A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 16 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 2

Nicole ficou olhando para o amigo.

— Max, será que dá para adiar essa conversa para amanhã de manhã, quando estivermos todos juntos?... Estou muito cansada.

— Certamente — disse Max. — Mas diga ao seu marido que eu acho que devíamos fazer alguma coisa imprevisível, como por exemplo voltar andando pelo túnel até a toca das octoaranhas. Eu não sei como tudo isso vai acabar.

— Não temos todas as respostas, Max — disse Nicole com um ar cansado —, mas eu realmente acho que temos de cumprir os desejos das octoaranhas enquanto elas controlarem nosso suprimento de comida e de água... Numa situação como esta, talvez a gente deva simplesmente ter fé.

— Fé? — disse Max. — Esta palavra é uma desculpa para não se pensar — falou ele, voltando para o cilindro. — E essa escada fantástica tanto pode nos levar para o inferno como para o céu.

 

2

Na manhã seguinte, o trem do metrô voltou com mais comida e água. Depois que ele partiu e todos inspecionaram a estrutura cilíndrica, Max comentou que estava na hora de os humanos mostrarem que estavam cansados de serem dominados pelas octoaranhas. Sugeriu que ele, e quem quisesse ir junto, pegasse o rifle que sobrara e voltasse pelo túnel que passava por debaixo do mar Cilíndrico.

— Mas qual é o seu plano? — perguntou Richard.

— Eu quero que as octoaranhas me capturem e me levem para junto de Eponine e Ellie, para eu poder saber se elas estão bem mesmo. Só os sonhos de Nicole não bastam...

— Mas, Max — argumentou Richard —, seu plano não é lógico. Pense bem. Mesmo que você não seja atropelado pelo trem do metrô enquanto estiver andando pelo túnel, como irá explicar o que quer para as octoaranhas?

— Eu estava contando com a sua ajuda, Richard — disse Max. — Eu me lembro de como você e Nicole se comunicaram com as aves. Talvez você pudesse fazer no computador uma figura gráfica de Eponine, para eu poder mostrá-la para as octos no meu monitor...

Nicole sentiu o tom de súplica na voz de Max e puxou a mão de Richard.

— Por que não? — disse ela. — Alguém podia ir até as escadas para ver aonde elas chegam enquanto você cria imagens de Eponine e Ellie para Max.

— Eu gostaria de ir com Max — disse Robert Turner de repente. — Se houver alguma chance de encontrar Ellie, eu também quero ir... Nikki ficará bem aqui com os avós.

Embora Richard e Nicole estivessem preocupados com aqueles planos, preferiram não expressar sua ansiedade diante de todos. Patrick foi escolhido para subir as escadas e explorar um pouco a área, enquanto Richard produziria peripécias com o computador. Max e Robert foram para o quarto a fim de se prepararem para a viagem, e Nicole e Nai ficaram sozinhas com Benjy e as crianças no salão principal.

— Você acha um erro Max e Robert voltarem pelo túnel, não acha, Nicole? — perguntou Nai, no tom gentil de sempre que caracterizava sua personalidade.

— Acho sim — respondeu Nicole. — Mas não estou certa se minha opinião é relevante nesta situação... Os dois estão desolados e frustrados e sentem que têm de fazer alguma coisa para encontrar suas parceiras... Mesmo que essa ação não tenha muita lógica.

— O que você acha que irá lhes acontecer? — perguntou Nai.

— Não sei. Mas acho que Max e Robert vão encontrar Eponine e Ellie. Na minha opinião, as duas foram raptadas por razões específicas... Embora eu não tenha idéia de quais sejam essas razões, creio que as octoaranhas não farão mal algum a Eponine e Ellie, e acabarão devolvendo-as para nós.

— Você é muito crédula — comentou Nai.

— Nem tanto. Minhas experiências com octoaranhas me dizem que estamos tratando com uma espécie de alto senso de moralidade... Eu sei que os raptos não são congruentes com esse quadro, e não culpo Max nem Robert por terem opiniões diferentes sobre elas, mas aposto que a longo prazo nós compreenderemos até mesmo o objetivo desses raptos.

— Nesse meio-tempo —; disse Nai — enfrentaremos uma situação difícil. Se Max e Robert partirem e não voltarem...

— Eu sei — falou Nicole —, mas não há nada que se possa fazer. Os dois decidiram que precisam tomar uma atitude agora, especialmente Max. É uma coisa um pouco antiquada e machista, mas compreensível. E nós devemos nos adaptar às necessidades deles, mesmo não concordando com as suas ações.

 

Patrick voltou em menos de uma hora, contando que a escada terminava em um patamar que ia dar num corredor por trás da cúpula. Esse corredor levava a uma outra escada menor, que subia mais dez metros e chegava em uma espécie de iglu, uns cinqüenta metros ao sul do penhasco que dava para o mar Cilíndrico.

