A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 6 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 4

— Aquele belíssimo monumento projetado pelo seu marido, que representava o ponto em que Rama estava na galáxia... Lembra-se de que ele foi destruído na noite em que a multidão queria linchar Martínez?... Bem, ele nunca foi substituído.

Mais uma vez, Nicole afundou em suas lembranças. Talvez seja esse o significado da velhice. Muitas lembranças sempre atropelando o presente. Recordou-se da multidão turbulenta e do menino de cabelos vermelhos gritando: "Matem aquela puta negra..."

— O que aconteceu com Martínez? — indagou Nicole com cuidado, com medo da resposta.

— Foi eletrocutado logo depois que Nakamura e Macmillan tomaram o poder. O julgamento ficou nas manchetes durante vários dias.

Eles tinham atravessado a Cidade Central e continuavam para o sul, na direção de Beauvois, o vilarejo onde Nicole, Richard e o resto da família tinham vivido antes do golpe de Nakamura. Tudo podia ter sido diferente, pensou Nicole olhando para o Monte Olimpo que se elevava à sua esquerda. Nós poderíamos ter tido um paraíso aqui. Devíamos ter tentado mais...

Era sempre uma seqüência de pensamentos que Nicole seguira centenas de vezes desde aquela noite terrível, a mesma noite em que Richard fugira apressadamente do Novo Éden. Havia sempre a mesma tristeza profunda em seu coração, as mesmas lágrimas em seus olhos.

Nós humanos, lembrou-se ela de ter dito um dia para a Águia em Nodo, somos capazes de comportamentos paradoxais. Às vezes, quando há amor e compaixão, parecemos estar logo abaixo dos anjos. Mas na maior parte das vezes a cobiça e o egoísmo se sobrepõem às nossas virtudes, e nos tornamos indistinguíveis daquelas criaturas más das quais nos originamos.

 

4

 

Max tinha deixado a festa há quase duas horas, e Eponine e Nicole estavam alarmadas. Quando as duas tentaram atravessar a pista de dança apinhada de gente, dois homens vestidos de Robin Hood e Frei Tuck as detiveram.

— Você pode não ser a Donzela Marian mas é a Donzela do Mar, o que dá quase no mesmo — disse Robin Hood para Eponine. Ele riu de sua própria piada, estendeu os braços e começou a dançar com ela.

— Será que um frade menos graduado poderá dançar com sua majestade? — perguntou o outro homem. Nicole riu para si mesma. Qual é o mal de dançar um pouquinho?, pensou. Caiu nos braços de Frei Tuck e começou a rodopiar lentamente pelo salão.

Ele era um homem tagarela. Depois de alguns compassos, ele se afastou um pouco de Nicole e lhe fez uma pergunta. Como planejado, Nicole respondeu com um movimento de cabeça ou um gesto. No final da música o frade começou a rir.

— Realmente, acho que estou dançando com uma muda. Muito graciosa, sem dúvida, mas mesmo assim uma muda.

— Estou com um terrível resfriado — disse Nicole baixinho, tentando disfarçar a voz.

Depois de ter falado, ela sentiu uma mudança drástica nos modos do frade. Sua preocupação aumentou quando, no final da dança, o homem continuou a segurá-la nos braços e a olhá-la durante vários segundos.

— Já ouvi sua voz antes — disse ele, sério. — É uma voz muito especial... Será que a conheço? Sou Wallace Michaelson, o senador da zona oeste de Beauvois.

É claro, pensou Nicole em pânico. Agora me lembro. Você era um dos americanos do Novo Éden que apoiava Nakamura e Macmillan.

Nicole não ousou dar mais nenhuma palavra. Felizmente Eponine e Robin Hood se aproximaram dela e do frade fantasiado antes que o silêncio entre os dois ficasse longo demais. Eponine sentiu o que acontecera e agiu rapidamente.

— A rainha e eu — disse, puxando Nicole pela mão — estávamos indo ao toalete quando os bandidos da floresta de Sherwood nos encontraram. Se nos derem licença, agradecemos a dança e seguiremos nosso destino.

Enquanto elas se afastavam, os dois homens as observavam atentamente. Ao chegarem ao toalete, Eponine primeiro abriu todas as portas dos banheiros para ter a certeza de que estavam sozinhas.

— Alguma coisa aconteceu — disse Eponine baixinho. — Provavelmente, Max teve de ir ao armazém para substituir seu equipamento.

