A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 4 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 2

Eleonor Wakefield Turner chegou ao grande auditório da Cidade Central às sete e meia da manhã. Embora a execução só estivesse marcada para as oito horas, já havia umas trinta pessoas nas cadeiras da frente, algumas conversando, outras quietas. Uma equipe de televisão andava em volta da cadeira elétrica do palco. Embora a execução fosse transmitida ao vivo, os policiais do auditório contavam que a casa ficasse lotada, pois o governo encorajara os cidadãos do Novo Éden a assistir pessoalmente à morte de sua ex-governadora.

Ellie tivera uma pequena discussão com seu marido, Robert Turner, na noite anterior.

— Poupe-se um pouco, Ellie — ele dissera, quando lhe contou que pretendia assistir à execução. — Ver sua mãe uma última vez não vale o horror de ficar assistindo à sua morte.

Mas Ellie sabia uma coisa que Robert não sabia. Enquanto ela se sentava no auditório, tentava controlar os fortes sentimentos dentro de si. Meu rosto não pode deixar entrever nada, dizia consigo mesma, ou os meus gestos. Nem o mais leve indício. Ninguém deve suspeitar que sei alguma coisa sobre a fuga. Vários olhos viraram-se de repente para ela. Ellie sentiu o coração bater forte até perceber que alguém a reconhecera, e que era absolutamente natural que os curiosos olhassem para ela.

Ellie só conhecera os robozinhos de seu pai, Joana d'Arc e Eleonor de Aquitânia, umas seis semanas antes, quando estava do lado de fora do habitat principal, no vilarejo de quarentena de Avalon, ajudando seu marido médico, Robert, a cuidar dos pacientes condenados pelo retrovírus RV-41 que invadira seus corpos. Ela acabara de fazer uma visita de consolo à sua amiga e ex-professora Eponine. Saíra do quarto de Eponine e estava andando pela estrada de terra, esperando ver Robert a qualquer instante, quando de repente ouviu umas vozes estranhas chamando seu nome. Ellie olhou em volta e finalmente localizou as duas figurinhas no telhado de um prédio próximo.

Depois de atravessar a estrada para poder ver e ouvir melhor os robôs, a assustada Ellie foi informada por Joana d'Arc de que seu pai Richard ainda estava vivo. Logo que se recobrou desse primeiro choque, começou a fazer perguntas e ficou logo convencida de que Joana e Eleonor estavam dizendo a verdade; porém, antes de saber por que seu pai havia mandado os robôs procurá-la, viu que seu marido se aproximava. As figuras do telhado lhe disseram que voltariam em breve, e aconselharam Ellie a não falar com ninguém sobre elas, nem mesmo com Robert, pelo menos por enquanto.

Ellie ficara felicíssima ao saber que seu pai estava vivo. Era quase impossível manter aquela notícia em segredo, embora tivesse consciência da importância política da informação. Quando, duas semanas mais tarde, encontrou-se novamente em Avalon com os pequenos robôs, estava pronta para fazer uma torrente de perguntas. Entretanto, naquela ocasião Joana e Eleonor estavam programadas para discutir outro assunto: uma possível tentativa de tirar Nicole da prisão. Os robôs contaram a Ellie no segundo encontro que Richard sabia que essa fuga era uma tarefa perigosa.

— Nós nunca tentaríamos — disse o robô Joana — se a execução de sua mãe não estivesse absolutamente certa. Mas, se não nos prepararmos a tempo, não será possível uma fuga de última hora.

— O que eu posso fazer para ajudar? — perguntou Ellie.

Joana e Eleonor lhe entregaram um pedaço de papel com uma lista de artigos incluindo comida, água e roupas. Ellie tremeu ao reconhecer a letra do pai.

— Guarde essas coisas neste lugar — disse o robô Eleonor, entregando um mapa para Ellie. — No máximo dentro de dez dias, a partir de hoje. — Um instante depois apareceu outro colono, e os dois robôs desapareceram.

Dentro do mapa havia um bilhete de seu pai: "Querida Ellie, desculpe a brevidade deste bilhete. Estou em segurança e com saúde, mas muito preocupado com sua mãe. Por favor, reúna esses artigos e leve-os ao lugar indicado na planície Central. Se você não puder fazer tudo isso sozinha, por favor peça ajuda a uma única pessoa. Mas esteja certa de que a pessoa que você escolher é tão leal e dedicada a Nicole como nós somos. Eu amo você."

Ellie logo viu que iria precisar de ajuda. Mas quem poderia escolher para ser seu cúmplice? Seu marido Robert era uma má escolha, por duas razões. Primeiro, ele já mostrara que sua dedicação aos seus doentes e ao hospital do Novo Éden lhe era mais importante do que qualquer sentimento político que pudesse ter. Segundo, qualquer um que fosse apanhado ajudando Nicole a fugir seria certamente executado. Se Ellie envolvesse Robert no plano de fuga, a filha deles, Nicole, acabaria ficando órfã de pai e mãe.