— E como era do lado de fora de Rama? — perguntou Richard.

— A mesma coisa que no norte. Frio, mais ou menos uns cinco graus centígrados, e escuro, com poucas luzinhas fracas no fundo... O iglu é quente e bem iluminado, tem camas e um banheiro; certamente foi projetado para os humanos, mas há pouco espaço para a gente se movimentar.

— Não há corredores nem passagens? — perguntou Max.

— Não — disse Patrick, sacudindo a cabeça.

— Tio Rich-ard fez ótimas ima-gens de El-lie e Ep-o-nine — falou Benjy para o irmão. — Você precisa ver.

Max apertou dois botões do seu computador portátil e apareceu uma excelente imagem com o rosto de Eponine.

— Richard não acertou fazer os olhos dela da primeira vez — disse Max —, mas eu consertei... Criar a imagem de Ellie foi mais fácil para ele.

— Então vocês estão mesmo prontos para ir? — perguntou Patrick.

— Quase. Vamos esperar até amanhã de manhã para as luzes do salão iluminarem mais o túnel.

— Quanto tempo acham que vão levar para chegar do outro lado?

— Mais ou menos uma hora, num passo rápido. Espero que Robert consiga me seguir.

— E o que vão fazer se ouvirem o trem do metrô chegando? — perguntou Patrick.

— Não poderemos fazer grande coisa — disse Max, dando de ombros. — Já inspecionamos o túnel, e há muito pouco acostamento. Seu tio Richard disse que devemos contar com o sistema do metrô de proteção contra falhas.

Durante o jantar houve uma discussão sobre o rifle. Richard e Nicole não queriam de jeito algum que Max levasse a arma, não porque quisessem que ela ficasse com o resto da família, mas porque tinham medo de um incidente que pudesse afetar a todos. Richard não teve muito tato ao expor sua idéia, e Max ficou ofendido.

— Então o senhor-sabe-tudo — replicou Max a certa altura — pode me dizer como sabe que o meu rifle será inútil para eu encontrar Eponine?

— Max — disse Richard, perdendo a paciência —, as octoaranhas devem...

— Deixe que eu explico, querido — interrompeu Nicole. — Max — disse ela num tom mais suave —, eu não posso imaginar uma situação em que o rifle tenha alguma valia. Se você precisar dele para lidar com as octoaranhas é porque elas são hostis, e o destino de Eponine e Ellie já terá sido decidido há muito tempo... Nós só não queremos...

— E se encontrarmos outras criaturas hostis, não-octoaranhas, e precisarmos nos defender? — perguntou Max obstinadamente. — E se eu precisar usar o rifle para dar algum tipo de sinal para Robert?... Há várias situações a serem pensadas...

O grupo não conseguiu dar uma solução para o assunto. Richard ficou ainda com mais raiva quando Nicole e Max foram para o quarto.

— Será que Max não compreende que ele quer levar a arma para ter uma sensação de segurança? Uma sensação falsa? E se fizer alguma coisa precipitada e as octoaranhas não nos mandarem mais comida e água?

— Não podemos nos preocupar com isso agora, Richard. A essa altura creio que não há nada a fazer senão pedir a Max para ser cuidadoso e lembrar-se de que ele é nosso representante. Por mais que a gente fale, ele não vai mudar de opinião.

— Então talvez se deva fazer uma votação para ver se ele leva o rifle ou não. E mostrar a Max que todos estão contra ele.

— Meu instinto diz —- replicou Nicole depressa — que uma votação seria uma forma absolutamente errada de lidar com Max. Ele já percebeu que todos estão contra ele. Uma censura coordenada o isolaria e poderia fazer com que ele viesse a ter um incidente... Não, querido, nesse caso é melhor esperarmos que não ocorra nada de desagradável...

Richard ficou calado um instante.

— Eu acho que você tem razão — falou finalmente. — Como sempre... Boa noite, Nicole.

— Boa noite, Richard.

 

— Nós vamos todos esperar aqui por quarenta e oito horas — disse Richard para Max e Robert. — Depois disso começaremos a mudar nossas coisas para o iglu lá de cima.

— Tudo bem — disse Max ajeitando a correia da sua mochila e dando um risinho. — Não se preocupem. Eu só vou atirar nas suas amigas octoaranhas se for absolutamente necessário. — Virou-se para Robert e falou: — Então, meu amigo, está pronto para a aventura?

Robert não parecia muito confortável com sua mochila. Inclinou-se meio desajeitado e levantou a filhinha para se despedir.

— Papai vai ficar fora só por pouco tempo, Nikki. Vovô e vovó vão estar aqui tomando conta de você.

Antes dos dois partirem, Galileu chegou correndo pelo salão com um pequeno pacote nas costas.

— Eu também vou — gritou. — Eu quero lutar com as octoaranhas. Todos riram, e Nai explicou a Galileu por que ele não podia ir com Max e Robert. Patrick atenuou a decepção do menino dizendo que ele seria o primeiro a subir a escada quando a família se mudasse para o iglu.