— Frei Tuck é um senador de Beauvois — falou Nicole. — Ele quase reconheceu minha voz... Não estou me sentindo segura aqui.

— Tudo bem — disse Eponine nervosa, depois de um instante de hesitação. — Vamos seguir o plano alternativo... Sairemos pela porta da frente e esperaremos debaixo da árvore grande.

As duas viram a pequena câmera instalada no teto ao mesmo tempo, fazendo um pequeno ruído quando mudava de orientação para segui-las em volta do toalete. Nicole tentou lembrar-se de todas as palavras que ela e Eponine haviam dito. Será que dissemos alguma coisa que sugerisse quem nós somos? Ela preocupou-se mais com Eponine, pois a amiga iria continuar a viver na colônia depois que ela conseguisse fugir ou fosse capturada.

Quando Nicole e Eponine voltaram para o salão de baile, Robin Hood e seu frade favorito fizeram sinal para que elas fossem até eles. Mas Eponine seguiu na direção da porta, pôs os dedos nos lábios para indicar que estava saindo para fumar e atravessou a sala com Nicole. Ao abrir a porta da saída, olhou por trás dos ombros.

— Os homens de verde estão nos seguindo — cochichou para Nicole. A uns vinte metros da entrada do salão de baile, que era na realidade o

ginásio da Escola Secundária de Beauvois, havia um grande olmo que fora uma das poucas árvores ]á grandes transportadas da Terra para Rama. Quando Eponine e a rainha Nicole chegaram à árvore, Eponine abriu sua bolsa, pegou um cigarro e acendeu-o rapidamente. Soprou a fumaça para longe de Nicole.

— Desculpe-me — sussurrou para a amiga.

— Eu compreendo — Nicole respondeu, e, mal acabara de falar, Robin Hood e Frei Tuck já estavam ao seu lado.

— Bem, bem — começou Robin Hood —, então nossa princesa-sereia é fumante. Não sabe que está perdendo anos da sua vida?

Eponine ia começar a dar a resposta costumeira, a dizer ao homem que iria morrer muito antes pelo vírus do RV-41, mas decidiu não falar nada que pudesse encorajar os homens a ficar ali. Deu apenas um sorriso, tragou fundo e soltou a fumaça acima da cabeça, para os galhos da árvore.

— O frade aqui e eu gostaríamos que as senhoras tomassem um drinque conosco — disse Robin Hood, ignorando o fato de que nem Eponine nem Nicole tinham respondido ao comentário dele.

— É — acrescentou Frei Tuck —, gostaríamos de saber quem são as senhoras... — falou, olhando fixo para Nicole. — Tenho certeza de que já nos encontramos antes. Sua voz me é muito familiar.

Nicole fingiu tossir e olhou em volta. Havia três policiais num raio de cinqüenta metros. Aqui não, pensou ela. Agora não. Não agora que estou tão perto de me libertar.

— A rainha não está se sentindo bem — disse Eponine. — Talvez tenhamos de ir embora cedo. Se não, voltaremos para nos encontrar com vocês...

— Eu sou médico — interrompeu Robin Hood, aproximando-se de Nicole. — Talvez possa ajudar.

Nicole estava muito tensa. Sua respiração ficou curta e difícil. Ela tossiu novamente e virou-se de costas para os dois homens.

— É uma tosse terrível, majestade — disse uma voz familiar. — É melhor que a levemos para sua casa.

Nicole olhou para cima e viu outro homem de verde. Era Max, ou melhor, o rei Netuno, sorrindo para ela. Por trás dele, Nicole pôde ver a carruagem estacionada a menos de dez metros de distância. Nicole sentiu-se feliz e aliviada. Deu um grande abraço em Max e quase se esqueceu do perigo que estava correndo.

— Max — falou, antes que ele pusesse o dedo em seus lábios.

— Sei que vocês duas estão encantadas em ver que o rei Netuno terminou seu trabalho por hoje — disse, num tom floreado — e pode agora acompanhá-las ao seu castelo, longe dos bandidos e de outros elementos desagradáveis.

Max olhou para os dois homens, que estavam apreciando o seu desempenho, embora ele tivesse estragado os planos que tinham para a noite.

