A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 18 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 4

Era na verdade uma daquelas formigas grandes com os seis braços compridos, que vinha andando na direção deles, colhendo os legumes com uma habilidade fantástica, cuidando das três fileiras que ficavam de cada lado do seu corpo principal. Cada braço, ou tronco, descascava os legumes e colocava-os em pilhas que ficavam entre as fileiras, com cerca de dois metros de distância umas das outras. Era uma cena fascinante, os seis braços desempenhando tarefas diferentes simultaneamente, e a distâncias diferentes do corpo principal.

Quando a criatura chegou ao caminho, seus braços se recolheram rapidamente, depois ela desceu seis fileiras e entrou no campo, seguindo na direção oposta. A plantação estava sendo colhida de norte a sul, e, ao recomeçarem a andar, Richard e Nicole passaram pela parte do campo onde a colheita já fora terminada pela formiga gigante. Ali eles viram umas criaturinhas velozes, parecendo roedores mas ligeiramente maiores, apanhando as pilhas espalhadas e levando-as para oeste.

Richard e Nicole depararam-se com vários cruzamentos enquanto andavam pelos campos, e a cada vez a luz flutuante indicava o caminho que eles deviam seguir. Os campos estendiam-se por muitos quilômetros. As plantações eram variadas, mas, como Richard e Nicole estavam ficando com fome e muito cansados, não pararam mais para examinar cada novo legume que viam.

A certa altura, os dois chegaram numa área plana e aberta, de terra fofa. A luz circulou três vezes acima deles e ficou pairando no centro da área.

— Acho que é aqui que devemos passar a noite — disse Richard.

— Tomara — disse Nicole, aceitando a ajuda de Richard para retirar sua mochila. — Acho que não vou ter problema para dormir, mesmo que seja neste chão duro.

Depois de jantarem, eles encontraram um lugar confortável para dormir juntinhos. Quando ambos estavam quase dormindo, a luz começou a diminuir e depois a baixar.

— Olhe — sussurrou Richard —, a luz vai descer para o chão.

Nicole abriu os olhos e ficou observando a luz reduzir seu brilho, formar um arco gracioso e aterrissar do outro lado da área aberta, ainda brilhando ligeiramente. Embora Richard e Nicole não pudessem ver bem a criatura, sabiam que ela era comprida e magra, com asas duas vezes maiores que o corpo.

— É um vaga-lume gigante! — exclamou Richard, mas logo não puderam mais perceber os contornos do animal.

 

4

 

— Biologia para luzes, biologia para fazendas e equipamentos de construção... Será que nossas amigas octoaranhas, ou talvez quem esteja acima delas nessa fantástica hierarquia simbiótica, são as grandes biólogas da galáxia?

— Não sei, Richard — respondeu Nicole terminando seu café da manhã.

— Mas parece que a evolução tecnológica delas seguiu um caminho bem diferente do nosso.

Os dois haviam visto, assombrados, o vaga-lume gigante voltar a brilhar e a tomar sua posição costumeira assim que percebeu que eles estavam acordando. Um instante depois, uma segunda criatura semelhante veio se aproximando do sul. E as duas luzes se juntaram, formando uma iluminação equivalente à luz do dia no Novo Éden.

Richard e Nicole tinham dormido bem e sentiam-se descansados. Atravessaram quilômetros e quilômetros pelos campos iluminados pelos seus dois guias, e passaram por um lugar com gramados de mais de três metros de altura. Uns cem metros adiante desse gramado fizeram uma curva fechada para a esquerda e encontraram-se na beira de um conjunto de tanques d'água rasos, que se estendiam a distância.

Eles andaram para a esquerda durante alguns minutos, até chegarem ao que Richard identificou como o canto nordeste do conjunto. O sistema consistia de uma série de tanques longos, rasos e retangulares, feitos de uma liga metálica cinzenta. Cada um desses tanques tinha cerca de vinte metros de largura na direção leste-oeste, centenas de metros de comprimento e um metro de altura. Em seu interior havia um líquido parecendo água. Nos quatro cantos de cada retângulo estreito viam-se postes cilíndricos vermelhos, brilhantes e grossos, com cerca de dois metros de altura e esferas brancas na ponta.

