A Revelação de Rama
Capítulo 2
Todos os olhos se voltaram para o visitante que apareceu na porta.
— Bem, bem. Bom dia, Hércules — disse Max, levantando-se da cadeira. — Que surpresa agradável!... Está precisando de alguma coisa?
A octoaranha entrou na sala de jantar com as cores jorrando de sua cabeça.
— Ele está dizendo que veio ajudar Richard com seu tradutor automático — traduziu Ellie. — Principalmente com as partes que ficam fora do nosso espectro visível.
2
Nicole estava sonhando. Dançava num ritmo africano em volta de uma fogueira, num bosque na Costa do Marfim. Era Omeh quem liderava a dança. Ele estava vestido com a túnica verde que tinha usado quando fora a Roma alguns dias antes de a nave Newton ser lançada no espaço. Todos os seus amigos humanos da Cidade de Esmeralda, além das octoaranhas mais íntimas deles, também dançavam no círculo em torno da fogueira. Kepler e Galileu brigavam. Ellie e Nikki estavam de mãos dadas. Hércules, a octoaranha, estava vestido com uma roupa africana roxa brilhante. Eponine estava em adiantada gravidez e muito pesada. Nicole ouviu chamarem seu nome do lado de fora do círculo. Seria Katie? Seu coração disparou quando ela tentou reconhecer a voz.
— Nicole — dizia Eponine ao lado de sua cama. — Estou tendo contrações. Nicole sentou-se e sacudiu a cabeça.
— Com que freqüência? — perguntou automaticamente.
— Estão irregulares. Tive duas com cinco minutos de intervalo e depois nada mais durante meia hora.
Provavelmente é só uma acomodação, pensou Nicole. Ainda faltam cinco semanas para completar a gravidez.
— Venha deitar no sofá — falou Nicole, vestindo seu robe. — E diga-me quando a próxima contração começar.
Max ficou esperando na sala enquanto Nicole terminava de lavar as mãos.
— Ela está tendo o bebê? — perguntou.
— Provavelmente, não — disse Nicole, fazendo uma ligeira pressão na barriga de Eponine para tentar localizar o bebê.
Enquanto isso, Max andava na sala de um lado para o outro.
— Eu daria tudo por um cigarro agora — resmungou.
Quando Eponine teve outra contração, Nicole percebeu que havia uma ligeira pressão na cérvix não dilatada. Ficou preocupada porque não tinha absoluta certeza de onde o bebê estava.
— Desculpe, Ep — disse Nicole depois de uma segunda contração cinco minutos depois. — Eu acho que é um falso trabalho de parto, uma espécie de exercício do corpo, mas posso estar errada... Nunca lidei com gravidez nesse estágio sem fazer uma monitoração com algum tipo de equipamento...
— Algumas mulheres têm bebês mais cedo, não é? — perguntou Eponine.
— Têm, mas é raro. Só um por cento das primíparas tem parto com quatro semanas de antecedência. E quase sempre devido a alguma complicação. Ou hereditariedade... Por acaso você ou um de seus irmãos foi prematuro?
Eponine sacudiu a cabeça.
— Eu nunca soube nada sobre a minha família verdadeira.
Droga, pensou Nicole. Estou quase certa de que são contrações de acomodação... Mas não tenho certeza absoluta...
Nicole disse a Eponine para se vestir e voltar para casa.
— Preste atenção nas contrações. O importante é o intervalo entre uma série de contrações sucessivas. Quando elas ocorrerem regularmente, a cada quatro minutos mais ou menos, sem espaçamentos significativos, então volte para cá.
— Pode ser algum problema? — perguntou Max a Nicole, enquanto Eponine se vestia.
— Não é provável, Max, mas há sempre essa possibilidade.
— O que você acha de pedir ajuda a nossos amigos, os mágicos biológicos? — perguntou ele. — Por favor, desculpe se eu estiver te ofendendo, mas é que...
— Já pensei nisso, Max. E já decidi conversar com o dr. Azul hoje de manhã.
Max ficou nervoso muito antes de o dr. Azul começar a abrir o que ele chamava de vidro dos insetos.
— Espere um instante, doutor — falou Max, encostando levemente a mão no tentáculo que segurava o jarro. — O senhor se importa de me explicar o que vai fazer antes de soltar essas criaturas?
Eponine estava deitada no sofá na sala de sua casa. Estava nua, mas quase toda coberta com dois lençóis das octoaranhas. Nicole ficou segurando sua mão durante os vários minutos que as três octoaranhas levaram para montar o laboratório portátil. Depois, ela foi para o lado de Max para poder traduzir o que o dr. Azul dizia.
— O dr. Azul não é especialista nesse campo — traduziu Nicole. — Ele está dizendo que uma das outras duas octoaranhas terá de explicar os detalhes do processo.