— Obrigado, Robin. Obrigado, Frei Tuck — continuou Max, enquanto ajudava as duas senhoras a entrar na carruagem. — Foi muito gentil a atenção dispensada às minhas amigas.

Frei Tuck aproximou-se da carruagem, obviamente para fazer mais uma pergunta, mas Max saiu pedalando.

— É uma noite de fantasias e mistério — disse ele, dando adeus aos homens. — Mas não podemos nos demorar, pois o mar nos chama.

— Você foi fantástico — disse Eponine beijando Max. Nicole fez que sim.

— Talvez você tenha errado de profissão. Devia ter sido ator e não fazendeiro.

— Eu fiz o papel de Marco Antônio na nossa peça do ginásio em Arkansas

— disse Max, passando a Nicole a máscara de mergulho para que ela a ajustasse. — Os porcos adoravam meus ensaios... "Amigos, romanos, compatriotas... emprestem-me seus ouvidos... Vim aqui para enterrar César, não para elogiá-lo."

Os três riram ao mesmo tempo. Estavam de pé em uma pequena clareira a uns cinco metros da margem do lago Shakespeare, escondidos da estrada próxima e da ciclovia por algumas árvores e uns arbustos altos. Max levantou o tanque de ar e ajudou Nicole a colocá-lo nas costas.

— Está tudo pronto então? — perguntou. Nicole fez que sim.

— Os robôs vão encontrar com você no esconderijo — continuou ele. — Pediram-me para lembrá-la de não descer rápido demais... Você não mergulha há muito tempo.

Nicole ficou em silêncio durante uns segundos.

— Não sei como agradecer a vocês dois — disse, sem jeito. — Nada que eu pense em dizer parece adequado para o momento.

Eponine andou na sua direção e abraçou-a.

— Fique em segurança, minha amiga. Nós amamos muito você.

— Eu também — disse Max, um instante depois, engasgando ao abraçá-la. Os dois acenaram para Nicole quando ela entrou no lago.

Lágrimas corriam de seu rosto e juntavam-se no fundo da máscara de mergulho. Nicole acenou pela última vez quando a água chegou até sua cintura.

 

A água estava mais fria do que Nicole supunha. Ela sabia que as variações de temperatura no Novo Éden tinham sido muito maiores desde que os colonos tomaram a seu cargo a administração de seu próprio tempo, mas não tinha pensado que as mudanças nos padrões de temperatura pudessem alterar a temperatura do lago.

Nicole mudou a quantidade de ar no seu colete para diminuir a velocidade da descida. Não se apresse, aconselhou a si própria. E relaxe. Você vai ter de nadar um bocado agora.

Joan e Eleonor tinham treinado Nicole várias vezes quanto aos procedimentos que ela deveria seguir para localizar o longo túnel por baixo da parede do habitat. Ela ligou a lanterna e examinou a flora aquática à sua esquerda. Trezentos metros do centro do lago, diretamente perpendicular à parede do fundo da área de alimentação dos salmões, lembrava-se. Desça a uma profundidade de vinte metros até ver a plataforma de concreto abaixo de você.

Nicole nadou com facilidade, mas cansou-se rapidamente. Lembrou-se de uma discussão que tivera com Richard uns anos antes, quando os dois pensavam em nadar juntos pelo mar Cilíndrico para fugir de Nova York.

— Mas eu não nado tão bem assim — dissera Nicole. — Talvez não consiga atravessar.

Richard lhe assegurara naquela época que, como ela era uma atleta excepcional, não teria problema em nadar uma grande extensão. Agora aqui estou, nadando para sobreviver, seguindo o mesmo caminho que Richard usou dois anos atrás, pensou Nicole. Só que já tenho uns sessenta anos e estou fora de forma.

Ela encontrou a plataforma de concreto, desceu outros quinze metros, observando com cuidado todos os seus instrumentos de medida, e rapidamente localizou uma das grandes estações de bombeamento espalhadas no fundo do lago para manter a água em permanente circulação. Agora a entrada do túnel deve estar escondida logo abaixo de um desses motores grandes. Mas não a encontrou com facilidade. Primeiro, passou sem vê-la, por causa da nova vegetação que havia crescido em volta do complexo de bombeamento.

