A Revelação de Rama
Capítulo 8
— Não tenho idéia do que você está falando — disse Nicole impaciente.
— Os meninos. Tenho um plano para eles fugirem e se encontrarem conosco em Nova York. Cheguei até a reprogramar Joana e Eleonor.
Nicole ficou olhando para o marido, a emoção lutando contra a razão, enquanto ele explicava seu plano.
— Espere um instante, Richard — interrompeu, depois de um instante. — Primeiro temos de fazer uma pergunta muito importante... O que faz você pensar que os meninos querem fugir? Eles não estão refugiados no Novo Éden, nem presos. É verdade que Nakamura é um tirano e que a vida na colônia é difícil e deprimente, mas ao que eu saiba nossos filhos são tão livres quanto quaisquer outros cidadãos. E se tentassem se juntar a nós e falhassem, a vida deles estaria em perigo... Além disso, nossa existência aqui, embora seja ótima para nós, não seria um paraíso para eles.
— Eu sei... eu sei... e talvez esteja sendo levado pelo meu desejo de vê-los novamente... Mas qual é o risco de mandarmos Joana e Eleonor falar com eles? Patrick e Ellie são adultos e podem tomar uma decisão...
— E Benjy e Katie? — perguntou Nicole. Richard franziu a sobrancelha.
— É claro que Benjy não poderia vir por conta própria, e assim a sua participação depende da vontade dos outros em ajudá-lo. Quanto a Katie, ela é tão instável e imprevisível... que poderia até resolver contar tudo para Nakamura... Acho que não temos outra saída senão deixar Katie fora disso...
— Um pai nunca perde a esperança — disse Nicole carinhosamente, tanto para si própria como para Richard. — Aliás, o seu plano também inclui Max e Eponine? Eles são quase membros da nossa família.
— Max é a pessoa perfeita para coordenar a fuga de dentro da colônia — continuou Richard, cada vez mais entusiasmado. — Ele foi fantástico escondendo você e depois levando-a para o lago Shakespeare sem ser apanhado. Patrick e Ellie precisarão de uma pessoa madura e de cabeça fria para ajudá-los nos detalhes... No meu plano, Joana e Eleonor entram em contato com Max primeiro. Além de ele já conhecer os robôs, poderá fazer uma boa avaliação do plano. Se nos disser, através dos robôs, que a idéia é absurda, a gente arquiva o plano.
Nicole tentou imaginar sua alegria quando abraçasse um dos filhos de novo. Mas era impossível.
— Tudo bem, Richard — disse ela, sorrindo. — Admito que estou interessada... Vamos conversar sobre isso... Mas temos de nos prometer não fazer nada que possa pôr em risco a vida das crianças.
8
Max Puckett e Ellie Turner deixaram Eponine, Robert e a pequena Nicole logo depois do jantar e foram caminhar em volta da casa da fazenda de Max no Novo Éden. Assim que se afastaram, Max começou a contar a Ellie sobre as recentes visitas dos robozinhos. Ellie não podia acreditar no que estava ouvindo.
— Você deve estar enganado — disse em voz alta para Max. — Eles não podem estar sugerindo que a gente saia de...
Max pôs o dedo nos lábios enquanto os dois caminhavam os últimos metros até o celeiro.
— Você mesma vai falar com eles — disse num sussurro. — Mas, segundo essas criaturinhas, há lugar de sobra para todos nós na toca onde você viveu seus primeiros anos de vida.
Estava escuro no celeiro. Antes de Max acender a luz, Ellie já tinha visto os robozinhos brilhando ao seu lado, no peitoril de uma das janelas.
— Alô, Ellie — disse Joana, ainda com sua armadura. — Sua mãe e seu pai mandaram lembranças.
— Viemos ver você esta noite — acrescentou Eleonor — porque Max achou que seria melhor você própria ouvir o que vamos dizer. Richard e Nicole estão convidando você e seus amigos para irem morar na antiga toca deles em Nova York, onde estão vivendo uma vida espartana porém pacífica.
— Tudo lá na toca — continuou Joana — continua igual a quando você era criança. Comida, roupas e outros objetos continuam a ser fornecidos pelos ramaianos, solicitados através do teclado do Salão Branco. Há água potável à vontade na cisterna perto do fundo da escada de entrada.