Richard e Nicole andaram cento e sessenta metros de leste a oeste examinando cada tanque e os oito postes cilíndricos grossos, que marcavam o local onde os tanques adjacentes tinham lados em comum. Não viram nada nos tanques além de água.

— Então isso é uma espécie de usina de purificação? — perguntou Nicole.

— Duvido muito — replicou Richard, parando com Nicole na ponta oeste. — Olhe aquela quantidade de peças pequenas e detalhadas, presas na parede interna deste tanque bem em frente ao cilindro... Eu diria que são tipos de componentes eletrônicos complexos. Não haveria necessidade de tudo isso em um sistema simples para purificar a água. Nicole olhou de esguelha para Richard.

— Esta não, Richard, isto é muita presunção. Como você pode querer saber a função de um monte de linhas tridimensionais torcidas dentro de um tanque d'água alienígena?

— Eu não disse que tinha certeza — respondeu Richard, dando uma gargalhada. — Só estava tentando dizer que a coisa parece complexa demais para servir apenas de purificador de água.

As luzes acima deles chamavam-nos para o sul. O segundo grupo de tanques rasos também continha apenas água; porém, quando chegaram ao terceiro conjunto de tanques retangulares e postes cilíndricos, Richard e Nicole perceberam que a água estava cheia de bolinhas minúsculas de muitas cores. Richard arregaçou a manga e enfiou a mão na água, tirando centenas dessas bolinhas.

— São ovos — disse Nicole com firmeza. — Tenho tanta certeza disso como você tem de que aquelas coisinhas dentro da parede do tanque são componentes eletrônicos.

Richard riu de novo.

— Olhe — disse ele, colocando os objetos minúsculos na frente dos olhos de Nicole —, há só cinco tipos, se você examiná-los com atenção.

— Cinco tipos de quê? — perguntou Nicole.

As coisinhas parecendo ovos enchiam todo o comprimento do terceiro grupo de tanques. Quando Richard e Nicole estavam se aproximando da quarta fileira de cilindros e de outro conjunto de tanques que se estendia mais cem metros para o sul, os dois se sentiram cansados. — Se não virmos nada de novo aqui — disse ela —, que tal parar para o almoço?

— Ótima idéia — disse Richard.

Mas, quando estavam a cinqüenta metros de distância da quarta fileira de tanques, notaram algo diferente. Um veículo quadrado robotizado, com uns trinta centímetros de comprimento e largura e dez de altura, movia-se velozmente entre os postes cilíndricos.

— Eu sabia que esses postes eram marcas para algum tipo de veículo — disse Nicole, brincando com Richard.

Richard estava fascinado demais para responder. Além do robô, que fazia um ciclo completo por entre todas as fileiras de tanques de leste a oeste a mais ou menos três minutos, havia outras maravilhas a serem observadas. Cada tanque ali era subdividido em duas longas peças por uma cerca de malha paralela às paredes, que ficava ligeiramente acima do nível da água. De um lado da malha via-se um verdadeiro enxame de criaturas nadadoras de cinco cores diferentes. Do outro lado, círculos brilhantes parecendo moedas de areia espalhavam-se por todo o comprimento do tanque. A cerca era posicionada de modo a que três quartos do volume do tanque ficassem do lado dos círculos, dando a eles muito mais espaço para manobrar do que aos nadadores tão densamente empilhados.

Richard e Nicole debruçaram-se para examinar aquela atividade. As moedas de areia moviam-se em todas as direções. Como a água estava infestada de tantas criaturas e tanta atividade, Richard e Nicole levaram vários minutos para perceber os parâmetros. Em intervalos irregulares, cada moeda de areia pulava por cima da cerca de malha, propulsionada por cílios em forma de chicote colocados debaixo de seu corpo chato; depois, enquanto ficava ancorada na cerca, ela usava outro par de cílios para capturar um nadador minúsculo e puxá-lo pelos buracos da malha. Durante o tempo em que a moeda de areia ficava encostada na cerca, sua luz ia esmaecendo. Se ela ficasse tempo demais e pegasse vários nadadores, seu brilho sumia de todo.

— Olhe o que acontece quando ela sai da cerca — disse Richard, apontando uma moeda logo abaixo deles. — À medida que ela vai nadando com suas companheiras, sua luz vai sendo reativada.

