A Revelação de Rama
Capítulo 12
— Não — disse Richard. — Eu sei o que ouvi. Já convivi com muitas crianças e ouvi muito choro na minha vida.
Nicole sorriu.
— Agora o sapato está no outro pé, não é, querido? Você se lembra da sua reação quando eu disse que tinha visto o rosto de uma mulher naquele mural, na noite em que assistimos à peça das octoaranhas? Você caçoou de mim e disse que eu era "absurda", se é que me lembro bem da palavra.
— Então qual é a explicação? As octoaranhas raptaram humanos de Avalon, e o incidente nunca foi relatado? Mas como elas puderam...
— Você disse alguma coisa para Archie? — perguntou Nicole.
— Não. Eu estava pasmo. No início fiquei intrigado, porque nem ele e nem o zelador do zôo fizeram comentário de espécie alguma, e depois me lembrei de que as octoaranhas são surdas.
Os dois ficaram em silêncio por um instante.
— Ninguém esperava que você ouvisse aquele som, Richard — falou Ni-cole. — Nossos hospedeiros quase perfeitos fizeram uma manobra não-ótima.
Richard riu.
— É claro que eles estão gravando nossa conversa. Amanhã eles saberão que nós sabemos...
— É melhor não contarmos isso ainda para os outros — falou Nicole. — Talvez as octoaranhas decidam dividir seu segredo conosco... Aliás, quando você começa a trabalhar?
— Quando eu quiser — respondeu Richard. — Eu disse a Archie que antes tinha de terminar uns trabalhos meus.
— Parece que seu dia foi fascinante — comentou Nicole. — Por aqui tudo esteve muito calmo; a única novidade foi que Patrick e Nai marcaram a data do casamento... de amanhã a três semanas.
— O quê? — disse Richard. — Por que não me contou isso antes? Nicole riu.
— Não tive chance... Você entrou aqui falando sem parar sobre choro no zôo, e aves, e quadróides, e o Banco de Embriões... Eu sabia, por experiência, que teria de esperar para contar as novidades depois que você se cansasse.
— Muito bem, mãe do noivo — falou Richard logo depois —, como está se sentindo?
— Considerando tudo, estou muito contente... Você sabe como eu gosto de Nai... Só que o tempo e o lugar são estranhos para se começar um casamento.
12
Estavam todos sentados na sala de estar dos Wakefield, esperando que a noiva aparecesse. Patrick, nervoso, esfregava as mãos.
— Tenha paciência, garoto — disse Max, atravessando a sala e pondo os braços em volta de Patrick. — Ela vai chegar... A mulher gosta de ficar bem bonita no dia do seu casamento.
— Comigo foi diferente — disse Eponine. — Na verdade, nem me lembro da roupa que eu estava vestindo no dia em que me casei.
— Eu me lembro muito bem, francesinha — falou Max rindo —, espe-cialmente quando chegamos no iglu. A maior parte do tempo você usou a roupa com que nasceu.
Todos riram. Nicole entrou na sala e disse:
— Dentro de mais uns minutos ela estará aqui. Ellie está ajudando Nai a dar os últimos retoques no vestido. — Deu uma olhada em volta. — Onde estão Archie e o dr. Azul?
— Foram em casa um instante buscar um presente especial para a noiva — disse Ellie.
— Eu não gosto quando essas octoaranhas ficam por aqui — disse Galileu com um tom desagradável. — Elas me deixam arrepiado.
— A partir da semana que vem, Galileu — disse Ellie com sua voz suave, vocês vão ter uma octoaranha na escola quase todo o tempo... Ela vai ajudá-los a aprender a língua delas...
— Não quero aprender a língua delas — disse o menino com ar de desafio.
Max foi para perto de Richard.
— Então, como vai indo o trabalho, amigo? Quase não o temos visto nessas duas últimas semanas.