Ellie ouvia fascinada à medida que Joana a lembrava de sua vida na cidade-ilha, ao sul do segundo habitat. Tentou visualizar a toca, mas a imagem que vinha à cabeça era por demais vaga. Lembrava-se claramente dos seus últimos dias em Rama, com os espetaculares anéis de luz emanando do Grande Chifre e espraiando-se aos poucos ao norte do gigantesco cilindro. Mas o interior de sua toca continuava nebuloso. Por que não lembrar ao menos do meu quarto com mais nitidez? Será porque aconteceu muita coisa desde aquela época que ficou mais fundo na minha memória?
Uma montagem de imagens da sua primeira infância passou pela cabeça de Ellie. Algumas delas eram de Rama, mas a maioria se referia ao apartamento de sua família em Nodo. As indeléveis características da Águia, uma figura divina para a pequena Ellie, pareciam presidir a montagem.
Eleonor de Aquitânia perguntou alguma coisa a Ellie, mas de início a jovem não ouviu, perdida nas suas reminiscências.
— Desculpe, Eleonor. Pode repetir a pergunta, por favor? Acho que eu estava temporariamente perdida na minha infância.
— Sua mãe perguntou sobre Benjy. Ele ainda está na enfermaria em Avalon?
— Está. E está se saindo até muito bem. Sua melhor amiga agora é Nai Watanabe. Quando a guerra terminou, ela se apresentou como voluntária para trabalhar com os que tinham sido enviados para a enfermaria de Avalon por uma razão ou por outra. Ela passa algum tempo com Benjy todos os dias e o tem ajudado muito. Os gêmeos dela, Kepler e Galileu, adoram brincar com Benjy — que na verdade é uma criança —, embora Galileu às vezes seja cruel com ele e Nai se sinta muito mal com isso.
— Como eu lhe falei — disse Max, voltando ao assunto principal —, Nicole e Richard deixaram a nosso cargo decidir quem deveria partir conosco, caso tentemos uma saída em massa. Benjy segue as orientações que lhe dão?
— Creio que sim, desde que confie na pessoa que o orienta. Mas não será possível contar-lhe com antecedência sobre a fuga. Não poderíamos esperar que ele não dissesse nada a ninguém. Segredo e astúcia não fazem parte da personalidade de Benjy. Ele ficará maravilhado, mas...
— Sr. Puckett — interrompeu Joana d'Arc —, o que devo dizer para Richard e Nicole?
— Que droga, Joana, tenha um pouco de paciência... Aliás, é melhor você voltar dentro de uma semana, depois que Ellie, Eponine e eu tivermos mais tempo para conversar sobre o assunto e pudermos dar a você algum tipo de resposta... Diga a Richard que eu achei a coisa toda interessante, embora bastante maluca.
Max colocou os dois robôs no chão do celeiro e eles desapareceram. Depois que saiu, por sua vez, do celeiro com Ellie, Max tirou um cigarro do bolso.
— Espero que você não se ofenda se eu fumar aqui fora — disse, com uma risadinha.
Ellie sorriu.
— Você não quer contar para Robert, não é, Max? — disse ela um instante depois, enquanto Max fazia rodinhas de fumaça no ar.
Max sacudiu a cabeça.
— Ainda não. Talvez só na última hora — respondeu, pondo o braço em volta de Ellie. — Minha menina, eu gosto do seu marido médico, gosto mesmo, mas às vezes acho as atitudes e prioridades dele um tanto estranhas. Não tenho certeza se ele não contaria nosso plano para alguém...
— Você acha, Max, que talvez Robert tenha feito algum tipo de voto secreto de não se voltar a contra a autoridade? É que ele tem medo de que...
— Que merda, Ellie, não sou psicólogo. Acho que nenhum de nós pode compreender o que significou para ele matar duas pessoas a sangue-frio. Mas sei que é bem provável que ele não guarde nosso segredo para evitar uma decisão pessoal penosa, entre outras coisas. — Max tragou o cigarro e olhou para sua jovem amiga.
— Você não acredita que ele vá conosco, não é, Max? Nem mesmo se eu pedir.
Max sacudiu a cabeça mais uma vez.
— Não sei, Ellie. Vai depender de quanto ele precisa de você e da pequena Nicole. Robert criou um espaço para vocês duas na vida dele, mas continua a esconder seus sentimentos por trás do trabalho.
— E você, Max? — perguntou Ellie. — O que você realmente pensa desse esquema todo?
— Eponine e eu estamos prontos para ir, para termos um pouco de aventura — disse ele, sorrindo. — Além disso, mais cedo ou mais tarde, vou ter sérios problemas com Nakamura.
— E Patrick?
— Ele vai adorar a idéia. Mas tenho medo que diga alguma coisa a Katie. Eles têm um relacionamento especial...