Richard voltou depressa para o poste cilíndrico mais próximo, ficou de joelhos no chão e fez um buraco com umas das ferramentas que estavam na sua mochila.

— Há muito mais coisa no sistema subterrâneo — disse ele excitado. — Aposto que todo esse conjunto faz parte de um gigantesco gerador de energia.

Richard deu três passos largos na direção sul, anotou com cuidado sua posição e debruçou-se no tanque para contar as moedas de areia existentes entre o poste cilíndrico e ele. Era difícil contá-las, em virtude do movimento constante dos círculos brilhantes.

— Aproximadamente trezentas em três metros de comprimento do tanque, totalizando cerca de vinte e cinco mil no tanque inteiro, ou duzentas mil em uma fileira completa — disse Richard.

— Você está imaginando então — disse Nicole — que esses postes cilíndricos são uma espécie de sistema de armazenagem? Como se fossem baterias?

— Provavelmente — respondeu Richard. — Que idéia fabulosa! Encontrar uma criatura viva que gera eletricidade internamente. Forçá-la a desistir de sua carga acumulada para poder comer. O que poderia ser melhor que isso?

— E esse veículo robotizado, andando para baixo e para cima entre os postes, qual é a função dele?

— Eu diria que é uma espécie de monitor — explicou Richard.

Richard e Nicole almoçaram e depois terminaram de inspecionar a suposta usina elétrica. O conjunto todo consistia de oito colunas e oito fileiras, num total de sessenta e quatro tanques. Apenas vinte estavam em atividade naquela hora.

— Muita capacidade ociosa — comentou Richard. — Os engenheiros compreendem claramente os conceitos de lucro e margem.

Os vaga-lumes gigantes agora dirigiam-se para leste por uma espécie de auto-estrada. Por duas vezes, Richard e Nicole encontraram pequenos bandos das criaturas semelhantes a formigas indo em direção oposta, mas não houve qualquer interação.

— Essas criaturas serão inteligentes o bastante para cooperarem sem supervisão? — perguntou Nicole. — Ou será que não nos deixam ver os seres que lhes dão as ordens?

— Esta é uma pergunta interessante — comentou Richard. — Lembra-se com que rapidez a octoaranha chegou até a formiga quando ela foi atingida pela bola? Talvez elas tenham uma inteligência limitada, mas não funcionem bem em ambientes novos ou desconhecidos.

— Como algumas pessoas que a gente conhece — disse Nicole com uma risada.

A longa caminhada para leste terminou quando as duas luzes que lhes serviam de guia pararam sobre um grande campo de terra fora da estrada. A distância, eles viram no campo o que lhes pareceu quarenta traves de gol de futebol cobertas de hera, distribuídas em cinco fileiras de oito traves cada.

— Quer checar o guia de viagem, por favor? — pediu Richard. — É mais fácil a gente compreender o que vê quando lê a explicação antes.

Nicole sorriu.

— Parece mesmo que estamos fazendo uma viagem, não é? Por que será que nossos hospedeiros querem que vejamos tudo isso?

Richard ficou em silêncio por um instante.

— Estou quase certo de que as octoaranhas são as donas deste território, ou pelo menos são a espécie dominante de uma complexa hierarquia... Quem quer que nos tenha buscado para fazer esta viagem acredita que, se nos informarem sobre suas capacidades, os intercâmbios futuros se tornarão mais fáceis.

— Mas se são as octoaranhas — disse Nicole —, por que só seqüestraram Ellie e Eponine, e não nós todos?

— Não sei — respondeu Richard. — Talvez seu senso moral seja muito mais complicado do que imaginamos.

Os dois vaga-lumes gigantes estavam dançando no ar sobre a vastidão de traves de gol de futebol cobertos de hera.

— Acho que nossos guias estão ficando impacientes — disse Nicole. Se Richard e Nicole não estivessem tão cansados depois de dois dias de árdua caminhada, e se já não tivessem visto tantas cenas fabulosas naquele mundo existente no Hemicilindro Sul de Rama, teriam ficado assombrados com a complexa simbiose que descobriram nas horas seguintes.