— O trabalho é absolutamente fascinante, Max — disse Richard com entusiasmo. — Estou trabalhando num projeto de enciclopédia, ajudando as octoaranhas a projetar um novo conjunto de software para exibir todas as informações fundamentais sobre centenas de milhares de espécies que se encontram no Banco de Embriões... As octoaranhas acumulam uma enorme riqueza de dados nos seus testes, mas surpreendentemente não sabem muito bem como gerenciá-los com eficiência. Ontem comecei a trabalhar com dados recentes de testes de um conjunto de agentes microbiológicos que são classificados, na taxinomia das octoaranhas, pela série de plantas e animais para os quais são letais...
Richard parou quando Archie e o dr. Azul entraram carregando uma caixa de mais ou menos um metro de altura, embrulhada no papel pergaminho das octoaranhas. Colocaram o presente em um canto e ficaram esperando de pé na sala. Ellie entrou um instante depois, cantando a marcha nupcial de Mendelssohn, seguida de Nai.
A noiva de Patrick usava seu vestido tailandês de seda, enfeitado com as flores brilhantes amarelas e pretas que as octoaranhas haviam dado a Ellie. As flores estavam presas estrategicamente no vestido. Patrick levantou-se e foi para o lado de Nai, em frente à sua mãe, e o casal se deu as mãos.
Nicole foi convidada a presidir a cerimônia e fazer tudo da forma mais simples possível. Enquanto ela se preparava para dizer umas palavras para os noivos, foi tomada de repente pela lembrança de outros casamentos na sua vida. Viu Max e Eponine, Michael O'Toole e sua filha Simone, Robert e Ellie... Nesse ponto, Nicole estremeceu ligeiramente, ao se lembrar dos tiros. Mais uma vez, pensou ela, forçando-se a voltar ao presente, estamos todos reunidos aqui.
Ela mal conseguia falar, invadida por seus sentimentos. Este é meu último casamento, percebeu ela, quase pensando alto. Não vai haver outro. Uma lágrima rolou pelo seu rosto.
— Você está bem, Nicole? — perguntou a noiva baixinho, atenciosa como sempre. Nicole fez que sim e sorriu.
— Meus amigos — começou Nicole —, estamos reunidos aqui hoje para assistir e comemorar o casamento de Patrick Ryan O'Toole e Nai Buatong Watanabe. Vamos formar um círculo em volta deles dando-nos as mãos, para mostrar nosso apoio ao seu casamento.
Nicole fez um sinal para as duas octoaranhas quando o círculo foi for-mado, e elas também colocaram seus tentáculos em volta dos humanos que estavam a seu lado.
— Patrick — disse Nicole com a voz embargada —, aceita esta mulher, Nai, como sua legítima esposa, para amar e cuidar por toda a vida?
— Aceito — disse Patrick.
— E você, Nai, aceita este homem, Patrick, como seu legítimo esposo, para amar e cuidar por toda a vida?
— Aceito — disse Nai.
— Então eu os declaro marido e mulher. — Patrick e Nai abraçaram-se e todos gritaram. O primeiro abraço dos recém-casados foi reservado a Nicole.
— Você algum dia conversou com Patrick sobre sexo? — perguntou Nicole a Richard, quando a festa terminou e todos foram embora.
— Não. Max disse que faria isso... Mas não deve ter sido necessário. Afinal de contas, Nai já foi casada... Meu Deus, como você estava emocionada esta noite! O que aconteceu?
Nicole sorriu.
— Eu fiquei pensando em outros casamentos, Richard. No de Simone e Michael, Ellie e Robert...
— Desse eu gostaria de me esquecer — falou Richard. — Por muitas razões.
— Eu achei, durante a cerimônia, que estava chorando porque esse seria provavelmente o último casamento a que assistiria. Mas depois, durante a festa, pensei em outra coisa. Você nunca se importou, Richard, por nós não termos tido uma cerimônia oficial de casamento?
— Não — disse Richard, sacudindo a cabeça. — Eu tive uma cerimônia com Sarah, e isso bastou para mim...