Depois de uma ligeira conversa entre as três octoaranhas, o dr. Azul deu um passo para o lado e outro alienígena ficou diretamente em frente a Nicole e a Max. O dr. Azul informou a Nicole que aquela octo, a quem chamava de "engenheiro de imagens", estava começando a aprender o dialeto simplificado usado para a comunicação com os humanos.
— Talvez ele tenha um pouco de dificuldade para compreender — disse o dr. Azul.
— Essas coisinhas no jarro — disse Nicole um segundo depois que as cores começaram a jorrar da cabeça do engenheiro — chamam-se... quadróides de imagem, acho que essa seria uma tradução adequada... De qualquer forma, elas são câmeras vivas em miniatura que rolarão dentro de Eponine para fotografar o bebê. Cada quadróide tem capacidade de... vários milhões de elementos fotográficos que podem ser distribuídos para até 512 imagens por nillet de octoaranha. Elas podem até mesmo criar uma imagem em movimento..
Nicole hesitou e virou-se para Max.
— Estou simplificando tudo isso, se você não se importar. É altamente técnico, e tudo em matemática das octoaranhas. O engenheiro estava me explicando no final todas as formas em que o usuário pode especificar as fotos. Richard teria adorado ouvir isso.
— Lembre-se de me dizer de novo quantos minutos há em um nillet — falou Max.
— Mais ou menos vinte e oito segundos — respondeu Nicole. — Oito nillets em um feng, oito fengs em um woden, oito wodens em um tert, e oito terts num dia das octoaranhas. Richard calcula que o dias delas tenha trinta e duas horas, quatorze minutos e pouco mais de seis segundos.
— Que bom que alguém entende dessas coisas — falou Max.
Nicole olhou de novo para o engenheiro de imagens e a conversa continuou.
— Cada quadróide de imagem — traduziu ela devagar — atinge o alvo especificado, tira as fotos e volta para o processador de imagens, aquela caixa cinza ao lado da parede, onde ele joga a imagem, recebe sua recompensa e volta para a fila.
— O quê? Que tipo de recompensa? — perguntou Max.
— Mais tarde, Max — disse Nicole, lutando para entender uma frase que já tinha pedido para a octoaranha repetir. Nicole ficou em silêncio por um instante, depois sacudiu a cabeça e virou-se para o dr. Azul. — Desculpe, mas não consegui entender a última frase.
As duas octoaranhas se falaram rapidamente em seu dialeto natural e depois o engenheiro de imagens virou-se de novo para Nicole.
— OK — disse ela a uma certa altura —, acho que entendi agora... Max, a caixa cinza é uma espécie de gerenciador de dados programável, que armazena os dados das células vivas e prepara os outputs dos quadróides para serem projetados na parede, ou onde quer que se queira ver a imagem, conforme o protocolo escolhido...
— Já tive uma idéia da coisa — interrompeu Max. — Tudo isso vai muito além do meu conhecimento... Se você acha que essa geringonça não vai fazer mal a Ep, é melhor começarmos logo.
O dr. Azul entendeu o que Max disse. A um sinal de Nicole, ele e as outras octoaranhas saíram da sala dos Pucketts e foram buscar uma espécie de gaveta no transporte estacionado do lado de fora.
— Neste container — disse o dr. Azul para Nicole — encontram-se vinte a trinta dos menores membros da nossa espécie, morfologias cuja função básica é comunicar-se diretamente com os quadróides e as outras criaturazinhas que fazem esse sistema funcionar... As morfologias irão, na verdade, gerenciar essa intervenção.
— Meu Deus! — disse Max quando a gaveta abriu-se e as octos minúsculas, com uns dois centímetros de altura, começaram a espalhar-se pelo meio da sala... — Essas... — gaguejava Max — são as que Eponine e eu vimos no labirinto azul, na toca do outro lado do mar Cilíndrico.
— As morfologias midget — explicou o dr. Azul — tomam a nossa dianteira e organizam todo o processo. São elas que irão programar a caixa cinza... Agora, só precisamos que vocês especifiquem o tipo de imagens que querem e onde querem vê-las.
A grande foto colorida da parede da sala dos Pucketts mostrava um lindo menino perfeitamente formado, enchendo quase todo o útero da mãe. Max e Eponine estavam celebrando há uma hora, desde que puderam ver pela primeira vez que o bebê era um menino. Mais para o fim da tarde, quando Nicole aprendeu melhor a especificar o que queria ver, a qualidade das fotos melhorou sensivelmente. Agora, a imagem, com o dobro do tamanho natural, estava espantosamente clara.
— Posso ver ele chutar mais uma vez? — perguntou Eponine.