Max parou no meio da frase quando viu Robert aparecer na frente da casa, carregando a filhinha no colo.
— Ah, você está aí, Ellie — disse Robert. — Achei que você e Max tivessem se perdido no celeiro... Nicole está muito cansada e eu tenho de sair muito cedo para o hospital amanhã...
— É claro, querido. Max e eu estávamos nos lembrando de alguns episódios com meu pai e minha mãe...
Deve parecer um dia perfeitamente normal, pensou Ellie ao mostrar seu cartão de identidade à biota Garcia, na entrada do supermercado de Beauvois. Devo me comportar exatamente como se hoje fosse uma quinta-feira comum.
— Sra. Turner — disse a Garcia um instante depois, passando-lhe uma lista de computador pregada na parede —, aqui está sua ração para a semana. Estamos sem brócolis e tomates de novo, portanto, incluímos duas medidas extras de arroz... Agora pode entrar na fila para pegar suas provisões.
A pequena Nicole entrou com Ellie na ala principal do supermercado. Do outro lado de um biombo, onde nos primeiros dias da colônia os cidadãos do Novo Éden faziam suas próprias compras, cinco a seis biotas Tiasso e Lincoln, todos de uma série de trezentos completamente reprogramados pelo governo de Nakamura, andavam para baixo e para cima, preenchendo os pedidos. Grande parte das prateleiras estava vazia. Embora a guerra já tivesse terminado há algum tempo, a temperatura instável do Novo Éden e também o descontentamento da maioria dos fazendeiros quanto aos métodos violentos de Nakamura tinham baixado a produção a um nível mínimo. Por isso, o governo achara necessário supervisionar a distribuição de alimentos. Somente os favoritos do governo tinham mais do que o essencial para comer.
Na fila havia uma meia dúzia de pessoas na frente de Ellie e de sua filhinha de dois anos. Toda quinta-feira à tarde Ellie fazia compras com aquelas mesmas pessoas. Quando as duas entraram na fila, algumas delas se viraram para trás.
— Aí está a linda menininha — disse uma senhora de cabelos grisalhos. — Como vai você, Nicole?
Nicole não respondeu. Deu uns passos atrás e abraçou-se às pernas de sua mãe.
— Nicole ainda é muito tímida — disse Ellie. — Só conversa com gente que ela conhece.
Um biota Lincoln trouxe duas caixinhas de comida e entregou-as a um pai com seu filho adolescente que estavam no primeiro lugar da fila.
— Não vamos usar o carrinho hoje — disse o pai para o biota Lincoln. — Por favor, anote isso no nosso dossiê... Há duas semanas, quando nós também carregamos nossas compras, ninguém notou que não havíamos pegado o carrinho. Fomos acordados no meio da noite por uma Garcia pedindo que devolvêssemos o carrinho ao supermercado.
Não pode haver erros triviais, disse Ellie para si mesma. Não se pode deixar de devolver os carrinhos, nada de que alguém possa suspeitar, antes de amanhã. Enquanto esperava na fila, foi repassando os detalhes do plano de fuga que ela e Patrick haviam discutido com Max e Eponine no dia anterior. Tinham escolhido uma quinta-feira porque era o dia em que Robert fazia suas visitas regulares aos doentes de RV-41 em Avalon. Max e Eponine tinham pedido, e recebido, um passe para irem jantar com Nai Watanabe. Eles cuidariam de Kepler e Galileu enquanto Nai fosse à enfermaria buscar Benjy. Tudo estava em ordem. Havia apenas uma grande incerteza.
Ellie tinha treinado centenas de vezes a conversa que teria com Robert. Sua reação inicial será negativa. Ele vai dizer que é muito perigoso, que eu estou pondo em risco a segurança de Nicole. E ficará zangado por eu não ter contado tudo para ele antes.
Na sua imaginação ela já tinha respondido a todas as suas objeções e descrito cuidadosamente a vida que levariam em Nova York, sob uma perspectiva va positiva. Mas continuava muito nervosa. Não conseguira se convencer de que Robert concordaria em partir com eles. E não tinha idéia do que ele faria se ela declarasse que estava preparada para levar a filha e partir sem ele.
Quando suas compras foram colocadas no carrinho que seria devolvido ao supermercado depois de descarregar tudo em casa, Ellie apertou a mão da filhinha. Está quase na hora. Preciso tomar coragem. Preciso ter fé.
— Como você espera que eu reaja? — disse Robert Turner. — Eu chego em casa depois de um dia excepcionalmente trabalhoso no hospital, pensando em centenas de coisas que tenho de fazer amanhã, e você me diz no jantar que quer que nós deixemos o Novo Éden para sempre. E que aja hoje à noite...