— Mas você teve uma cerimônia, Richard, e eu não. Tive filhos de três pais diferentes, mas nunca fui uma noiva.
Richard ficou em silêncio por um tempo.
— E você acha que era por isso que estava chorando?
— Talvez, mas não tenho certeza.
Nicole deu uma volta na sala e Richard ficou pensando.
— Não é linda a estátua de Buda que as octoaranhas deram a Nai? — perguntou ela. — Uma peça de arte magnífica... Acho que Archie e o dr. Azul se divertiram bastante. Não sei por que Jamie veio buscá-los tão cedo...
— Você gostaria de ter uma cerimônia de casamento? — perguntou Richard de repente.
— Na nossa idade? — falou Nicole, dando uma risada. — Nós já somos avós.
— Mas se a fizesse feliz...
— Você está me pedindo em casamento, Richard Wakefield?
— Creio que sim. Não quero que você fique triste porque nunca foi uma noiva.
Nicole atravessou a sala e beijou o marido.
— Talvez fosse divertido. Mas não vamos planejar nada antes de Patrick e Nai se instalarem. O momento de glória agora é deles.
Richard e Nicole foram para o quarto abraçados e levaram um susto quando viram que a passagem estava bloqueada por Archie e o dr. Azul.
— Vocês precisam vir conosco imediatamente — disse Archie. — É uma emergência.
— Agora? A essa hora? — perguntou Nicole.
— É — respondeu o dr. Azul. — Só vocês dois. O Chefe Otimizador está esperando... Ele vai explicar tudo.
Nicole sentiu seu coração disparar quando a adrenalina entrou no seu sistema.
— Vou precisar de um casaco? — perguntou. — Nós vamos sair da cidade?
Por alguma razão, a primeira idéia de Nicole foi que aquela emergência tinha a ver com o choro de criança que Richard ouvira depois de sua primeira visita ao Banco de Embriões. Será que a criança estava doente? Será que estava morrendo? Então por que não estavam indo diretamente para o zôo, que ficava fora da cúpula, no Domínio Alternativo?
O Chefe Otimizador e sua equipe estavam esperando. Havia duas cadeiras na sala. Assim que Richard e Nicole se sentaram, o chefe das octoaranhas começou a falar em cores.
— Está havendo uma crise grave, que infelizmente poderá levar à guerra entre nossas duas espécies. — O Chefe Otimizador fez um sinal com seu tentáculo e começaram a aparecer imagens de vídeo na parede. -— Hoje bem cedo dois helicópteros começaram a descer tropas da ilha de Nova York para o extremo norte do nosso território, bem ao lado do mar Cilíndrico. Os dados dos nossos quadróides indicam que não só a sua espécie está se preparando para nos atacar como também que seu líder Nakamura obteve apoio do Senado para os preparativos da guerra, e num tempo relativamente curto criou um arsenal que poderá causar danos substanciais à nossa colônia.
O Chefe Otimizador parou, enquanto Nicole e Richard observavam as imagens mostrando as bombas, bazucas e metralhadoras sendo fabricadas no Novo Éden.
— Os humanos fizeram investigações nos últimos quatro dias através de pequenos grupos por terra e dois helicópteros no ar. Essas missões de reco-nhecimento chegaram à barreira de floresta ao sul, e cobriram todo o alcance cilíndrico do nosso território. Quase trinta por cento de nossa comida, energia e suprimento de água encontram-se na região onde os humanos fizeram o reconhecimento. Não houve nenhum combate, pois nós não oferecemos resistência às atividades de exploração. Mas colocamos cartazes em lugares estratégicos, usando palavras que conhecemos da sua língua, para informar às tropas humanas que todo o cilindro sul pertence a uma espécie avançada, mas pacífica, e solicitando que os humanos voltem para seu próprio território. Nossos cartazes foram ignorados.
