A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 7 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 5

Fazia quase setenta e duas horas que Nicole entrara no lago Shakespeare quando ela e os dois robôs finalmente chegaram ao lugar especificado para o encontro. Elas estavam na extremidade oposta à entrada do segundo habitat, onde a densidade normal de seres humanos era muito baixa. Um submarino emergiu pouco depois de sua chegada. Um lado do submarino se abriu e Richard Wakefield, com um enorme sorriso na cara barbada, correu para sua amada esposa. O corpo de Nicole tremeu de alegria quando sentiu seus braços em torno dela.

 

5

Tudo era tão familiar. Exceto pela quantidade de coisas que Richard acumulara durante seus meses de solidão, e pela conversão do quarto das crianças em dormitório para as duas aves-filhotes, a toca subterrânea de Nova York era exatamente a mesma que fora quando Richard, Nicole, Michael O'Toole e seus filhos tinham partido de Rama anos atrás.

Richard estacionou o submarino em uma baía natural ao sul da ilha, em um lugar que ele batizara de O Porto.

— Onde você arranjou esse submarino? — indagou Nicole enquanto caminhavam na direção da toca.

— Foi um presente — disse Richard. — Ou pelo menos considerei um presente. O superchefe das aves me mostrou como manobrar o submarino, depois desapareceu e deixou-o aqui.

Andar em Nova York era uma experiência esquisita para Nicole. Mesmo no escuro os arranha-céus lhe lembravam os anos em que ela vivera naquela ilha misteriosa no meio do mar Cilíndrico.

Há quantos anos saímos daqui?, ia pensando Nicole, quando Richard, de mão dadas com ela, parou ao lado do celeiro onde Francesca Sabatini a largara para que ela morresse no fundo de um poço. Mas Nicole sabia que aquela pergunta não tinha como ser respondida. Aquele tempo intermediário não podia ser medido de forma normal, pois eles tinham feito duas longas viagens interestelares a velocidades relativistas, a segunda delas dormindo num beliche especial, com uma tecnologia extraterrestre retardando seu processo de envelhecimento através de cuidadosa manipulação de suas enzimas e de seu metabolismo.

— As únicas alterações feitas na nave Rama em cada visita a Nodo — dissera Richard quando eles se aproximavam de sua antiga casa — foram as necessárias para acomodar a missão seguinte. Portanto, nada mudou na nossa toca. A tela preta ainda está lá na Sala Branca, e também nosso teclado. Os procedimentos para fazer solicitações aos ramaianos, ou qualquer outro nome que dermos aos nossos hospedeiros, também estão intactos.

— E as outras tocas? — perguntou Nicole, quando eles desciam a rampa para chegar ao nível em que viviam. — Você esteve neles?

— A toca das aves virou um túmulo — disse Richard. — Estive lá várias vezes. Uma vez entrei com cuidado na toca das octoaranhas, mas só cheguei até a sala da catedral, com os quatro túneis levando para...

Nicole o interrompeu, rindo:

— Os túneis que nós chamávamos de Mindinho, Seu Vizinho, Pai de Todos e Fura-Bolos...

— Isso mesmo — continuou Richard. — O fato é que eu não me senti bem lá. Tive uma sensação, embora não pudesse identificar nada de específico, de que a toca ainda estava habitada. E que as octoaranhas, ou qualquer outra coisa que esteja morando lá, vigiavam meus passos. — Daquela vez foi Richard quem riu. — Acredite ou não, eu também me preocupei com o que poderia acontecer com Tammy e Timmy se por algum motivo eu não voltasse mais.

A primeira apresentação de Nicole a Tammy e Timmy, os filhotes de aves que Richard tinha criado desde que nasceram, foi indescritível. Richard construíra uma meia porta para o quarto das crianças e fechara-a bem quando saiu para encontrar-se com Nicole dentro do segundo habitat. Como aquelas criaturas com aspecto de pássaros ainda não sabiam voar, não conseguiram sair do quarto durante a ausência de Richard. Mas assim que ouviram a voz dele na toca, começaram a matraquear e a grasnar até Richard abrir a porta e colocá-las no colo.

— Eles estão me dizendo — gritou Richard para Nicole por cima daquela barulhada — que eu não devia tê-los deixado aqui sozinhos.