As traves de gol não eram recobertas de hera. O que a distância parecia ser folhas era na realidade pequenos ninhos em forma de cones, formados por milhares de criaturas minúsculas semelhantes a pulgões. Essas criaturas grudavam-se umas às outras para formar os ninhos com uma espécie de mel doce e viscoso, que os humanos gostavam de comer debaixo da cúpula. Os pulgões alienígenas fabricavam grandes quantidades dessa substância como parte de sua atividade diurna normal.

Enquanto Richard e Nicole observavam tudo isso, bandos de besouros, que viviam em montes de terra de vários metros de altura que rodeavam todo o enclave, saíam de suas tocas a cada quarenta minutos e subiam pelos postes para colher o excesso de mel dos ninhos. Esses besouros, com cerca de dez centímetros antes de começarem a comer o mel, aumentavam três a quatro vezes de tamanho quando completavam sua colheita e depois regurgitavam o conteúdo de seus corpos inchados em umas cubas enterradas na base dos postes.

Richard e Nicole não conversaram muito enquanto observavam toda essa movimentação. O sistema biológico diante dos seus olhos era intrincado e maravilhoso; mais um exemplo dos fantásticos avanços das simbioses feitas por seus hospedeiros.

— Aposto — disse Richard, quando ele e Nicole se preparavam para dormir, não muito longe das tocas dos besouros — que, se esperarmos um pouco mais, aparecerá algum burro de carga para levantar do chão as cubas de mel e carregá-las para outro lugar.

Deitados lado a lado na terra, eles ficaram observando os dois vaga-lumes descerem no chão a distância. Logo depois veio a escuridão.

— Não acredito que tudo isto tenha simplesmente acontecido — exclamou Nicole. — Nem em outro planeta, nem em lugar algum. A evolução natural não resulta na harmonia entre espécies que presenciamos nesses últimos dois dias.

— O que você está sugerindo, querida? — perguntou Richard. — Que todas essas criaturas foram planejadas como máquinas para desempenharem suas funções?

— É a única explicação plausível — respondeu Nicole. — As octoaranhas, ou alguém, devem ter chegado a um nível tal que podem manipular os genes para que eles produzam uma planta ou um animal exatamente como desejado. Por que esses besouros depositam mel naquelas cubas? Qual é a compensação biológica deles para esse tipo de ação?

— Talvez eles sejam compensados de alguma forma que nós ainda não descobrimos — respondeu Richard.

— É claro — continuou Nicole. — E por trás dessa compensação há um incrível arquiteto ou engenheiro de sistemas biológicos controlando todos esses intercâmbios, não só para que cada espécie de sinta feliz, ou qualquer outro adjetivo que se queira usar, mas também para que os próprios arquitetos tenham alguma vantagem, como um alimento em forma de excesso de mel... E você acredita que esse tipo de otimização possa ocorrer sem o envolvimento de uma sofisticada engenharia genética?

Richard ficou em silêncio por um bom tempo, e depois falou devagar:

— Imagine um fantástico engenheiro-biólogo sentado em frente a um teclado, projetando um organismo vivo que se adapte a determinadas especificações do sistema... É um conceito um tanto assustador.

Mais uma vez os besouros saíram em bando de suas tocas, mal notando os humanos que dormiam por perto, a fim de continuar sua colheita nas traves. Nicole ficou observando aquelas criaturas até elas desaparecerem na escuridão. Nós humanos entramos em uma nova era, pensou ela, antes de cair no sono. No futuro toda a história irá referir-se a ac, "antes do contato", e dc, "depois do contato". Pois a partir daquele primeiro momento em que soubemos, sem sombra de dúvida, que substâncias químicas simples haviam atingido a consciência e a inteligência em algum outro ponto da vastidão do nosso universo, a história passada da nossa espécie tomou-se apenas um paradigma isolado, um fragmento pequeno e relativamente insignificante na infinita tapeçaria que retrata a espantosa variedade de vida sensível.

 

Depois do café da manhã, no dia seguinte, Richard e Nicole discutiram ligeiramente sobre o minguado suprimento de comida, e decidiram pegar um pouco de mel de uma das cubas.

— Acho que se eles não quiserem que a gente faça isso — disse Nicole olhando em volta enquanto enchia um potinho —, algum policial alienígena vai aparecer para nos impedir de agir.