E que tal Nai Watanabe? Não havia dúvida quanto à sua lealdade, mas Nai criava sozinha seus filhos gêmeos de quatro anos. Não seria justo pedir que ela corresse aquele risco. Sobrava portanto apenas Eponine. Qualquer preocupação que Ellie tivesse quanto à sua amiga doente foi rapidamente desfeita por ela.

— É claro que vou ajudar você. — disse Eponine imediatamente. — Não tenho nada a perder. Segundo seu marido, esse vírus RV-41 vai me matar dentro de um a dois anos.

Em uma semana, Eponine e Ellie juntaram clandestinamente os artigos pedidos, um de cada vez. Embrulharam tudo com cuidado num pequeno lençol e esconderam a trouxa no canto do quarto bagunçado de Eponine, em Avalon. No dia combinado, Ellie saiu do Novo Éden e foi até Avalon, pretensamente para monitorar com cuidado durante doze horas os dados biométricos de Eponine. Na verdade, explicar a Robert por que ela queria passar a noite com Eponine tinha sido muito mais difícil do que convencer o único guarda humano e a biota Garcia na saída do habitat quanto à sua necessidade de um passe noturno.

Logo depois da meia-noite, Ellie e Eponine pegaram a pesada trouxa de lençol e saíram a pé pelas ruas de Avalon. Evitando com cuidado os biotas ambulantes que a polícia de Nakamura usava para patrulhar o pequeno vilarejo à noite, as duas mulheres passaram pelas imediações da cidade e foram dar na planície Central. A partir daí, andaram vários quilômetros e depositaram a trouxa no local indicado. Uma biota Tiasso as tinha parado na saída do quarto de Eponine, um pouco antes do amanhecer artificial do vilarejo, e perguntado o que as duas estavam fazendo por ali em hora tão absurda.

— Essa mulher tem RV-41 — disse Ellie rapidamente, ao sentir o pânico de sua amiga. — É uma das pacientes do meu marido... Está com muita dor e não consegue dormir, e nós achamos que uma volta bem cedinho iria lhe fazer bem... Agora, com licença...

A Tiasso deixou-as passar. Ellie e Eponine ficaram tão assustadas que nenhuma das duas falou durante uns dez minutos.

Ellie não tinha visto mais os robôs. Não tinha idéia se a fuga fora tentada ou não. Como a hora da execução de sua mãe estava chegando e os lugares no auditório em volta dela começaram a ser ocupados, o coração de Ellie começou a pular no peito. E se nada aconteceu?, pensou. E se minha mãe vai realmente morrer daqui a vinte minutos?

Ellie olhou para o palco. Ao lado da grande cadeira havia uma pilha de dois metros de altura de equipamentos eletrônicos de cor cinza metálica. Além disso, o único outro objeto no palco era um relógio digital marcando as horas: 0742. Ellie olhou para a cadeira. Pendurado no alto via-se um capuz para ser colocado na cabeça da vítima. Ellie sentiu um tremor no corpo e foi tomada de náusea. Que coisa bárbara, pensou. Como uma espécie que se considera adiantada pode tolerar esse espetáculo revoltante?

Sua cabeça tinha acabado de se livrar das imagens da execução quando alguém bateu em seu ombro. Ellie virou-se e viu um policial grande inclinado sobre ela.

— Você é Eleanor Wakefield Turner? — perguntou ele.

Ellie ficou tão assustada que mal pôde responder. Fez que sim com a cabeça.

— Quer me acompanhar, por favor? — disse o policial. — Preciso lhe fazer umas duas perguntas.

As pernas de Ellie tremiam quando ela passou pelas três pessoas na sua fila para chegar ao corredor. Aconteceu alguma coisa, pensou ela. A fuga foi descoberta. Eles encontraram a trouxa e alguém sabe que estou envolvida.

O policial levou-a para uma sala de reuniões ao lado do auditório.

— Sou o capitão Franz Bauer, sra. Turner — disse ele. — É meu dever cuidar do corpo de sua mãe depois que ela for executada. Naturalmente nós encomendamos a cremação de sempre ao agente funerário. Mas — e o capitão Bauer parou, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado —, em vista dos serviços prestados por sua mãe à colônia, pensei que talvez a senhora, ou alguém de sua família, desejasse cuidar pessoalmente dos arranjos finais.

— É claro, capitão Bauer — respondeu Ellie, extremamente aliviada. — Certamente. Muito obrigada — acrescentou depressa.

— Isso é tudo, sra. Turner — disse o policial. — Agora a senhora pode voltar ao auditório.

Ellie ficou de pé e viu que ainda estava tremendo. Colocou uma das mãos na mesa em frente do capitão Bauer.

— Capitão? — disse ela.

— Sim?

— Seria possível eu ver minha mãe sozinha, só por um instante, antes da...? O policial examinou Ellie a distância.

— Acho que não, mas vou fazer o pedido em seu nome.

— Muito obrigada...

Ellie foi interrompida pela campainha do telefone. Saiu o mais devagar possível da sala de reuniões para ver a expressão chocada no rosto do capitão Bauer.

— Tem certeza disso? — ouviu-o dizer quando saía da sala.

 

A multidão estava ficando indócil. O grande relógio digital do palco marcava 0836.