— Dois dias atrás ocorreu um incidente preocupante. Enquanto colhíamos cereais em uma de nossas grandes plantações, um helicóptero ficou sobrevoando a área. Logo depois o veículo aterrissou por perto e desceram quatro soldados. Sem que fossem de forma alguma provocados, esses humanos executaram os três animais que faziam a colheita, aquelas criaturas de seis braços que vocês viram no primeiro reconhecimento que fizeram do nosso território, e atearam fogo à plantação. A partir desse incidente, as palavras dos nossos cartazes mudaram. Nós deixamos bem claro que qualquer outro comportamento semelhante será considerado um ato de guerra. Entretanto, pela ações de hoje de manhã, parece que nossos avisos não foram considerados e que a sua espécie está planejando começar um conflito do qual não tem condições de sair vitoriosa. Estive pensando hoje em fazer uma declaração de guerra, acontecimento extremamente grave para uma colônia de octoaranhas com ramificações em todos os níveis da nossa sociedade. Porém, antes de tomar essa decisão irreversível, consultei esses outros otimizadores, cuja opinião respeito muito. A maioria da minha equipe é a favor da declaração de guerra, pois não vê nenhum meio para convencer seus conterrâneos de que um conflito conosco representaria um desastre para eles. A octoaranha que vocês chamam de Archie, entretanto, apresentou à minha equipe uma proposta que pensamos que tem alguma possibilidade de funcionar. Embora nossos analistas estatísticos digam que provavelmente ocorrerá a guerra, nossos princípios exigem que façamos todo o possível para evitá-la... Como a proposta de Archie requer seu envolvimento e cooperação, vocês foram chamados aqui esta noite.
O Chefe Otimizador parou de falar em cores e foi para o lado da sala. Richard e Nicole entreolharam-se.
— O seu tradutor pegou tudo? — perguntou Nicole.
— Quase tudo — respondeu Richard. — Pelo menos entendi a essência da situação... Você tem alguma pergunta a fazer? Ou devemos sugerir que eles expliquem a proposta de Archie?
Nicole fez um sinal na direção de Archie e ele foi para o centro da sala.
— Eu me ofereci — disse a octoaranha — para negociar pessoalmente com os líderes humanos, a fim de tentar deter um conflito antes que se chegue a uma guerra em alta escala. Porém, para conseguir isso, vou precisar obviamente de ajuda. Se eu aparecer de repente no acampamento dos soldados humanos, eles me matarão. E, mesmo que não me matem, não terão como compreender o que eu vou lhes falar. Portanto, algum humano que compreenda a nossa língua deve me acompanhar para traduzir minhas cores, caso contrário não haverá possibilidade de ser iniciado um diálogo significativo...
Depois que Richard e Nicole disseram ao Chefe Otimizador que concor-davam com o conceito básico proposto por Archie, os dois humanos e seu colega octoaranha foram deixados a sós para discussão dos detalhes. A idéia de Archie era direta. Nicole e ele chegariam juntos, perto do acampamento próximo ao mar Cilíndrico, e solicitariam um encontro com Nakamura e os outros chefes humanos. Nesse encontro, Archie e Nicole explicariam que as octoaranhas eram uma espécie pacífica que não tinha reivindicações territoriais do lado norte do mar Cilíndrico. Archie pediria que os humanos se retirassem do acampamento deles e parassem de sobrevoar aquela área. Se necessário, em sinal de boa vontade das octoaranhas, Archie ofereceria suprimentos de comida e água para ajudar os humanos nas dificuldades que estavam atravessando. Seria estabelecido um relacionamento permanente entre as duas espécies e preparado um tratado para codificar o acordo.
— Meu Deus — disse Richard, ao terminar a tradução dos comentários de Archie. — E eu que pensei que Nicole é que fosse idealista!
Archie não entendeu a observação de Richard, e Nicole explicou pacien-temente à octoaranha que os líderes do Novo Éden provavelmente não seriam tão razoáveis quanto Archie supunha.