O engenheiro de imagens disse alguma coisa para a midget-chefe, e em menos de um nillet foi mostrada mais uma vez a imagem do jovem Puckett chutando dentro da barriga da mãe.
— Olhe que pernas fortes! — exclamou Max, agora mais relaxado. Depois de recobrar-se do choque das imagens iniciais, Max tinha se preocupado com toda a parafernália que rodeava seu filho dentro do útero de Eponine. Nicole acalmara aquele marinheiro de primeira viagem, mostrando a ele o cordão umbilical e a placenta, e garantindo que estava tudo normal.
— Então eu não vou ter um bebê prematuro, não é? — perguntou Eponine quando a filmagem terminou.
— Não — respondeu Nicole. — Acho que ainda faltam de cinco a seis semanas. Em geral, os bebês chegam um pouco atrasados... Talvez você ainda tenha algumas contrações intermitentes daqui até o dia do parto, mas não se preocupe.
Nicole, Max e Eponine agradeceram muito ao dr. Azul. Depois, as octoaranhas guardaram todos os componentes biológicos e não-biológicos do seu laboratório portátil. Quando as octoaranhas partiram, Nicole atravessou a sala e pegou a mão de Eponine.
— Es-tu heureuse? — perguntou à amiga.
— Completamente — respondeu Eponine. — E também aliviada. Eu pensei que havia alguma coisa errada.
— Não. Foi só um alarme falso.
Max atravessou a sala e deu um abraço em Eponine. Ele estava exultante. Nicole afastou-se um pouco e ficou observando a cena. Em hora alguma um casal se ama tanto quanto antes do nascimento de seu primeiro filho.
Nicole aprontou-se para ir embora.
— Espere um instante — disse Max. — Você não quer saber como ele vai se chamar?
— É claro que sim — respondeu Nicole.
— Marius Clyde Puckett — disse Max orgulhoso.
— Marius — acrescentou Eponine — porque ele era o amante com que a desamparada Eponine sonhava em Les misérables. Eu vivia sonhando com um Marius nas minhas noites solitárias do orfanato. E Clyde em homenagem ao irmão de Max de Arkansas.
— É um nome excelente — falou Nicole sorrindo para si mesma, ao virar-se para ir embora. — Um nome excelente.
Richard não conseguia conter sua alegria ao voltar para casa naquela tarde.
— Passei duas horas fascinantes na sala de conferências com Archie e as outras octoaranhas — disse ele para Nicole em sua voz alta. — Eles me mostraram todo o aparato que usaram com você e Eponine hoje. Fantástico! Que gênio incrível! Não, mágico é um termo melhor. Eu digo isso desde o princípio, essas malditas octoaranhas são mágicos biológicos. Imagine só... Elas têm criaturas vivas que funcionam como câmeras fotográficas, um conjunto de insetos microscópicos que lêem imagens e armazenam cada pixel individual, uma espécie de urdidura genética deles mesmos que controla o processo, e uma quantidade limitada de componentes eletrônicos, se necessário, para realizar as tarefas normais de gerenciamento de dados... Quantos milhares de anos se passaram para tudo isso ocorrer? Quem arquitetou tudo isso, em primeiro lugar? É uma coisa absolutamente estarrecedora!
Nicole sorriu para o marido.
— Você viu o Marius? O que achou dele?
— Eu vi todas as fotos hoje à tarde — continuou Richard, exultante. — Você sabe como as midgets se comunicam com os quadróides de imagem? Usando um comprimento de onda especial na faixa extrema do ultravioleta do espectro. Isso mesmo. Archie me disse que aqueles insetozinhos e as octoaranhas midgets têm uma linguagem própria. E não é tudo. Algumas morfologias têm até oito linguagens diferentes de microespécies. Até o próprio Archie pode se comunicar com quarenta outras espécies, quinze usando as cores básicas das octoaranhas e o resto num conjunto de linguagens que inclui sinais, agentes químicos e outras partes do espectro eletromagnético.
Richard ficou parado por um instante no meio do quarto.
— Isso é incrível, Nicole, simplesmente incrível.
Ele ia dar início a outro monólogo quando Nicole perguntou como as octos comuns e as midgets se comunicavam.
— Não vi nenhum grupo de cores na cabeça delas hoje — disse Nicole.
— Elas conversam em ultravioleta — respondeu Richard, começando a andar pela sala de novo. De repente virou-se e apontou para o meio de sua testa. — Nicole, aquela lente no meio da fenda na cabeça das octoaranhas é um verdadeiro telescópio, capaz de receber informações em praticamente qualquer comprimento de onda... É fantástico! Elas organizaram todas essas formas de vida em um grande sistema simbiótico muito mais complexo do que qualquer coisa que nós já concebemos...