A Revelação de Rama
Capítulo 5
Nicole terminou de se despir e pulou na cama, beijou Richard e pôs as mãos por trás da cabeça.
— Richard, esse assunto é muito sério... Você acha que as octoaranhas permitiriam que voltássemos para o Novo Éden?
— Não — disse ele depois de uma pausa. — Pelo menos não todos nós.
— Acho que concordo com você — disse Nicole. — Mas não quero dizer isso para os outros... Talvez eu deva levar essa questão de novo para Archie.
— Ele vai tentar desconversar, como fez da primeira vez.
Os dois ficaram deitados de mãos dadas durante vários minutos.
— Em que você está pensando, querido? — perguntou Nicole, ao notar que os olhos de Richard ainda estavam abertos.
— No dia de hoje — disse ele. — Em tudo o que aconteceu hoje. Fico recapitulando cena por cena. Agora que estou velho e minha memória não é tão boa quanto antes, tento usar técnicas para melhorá-la...
Nicole riu.
— Você é impossível. Mas eu o amo assim mesmo.
5
Max estava agitado.
— Não quero ficar neste lugar nem mais um minuto do que o necessário. Não confio mais nelas... Olhe, Richard, você sabe muito bem que tenho razão. Você viu com que rapidez Archie tirou aquele tubo da sua mala quando o iguana alienígena pulou nas costas de Benjy? E ele não hesitou um segundo em usar o tubo. Só ouvi pff, e logo o lagarto caiu morto ou paralisado. Ele teria feito o mesmo com um de nós que se comportasse mal.
— Max, acho que você está exagerando — falou Richard.
— Estou? E é exagero dizer que a cena de ontem reforçou na minha cabeça como nós somos impotentes aqui...
— Max — interrompeu Nicole —, você não acha que devíamos ter essa discussão em outra hora, quando você estiver mais calmo?
— Não — disse Max com ênfase. — Não acho... quero discutir isso agora, hoje de manhã. Foi por isso que pedi a Nai para dar o café da manhã para as crianças na casa dela.
— Mas certamente você não está sugerindo que a gente vá embora neste momento, quando Eponine está para ter o bebê a qualquer hora, não é? — perguntou Nicole.
— É claro que não — respondeu Max. — Mas acho que devíamos dar o fora daqui assim que ela puder viajar... Meu Deus, Nicole, que tipo de vida nós podemos ter aqui? Nikki e os gêmeos estão apavorados. Aposto que não vão querer sair da nossa zona durante semanas, ou talvez nunca mais... E isso não responde à pergunta principal: por que as octoaranhas nos trouxeram para cá? Você viu todas aquelas criaturas no estádio ontem? Não teve impressão de que todas elas trabalham para as octoaranhas, de uma forma ou de outra? Não é provável que nós também acabemos ocupando um lugar no sistema delas?
Ellie falou pela primeira vez desde o início da conversa.
— Eu sempre confiei nas octoaranhas, e ainda confio. Não creio que elas tenham algum tipo de plano diabólico para nos integrar a seu esquema de uma forma que nos seja inaceitável... Mas aprendi uma coisa ontem, ou melhor, reaprendi uma coisa. Como mãe, é minha responsabilidade providenciar para minha filha um ambiente onde ela possa se desenvolver e ter uma chance de ser feliz... E não acho mais que isso seja possível aqui na Cidade de Esmeralda.
Nicole olhou surpresa para Ellie.
— Então você também quer ir embora? — perguntou.
— Quero, mãe.
Nicole olhou em volta da mesa. Ela podia dizer pelas expressões de Epo-nine e Patrick que eles concordavam com Max e Ellie.
— Alguém sabe qual é a opinião de Nai sobre isso? — perguntou. Patrick corou ligeiramente quando Max e Eponine olharam para ele, como se esperassem que respondesse.
— Nós conversamos sobre isso na noite passada — disse ele a uma certa altura. — Nai está convencida, já há algum tempo, de que as crianças têm uma vida muito limitada, isoladas aqui na nossa zona. Mas ela também está preocupada, especialmente depois do que aconteceu ontem, com os perigos que as crianças podem correr se tentarmos viver livremente na sociedade das octoaranhas.
— Acho que isso encerra a questão — disse Nicole. — Vou falar com Archie sobre a nossa partida na primeira oportunidade.