O túnel era um tubo de quatro metros de diâmetro, absolutamente cheio de água. Fora incluído como uma saída de emergência no projeto original do habitat por insistência de Richard, cuja formação de engenharia lhe ensinara a pensar sempre nas contingências não-previstas. Da entrada do lago Shakespeare até a saída na planície Central, para além das paredes do habitat, era preciso nadar por cerca de um quilômetro. Nicole levara dez minutos mais do que planejara para encontrar a entrada, e já estava muito cansada quando começou atravessar a última etapa a nado.

Durante seus dois anos de prisão, o único exercício que fazia era andar, sentar e levantar, e se alongar, o que fazia com intervalos irregulares. Seus músculos desgastados pela idade não conseguiam mais enfrentar uma grande fadiga sem ter cãibras. Três vezes durante a travessia pelo túnel sentiu cãibras nos músculos da perna. E todas as vezes lutou contra isso, forçando-se a relaxar até a cãibra passar de todo. Seu progresso daí por diante foi muito lento. No final do percurso a nado, Nicole ficou assustada, com medo de perder o ar antes de alcançar a saída do túnel.

Nos últimos cem metros, seu corpo começou a doer muito. Os braços não conseguiam mais se mover na água, e as pernas não tinham força para bater. Foi então que começou a sentir a dor no peito. Uma dor surda, desconcertante, que a perseguiu até mesmo depois que o medidor de profundidade indicou que o túnel estava subindo um pouco.

Quando finalmente Nicole chegou no fim e ficou de pé, quase desmoronou. Durante alguns minutos, tentou em vão controlar sua respiração e seu pulso, e não teve forças para levantar a tampa de metal da saída, acima de sua cabeça. Com medo de ter ultrapassado seu limite físico de resistência, Nicole resolveu ficar no túnel e tirar um cochilo.

Acordou duas horas depois, ao ouvir um ruído estranho vindo de cima. Ficou de pé, diretamente embaixo da tampa, e escutou com atenção. Eram vozes, mas ela não conseguia perceber o que estavam dizendo. O que está acontecendo?, perguntou a si mesma, com o coração aos pulos. Se fui descoberta pela polícia, por que eles não levantam a tampa?

De repente, ouviu uma forte batida na tampa.

— Você está aí, Nicole? — perguntou o robô Joana. — Se estiver, identifique-se imediatamente. Trouxemos umas roupas quentes para você trocar, mas não temos força para levantar a tampa.

— Sim, sou eu — gritou Nicole aliviada. — Vou subir assim que puder. Com a roupa molhada, Nicole ficou morrendo de frio ao se ver no ar revigorante de Rama, onde a temperatura era de poucos graus acima de zero. Seu queixo batia fortemente enquanto ela caminhava os oitenta metros no escuro, à procura do esconderijo onde iria encontrar comida e roupas secas.

Quando o trio pegou os suprimentos, Joana e Eleonor disseram a Nicole que ela devia vestir o uniforme do exército que Ellie e Eponine haviam deixado ali. Nicole perguntou por quê, e os robôs explicaram que para chegar a Nova York teriam de passar por um segundo habitat.

— Caso eles nos descubram — disse Eleonor, sentada em segurança dentro do bolso da camisa de Nicole —, será mais fácil escaparmos se você estiver usando um uniforme de soldado.

Nicole vestiu as ceroulas e o uniforme. Só quando seu frio passou é que percebeu que estava com muita fome. Enquanto comia, colocou todas as outras coisas que estavam embrulhadas no lençol dentro da mochila que havia trazido por baixo do colete.

 

Foi difícil entrar no segundo habitat. Nicole e os dois robôs que estavam dentro do seu bolso não haviam encontrado nenhum ser humano na planície Central, mas a entrada para a antiga casa das aves e dos sésseis estava guardada por uma sentinela. Eleonor tinha saído para pesquisar a área e falou sobre a dificuldade. O trio parou a uns quatrocentos metros da rua principal entre os dois habitats.

— Deve ser uma nova medida de segurança, criada depois de sua fuga — disse Joana para Nicole. — Nós nunca tivemos qualquer dificuldade para ir e vir.

— Não há outras ruas dando lá para dentro? — indagou Nicole.

— Não — respondeu Eleonor. — O ponto original de inspeção era aqui. Depois, ele foi consideravelmente ampliado, é claro, e construíram uma ponte por cima do fosso, para que as tropas pudessem se movimentar mais depressa. Mas não há outras entradas.

— E é absolutamente necessário atravessar esse habitat para nos encontrarmos com Richard em Nova York?