— É bem possível — falou ela, mostrando o perigo da proposta de Archie — que eles matem a nós dois, antes mesmo que possamos dizer alguma coisa.
Archie insistiu que sua proposta acabaria sendo aceita, pois atendia cla-ramente aos interesses dos humanos que viviam no Novo Éden.
— Olhe, Archie — disse Richard irritado —, o que você disse não está certo. Há muitos seres humanos, inclusive Nakamura, que não dão a mínima para o que é bom para a sua colônia. Na verdade, o bem-estar comum nem ao menos é considerado na função objetiva subconsciente, para usar os termos de vocês, que rege o comportamento deles. Toda decisão é considerada a partir do aumento de poder ou influência pessoal que poderá trazer. Na nossa história, os líderes sempre destroem seu próprio país, ou colônias, na tentativa de manter o poder.
A octoaranha permaneceu obstinada.
— O que você está descrevendo não pode ser verdade em espécies avança-das — insistiu Archie. — As leis fundamentais da evolução indicam claramente que as espécies cujo valor básico é o bem-estar do grupo sobreviverão àquelas em que o indivíduo é supremo... Você está sugerindo que os seres humanos são uma aberração, uma anomalia da natureza que viola um fundamento...
Nicole interrompeu.
— Isso tudo é muito interessante, mas nós temos assuntos mais urgentes. Precisamos fazer um plano de ação que não tenha ciladas... Richard, se você não aprova o plano de Archie, o que sugere?
Richard refletiu um instante antes de falar.
— Creio que Nakamura levou o Novo Éden a essa ação contra as octoa-ranhas por muitas razões, uma das quais é afastar a crítica das falhas internas de seu governo. Acho que ele só será dissuadido de sua idéia se os cidadãos forem ferozmente contra a guerra, e, sinto dizer, acho que isso só acontecerá se os colonos se convencerem de que a guerra será um desastre.
— Então você acha que haverá necessidade de ameaças? — perguntou Nicole.
— Pelo menos um mínimo. Uma demonstração do poder militar das octoaranhas seria perfeito — falou Richard.
— Mas isso é impossível — comentou Archie —, pelo menos nas cir-cunstâncias atuais.
— Por quê? — perguntou Richard. — O Chefe Otimizador falou com confiança que ganharia qualquer guerra que houvesse. Se vocês atacassem e destruíssem aquele acampamento...
— Agora é você que não está nos entendendo — disse Archie. — Como a guerra, ou qualquer conflito que possa resultar em mortes deliberadas, é uma forma não-ótima de resolver atritos, nossa colônia tem regras muito rígidas relativas a ações hostis conjuntas. Os controles são construídos na nossa sociedade para que a guerra seja um recurso extremo... Nós não temos um exército permanente nem armamentos em estoque, por exemplo... E há outras restrições também. Todos os otimizadores que participam de uma declaração de guerra, e todas as octoaranhas que se engajam em um conflito armado, são exterminados imediatamente após a guerra.
— O quê? — disse Richard, sem acreditar no seu tradutor. — Isso não é possível.
— É sim — replicou Archie. — Como você pode imaginar, esses fatores detêm significativamente nossa participação em hostilidades não-defensivas. O Chefe Otimizador sabe que assinou a própria morte duas semanas atrás, quando autorizou o início das preparações de guerra. As oitenta octoaranhas que trabalham agora no Domínio da Guerra serão exterminadas quando a guerra acabar ou a ameaça de guerra for oficialmente afastada... Eu próprio, por fazer parte das discussões de hoje, serei colocado na lista de extermínio se a guerra for declarada.
Richard e Nicole estavam sem fala.
— A única justificativa possível de uma octoaranha para a guerra — continuou Archie — é uma ameaça incontestável aos próprios sobreviventes da colônia. Uma vez identificada e reconhecida a ameaça, nossa espécie passa por uma metamorfose e leva avante a guerra, sem misericórdia, até a ameaça ser extinta ou nossa colônia ser destruída... Há algumas gerações, otimizadores muito sábios perceberam que os indivíduos octoaranhas que se ocupavam em matar e com o projeto de matar ficavam tão alterados psicologicamente por suas experiências que se tornavam um grande problema para as operações de uma colônia pacífica. Por isso foram estabelecidas as cláusulas adicionais de extermínio.