Depois, as luzes-guias moveram-se diretamente para o sul, levando Richard e Nicole por uma floresta espessa com árvores muito altas que se estendia na direção leste-oeste. Os vaga-lumes viraram para a direita e ficaram sobrevoando a orla da floresta à esquerda, escura e amedrontadora. A toda hora, Richard e Nicole ouviam sons altos e estranhos vindo do seu interior.

Então Richard parou e foi até onde as altas árvores se adensavam. Entre elas havia plantas menores, com grandes folhas verdes, vermelhas e marrons, e vários tipos diferentes de trepadeiras que se entrelaçavam nos galhos mais altos das árvores. Richard deu um pulo para trás quando ouviu um uivo que parecia vir de poucos metros dali. Seus olhos percorreram a floresta, mas ele não conseguiu identificar de onde vinha o uivo.

— Há alguma coisa estranha nesta floresta — disse, virando-se para Nicole. — Ela está deslocada, como se não pertencesse a este lugar.

Durante mais de uma hora os vaga-lumes seguiram para oeste. Os sons bizarros tornaram-se mais freqüentes enquanto Richard e Nicole caminhavam lentamente em silêncio. Richard tem razão, pensou Nicole, já um tanto cansada. Ficou olhando aquela estrutura organizada dos campos à sua direita e comparando-a com o crescimento desordenado à sua esquerda. Há alguma coisa estranha e aflitiva nesta floresta.

Os dois descansaram um pouco no meio da manhã. Richard calculou que já deviam ter andado uns cinco quilômetros desde o amanhecer. Nicole pediu um pouco do mel que estava na mochila de Richard.

— Meus pés estão doendo — disse ela, depois de comer e beber um gole de água. — E minhas pernas doem desde a noite passada... Espero que a gente não leve muito tempo para chegar ao lugar que não sabemos onde é.

— Eu também estou muito cansado — falou Richard. — Mas até que estamos em forma para um casal de sexagenários.

— Neste momento estou me sentindo mais velha do que isso — falou Nicole, levantando-se para se espreguiçar. — Como você sabe, nossos corações podem estar com quase noventa anos. Talvez eles não tenham trabalhado muito enquanto estávamos dormindo, mas mesmo assim se mantiveram bombeando.

Enquanto conversavam, um animalzinho arredondado, de um olho só, pêlo branco e fofo e doze pernas esguias, saiu zunindo da floresta próxima e enfiou-se na cuba de mel. Num instante a criatura e a comida haviam desaparecido.

— O que foi isso? — perguntou Nicole, ainda assustada.

— Alguma coisa apreciadora de doce — disse Richard, olhando para a floresta, onde o animal desaparecera. — O mundo lá é definitivamente outro.

Meia hora depois, os dois vaga-lumes viraram para a esquerda e ficaram sobrevoando um caminho que dava na floresta. Esse caminho tinha cinco metros de largura e era ladeado por densas árvores. A intuição de Nicole dizia-lhe para não seguir os vaga-lumes, mas ela não falou nada. Quando ela e Richard deram os primeiros passos na floresta e ouviram ruídos vindos das árvores mais altas, sua apreensão aumentou. Os dois pararam, deram-se as mãos e ficaram escutando, atentos.

— Parecem passarinhos, macacos e sapos — observou Richard.

— Eles devem ter notado nossa presença — falou Nicole, virando-se para olhar para trás. — Você tem certeza de que estamos fazendo a coisa certa?

Richard apontou para as luzes em frente.

— Estamos seguindo esses insetos enormes há dois dias e meio. Não faz muito sentido perder a fé neles agora.

Os dois continuaram a andar pelo caminho, seguidos de uivos e grasnidos. De vez em quando, os tipos de folhagens de ambos os lados mudavam um pouco, mas a floresta continuava densa e escura.

— Deve haver um grupo de jardineiros alienígenas — falou Richard a uma certa altura — trabalhando nesta área várias vezes por semana. Olhe como todos os arbustos e árvores são perfeitamente aparados... Eles não saem um milímetro para fora acima da nossa cabeça.

— Richard — disse Nicole um pouco depois —, se os sons que estamos ouvindo vêm de animais alienígenas, por que ainda não vimos nenhum? Nem uma única criatura atravessou o nosso caminho — disse ela, abaixando-se para examinar a terra por onde pisava. — E aqui não há nenhum sinal de vida, atual ou passada... Nem ao menos uma formiga...