Nai era uma ótima contadora de histórias. As crianças adoravam os dias de aula em que ela dispensava as atividades planejadas e simplesmente lhes contava histórias. Na verdade, Nai estava contando para as crianças mitos gregos e chineses no primeiro dia em que Hércules apareceu para observar a aula. As crianças batizaram a octoaranha com esse nome depois que ela ajudou Nai a trocar os móveis de lugar.
A maioria das histórias que Nai contava tinha um herói. Como até mesmo Nikki ainda tinha alguma lembrança dos biotas humanos do Novo Éden, as crianças se interessavam mais por histórias sobre Albert Einstein, Abraham Lincoln e Benita Garcia do que por personagens históricos ou míticos com os quais não haviam tido envolvimento pessoal.
Na manhã seguinte ao Dia da Fartura, Nai explicava como, durante as últimas fases do grande caos, Benita Garcia usou sua fama considerável para ajudar milhões de pobres no México. Nikki, que herdara o espírito compassivo da mãe e avó, comoveu-se com a história de Benita, desafiando corajosamente a oligarquia mexicana e as corporações multinacionais americanas, e declarou que Benita Garcia era seu herói.
— Heroína — corrigiu Kepler, com seu senso de precisão. — E você, mamãe? — disse o menino um instante depois. — Você teve um herói ou heroína quando era criança?
Apesar de estar numa cidade alienígena, em uma espaçonave extraterres-tre, a uma inacreditável distância de sua cidade natal de Lampun, na Tailândia, Nai transportou-se durante quinze a vinte segundos à sua infância e viu-se claramente com um vestido simples de algodão, descalça, no templo budista, para prestar homenagem à rainha Chamatevi. E viu também os monges com roupas cor de açafrão, e acreditou por um instante sentir o cheiro de madeira queimada em frente ao principal Buda do templo.
— Tive — disse Nai, comovida com seu poder de recordação —, eu tive uma heroína... A rainha Chamatevi do Haripunchai.
— Quem era ela, sra. Watanabe? — perguntou Nikki. — Era como Benita Garcia?
— Não exatamente. Chamatevi foi uma moça bonita que viveu no reinado Mon no sul da Indochina, há mil anos. Sua família era rica e intimamente ligada ao rei dos Mons. Mas Chamatevi, que era extremamente culta para uma mulher daquela época, ansiava por fazer alguma coisa diferente e inusitada. Certa vez, quando Chamatevi tinha dezenove ou vinte anos, um profeta visitou...
— O que é um profeta, mamãe? — perguntou Kepler. Nai sorriu e respondeu:
— Uma pessoa que prediz o futuro, ou pelo menos tenta predizer. Bem, esse profeta disse ao rei que, segundo uma lenda antiga, uma bela mulher Mon, de nascimento nobre, iria para o norte através das selvas, para o vale de Haripunchai, e realizaria a união de todas as tribos guerreiras da região. Essa moça, continuou o profeta, criaria um reino cujo esplendor igualaria o dos Mons, e se tornaria conhecida em muitas terras por sua notável liderança. O profeta contou essa história durante uma festa na corte, e Chamatevi a escutou. Quando ele terminou a história, a moça dirigiu-se ao rei dos Mons e lhe disse que devia ser ela a mulher da lenda. Apesar da oposição de seu pai, Chamatevi aceitou a oferta do rei de dinheiro, provisões e elefantes, embora a comida só tivesse durado os cinco meses de travessia da selva até a terra de Haripunchai. Se a lenda não fosse verdadeira e as várias tribos do vale não aceitassem Chamatevi como sua rainha, ela não conseguiria voltar para os Mons e seria forçada a vender-se como escrava. Mas nem por um instante Chamatevi teve medo. É claro que a lenda foi realizada, as tribos do vale acolheram sua rainha, e ela reinou por muitos anos numa época conhecida na história tailandesa como a Idade de Ouro do Haripunchai... Quando Chamatevi ficou bem velha, ela dividiu seu reino em duas partes iguais, que deu aos seus filhos gêmeos. Depois retirou-se para um mosteiro budista para agradecer a Deus por Seu amor e proteção. Chamatevi manteve-se lúcida e saudável até morrer, aos noventa e nove anos.
Por razões que não compreendeu por completo, Nai sentiu-se muito co-movida enquanto contava sua história. Quando terminou, ainda continuava a ver em pensamento os painéis da parede do templo de Lampun que ilustravam a história de Chamatevi. Nai empolgara-se tanto com sua história que nem notou que Patrick, Nicole e Archie tinham entrado na sala de aula e estavam sentados no chão, ao lado das crianças.
