A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 51 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 7

Nicole não se surpreendeu quando Kepler não quis mais embarcar no transportador. O rapaz tivera muita dificuldade em tomar sua primeira decisão, e só pedira reconsideração do seu caso em lealdade à sua mãe. Desde aquela hora, ele tinha passado a tarde com Maria, a quem obviamente adorava.

Kepler pediu a todos da grande família que o ajudassem, caso houvesse uma discussão com sua mãe, mas não houve. Nai concordou que Kepler não deveria ser privado do prazer de ser pai, e chegou a sugerir, magnanimamente, que Patrick deveria reavaliar sua própria decisão. Mas Patrick disse que ela não poderia mais ter filhos e que ele já era pai, de certa forma, de Galileu e Kepler.

Nicole, Patrick, Nai e Kepler ficaram sozinhos em um dos apartamentos para a despedida final. O dia tinha sido de lágrimas e grandes emoções. Os quatro estavam exaustos. Duas mães disseram adeus aos seus filhos para sempre. Houve uma comovente simetria nos comentários finais. Nai pediu que Nicole guiasse Kepler com sua sabedoria, e Nicole pediu que Nai continuasse a dar seu amor desprendido e incondicional a Patrick.

Patrick levantou as duas pesadas malas e jogou-as por cima dos ombros. Quando Nai e ele foram para a porta, Kepler ficou ao lado da cadeira de rodas de Nicole, segurando sua mão encarquilhada. Só depois que a porta se fechou é que os olhos de Nicole encheram-se de lágrimas. Adeus, Patrick, pensou com tristeza. Adeus Geneviève, Simone e Katie. Adeus, Richard.

 

7

Os sonhos vieram em torrentes, muitas vezes sem interrupção. Henry ria por ela ser preta, depois um arrogante colega da faculdade de medicina impedia que ela cometesse um erro numa rotineira operação de amígdalas. Mais tarde, Ni-cole andava em uma praia com nuvens escuras por cima da cabeça. Uma figura silenciosa, coberta com uma capa, fazia-lhe um sinal a distância. É a Morte, disse Nicole para si própria no sonho. Mas era uma brincadeira cruel. Quando chegou perto da figura e tocou sua mão estendida, Max Puckett tirou a capa e riu.

Nicole arrastava-se de joelhos num escuro tubo subterrâneo de cimento. Seus joelhos começaram a sangrar. Estou aqui, dizia Katie. Onde você está?, per-guntava Nicole frustrada. Estou a-trás de vo-cê, dizia Benjy. O tubo começou a encher-se de água. Não posso ajudar meus filhos.

Nicole estava nadando com dificuldade. Havia uma forte corrente no tubo, que a carregou para fora, tornou-se um riacho e depois uma floresta. As roupas de Nicole prenderam-se em um arbusto debruçado sobre o riacho. Ela ficou de pé, desvencilhou-se e começou a andar por um caminho.

Era noite. Nicole podia ouvir uns passarinhos e ver a lua pelas frestas ocasionais das árvores altas. O caminho era sinuoso. Ela chegou numa en-cruzilhada. Que direção devo tomar?, perguntou a si mesma no sonho. Venha co-migo, dizia Geneviève, saindo da floresta e pegando-a pela mão.

O que você está fazendo aqui?, perguntava Nicole. Geneviève ria. Eu devia fazer a mesma pergunta a você.

A jovem Katie vinha pelo caminho na direção delas. Alô, mamãe, disse ela, pegando a mão de Nicole. Você se importa se eu andar do seu lado?, perguntou Katie. É claro que não, disse Nicole.

A floresta ficava mais espessa. Nicole ouvia passos por trás dela e virava-se de costas, enquanto continuava a andar. Patrick e Simone sorriam. Nós estamos quase lá, dizia Simone. Aonde vocês vão?, perguntava Nicole. A senhora deve saber, sra. Wakefield, respondia Maria. Foi a senhora quem nos disse para vir. A menina agora caminhava ao lado de Patrick e de Simone.

Nicole e os cinco jovens entraram numa clareira, onde viram uma fogueira ardendo. Omeh se aproximava pelo lado oposto da fogueira e os saudava. Então, eles formaram um novo círculo em volta da fogueira, e o xamã jogou a cabeça para trás e começou a cantar em senoufo. Enquanto Nicole observava a cena, viu o rosto de Omeh despelar-se, deixando à mostra seu crânio. Mas o canto continuava. Não, não, disse Nicole. Não, não.

— Ma-mãe — falou Benjy. — Acorde, ma-mãe... Você está tendo um pesadelo.