Richard e Nicole continuaram em silêncio, mesmo depois que Archie terminou de falar. A certa altura, Richard pediu a Archie para sair da sala para que pudesse falar com sua mulher em particular, mas logo se lembrou dos quadróides que estavam presentes em toda parte.
— Nicole, querida — disse finalmente —, não aprovo o plano de Archie por vários motivos. Para começar, eu devo ir com ele e não você...
Quando Nicole fez menção de interrompê-lo, Richard fez um gesto com as mãos para que ela se calasse.
— Agora quero que você me ouça. Ao longo do nosso casamento, especi-almente desde que saímos de Nodo, foi sempre você quem tomou a dianteira das coisas, quem deu seu tempo e energia em prol da família ou da colônia... Agora é a minha vez... Neste caso específico, acredito que sou mais adequado para a tarefa proposta. Posso facilmente assustar nossos conterrâneos, descrevendo imagens dos golpes terríveis proferidos pelas octoaranhas...
— Mas você não fala a língua deles muito bem — protestou Nicole. — Sem o seu tradutor...
— Já pensei nisso — falou Richard. — E acho que, por várias razões, Ellie e Nikki devem ir com Archie e comigo. Primeiro, levando uma criança, a probabilidade de sermos mortos pela tropa de Nakamura é muito menor. Segundo, Ellie é completamente fluente na língua das octoaranhas e pode me ajudar, caso eu não tenha o tradutor à mão ou ele falhe na tradução. Terceiro, e talvez a razão mais importante, é que o único crime que Nakamura e sua corja podem atribuir às octoaranhas é o seqüestro de Ellie. Se Ellie aparecer, saudável e elogiando o inimigo alienígena, o motivo da guerra acabará.
Nicole franziu a testa.
— Não gosto da idéia de meter Nikki nisso... É muito perigoso. Eu não me perdoaria se alguma coisa acontecesse com a menina...
— Nem eu — falou Richard. — Mas acho que Ellie não iria sem ela... Nicole, não existem bons planos... Teremos de escolher o que for menos insatisfatório.
Durante uma breve pausa na conversa, Archie falou em cores.
— Os pontos levantados por Richard são excelentes — disse a octoaranha para Nicole. — E há mais uma razão para você ficar na Cidade de Esmeralda: o resto dos humanos que forem deixados aqui irá precisar de sua liderança nos dias difíceis que terão pela frente.
A cabeça de Nicole estava fervendo. Ela não tinha pensado em Richard se apresentar como voluntário.
— Você está me dizendo que aprova a sugestão de Richard, inclusive de levar Ellie e Nikki junto? — perguntou Nicole.
— Isso mesmo — respondeu a octoaranha.
— Mas, Richard — continuou ela, virando-se para o marido —, você odeia toda essa baboseira política, para usar suas próprias palavras. Tem certeza de que pensou bem nisso?
Richard fez que sim, e Nicole deu de ombros.
— Tudo bem, então. Vamos falar com Ellie. Se ela concordar, o plano está feito.
O Chefe Otimizador achou que a emenda à proposta tinha possibilidade de sucesso, mas viu-se forçado a lembrar a todos que, com base na análise das octoaranhas, havia uma grande probabilidade de Archie e Richard serem mortos. O coração de Nicole quase parou de bater quando ela traduziu as palavras do líder das octoaranhas. O Chefe Otimizador não estava dizendo nada que Nicole não soubesse, mas ela tinha estado tão envolvida no plano e nas discussões sobre o assunto que não pensara nos possíveis resultados das decisões tomadas.