— Nós temos muitas histórias semelhantes — disse Archie um instante depois, através da tradução de Nicole —, que também contamos para as crianças. A maioria delas é muito, muito antiga. Serão histórias verdadeiras? Isso realmente não importa para as octoaranhas. As histórias divertem, instruem e servem de exemplo.
— Tenho certeza de que as crianças gostariam de ouvir uma de suas histórias — disse Nai para Archie. — Na verdade, todos nós gostaríamos.
Archie não disse nada durante quase um nillet. O líquido de suas lentes estava em grande atividade, movendo-se para cima e para baixo, como se ele estivesse estudando atentamente os seres humanos que o olhavam. A certa altura, as faixas coloridas começaram a sair da sua fenda e a girar em torno da sua cabeça cinza.
— Há muito, muito tempo — começou ele —, em um local muito, muito distante, com fartos recursos e beleza indescritível, todas as octoaranhas viviam em um vasto oceano. Na terra havia muitas criaturas, dentre elas os...
— Desculpe — disse Nicole para Archie e os outros —, mas não sei como traduzir a última faixa de cor.
Archie fez várias outras frases para tentar definir a palavra em outros termos.
Aqueles que se foram antes... — disse Nicole para si mesma. — Tudo bem, provavelmente não é essencial para a história que cada palavra esteja exatamente correta... Vou simplesmente chamar essas criaturas de "precursores".
— Nas porções de terra desse belo planeta — continuou Nicole a traduzir para Archie —, havia muitas criaturas, dentre as quais as mais inteligentes de todas eram os precursores. Eles construíram veículos que voavam no ar, exploraram todos os planetas e estrelas vizinhas, e aprenderam até mesmo a criar vida, a partir de simples elementos químicos, onde não havia vida antes. Eles mudaram a natureza da terra e dos oceanos com seu conhecimento incrível. Aconteceu que os precursores determinaram que a espécie das octoaranhas tinha um enorme potencial não desenvolvido, uma capacidade que nunca fora expressa durante seus muitos e muitos anos de existência, e começaram a lhes mostrar como elas podiam se desenvolver e usar suas habilidades latentes. A medida que os anos se passaram, as octoaranhas, graças aos precursores, tornaram-se a segunda espécie mais inteligente do planeta e desenvolveram um relacionamento muito complexo e íntimo com os precursores.
— Durante aquele tempo, os precursores ajudaram as octoaranhas a aprender a viver fora da água, retirando oxigênio diretamente do ar do belo planeta. Colônias inteiras de octos começaram a passar toda a vida na terra. Certo dia, depois de uma grande reunião entre os chefes otimizadores dos precursores e das octoaranhas, foi anunciado que todas as octoaranhas se tor-nariam criaturas da terra e renunciariam às suas colônias no mar. Nas pro-fundezas do mar havia uma pequena colônia de octos, com uns mil indivíduos no máximo, administrada por um otimizador local que não concordou com a decisão tomada pelos chefes otimizadores das duas espécies. Esse otimizador local resistiu ao aviso, e, embora ele e sua colônia tivessem sido discriminados pelos outros e não compartilhassem da fartura oferecida pelos precursores, ele e muitas gerações que se seguiram continuaram a viver sua vida isolada e sem complicações no fundo do oceano. Acontece que uma grande calamidade assolou o planeta, e tornou-se impossível sobreviver na terra. Milhões de criaturas morreram, e só as octoaranhas, que viviam confortavelmente na água, sobreviveram durante os milhares de anos em que o planeta foi devastado.
Quando finalmente o planeta se recuperou e algumas octoaranhas do oce-ano aventuraram-se na terra, não encontraram nenhum elemento da sua espécie, e nenhum precursor tampouco. O otimizador local que vivera milhares de anos antes tinha sido um visionário. Sem a sua atuação, todas as octoaranhas teriam perecido... E é por isso que até mesmo hoje as octoaranhas espertas se mantêm capazes de viver tanto na terra como no mar.
Nicole reconheceu, logo no início da história, que Archie estava contando para eles uma coisa completamente diferente de tudo o que lhes contara antes. Seria devido à conversa que tiveram naquela manhã, quando ela disse a Archie que queriam voltar para o Novo Éden assim que o bebê dos Puckett nascesse? Nicole não tinha certeza. Mas sabia que a lenda de Archie contava coisas sobre as octoaranhas que os humanos não poderiam ter imaginado de nenhuma outra forma.
— Foi uma história maravilhosa — disse Nicole, tocando ligeiramente em Archie. — Não sei se as crianças gostaram...