Nicole esfregou os olhos e viu luz do outro lado do quarto.

— Que horas são, Benjy?

— É tarde, ma-mãe — respondeu ele com um sorriso. — Kepler já foi tomar café com os outros... Nós achamos melhor deixar você dormir.

— Obrigada, Benjy — disse Nicole. Mexeu-se um pouco na esteira e sentiu seu quadril doer. Olhou em volta do quarto e lembrou-se de que Patrick e Nai tinham ido embora. Para sempre, pensou Nicole, tentando não sofrer mais.

— Você vai querer tomar uma du-cha agora? — perguntou Benjy. — Eu posso lhe ajudar a tirar a roupa e levar você até o chuveiro.

Nicole olhou para seu filho careca. Eu estava errada sobre você. Você se ajeitaria muito bem sem mim.

— Obrigada, Benjy. É uma boa idéia — respondeu Nicole.

— Vou tentar fazer tudo com cuidado — disse ele, desabotoando a camisola da mãe. — Mas, se eu machucá-la, me avise.

Quando Nicole estava completamente nua, Benjy pegou-a nos braços, deu dois passos com ela na direção do chuveiro e parou.

— O que houve, Benjy? — perguntou Nicole. Benjy deu um riso encabulado.

— Eu não planejei as coisas muito bem, ma-mãe — respondeu Benjy. — Devia ter temperado a água antes.

Benjy virou-se, colocou Nicole na esteira e foi até o chuveiro abrir a torneira.

— Você não gosta de banho quente demais, não é? — perguntou.

— Isso mesmo — respondeu Nicole. Benjy voltou e pegou de novo a mãe.

— Eu co-lo-quei duas toa-lhas no chão para que ele não fique muito duro nem muito frio.

— Obrigada, filho — disse Nicole.

Benjy foi buscar o sabonete e o xampu, e ficou conversando enquanto Nicole jogava água no corpo, sentada nas toalhas no chão do boxe. Quando ela terminou o banho, Benjy ajudou-a a secar-se e a vestir-se, e depois carregou-a para a cadeira de rodas.

— Abaixe-se, por favor — falou Nicole, já sentada na cadeira. Deu um beijo no filho e apertou-lhe a mão. — Obrigada por tudo, Benjy — disse, incapaz de conter as lágrimas que enchiam seus olhos. — Você tem me dado uma ajuda maravilhosa.

Benjy ficou ao lado dela, radiante. — Eu a amo, ma-mãe. Fico feliz de poder ajudá-la.

— Eu também o amo, filho — replicou Nicole, apertando a mão dele de novo. — Agora você vai tomar café comigo?

— Eu estava pensando em ir — disse ele, ainda sorrindo.

 

Antes de Nicole terminar o café, a Águia apareceu na lanchonete.

— O dr. Azul e eu iremos até o seu quarto, para fazer-lhe um exame minucioso — disse o alienígena.

O sofisticado equipamento médico já estava no apartamento quando Nicole e Benjy voltaram. O dr. Azul injetou mais umas microssondas no peito de Nicole e depois outras na região dos rins. A Águia e o dr. Azul ficaram conversando na língua nativa da octoaranha durante a meia hora do exame. Benjy ajudava a mãe quando ela precisava se mexer ou ficar de pé. Estava completamente fascinado com a capacidade da Águia de falar em cores.

— Como você aprendeu isso? — perguntou Benjy a certa altura do exame.

— Tecnicamente falando — respondeu a Águia —, não aprendi nada... Quem me projetou acrescentou à minha estrutura um par de subsistemas especializados; um para eu poder interpretar as cores das octoaranhas e outro para eu criar as cores em volta da minha cabeça.

— Você não te-ve de ir para a es-co-la? — insistiu Benjy.

— Não — respondeu a Águia, sem dar detalhes.

— Os seus pro-je-tis-tas poderiam fazer isso em mim? — perguntou Benjy um pouco depois, quando a Águia e o dr. Azul conversavam de novo sobre o problema de Nicole.

A Águia virou-se e olhou para Benjy.

— Eu sou mui-to lento para a-pren-der — disse Benjy. — Seria ma-ra-vi-lho-so se alguém pusesse tu-do dentro do meu cé-re-bro.

— Nós ainda não sabemos como fazer isso — disse a Águia. Quando o exame terminou, a Águia pediu para Benjy juntar todos os pertences de Nicole.

— Para onde nós vamos? — perguntou ela.

— Vamos dar uma volta no foguete — falou a Águia. — Quero lhe expor alguns detalhes do seu problema físico e levá-la para onde haja uma emergência em caso de necessidade.