— Devemos estar andando num caminho mágico — falou Richard, dando uma risadinha. — Talvez eles nos leve para a casa de balas e apareça uma bruxa malvada... Vamos cantar a música de João e Maria e nos sentiremos melhor.

O caminho, absolutamente reto no primeiro quilômetro, começou a tornar-se sinuoso, e os sons das criaturas da floresta cercaram Richard e Nicole. Richard cantou músicas populares dos seus anos de adolescente na Inglaterra, e Nicole o acompanhou, quando conhecia as canções, mas a maior parte do tempo gastou sua energia tentando conter a crescente ansiedade e forçando-se a não pensar no alvo fácil que eles eram para qualquer animal alienígena grande que pudesse estar passando pela floresta.

De repente, Richard parou e respirou profundamente.

— Está sentindo esse cheiro? — perguntou a Nicole. Nicole farejou o ar.

— Estou... parece perfume de gardênia...

— Só que muito melhor — disse Richard. — É um cheiro absolutamente divino.

O caminho em frente virou abruptamente para a direita. Na curva havia um grande arbusto coberto de imensas flores amarelas do tamanho de bolas de basquete, as primeiras flores que eles viam desde que entraram na floresta. A medida que Richard e Nicole se aproximavam do arbusto o cheiro aumentava no ar.

Richard não pôde se conter. Antes que Nicole dissesse alguma coisa, deu uns passos para fora do caminho, enfiou o rosto em uma das flores e respirou fundo. O cheiro era magnífico. Enquanto isso, um dos vaga-lumes voltou voando até eles e começou a ziguezaguear no céu.

— Acho que nossos guias não aprovaram sua saída da trilha — comentou Nicole.

— Provavelmente não — falou Richard. — Mas valeu a pena.

Mais flores, de todos os tamanhos, formas e cores, começaram a aparecer em ambos os lados da trilha. Os dois nunca haviam visto tanta profusão de cores. Ao mesmo tempo, os sons que vinham ouvindo até ali tornaram-se mais longínquos. Pouco depois, quando Richard e Nicole chegaram no meio da área de flores, os barulhos desapareceram completamente.

O caminho agora estreitava-se bastante, mal dando para os dois passarem lado a lado sem encostarem nas plantas floridas. Richard saiu da trilha várias vezes para inspecionar e/ou cheirar uma das flores magníficas. Apesar do entusiasmo dele pela viagem e pela floresta, Nicole obedeceu aos guias e continuou na trilha.

Richard afastou-se quase oito metros do caminho para tentar ver mais de perto as flores gigantescas que pareciam um tapete oriental e, de repente, desapareceu.

— Ai! — Nicole ouviu-o gritar quando caiu no chão.

— Você está bem? — perguntou ela imediatamente.

— Estou. Tropecei nuns cipós e caí num amontoado de espinhos... O arbusto à minha volta tem folhas vermelhas e também florezinhas esquisitas, que parecem balas de revólver... Aliás, elas têm cheiro de canela.

— Você precisa de ajuda? — perguntou Nicole.

— Não... Vou sair daqui num instante.

Nicole olhou para cima e notou que um dos vaga-lumes estava voando para longe. Agora, o que será isso? pensou, quando ouviu a voz de Richard.

— Talvez eu precise de uma ajuda. Acho que estou preso aqui. Nicole deu uma olhada com cuidado para fora da trilha. O outro vaga-lume parecia enlouquecido, descendo a toda velocidade por cima do rosto dela. Nicole ficou ofuscada, sem conseguir ver nada durante um tempo.

— Não chegue aqui, Nicole — disse Richard depois de um instante. — A menos que eu esteja ficando louco, essa planta está se preparando para me comer.

— O quê? — perguntou Nicole, agora muito assustada. — Está falando sério? — perguntou, esperando impaciente que seus olhos se recuperassem do excesso de luz.

— Estou sim. Volte para a trilha... Este arbusto bizarro enroscou-se nas minhas pernas e braços... uns insetos já estão chupando o meu sangue que começou a escorrer com os espinhos... há uma abertura no arbusto, e estou vendo uma imensa boca, mais feia do que as que a gente vê no zoológico, para a qual estou sendo empurrado aos poucos... Posso ver até alguns dentes.

