estendi o braço, abri o armário e espiei lá dentro.

Havia uma sacola de ginástica.

Eu a tirei e deixei cair no chão. Nós três ficamos ao redor dela e olhamos para baixo. Inclinei-me e abri o zíper. O som ecoou nos corredores silenciosos como o de um rasgão gigantesco. Por um momento, ninguém falou.

– Ah, meu Deus! – exclamou Colherada.

A primeira coisa que vi foi o dinheiro – maços e mais maços de notas presas com elásticos. Era impossível dizer quanto. Ema se abaixou, pegou um deles e passou os dedos.

– São todas de cem dólares – disse ela.

– Vocês sabiam que Benjamin Franklin era um excelente nadador? – indagou Colherada.

– Agora não, Colherada.

Ema afastou alguns maços para o lado e foi então que viu os sacos plásticos cheios de pó branco.

– Vocês acham que isso é droga? – perguntou Colherada.

– Acho que não é talco para bebê – respondi.

– Precisamos levar isso para a polícia – comentou Ema.

Colherada se aprumou de novo.

– Está brincando, não é?

– Não.

– Nós entramos ilegalmente na escola – lembrou Colherada, inquieto. – Arrombamos ilegalmente este armário. Sabe em que encrenca nos metemos?

– Ele tem razão – observei.

– E quem vai acreditar que apenas encontramos isso? – continuou Colherada, erguendo os braços agitados para o ar. – Suponham que achem que somos os traficantes das drogas. Sabem, já não tenho uma boa reputação. Vão me mandar para o xilindró.

– Xilindró? – repetiu Ema.

– Prisão, cadeia, cárcere, xadrez, cana...

– Ok, Colherada – disse eu.

– Não podemos dizer a ninguém que encontramos isso – insistiu Colherada. – Não entendem? Imaginem um gostosão como eu preso.

– Relaxe – falei. – Ninguém vai preso.

– E suponham que não acreditem em nós? – prosseguiu Colherada. – Suponham que digamos a verdade, eles acreditem e tudo leve a Rachel. Como ela vai explicar isso?

Silêncio. Até mesmo Ema sabia que o que ele estava dizendo fazia sentido.

– Precisamos pensar – afirmei.

– Rápido – acrescentou Colherada.

– Também não podemos simplesmente deixar isso pra lá – opinou Ema. – Agora sabemos o que aconteceu. A mãe de Rachel falou sobre o quanto o marido era mau. Rachel investigou. Encontrou esta sacola, a escondeu e entrou em contato com o Abrigo Abeona, certo?

Assenti, lembrando-me da conversa com Cabeça Raspada. Ele achou que Rachel tinha me dado um pacote. Perguntei-me por que Rachel não havia me contado sobre isso, mas agora entendia. A mãe dela foi morta por causa dessa sacola. A própria Rachel levou um tiro. Se me contasse onde ela estava... também estaria me colocando em perigo.

– Nesse meio-tempo – continuou Ema –, o pai de Rachel ou aqueles bandidos tentaram descobrir o que aconteceu com a sacola. Acharam que Rachel a tinha levado...

– Não – repliquei. – Provavelmente acharam que a mãe de Rachel a havia levado.

– Certo. Então foram atrás dela e sabemos o que aconteceu depois.

– Ela acabou morta.

– Temos que ir – afirmou Colherada. – Vamos pôr a sacola de volta no armário e tentar não pensar nela.

– Isso também não vai dar certo – falei. – A tranca está quebrada. Não podemos deixá-la em um armário sem tranca.

– Então o que vamos fazer? – perguntou Ema.

– Entregá-la para nós.

Virei-me na direção da voz áspera. Os dois homens que vi no carro na casa de Rachel estavam lá. Ambos tinham armas. Scarface, aquele contra o qual o detetive Waters me prevenira, ordenou:

– Ninguém se mova. Ponham as mãos para cima.

– Mas se não devemos nos mover, como podemos pôr as mãos para cima? – indagou Colherada.