— Achei que o líquido azul e todas essas sondas dentro de mim bastariam...

— A gente conversa sobre isso mais tarde — interrompeu a Águia, pegando a mala de Nicole. — Obrigado pela ajuda, Benjy — disse o alienígena.

 

— Quero ter certeza de que entendi bem essa conversa — disse Nicole pelo microfone do seu capacete quando o foguete se aproximou da área entre a Estrela do Mar e Nodo. — Meu coração vai durar no máximo dez dias, apesar de toda a sua medicina mágica; meus rins estão em estágio terminal, e meu fígado dá sinal de estar bastante deteriorado. O resumo está certo?

— Está, sim — respondeu a Águia. Nicole forçou um sorriso.

— Você tem alguma notícia boa para me dar?

— Sua cabeça está funcionando às mil maravilhas, e você ficará curada da luxação no quadril, se não morrer de outros problemas.

— E você está sugerindo que eu me interne hoje num hospital em Nodo, para substituir meu coração, rins e fígado por máquinas avançadas que poderão desempenhar essas mesmas funções?

— Talvez outros órgãos devam ser substituídos também — disse a Águia —, já que iremos fazer uma operação grande. Seu pâncreas causa problemas de vez em quando, e todo o seu sistema sexual está acabado... Talvez seja aconselhável uma histerectomia total.

Nicole sacudiu a cabeça.

— E quando tudo isso se tornar inútil? Por mais que vocês façam agora, dentro de algum tempo outros órgãos vão ter problemas. Qual será o primeiro? Meus pulmões? Ou meus olhos?... Vocês poderiam transplantar meu cérebro se eu não pudesse mais pensar?

— Poderíamos — respondeu a Águia. Nicole ficou quieta por um instante.

— Talvez o que eu vou dizer não faça sentido para você, pois não é exata-mente lógico... Mas não estou gostando da idéia de me tornar um ser híbrido.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou a Águia.

— Em que ponto deixo de ser Nicole des Jardins Wakefield? Se meu coração, meu cérebro, meus olhos e ouvidos forem substituídos por máquinas, continuarei a ser Nicole? Ou serei outra pessoa ou outra coisa?

— Essa questão é irrelevante — respondeu a Águia. — Você é uma mé-dica, Nicole. Considere o caso de um esquizofrênico que toma drogas re-gularmente para alterar as funções do seu cérebro. Essa pessoa continua a ser ela própria? É a mesma questão filosófica, só que em grau diferente.

— Entendi seu ponto de vista — disse Nicole depois de outro breve silên-cio. — Mas isso não muda meus sentimentos... Sinto muito negar essa chance que você me fez crer que tenho... Pelo menos hoje eu não aceito isso.

A Águia ficou olhando para Nicole, depois criou um outro conjunto de parâmetros no sistema de controle do foguete, que mudou de direção.

— Então vamos voltar para a Estrela do Mar? — perguntou Nicole.

— Não imediatamente. Quero lhe mostrar outra coisa primeiro — disse o alienígena, tirando da bolsa amarrada na cintura um pequeno tubo com um líquido azul e um aparelhinho desconhecido. — Por favor, me dê seu braço. Não quero que você morra antes do fim da tarde.

 

Quando eles se aproximaram do Módulo de Habitação de Nodo, Nicole reclamou com a Águia da forma quase imediata com que os residentes da Estrela do Mar foram divididos em dois grupos.

— Como sempre — disse Nicole —, você não pode ser acusado de mentir, só de ocultar informações.

— Às vezes — falou a Águia —, não temos uma maneira satisfatória de completar uma tarefa. Nesse caso, preferimos agir da forma menos insatisfatória. O que você esperava que fizéssemos? Que contássemos aos residentes desde o começo que não poderíamos cuidar de todos para sempre, de geração em geração? Isso seria o caos... Além do mais, acho que vocês não nos dão muito crédito. Nós salvamos milhares de seres de Rama, a maioria dos quais provavelmente morreria em um conflito entre espécies se não fosse a nossa intervenção... Lembre-se de que todos, inclusive os que foram designados para o transportador, poderão completar sua existência.

Nicole ficou em silêncio, tentando imaginar como seria a vida no trans-portador sem possibilidade de reprodução. Criou na cabeça a imagem de um futuro distante, onde só restavam alguns indivíduos.

— Eu não gostaria de ser o último humano vivo no transportador — disse.