Nicole podia sentir o pânico na voz de Richard. Deu mais um passo na direção dele, mas o vaga-lume cegou-a outra vez.

— Não consigo enxergar nada — gritou Nicole. — Richard, você ainda está aí?

— Estou, mas não sei por quanto tempo ainda.

Eles ouviram o barulho de animais correndo pela floresta, seguido de um gemido alto, e logo depois três figuras escuras com armas peculiares cercaram Richard. As octoaranhas atacaram o arbusto carnívoro com seus sprays líquidos, e em poucos segundos Richard foi solto e a boca se fechou por trás dos galhos.

Richard saiu aos tropeções e abraçou Nicole. Os dois gritaram "Obrigado" quando o trio de octoaranhas desapareceu pela floresta tão depressa como surgira. Nem Richard nem Nicole notaram que os dois vaga-lumes pairavam de novo sobre suas cabeças.

Nicole examinou Richard com cuidado, mas não encontrou nada além de arranhões.

— Acho que vou ficar na trilha por algum tempo — comentou Richard com um sorriso desenxabido.

— É uma boa idéia — replicou Nicole.

Os dois conversaram sobre o ocorrido enquanto continuavam a andar pela floresta. Richard ainda estava trêmulo.

— Os galhos perto do meu ombro esquerdo puxavam para um lado, e vi aquele buraco do tamanho de uma bola de beisebol. Mas, à medida que eu era empurrado na sua direção, o buraco ia ficando maior. Foi então que vi os dentinhos em volta de toda a circunferência. Eu já estava pensando qual seria a sensação de ser comido quando nossas amigas octoaranhas apareceram.

— Afinal de contas, o que está acontecendo aqui? — perguntou Nicole um pouco depois, quando saíram da região das flores e foram de novo rodeados por árvores e intermitentes barulhos de animais.

— Sei tanto quanto você — disse Richard.

 

A floresta terminou abruptamente, bem na hora em que Richard e Nicole começaram a sentir uma fome insuportável. Eles entraram numa planície vazia e viram à sua frente, a uns dois quilômetros de distância, uma grande cúpula verde.

— O que é isso?...

— É a Cidade de Esmeralda, querida — disse Richard. — Você deve estar reconhecendo do velho filme... E dentro está o Mágico de Oz, pronto para conceder nossos desejos.

Nicole sorriu e beijou o marido.

— O mágico era um embusteiro, você sabe — disse ela. — Ele não tinha nenhum poder de verdade.

— Isso fica em aberto — falou Richard com um risinho.

Enquanto conversavam, as duas luzes que os guiavam apressaram-se em direção à cúpula, deixando Richard e Nicole numa semi-escuridão. Eles tiraram suas lanternas da mochila.

— Alguma coisa me diz que chegamos ao fim da nossa excursão — disse Richard, iluminando o caminho na direção da Cidade de Esmeralda.

Os dois viram os portões através dos binóculos, a uma distância de mais de um quilômetro, e foram ficando muito animados.

— Você acha que aqui é a terra das octoaranhas? — perguntou Nicole.

— Acho sim — respondeu Richard. — Deve ser um lugar e tanto. O alto daquela cúpula verde está pelo menos a trezentos metros do chão. Eu diria que a área por baixo dela tem mais de dez quilômetros quadrados...

— Richard — disse Nicole, quando estavam a apenas seiscentos metros da cúpula —, qual é o seu plano? Vamos simplesmente chegar lá e bater no portão?

— Por que não? — respondeu Richard apressando o passo.

Quando estavam a duzentos metros da cidade, o portão se abriu e surgiram três pessoas. Richard e Nicole ouviram um grito, e uma das figuras começou a correr na direção deles. Richard parou e olhou de novo através dos binóculos.

— É Ellie... e Eponine... Com uma octoaranha — gritou.

Nicole já tinha largado sua mochila e corria pelo campo aberto. Apertou sua filha querida nos braços, levantando-a do chão com a força daquele abraço.

— Oh, Ellie, Ellie — disse, as lágrimas caindo-lhe pelo rosto.