Max e Robert entraram rapidamente no túnel. Nos primeiros cem metros caminharam em silêncio, entretidos com as fascinantes criaturas marinhas do outro lado do vidro ou plástico transparente. Duas vezes Max teve de diminuir a marcha para esperar por Robert, que estava se cansando muito. Os dois não encontraram nenhum trem do metrô. Depois de pouco mais de uma hora, a lanterna deles iluminou a primeira estação do outro lado do mar Cilíndrico. Quando Max e Robert estavam a cinqüenta metros da plataforma, todas as luzes foram ligadas e eles puderam ver para onde estavam indo.

— Richard e Nicole estiveram aqui — disse Max. — Por trás do arco há uma espécie de átrio, e depois um labirinto de corredores.

— O que vamos fazer aqui? — perguntou Robert, que, ao sentir-se fora do seu elemento, deixou que Max liderasse a situação.

— Eu ainda não decidi. Creio que devemos explorar um pouco para ver se encontramos alguma octoaranha.

Para surpresa de Max, além da plataforma, no meio do chão do átrio, ele viu um grande círculo azul pintado, do qual saía uma linha azul grossa virando para a direita, no início do labirinto de corredores vermelhos.

— Richard e Nicole nunca mencionaram essa linha azul — disse Max para Robert.

— É obviamente uma sinalização para idiotas — disse Robert, rindo nervoso. — Seguir a linha azul grossa é tão fácil como seguir o caminho de tijolo amarelo.

Os dois entraram no primeiro corredor. A linha azul do centro do chão estendia-se uns cem metros à frente e depois virava à esquerda, em um cruzamento distante.

— Você acha que devemos seguir a linha, não é? — perguntou Max.

— E por que não? — disse Robert, dando uns passos no corredor.

— É óbvio demais — falou Max, para si mesmo e para o companheiro, agarrando o rifle e seguindo Robert. Depois da primeira virada à esquerda ele falou de novo: — Você não acha que esta linha foi colocada aqui especificamente para nós, acha?

— Não — respondeu Robert, parando um instante. — Como alguém poderia saber que vínhamos para cá?

— Foi exatamente isso que me perguntei — resmungou Max.

Os dois caminharam em silêncio seguindo a linha azul, e viraram mais três vezes à esquerda até chegarem a um arco que ficava a apenas um metro e meio do chão. Eles se abaixaram e entraram num salão com teto e paredes vermelho-escuras. A linha azul terminava em um grande círculo azul no meio da sala.

Os dois se sentaram no círculo azul, e menos de um segundo depois as luzes se apagaram. Um filme silencioso, com uma imagem de cerca de um metro quadrado, apareceu na parede diretamente em frente a eles. No centro da imagem estavam Eponine e Ellie, vestidas com uns camisões amarelos esquisitos. As duas conversavam entre si e com uma pessoa ou coisa à direita que não dava para ver, mas Max e Robert não ouviam nada do que elas diziam. Um instante depois, as duas deslocaram-se um pouco para a direita, passaram por uma octoaranha e apareceram ao lado de um animal gordo e estranho, lembrando vagamente uma vaca, com uma barriga branca chata. Ellie segurou uma caneta com forma de cobra, apertou-a várias vezes e escreveu na superfície branca a seguinte mensagem: "Não se preocupem. Nós estamos bem." As duas sorriram, e a imagem desapareceu abruptamente um segundo depois.

Enquanto Max e Robert se recobravam do espanto, o filme de noventa segundos foi repetido duas vezes integralmente. Na segunda repetição, eles conseguiram prestar bastante atenção aos detalhes. Quando o filme terminou, a sala vermelha iluminou-se toda de novo.

— Jesus Cristo — disse Max, sacudindo a cabeça. Robert estava contente.

— Ela está viva! — exclamou. — Ellie está viva!

— Se pudermos acreditar no que vimos — falou Max.

— Ora, Max — falou Robert um instante depois. — Por que as octoaranhas fariam um filme para nos enganar? Não seria muito mais fácil não fazerem nada?

— Não sei. Mas me diga uma coisa. Como elas sabiam que nós dois estávamos preocupados com Eponine e Ellie? Só há duas explicações possíveis. Ou elas nos observaram desde que entramos nesta toca ou alguém...

— .... do nosso grupo está passando informações para as octoaranhas. Max, não passou pela sua cabeça nem um instante que pudesse ser Richard ou Nicole, não é?...

— É claro que não — interrompeu Max. — Mas não consigo entender como nós pudemos ser observados com tanto cuidado. Não vimos nenhum tipo de dispositivo que pudesse captar nossa imagem... A não ser que uns lindos e sofisticados transmissores tenham sido colocados em nós, ou dentro de nós, o que não faz o menor sentido.