— É — replicou Joana. — Aquela imensa barreira cinza ao sul, a que forma o muro do segundo habitat e que tem muitos quilômetros, evita a movimentação para dentro e para fora do Hemicilindro Norte de Rama. Nós poderíamos voar por cima dele se tivéssemos um avião que alcançasse uma altitude de dois quilômetros e um piloto muito esperto, mas não temos... Além do mais... Richard está contando que cheguemos através do habitat.

Ficaram esperando longo tempo no escuro. De quando em vez, um dos robôs ia checar a entrada, mas havia sempre uma sentinela. Nicole foi ficando cansada e irritada, e disse, a certa altura:

— Não podemos ficar aqui para sempre. Deve haver algum outro plano.

— Não temos conhecimento de nenhum plano ou de uma alternativa nessa situação — disse Eleonor, fazendo Nicole lembrar-se de que elas eram apenas robôs.

Durante um breve cochilo, Nicole sonhou que estava dormindo nua, no alto de um enorme cubo de gelo muito plano. As aves desciam do céu para bicá-la, e centenas de robôs como Joana e Eleonor a rodeavam na superfície do gelo, cantando alguma coisa em uníssono.

Quando Nicole acordou, sentiu-se um pouco descansada. Falou com os dois robôs, e pensaram num outro plano. As três decidiram só sair dali quando houvesse uma folga no tráfego em direção à entrada para o segundo habitat. Então, os robôs distrairiam a sentinela para que Nicole pudesse entrar, passando com cuidado para o outro lado da ponte e virando à direita na margem do fosso.

— Depois, espere por nós — disse Eleonor — no pequeno abrigo a uns trezentos metros da ponte.

Vinte minutos depois, Joana e Eleonor criaram uma grande confusão junto do muro, a mais ou menos cinqüenta metros da entrada. E Nicole caminhou livremente para o interior do habitat quando a sentinela saiu do posto para saber que barulhada era aquela. Uma vez lá dentro, ela viu uma longa escada sinuosa descendo a centenas de metros, desde o alto da entrada até o fundo do fosso largo que circundava todo o habitat. Na escada havia umas tantas luzes a intervalos regulares, e Nicole percebeu mais luzes na ponte à sua frente, mas a iluminação ambiental era bastante escassa. Ela ficou tensa ao ver dois operários subindo as escadas na sua direção. Mas eles passaram por ela sem reconhecê-la, e ela ficou feliz por estar usando o uniforme.

Enquanto esperava no fosso, Nicole olhou para o centro do habitat alienígena e tentou ver todos os fascinantes detalhes que os robôs lhe haviam descrito: a imensa estrutura cinzenta e cilíndrica erguendo-se a mil e quinhentos metros, que já servira de abrigo às colônias das aves e dos sésseis; a grande esfera coberta, pendurada no teto do habitat para fornecer luz; e o anel de prédios brancos misteriosos, ao longo de um canal cercando o cilindro.

A esfera coberta não era iluminada há meses, desde a primeira incursão humana ao reino .das aves e dos sésseis. As únicas luzes que Nicole pôde ver eram pequenas e espalhadas aqui e ali, obviamente colocadas no habitat pelos invasores humanos. Assim, ela só conseguiu perceber uma vaga silhueta do grande cilindro, uma sombra com extremidades muito indistintas. Richard deve ter se sentido glorioso quando entrou aqui pela primeira vez, pensou Nicole, movida pelo sentimento de estar num lugar que abrigara até pouco tempo uma outra espécie senciente. Aqui também, continuou a pensar, estendemos a nossa hegemonia, dominando todas as formas de vida que não são tão poderosas quanto nós.

Eleonor e Joana levaram mais tempo do que o esperado para se encontrarem com Nicole, e as três enfim seguiram lentamente ao longo do fosso. Um dos robôs caminhava sempre na frente, examinando tudo, para evitar o contato com outros seres humanos. Por duas vezes, na parte do habitat que se assemelhava a uma floresta da Terra, Nicole esperou quieta que um grupo de soldados ou operários passassem pela estrada à sua esquerda. Nas duas vezes, ficou observando as interessantes plantas novas à sua volta, completamente fascinada. A um certo momento viu uma criatura, misto de sanguessuga e minhoca, tentando entrar no pé direito da sua bota. Apanhou o bichinho e colocou-o no bolso.