Nicole ria tanto que seus olhos se encheram de lágrimas. Os dois filhotes esticaram o pescoço até o rosto de Richard, interrompendo seus guinchos de vez em quando para acariciar com o bico as suas bochechas barbudas. As aves ainda eram pequenas, com cerca de setenta centímetros de altura quando ficavam de pé, mas tinham o pescoço tão comprido que pareciam ser muito maiores.

Nicole ficou observando com admiração seu marido cuidar daquelas aves alienígenas. Ele limpava seus excrementos, não as deixava sem comida fresca e água, e via se suas camas de feno do canto do quarto estavam bem macias. Você se aprimorou muito, muito, Richard Wakefield, pensou Nicole, lembrando-se da relutância dele no passado para assumir suas obrigações de pai. Ela ficou muito comovida com a dedicação àqueles filhotes de aves. Será possível que cada um de nós tenha dentro de si esse tipo de amor altruísta? E que tenhamos de superar todos os problemas criados pela hereditariedade e pela sociedade para descobrir esse amor?

Richard guardara os quatro melões-maná e a fatia do séssil em um quarto do Salão Branco, e explicou a Nicole que não havia observado qualquer mudança nos melões nem no material séssil desde que chegara em Nova York.

— Talvez os melões possam ficar hibernados por longo tempo, como as sementes — disse Nicole ao ouvir a explicação de Richard sobre o complexo ciclo de vida da espécie séssil.

— Foi isso que pensei — falou Richard. — É claro que não tenho idéia das condições em que os melões possam germinar... Essa espécie é tão estranha e tão complicada que eu não me surpreenderia se o processo fosse controlado por aquele pequeno pedaço de séssil.

Na primeira noite que passaram juntos, Richard teve dificuldade em fazer com que os filhotes dormissem.

— Eles estão com medo de que eu os deixe sozinhos de novo — explicou, ao voltar para o Salão Branco depois da terceira vez em que os guinchos enfurecidos de Tammy e Timmy interromperam seu jantar com Nicole. Finalmente, Richard programou Joana e Eleonor para divertir as aves. Foi a única forma de mantê-las quietas para que pudesse ficar um pouco sozinho com Nicole.

Eles fizeram amor com muita suavidade antes de dormir. Richard admitira, quando estava se despindo, que não tinha certeza se conseguiria... mas Nicole lhe disse que o fato de conseguir ou não não teria nenhuma importância. Ela insistiu que ficaria felicíssima só de ter o corpo dele junto ao seu, e que qualquer estímulo sexual seria um prêmio magnífico. Mas é claro que os dois se saíram muito bem, como tinham se saído desde a primeira vez em que dormiram juntos. Depois que fizeram amor, continuaram na cama de mãos dadas, lado a lado, sem dar palavra. Os olhos de Nicole encheram-se de lágrimas, que rolaram pelo seu rosto lentamente, chegando a entrar nos seus ouvidos. Ela sorriu no escuro, sentindo-se por um instante gloriosamente feliz.

 

Pela primeira vez na vida os dois não tinham pressa. Conversavam toda noite, às vezes até mesmo enquanto faziam amor. Richard contou a Nicole muito mais sobre sua infância e adolescência do que jamais contara, inclusive suas sofridas lembranças da violência paterna, e os detalhes de seu primeiro desastroso casamento com Sarah Tydings.

— Agora percebo que Sarah e meu pai tinham uma coisa fundamental em comum — disse Richard certa noite. — Os dois foram incapazes de me dar a aprovação que eu buscava com tanta sofreguidão; mas de certa forma eles sabiam que eu continuaria tentando até conseguir aquela aprovação, mesmo que tivesse de abandonar tudo na vida.

Nicole contou a Richard pela primeira vez todo o drama de seu caso de quarenta e oito horas com o príncipe de Gales, logo depois de ela ter ganho a medalha de ouro nas Olimpíadas. Contou até mesmo que tinha tido vontade de se casar com Henry, e que ficara completamente arrasada ao perceber que o príncipe não a incluíra como candidata ao trono da Inglaterra basicamente por causa da cor de sua pele. Richard ficou extremamente interessado e até mesmo fascinado com aquela história, e não demonstrou em nenhum instante estar se sentindo ameaçado ou enciumado.