— Vamos, vamos — disse o homem por trás de Ellie. — Vamos acabar logo com isso.

Mamãe conseguiu fugir. Eu sei, disse Ellie para si mesma, tomada de alegria e forçando-se a se manter calma. É por isso que tudo aqui está tão confuso.

Cinco minutos depois das oito horas, o capitão Bauer informara a todos que as atividades seriam retardadas em alguns minutos, mas na última meia hora ninguém anunciara mais nada. Na fileira da frente de Ellie circulava um boato de que os extraterrestres tinham tirado Nicole da cela.

Algumas pessoas já começavam a sair quando o governador Macmillan apareceu no palco. Ele tinha um ar preocupado, mas assim que se dirigiu à multidão conseguiu dar aquele sorriso oficial.

— Senhoras e senhores, a execução de Nicole des Jardins Wakefield foi adiada. O governo descobriu algumas pequenas irregularidades nos documentos relacionados ao caso dela; nada realmente importante, é claro, mas achamos que esses pontos deviam ser esclarecidos primeiro, para que não houvesse nenhuma possibilidade de erro. A nova data da execução será anunciada proximamente. Todos os cidadãos do Novo Éden serão informados dos detalhes.

Ellie ficou sentada na cadeira até o auditório ficar vazio. Ela achava que seria detida pela polícia quando tentasse sair, mas isso não ocorreu. Ao se ver do lado de fora, foi difícil controlar-se para não gritar de alegria. Mãe, mãe, pensou Ellie, com lágrimas nos olhos. Estou tão feliz por você!

De repente Ellie sentiu que várias pessoas a olhavam. Oh, oh, pensou ela. Será que estou me entregando? E olhou para aquela gente com um sorriso nos lábios. Agora, Ellie, vem seu maior desafio. Você não pode, em circunstância alguma, se portar como se não estivesse surpresa.

 

Como sempre, Robert, Ellie e a pequena Nicole pararam em Avalon para visitar Nai Watanabe e os gêmeos, depois de terminarem as visitas semanais dos setenta e sete pacientes de RV-41. Era quase hora do jantar. Galileu e Kepler estavam brincando na rua de terra em frente à casa quase em ruínas. Quando os Turner chegaram, os dois menininhos estavam brigando.

— Ela também está! — dizia Galileu, de quatro anos, de forma acalorada.

— Não está — respondia Kepler com igual paixão. Ellie baixou-se para falar com os gêmeos.

— Meninos, meninos — disse com uma voz suave. — Por que vocês, estão brigando?

— Oi, sra. Turner — disse Kepler com um sorriso encabulado. — Não foi nada. Galileu e eu...

— Eu disse que a governadora Wakefield já morreu — interrompeu Galileu. — Um dos meninos do centro me contou, e ele deve saber porque seu pai é da polícia.

Por um instante, Ellie foi tomada de pânico. Depois percebeu que os gêmeos não tinham feito correlação entre Nicole e ela.

— Vocês estão lembrados de que a governadora Wakefield é minha mãe, e avó da pequena Nicole? — perguntou docemente. — Você e Kepler a viram várias vezes antes de ela ir para a prisão.

Galileu franziu a sobrancelha e depois sacudiu a cabeça.

— Eu me lembro dela... acho que sim — disse Kepler solenemente. — Ela está morta, sra. Turner? — perguntou com ingenuidade o garoto, depois de uma breve pausa.

— Não sabemos ao certo, mas esperamos que não — respondeu Ellie, quase se traindo. Seria tão fácil contar para aquelas crianças... Mas seria um erro. Provavelmente havia um biota por ali ouvindo a conversa.

Quando Ellie pegou Kepler para lhe dar um abraço, lembrou-se de seu encontro casual com Max Puckett no supermercado eletrônico, três dias antes. No meio da conversa, Max tinha dito de repente:

— A propósito, Joana e Eleonor estão muito bem e mandaram lembranças.

Ellie ficara agitada e fizera uma pergunta-chave, mas Max ignorou-a completamente. Dois minutos depois, quando Ellie ia dizer alguma coisa, a biota Garcia, encarregada do mercado, apareceu subitamente ao lado deles.

— Alô, Ellie. Alô, Robert — disse Nai da porta da casa. Estendeu os braços e pegou a pequena Nicole dos braços de seu pai. — E como vai você, minha coisa linda? Não vejo essa boneca desde sua festa de aniversário na semana passada.

Os adultos entraram em casa. Depois que Nai verificou que não havia biotas-espiões na área, chegou mais perto de Robert e Ellie.

— A polícia me interrogou de novo na noite passada — disse ela num sussurro para os amigos. — Estou começando a pensar que talvez haja alguma verdade nos boatos.

— Que boatos? — perguntou Ellie. — Eles são tantos!

— Uma das mulheres que trabalha na nossa fábrica — disse Nai — tem um irmão no serviço especial de Nakamura. Ele lhe disse, numa noite em que estava bêbado, que quando a polícia apareceu na cela de Nicole, na manhã da execução, encontrou-a vazia. Uma biota Garcia a tirou de lá. Eles acham que é a mesma Garcia que foi destruída na explosão do lado de fora da fábrica de munição.