Nicole falou muito pouco enquanto os chefes traçavam uma linha de ação. Quando ouviu Richard dizer que Archie e ele sairiam da Cidade de Esmeralda um tert depois do próximo alvorecer, com ou sem Ellie e Nikki, Nicole estremeceu. Amanhã, passou-lhe rapidamente pela cabeça. Amanhã nossa vida vai mudar de novo.
Ela ficou calada na viagem de volta para a sua zona. Enquanto Richard e Archie falavam sobre vários assuntos diferentes, Nicole tentava lutar contra o medo cada vez maior que sentia. Uma voz interior, que não ouvia há anos, dizia-lhe que nunca mais veria Richard depois que ele partisse. Será uma reação peculiar da minha parte?, perguntou a si mesma em tom crítico. Estarei com dificuldade de deixar Richard ser o herói?
A premonição ficou mais forte, apesar de Nicole tentar combatê-la. Ela lembrou-se de um terrível pesadelo que tivera aos dez anos de idade, quando acordou gritando no seu quarto da casinha de Chilly-Mazarin: "Mamãe morreu."
Seu pai tentara consolá-la, explicando que sua mãe estava viajando, visi-tando a família na Costa do Marfim. O telegrama anunciando a morte da sua mãe chegara sete horas depois.
— Se vocês não têm armas em estoque nem soldados treinados — disse Richard —, como vão poder se preparar para se defender numa guerra?
— Isso eu não posso lhe dizer — falou Archie. — Mas só sei que um conflito agora entre as duas espécies resultaria na aniquilação da civilização humana de Rama.
Nicole não conseguia acalmar seu coração atormentado. Por mais que se dissesse que estava exagerando, o medo premonitório não passava. Ela pegou a mão de Richard, e ele continuou a conversar com Archie.
Nicole olhou dentro dos olhos dele. Estou orgulhosa de você, Richard, mas também estou assustada. Continuou a pensar, sentindo as lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto. E ainda não estou pronta para dizer adeus.
Era muito tarde quando Nicole foi para a cama. Ela tinha acordado Ellie suavemente, sem perturbar Nikki nem os gêmeos Watanabe, que estavam dor-mindo com os Wakefield para que Nai e Patrick pudessem passar a noite de núpcias sozinhos. Ellie fez muitas perguntas. Richard e Nicole lhe explicaram o plano, inclusive tudo de importante que tinham ouvido de Archie e do Chefe Otimizador naquela noite. Ellie ficou com medo, mas finalmente concordou em acompanhar Richard e Archie no dia seguinte, levando Nikki.
Nicole não conseguiu dormir de verdade. Virou-se na cama durante uma hora, até entrar numa seqüência de sonhos curtos e caóticos. No último sonho, estava com sete anos, na Costa do Marfim, no meio de uma cerimônia Poro. Estava seminua na água, e a leoa rondava à beira do lago. A pequena Nicole respirou fundo e mergulhou na água. Quando subiu à tona viu Richard, jovem e sorrindo, no lugar onde a leoa tinha estado. Mas, à medida que o olhava, ele ia envelhecendo rapidamente, tornando-se o Richard que estava ao seu lado na cama. Então ela ouviu a voz de Omeh. "Olhe com cuidado, Ronata", disse a voz. "E lembre-se..."
Nicole acordou. Richard dormia tranqüilamente. Ela sentou-se na cama e deu uma batida na parede. Um vaga-lume solitário apareceu na porta, iluminando um pouco o quarto. Nicole olhou para o marido, viu o cabelo e a barba grisalhos e lembrou-se do tempo em que eram pretos. Lembrou-se do ardor e do humor dele quando começou a cortejá-la em Nova York. Nicole fez uma careta, respirou fundo, beijou seu dedo indicador e colocou-o nos lábios de Richard. Ele não se mexeu. Nicole ficou imóvel por uns minutos, estudando as feições do marido. As lágrimas desceram pelo seu rosto, caindo pelo queixo e pelos lençóis.
— Eu te amo, Richard — disse baixinho.