Ele está mais maduro, pensou Nicole várias noites depois, enquanto seu marido terminava sua tarefa de fazer os filhotes dormirem.

— Querido — disse ela quando Richard chegou no quarto da toca —, quero contar uma coisa... que esperei para contar na hora certa...

— Oh, oh — disse Richard fingindo fechar a cara. — Está parecendo um assunto sério... Espero que não leve muito tempo, pois tenho uns planos para nós hoje à noite.

Atravessou o quarto e começou a beijar Nicole.

— Por favor, Richard, agora não... — disse ela, afastando-o com delicadeza. — Isso é muito importante para mim.

Richard deu uns passos atrás.

— Quando eu achei que ia ser executada — disse Nicole devagar —, percebi que todos os meus assuntos pessoais estavam em ordem, menos dois. Eu ainda tinha uma coisa para contar a você e a Katie. Cheguei a perguntar ao policial que me explicou o procedimento da execução se ele podia me arranjar papel e caneta para eu escrever as duas últimas cartas da minha vida.

Nicole fez uma pausa, como que procurando as palavras certas.

— Durante aqueles dias terríveis, eu não conseguia me lembrar, Richard, se dissera explicitamente a você como tinha sido feliz por vivermos como marido e mulher... E eu também não queria morrer sem...

Nicole parou pela segunda vez, olhou um instante em volta do quarto e depois olhou diretamente nos olhos de Richard.

— Eu queria dizer mais uma última coisa naquela minha última carta. Naquela hora, eu achei que isso era preciso para completar a minha vida, para poder partir deste mundo sem deixar coisas para trás... Richard, eu queria me desculpar pela minha insensibilidade no passado, quando você e Michael e eu... eu cometi um erro quando fui para a cama com Michael porque tive medo de que...

Nicole respirou fundo e continuou:

— Eu devia ter tido mais fé. Não que, mesmo por um minuto, eu pensasse que Patrick ou Benjy podiam não ter nascido, mas posso perceber agora que me rendi cedo demais à solidão. Eu gostaria...

Richard pôs o dedo nos lábios dela.

— Não precisa se desculpar, Nicole — disse suavemente. — Eu sei que você me amou direito.

 

Eles instalaram um ritmo fácil em sua vida simples. De manhã andavam por Nova York, em geral de braço dado, explorando novamente cada canto da ilha que tinham, em anos idos, considerado sua casa. Como estava quase às escuras, a cidade parecia diferente. Só as lanternas deles iluminavam os enigmáticos arranha-céus cujos detalhes estavam indelevelmente impressos em suas memórias.

Em geral, caminhavam ao longo dos muros da cidade, olhando as águas do mar Cilíndrico. Certa manhã passaram várias horas de pé num lugar, o mesmo lugar onde tinham entregue suas vidas às três aves, muitos anos antes. Ambos relembraram-se do medo e da excitação que sentiram quando as grandes criaturas-pássaro os elevaram do chão para carregá-los através do mar.

Todo dia depois do almoço Nicole, que sempre precisava de mais sono que seu marido, tirava um cochilo. Richard usava o teclado para pedir mais comida ou suprimentos aos ramaianos, ou levava os filhotes de aves para fazer um pouco de exercício, ou então trabalhava em um dos seus inúmeros projetos espalhados pela toca. A noite, depois do jantar, deitavam-se lado a lado e conversavam durante horas antes de fazer amor ou simplesmente cair no sono. Conversavam sobre tudo, inclusive sobre Deus, a Águia, os ramaianos, a política do Novo Éden, livros de todos os tipos, e principalmente seus filhos.

Embora falassem com entusiasmo sobre Ellie, Patrick, Benjy e até mesmo Simone, a quem não viam havia anos, era muito difícil para Richard falar sobre Katie. Ele se arrependia de na infância não ter sido mais severo com sua filha favorita, e achava que o comportamento irresponsável dela em adulta era fruto de sua permissividade. Nicole tentava consolar o marido, lembrando-lhe que as circunstâncias que viveram em Rama eram inusitadas e que, afinal de contas, nada na formação dele o preparara para uma disciplina adequada, necessária a um pai.