— Eu achei legal — disse Kepler. — Não sabia que vocês podiam respirar água.
— Como um bebê recém-nascido — falou Nai, quando Max apareceu todo nervoso na porta.
— Venha depressa, Nicole. As contrações estão vindo a cada quatro minutos.
Nicole levantou-se e virou-se para Archie.
— Por favor, diga para o dr. Azul trazer o engenheiro de imagens e o sistema quadróide. E depressa!
Era incrível ver um nascimento do lado de fora e de dentro ao mesmo tem-po. Nicole dava orientações a Eponine e ao engenheiro de imagens das octoaranhas através do dr. Azul.
— Respire, você precisa respirar durante as contrações — ela gritava para Eponine. — Mande-os mais para perto, mais para baixo no canal de nascimento, com um pouco mais de luz — dizia para o dr. Azul.
Richard estava absolutamente fascinado. Ele procurou não atrapalhar e foi para o canto do quarto, com o olhar se alternando entre as imagens na parede e as duas octoaranhas com seu equipamento. O que as imagens mostravam chegava com o atraso de uma contração em relação ao que acontecia na cama. No final de cada contração, o dr. Azul passava para Nicole um pedaço de pano redondo que Nicole enfiava na parte interna da coxa de Eponine. Em poucos segundos, os pequenos quadróides que tinham estado dentro de Eponine na última contração corriam para o pano, e novos quadróides subiam pelo colo do útero. Com uma diferença de vinte a trinta segundos para o processamento dos dados, outro conjunto de imagens aparecia na parede.
Max estava deixando todos malucos. Quando ouvia um grito ou gemido de Eponine, à medida que ela se aproximava do auge de cada contração, corria para o lado dela e agarrava a sua mão.
— Ela está sofrendo muito — dizia Max para Nicole. — Você precisa fazer alguma coisa para ajudar a pobrezinha.
No intervalo das contrações, por sugestão de Nicole, Eponine ficava de pé ao lado da cama para deixar a gravidade artificial ajudar o processo do nascimento, mas Max piorava ainda mais as coisas. A imagem do filho ainda não nascido encaixado no colo do útero, lutando contra a pressão da contração anterior, levou Max a uma torrente de palavras.
— Oh, meu Deus, olhe, olhe! A cabeça dele está achatada. Que merda! O espaço não é suficiente. Ele não vai conseguir passar.
Nicole tomou duas decisões importantes pouco antes de Marius Clyde Puckett entrar no universo. Primeiro, ela concluiu que o bebê não nasceria sem alguma ajuda. Seria necessário fazer uma episiotomia para aliviar a dor do parto. E concluiu também que Max devia ser retirado do quarto antes que ficasse histérico e fizesse alguma coisa que interferisse com o processo do nascimento.
Ellie esterilizou o bisturi a pedido de Nicole, e Max a olhou com olhos arregalados.
— O que você vai fazer com isso? — perguntou.
— Max — disse Nicole calmamente, quando Eponine sentiu que outra contração estava vindo —, eu te adoro, mas quero que você saia do quarto. Por favor. O que eu vou fazer vai facilitar o nascimento de Marius, mas não é uma coisa bonita de se ver...
Max não se mexeu. Patrick, que estava na porta, pôs a mão no ombro do amigo quando Eponine começou a gemer de novo. A cabeça do bebê estava claramente pressionando a abertura vaginal. Nicole começou a cortar, e Eponine gritou de dor.
— Não! — disse Max frenético assim que viu o sangue. — Não... que merda... oh, que merda!
— Agora... saia agora! — gritou Nicole imperiosamente quando terminou a episiotomia. Ellie ficou secando o sangue o mais depressa que podia. Patrick virou Max de costas, deu-lhe um abraço e tirou-o do quarto.
Nicole checou a imagem assim que ela apareceu na parede. O pequeno Marius estava em posição perfeita. Que tecnologia fantástica, pensou ela. Isso muda o nascimento completamente.
Nicole não teve mais tempo de refletir; outra contração estava começando. Ela pegou a mão de Eponine.
— Deve ser agora — disse. — Quero que você empurre com toda a sua força... Durante todo o tempo da contração. — E disse ao dr. Azul que não precisava de mais imagens.
— Empurre — gritaram Nicole e Ellie ao mesmo tempo.
A cabeça do bebê apontou. Dava para ver uns fiapos do cabelo castanho-claro.
— Mais uma vez — gritou Nicole. — Empurre de novo.
— Não consigo — gemeu Eponine.