— Houve uma espécie nesta parte da galáxia, há cerca de três milhões de anos — disse a Águia —, que ficou viajando no espaço durante quase um milhão de anos. Eram engenheiros brilhantes, e construíram um dos prédios mais incríveis jamais vistos. Sua influência espalhou-se rapidamente, e essa espécie passou a dominar uma área maior do que vinte sistemas solares. Eram cultos, compassivos e sábios. Mas eles cometeram um erro fatal...

— Qual foi? — perguntou Nicole imediatamente.

— O equivalente deles para o que vocês chamam de genoma continha muito mais informações do que o seu, graças a quatro bilhões de anos de evolução natural, e era extremamente complicado. Suas experiências iniciais com engenharia genética, em outras espécies e na sua própria, tiveram um sucesso sem igual. Eles achavam que compreendiam o que estavam fazendo. Porém, sem que soubessem, os robustos genes que eram transferidos de geração a geração foram se deteriorando de forma lenta mas progressiva... Quando eles finalmente compreenderam o que haviam feito consigo próprios, era tarde demais. Eles não tinham preservado os espécimes primitivos antes de começarem a modificar seus próprios genes. Não puderam reverter a situação. Não havia nada que pudessem fazer.

— Imagine — disse Nicole —, não só ser o último membro do seu grupo em uma nave espacial isolada como o transportador como ser também um dos últimos sobreviventes de uma espécie rica em história, arte e conhecimentos... Nossa enciclopédia apresenta muitas histórias assim, cada uma delas com pelo menos uma lição.

O foguete passou por uma abertura na lateral do módulo esférico e esta-cionou suavemente ao lado de uma parede. Pórticos automáticos dos dois lados foram acionados para que o veículo não deslizasse. Uma rampa fazia a ligação entre a porta de saída dos passageiros até uma calçada, que por sua vez conduzia ao centro do complexo do transporte.

Nicole riu.

— Eu estava tão concentrada na nossa conversa que nem olhei para este módulo do lado de fora.

— Você não teria visto muita novidade — falou a Águia.

Depois, o alienígena voltou-se para Nicole e fez uma coisa pouco corri-queira. Pegou as mãos enluvadas dela e disse:

— Em menos de uma hora você vai sentir uma coisa que vai espantá-la e também suscitar suas emoções. De início, havíamos pensado em fazer esta excursão de surpresa. Mas como você está muito enfraquecida, seu organismo poderia reagir de forma negativa às fortes emoções... Então, decidimos contar antes o que iremos fazer.

Nicole sentiu sua batida cardíaca se acelerar. De que ele está falando? O que poderia ser tão diferente?

— ...Nós vamos entrar num carro menor, que irá viajar vários quilômetros neste módulo. No final dessa curta viagem, você se encontrará com sua filha Simone e com Michael O'Toole.

— O quê? — Nicole gritou, soltando as mãos da Águia e colocando-as do lado do seu capacete. — Será que ouvi direito? Você disse que eu vou ver Simone e Michael O'Toole?

— Disse — respondeu a Águia. — Nicole, tente relaxar...

— Meu Deus! — exclamou ela, ignorando o comentário da Águia. — Não posso acreditar. Não posso acreditar... Espero que não seja algum tipo de brincadeira de mau-gosto...

— Eu garanto que não é...

— Mas como Michael ainda pode estar vivo? — perguntou Nicole. — Ele deve ter pelo menos cento e vinte anos de idade...

— Nós o ajudamos com a nossa medicina mágica, como você diz.

— Oh, Simone, Simone! — gritou Nicole. — Será possível? Será possível mesmo?

Lágrimas escorreram-lhe pelo rosto. Apesar da dor no quadril e do ca-pacete espacial desajeitado, Nicole quase pulou do banco para dar um beijo na Águia.

— Obrigada, obrigada. Você não imagina o quanto isso representa para mim.

 

A Águia firmou a cadeira de rodas de Nicole na escada rolante quando eles desceram para o centro do complexo principal de transporte. Ela deu uma rápida olhada em volta. A estação era idêntica à de Nodo perto de Sírius. Tinha uns vinte metros de altura e era disposta em círculo. Uma meia dúzia de calçadas rolantes rodeava a parte central, cada uma delas dando num diferente túnel em arco que levava para fora do complexo. Acima dos túneis, à direita, viam-se duas estruturas de vários níveis.

— Os trens intermodulares partem dali? — perguntou Nicole, lembrando-se de uma viagem com Katie e Simone quando elas eram crianças.

A Águia confirmou. Depois, empurrou a cadeira de rodas para uma das calçadas rolantes e eles saíram do centro da estação. Viajaram centenas de metros por um túnel até que a calçada rolante parou.

