Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 16 de 53

Páginas do PDF

Uma Questão de Segundos

capítulo 16

QUANDO CHEGAMOS EM CASA, Myron e eu seguimos caminhos diferentes. Fiz o dever de casa com a televisão ligada, esperando saber de alguma novidade sobre os tiros na casa de Rachel, mas os noticiários não mencionaram nada.

Pensei muito em Rachel sentada naquela cama de hospital. Pensei em Ema e nos boatos que Colherada ouvira. Pensei em minha mãe passando pela desintoxicação. Pensei em meu pai morto e nas palavras enigmáticas de dona Morcega. Pensei no aviso de Myron sobre os perigos de ser um herói.

Ia ligar o computador e fazer uma busca pelo nome de Rachel, mas antes mudei de canal, achando que deveria assistir ao jornal local. O Canal 5 estava dando seu fatídico aviso noturno – “São dez horas da noite. Você sabe onde seus filhos estão?” – antes de passar para o noticiário.

O âncora tinha cabelos pretos que pareciam uma peruca recém-tingida e blush suficiente nas bochechas para me fazer lembrar um palhaço.

“O presidente visita tropas no exterior. Tiros em Kasselton deixam uma mãe morta e uma filha hospitalizada. E o refrigerante que você está bebendo? Pode conter veneno. Nós falaremos tudo sobre o grande escândalo do refrigerante e como permanecer seguro... depois do intervalo.”

Olhei para meu copo de água. Fiquei feliz por não ser refrigerante.

Quando o âncora de cera voltou, falou sobre o presidente e depois veio a matéria do “escândalo do refrigerante”, na qual uma pessoa afirmava ter encontrado um verme em certo refrigerante comprado em um fast-food em West Nyack. Portanto, a dica sobre como permanecer seguro parecia ser checar seu refrigerante se você o comprasse naquele fast-food em West Nyack.

Finalmente: “Tiros em um bairro elegante de Kasselton, Nova Jersey, na noite passada, deixaram uma mãe morta e sua filha com um ferimento de bala na cabeça.” Na tela, aparecia a casa de Rachel. “Os disparos a Nora Caldwell e sua filha Rachel aconteceram nesta luxuosa mansão. A polícia acredita que tenha sido uma tentativa frustrada de invasão, mas afirma que é cedo demais para especular.”

Então eles não sabiam nada, pensei.

Muitas coisas me incomodavam na investigação. Em primeiro lugar, eu tinha ido à casa de Rachel um dia antes dos tiros. Ela havia me contado que seus pais eram divorciados, que vivia com o pai, quase sempre ausente (viajando com sua terceira esposa, bem mais nova que ele), e a mãe morava na Flórida. Por que não mencionara que a mãe fora visitá-la, talvez até hospedando-se na casa do ex-marido?

Isso fazia sentido?

Rachel teria achado que não era importante ou havia algo mais ali?

Eu não sabia. Mas alguma coisa parecia não se encaixar.

Além disso, o que havia por trás da estranha visita do chefe Taylor a Rachel? Ele deve tê-la conhecido por intermédio do filho, Troy – tentei não trincar os dentes ao pensar nisso –, mas por que Taylor não queria que Rachel falasse com a investigadora da Homicídios antes de conversar com ele? Estava com medo do que ela diria ou, o que era mais provável, era apenas um babaca que queria saber tudo primeiro?

Fui para a cama, pensando no fato de que tanto Rachel quanto eu tínhamos perdido um dos pais. Isso fazia você se sentir como se sempre estivesse em terreno movediço, como se a terra fosse ceder a qualquer momento e você pudesse cair sem que ninguém conseguisse segurá-lo.

Pensei em Ema e nos boatos. Tentei imaginar onde ela estava naquele exato segundo e se estaria bem. Peguei meu celular e digitei uma mensagem de texto: só queria dizer boa-noite.

Dois minutos depois, Ema respondeu: às vezes vc é patético.

Sorri e respondi: ok. boa noite.

Ema: consegui algumas informações sobre o paramédico nazista.

Eu: o quê?

Ema: me encontre na segunda antes das aulas. então vou poder te contar.