Uma tarde, quando Nicole acordou de seu sono, ouviu Richard falando consigo mesmo pelo corredor. Curiosa, levantou-se em silêncio e foi até o quarto que tinha sido de Michael O'Toole. Ficou de pé na porta e viu Richard dando os toques finais em um grande protótipo que ocupava quase todo o quarto.

— Voilà — disse ele, virando-se para ver se era Nicole quem vinha arrastando os pés. — Não vou ganhar nenhum prêmio de estética — disse, com uma careta, encaminhando-se para o protótipo —, mas é uma representação razoável da nossa parte do universo, e certamente me deu muito o que pensar.

Uma forma chata retangular cobria a maior parte do chão. Varas finas verticais de diversas alturas tinham sido inseridas em vinte pontos em volta da plataforma. Na extremidade de cada vara havia uma esfera colorida representando uma estrela.

A vara vertical do centro do protótipo, que tinha uma esfera amarela presa na ponta, elevava-se a um metro e meio da plataforma.

— Isso, é claro — disse Richard para Nicole —, é nosso Sol... E nós estamos aqui, ou melhor, Rama é aqui... neste quadrante, mais ou menos a um quarto do caminho entre o Sol e nossa estrela semelhante mais próxima, Tau Ceti... Sírius, onde nós ficamos quando estávamos em Nodo, está ali...

Nicole andou em volta do protótipo que representava a vizinhança estelar do Sol.

— Há vinte sistemas estelares dentro de doze anos e meio anos-luz da nossa casa — explicou Richard —, incluindo seis sistemas binários e um grupo triplo, nossos vizinhos mais próximos, Centauris. Repare que as três Centauris são as únicas estrelas dentro da esfera de cinco anos-luz.

Richard apontou para as três bolas separadas representando as Centauris, cada uma com um tamanho e uma cor. O trio, preso entre si por finos arames, estava pousado no alto da mesma vara vertical, dentro de uma esfera aberta de arame localizada no centro do Sol e marcada com um grande número 5.

— Nos meus dias de solidão aqui — continuou Richard —, eu ficava imaginando por que Rama segue nessa direção. Será que nós temos um destino específico? Parece que sim, pois nossa rota não variou desde nossa aceleração inicial... E se estivermos indo para Tau Ceti, o que encontraremos lá? Outro complexo como Nodo? Ou será que mesmo Nodo se moveu nesse meio-tempo?...

Richard parou de falar e olhou para Nicole, na ponta do protótipo e esticando os braços na direção de duas estrelas vermelhas na extremidade de uma vara de três metros.

— Eu imagino que você tenha variado o comprimento dessas varas para demonstrar a completa relação tridimensional de todas essas estrelas, não é? — perguntou ela.

— É... Aliás, aquele grupo binário onde está a sua mão chama-se Struve 2398 — disse Richard com a voz de quem faz uma catalogação. — Elas têm uma declinação muito alta e estão a pouco mais de dez anos-luz de distância do Sol.

Ao ver a careta que Nicole fazia, Richard riu de si mesmo e, atravessando o quarto, pegou a mão dela.

— Venha aqui comigo para lhe mostrar uma coisa muito interessante. Os dois foram até a outra ponta do protótipo e ficaram de frente para o

Sol, entre as estrelas Sírius e Tau Ceti.

— Não seria fantástico se nosso Nodo tivesse realmente se movido — observou Richard com entusiasmo — e nós o fôssemos ver outra vez aqui, do lado oposto ao nosso sistema solar?

Nicole riu.

— É claro — disse —, mas não temos qualquer prova...

— Mas temos cérebros e imaginação — interrompeu Richard. — E a Águia nos disse que o Nodo inteiro era capaz de mover-se. Parece-me que... — Richard parou a frase no meio e mudou ligeiramente de assunto. — Você nunca se perguntou aonde a nossa espaçonave foi, depois que partimos de Nodo, durante todos aqueles anos em que dormimos? Imagine, por exemplo, que as aves e os sésseis foram apanhados em algum lugar, próximo às binárias de Procio, ou talvez aqui, em torno da Épsilon Eridani, por onde podemos perfeitamente ter passado em nossa trajetória. Sabemos que há planetas em volta da Eridani. A uma significativa fração da velocidade da luz, Rama poderia facilmente ter contornado o Sol...