— Nosso carro deve estar logo ali à direita, no primeiro corredor — disse a Águia.

O carro pequeno, que se abria no topo, tinha dois bancos. A Águia levou Nicole para o banco de passageiro, dobrou a cadeira de rodas até ela ficar do tamanho de uma pasta e guardou-a num escaninho do veículo. Logo depois, o carro começou a andar por um labirinto de passagens sem janelas. Nicole estava quieta, tentando convencer-se de que ia ver a filha que havia deixado em outro sistema estelar muitos e muitos anos atrás.

A viagem pelo Módulo de Habitação parecia interminável. Em certo ponto eles pararam, e a Águia disse que Nicole podia tirar seu capacete.

— Estamos chegando? — perguntou ela.

— Ainda não, mas já entramos na zona atmosférica deles.

Por duas vezes encontraram alienígenas fascinantes em veículos que pas-savam na direção oposta, mas Nicole estava agitada demais e só conseguia prestar atenção ao que ia dentro de sua cabeça. Ela mal ouvia o que a Águia lhe dizia. Calma, disse uma de suas vozes interiores. Não seja absurda, disse outra voz. Eu vou ver uma filha que não vejo há quarenta anos. Não há como ficar calma.

— ... A seu próprio modo — dizia a Águia —, a vida deles tem sido tão extraordinária quanto a sua. Mas diferente, é claro, completamente diferente. Quando levamos Patrick para vê-los hoje de manhã...

— O que você disse? — perguntou Nicole abruptamente. — Você disse que Patrick os viu hoje de manhã? Você levou Patrick para ver o pai dele?

— Levei — disse a Águia. — Nós sempre tivemos a intenção de proporcionar esse encontro, desde que tudo saísse conforme os planos... Na verdade, nem você nem Patrick teriam visto Simone, Michael e os filhos deles...

— Filhos! — exclamou Nicole. — Então eu tenho mais netos!

— ...antes de chegarem em Nodo, mas quando Patrick solicitou reconsideração do seu caso... Bem, seria uma maldade deixar que ele partisse para sempre sem conhecer seu pai natural...

Nicole não pôde mais se controlar e deu um beijo no rosto emplumado da Águia.

— E Max disse que você nada mais era do que uma máquina insensível. Como ele estava errado!... Obrigada... Eu agradeço em nome de Patrick...

Nicole tremia de excitação. Um instante depois, ela não conseguiu mais respirar, e a Águia parou o carro rapidamente.

 

— Onde estou? — perguntou Nicole, saindo de uma bruma profunda.

— Estamos estacionados dentro da área fechada onde Michael, Simone e a família deles moram — respondeu a Águia. — Você está dormindo aqui há quatro horas.

— Eu tive um ataque cardíaco? — perguntou Nicole.

— Não exatamente... Só um forte mal-estar. Pensei em levá-la imediata-mente para o hospital, mas achei melhor esperar que você acordasse. Além do mais, eu tenho quase todos os medicamentos aqui...

A Águia olhou-a com seus olhos azuis intensos.

— O que você quer fazer, Nicole? Visitar Simone e Michael, como pla-nejamos, ou ir para o hospital? A escolha é sua, mas compreenda que...

— Eu sei — interrompeu Nicole com um suspiro, olhando para a Águia. — Preciso ter cuidado para não me excitar demais... Eu quero ver Simone, mesmo que seja a última coisa que faça na vida... Você pode me dar alguma coisa para eu me acalmar, mas que não me faça dormir?

— Um tranqüilizante fraco só vai ajudar se você tentar conscientemente refrear sua excitação.

— Tudo bem. Vou fazer o possível — disse ela.

A Águia virou o carro em uma rua pavimentada, com árvores altas, enfileiradas. Quando estavam passando, Nicole lembrou-se de um outono na Nova Inglaterra, que ela passara com seu pai, quando era adolescente. As folhas das árvores estavam vermelhas, douradas e marrons.

— É tão bonito! — disse Nicole.

O carro fez uma curva e passou por uma cerca branca que rodeava uma área gramada. Dentro da cerca havia quatro cavalos, e dois adolescentes humanos andavam entre eles.

— As crianças são verdadeiras — disse a Águia. — Os cavalos são simu-lações.

No topo de uma colina suave, Nicole viu uma grande casa branca de dois andares, com um telhado preto inclinado. A Águia parou o carro na entrada circular. A porta da frente foi aberta e apareceu uma mulher escura, alta e bonita, de cabelos grisalhos.