Scarface apontou sua arma para o peito de Colherada.

– Está bancando o espertinho comigo?

– Não, não, tudo bem – disse eu, com a maior calma possível. – Todos nós vamos fazer exatamente o que você está dizendo. Você é quem manda aqui.

– Pode apostar que sim – retrucou Scarface, voltando sua atenção para mim. – Agora tirem essas máscaras idiotas.

– Mas se não devemos nos mover... – começou Colherada.

– Colherada – interrompi-o.

Balancei a cabeça para indicar que ele devia calar a boca. Tiramos nossas máscaras e as deixamos cair no chão.

Scarface pôs sua arma no bolso. Seu parceiro, um homem enorme, continuou com a dele apontada. Mesmo no escuro e em um recinto fechado, estava de óculos de sol, e tinha o rosto mais inexpressivo que eu já vira. Parecia um assassino frio e entediado para quem tanto fazia atirar em nós ou não. Eu não sabia o que fazer ou dizer, por isso apenas permaneci em silêncio.

Scarface se dirigiu à sacola de ginástica. Abaixou-se e olhou para dentro.

– Está tudo aí? – perguntou Óculos Escuros.

– Parece que sim – respondeu Scarface. Ele se levantou e sorriu para mim. – Obrigado por encontrar nossas coisas para nós, Mickey.

– Como sabe meu nome?

– Muito simples. Achamos que Rachel ou a mamãe dela tinham roubado nosso pacotinho do papai. Por isso verificamos os registros das chamadas do celular dela. Pelo visto, ela telefonou para você logo antes do grande bangue-bangue, por isso imaginamos que talvez você, o namorado dela, a tivesse ajudado a escondê-lo. Então começamos a segui-lo. Moleza, certo?

Aquela conversa infantilizada era irritante, para dizer o mínimo.

– Certo – respondi. – Você conseguiu suas coisas. Agora podemos ir.

Scarface sorriu para Óculos Escuros. O canto dos lábios do outro se contraiu. Não gostei daquilo.

Scarface fechou o zíper da sacola.

– Quando seguimos você até aquela casa incendiada, por um segundo pensei que Rachel tinha escondido a sacola lá e ela tivesse sido queimada. Teria sido muito, muito ruim.

– Mas esse não foi o caso – repliquei, me aprumando para tentar ficar um pouco mais alto. – Suas coisas estavam aqui o tempo todo. Agora as recuperou.

– É – concordou Scarface. – Eu sei. Só há um problema.

Engoli em seco. A pequena pontada de medo em meu peito começou a se intensificar, dificultando minha respiração.

– Qual?

– Vocês viram nossos rostos.

– Não diremos uma palavra – garantiu Ema.

Scarface voltou sua atenção para ela. Quando se aproximou de Ema, tentei me colocar no meio, mas ele me impediu com um olhar cruel, de quem gosta de machucar os outros. De quem, observei com crescente horror, nunca seria movido pela razão.

– Esperam que eu apenas confie em vocês, gracinhas? – perguntou Scarface. Agora o rosto dele estava a apenas centímetros de Ema. Ela parecia prestes a chorar. – Esperam que a gente apenas os deixe ir?

– Meus braços estão ficando cansados – comentou Colherada. – Posso abaixá-los?

Scarface se virou na direção dele.

– Eu disse para você não se mover.

– Sim, você disse, mas depois fez com que nos movêssemos duas vezes, uma para pormos as mãos para cima e outra para tirarmos as máscaras. – Colherada deslizou para a direita. – Então essa coisa toda de “não se mova” parece mais uma diretriz do que uma ordem rígida, entende o que eu quero dizer? Por isso eu esperava, vendo como meus braços estão realmente cansados...

Então Colherada fez o impensável.

Aproveitando a distração que sua idiotice provocava, ele pulou sobre Óculos Escuros. O movimento surpreendeu todos.

E então ouvi a arma disparar. E Colherada caiu no chão, sangrando.