— Sei que foi repentino, Robert — disse Ellie, cada vez com mais medo de ter subestimado a dificuldade da sua tarefa —, mas eu não podia te dizer antes. Seria muito perigoso... E se você se traísse e dissesse alguma coisa para Ed Stafford ou outro membro de sua equipe e um dos biotas ouvisse?...
— Mas eu não posso simplesmente ir embora sem dizer nada a ninguém — falou Robert, sacudindo a cabeça. — Você tem idéia de quantos anos de trabalho seriam jogados fora?
— Você não pode escrever o que tem de ser feito em cada projeto? — sugeriu Ellie. — Ou fazer um resumo do que já foi realizado...
— Não numa noite — respondeu Robert com toda ênfase. — Não, Ellie, está fora de questão. Nós não podemos ir. O plano de saúde a longo termo da colônia pode depender dos resultados da minha pesquisa... Além do mais, mesmo que seus pais estejam vivendo confortavelmente nesse lugar bizarro que você descreveu, seja lá onde for, não me parece um bom lugar para criar uma criança... E você nem ao menos considerou o possível perigo para todos nós. Nossa saída daqui será vista como uma traição. Nós dois poderíamos ser executados se fôssemos apanhados. E o que aconteceria a Nicole então?
Ellie ouviu as objeções de Robert por mais algum tempo e de repente percebeu que havia chegado a hora de sua declaração. Juntando toda a sua coragem, ela andou em volta da mesa e pegou nas mãos do marido.
— Eu venho pensando nisso há quase três semanas, Robert... Você precisa compreender como é difícil para mim tomar essa decisão... Eu te amo de todo meu coração, mas se for preciso Nicole e eu iremos sem você... Sei que há muita incerteza nesse plano de partida, mas a vida aqui no Novo Éden não tem nada de saudável para nenhum de nós...
— Não, não, não — disse Robert imediatamente, largando as mãos de Ellie e andando em volta da sala. — Não acredito em nada disso. É tudo um pesadelo... — Fez uma pausa e olhou para Ellie... — Você não pode levar Nicole — disse, de forma apaixonada. — Está me ouvindo? Eu proíbo que você leve a nossa filha...
— Robert! — interrompeu Ellie com um grito, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. — Olhe para mim... Eu sou sua mulher, a mãe de sua filha... Eu te amo. Pelo amor de Deus, ouça o que vou dizer.
Nesse momento, Nicole entrou correndo na sala e começou a chorar ao lado da mãe. Ellie se compôs e continuou:
— Não acredito que você seja o único desta família que possa tomar decisões. Eu tenho o mesmo direito. Posso respeitar seu desejo de não ir embora, mas sou a mãe de Nicole. Se tivermos de nos separar, acho que seria melhor para ela ficar comigo...
Ellie parou. O rosto de Robert estava contorcido de dor. Ele deu um passo na direção dela, e, pela primeira vez na vida, Ellie teve medo de que Robert lhe batesse.
— O melhor para mim — gritou Robert, com o punho da mão direita levantado — seria que você esquecesse toda essa bobagem.
Ellie recuou um pouco e Nicole continuou a chorar. Robert lutava para se controlar.
— Eu jurei — disse, com a voz tomada de emoção — que ninguém e nada iria fazer com que eu magoasse alguém assim de novo...
As lágrimas escorriam-lhe dos olhos.
— Que droga! — continuou, dando um soco na mesa ao lado. Sem dizer mais nada, sentou-se na cadeira e afundou o rosto nas mãos.
Ellie consolou Nicole e ficou calada um instante.
— Eu sei como foi doloroso para você perder sua primeira família. Mas Robert, essa situação é inteiramente diferente. Ninguém vai fazer mal a mim e a Nicole.
Ellie atravessou a sala e pôs os braços em volta dele.
— Não estou dizendo que seja uma decisão fácil, Robert. Mas estou convencida de que é a coisa certa para Nicole e para mim.
Robert retribuiu o abraço de Ellie, mas sem muito entusiasmo.
— Não vou impedir você e Nicole de irem — disse, resignado, depois de um instante. — Mas não sei o que eu vou fazer. Gostaria de pensar nisso nas próximas horas enquanto estivermos em Avalon.
— Tudo bem, querido — respondeu Ellie. — Mas, por favor, não se esqueça de que Nicole e eu precisamos de você mais do que seus pacientes. Você é o único marido e pai que nós temos.