— Espere aí, Richard — disse Nicole. — Você está muito adiante de mim nesse assunto. Por que não começamos do início... — disse, sentando-se na plataforma com as pernas cruzadas, no interior do protótipo, próximo a uma bola vermelha elevada a uns poucos centímetros por uma vara bem curta. — Se entendi sua hipótese, nossa viagem atual vai terminar em Tau Ceti?

Richard fez que sim.

— A trajetória é perfeita demais para ser uma coincidência. Chegaremos em Tau Ceti dentro de uns quinze anos, e então nossa experiência deverá estar concluída.

Nicole deu um suspiro.

— Eu já estou velha. E até lá, se ainda estiver viva, estarei tão enrugada como uma passa... Mas por mera curiosidade, o que você acha que irá nos acontecer quando nossa experiência for concluída, como você falou?

— É ainda que entra a imaginação... Creio que seremos retirados de Rama, mas o que nos acontecerá depois é imprevisível... Talvez nosso destino vá depender, de certa forma, do que foi observado durante todo esse tempo...

— Então você concorda comigo que a Águia e seus companheiros de Nodo vêm nos observando?

— Concordo plenamente. Eles fizeram um imenso investimento nesse projeto... Tenho certeza de que estão monitorando tudo o que acontece aqui em Rama... Mas o que me surpreende é eles terem nos deixado completamente livres para agir, não terem interferido jamais nos nossos assuntos, mas esse deve ser o método deles.

Nicole ficou em silêncio por um instante, brincando distraidamente com a bola vermelha ao seu lado (Richard dissera que representava a estrela Épsilon Indi).

— Pensando bem — disse ela sombriamente —, temo o que qualquer extraterrestre razoável concluiria sobre nós, com base em nosso comportamento no Novo Éden.

Richard deu de ombros.

— Nós não agimos pior em Rama do que agimos durante séculos na Terra... Além do mais, não posso aceitar que algum alienígena realmente avançado faça julgamentos tão subjetivos. Se esse processo de observar viajantes espaciais existe há dezenas de milhares de anos, como sugeriu a Águia, então os ramaianos devem ter desenvolvido medidas quantitativas para avaliar todos os aspectos das civilizações que encontraram... É quase certo que estejam mais interessados na nossa natureza exata e no que isso significa num sentido mais amplo do que no fato de sermos bons ou maus.

— Acho que você tem razão — disse Nicole. — Mas é deprimente que nós, como espécie, nos comportemos de forma tão bárbara, mesmo quando temos certeza de estarmos sendo observados. — Fez uma pausa e ficou pensando. — Então, na sua opinião, nosso longo intercâmbio com os ramaianos, desde aquela primeira nave espacial há mais de cem anos, está chegando ao fim?

— Creio que sim. Em algum lugar no futuro, possivelmente quando chegarmos em Tau Ceti, nossa parte da experiência será concluída. Meu palpite é que depois que todos os dados sobre as criaturas que vivem atualmente em Rama tenham entrado no Grande Banco Galático de Dados, Rama será evacuada. Pode ser que logo depois disso essa grande nave espacial cilíndrica apareça em outro sistema planetário onde viva um viajante espacial diferente, e assim tenha início um outro ciclo.

— E isso nos faz voltar à minha pergunta anterior, que você não chegou a responder... O que nos acontecerá então?

— Talvez nós, ou nossa descendência, sejamos mandados de volta para a Terra em uma lenta viagem... Ou talvez eles pensem em nos sacrificar depois que todos os dados forem coletados.

— Nenhuma dessas possibilidades é interessante — disse Nicole. — E, embora eu concorde com você que estamos indo na direção de Tau Ceti, o resto das suas hipóteses me parece uma simples conjectura.

Richard fez uma careta.

— Aprendi muito com você, Nicole... Essas minhas hipóteses são intuitivas. Sinto que estou certo, baseado em tudo o que aprendi sobre os ramaianos.

— Mas não seria mais coerente imaginar que os ramaianos simplesmente têm estações espalhadas por toda a galáxia, e que as duas mais próximas de nós estão em Sírius e Tau Ceti?

— É, mas sinto que isso não é provável. Nodo foi uma espantosa criação de engenharia. Se existissem outros semelhantes a cada vinte anos-luz na galáxia, haveria bilhões deles... E lembre-se que a Águia disse bem claramente que Nodo podia se mover.