A Revelação de Rama
Capítulo 2
Até agora as octoaranhas não tiveram nenhuma atitude hostil, porém já começaram a preparar-se para a guerra contra os humanos. Embora elas só venham a lutar se concluírem que a sobrevivência da sua comunidade está em perigo, suas avançadas técnicas biológicas fazem com que o resultado de uma guerra dessas possa ser previsto.
O que não se sabe ao certo é como os humanos reagirão quando o conflito aumentar e eles tiverem grandes baixas. É possível que a guerra termine rapidamente, e que com o tempo as duas comunidades sobreviventes possam chegar de novo a uma condição próxima do equilíbrio. Porém, com base nos dados disponíveis pela observação dos humanos, há probabilidade de que essa espécie continue a guerrear até que quase todos estejam mortos. Tal resultado destruiria todos os vestígios de pelo menos uma das duas sociedades de viajantes espaciais restantes na nave. Para evitar um resultado tão desvantajoso para o projeto, é recomendada a consideração da intercessão do estágio dois.
2
Nicole acordou com o barulho das três crianças na sala de estar. Quando estava vestindo o roupão, Ellie chegou na porta do quarto e perguntou se ela tinha visto a boneca favorita de Nikki.
— Acho que está debaixo da cama — respondeu Nicole.
Ellie voltou a fazer as malas. Nicole ouviu Richard no banheiro. Está che-gando a hora, pensou, quando sua neta apareceu de repente na porta.
— Mamãe e eu estamos indo embora, vovó — disse a menininha sorrindo. — Nós vamos ver o papai.
Nicole abriu os braços e Nikki correu para lhe dar um abraço.
— Eu sei, querida — falou Nicole, apertando a neta nos braços e passando a mão em seus cabelos. — Vou sentir a sua falta, Nikki — disse.
Um instante depois, os gêmeos Watanabe entraram no quarto.
— Estou com fome, sra. Wakefield — disse Galileu.
— Eu também — acrescentou Kepler.
Nicole soltou sua neta com relutância e atravessou o quarto.
— Tudo bem, meninos. Vou preparar seu café da manhã em um instante. Quando as três crianças tinham quase terminado de comer, Max, Eponine e Marius chegaram na porta.
— Adivinhe uma coisa, tio Max — falou Nikki antes que Nicole tivesse tempo de cumprimentar os Pucketts. — Eu vou ver o meu papai.
As quatro horas passaram depressa. Richard e Nicole explicaram tudo duas vezes, primeiro para Max e Eponine e depois para os recém-casados, que ainda estavam radiantes com os prazeres de sua noite de núpcias. Quando foi chegando a hora de Richard, Ellie e Nikki partirem, a excitação e energia que tinham caracterizado a conversa da manhã começaram a diminuir. Nicole sentia-se tonta. Relaxe e sorria, disse para si mesma. Você não vai facilitar as coisas se ficar triste.
Max foi o primeiro a despedir-se.
— Venha cá, princesa, dar um beijão no tio Max — disse para Nikki, que seguiu as ordens obedientemente. Então Max levantou-se e atravessou a sala para falar com Ellie, que estava conversando com sua mãe. — Cuide bem dessa garotinha, Ellie — disse, abraçando-a —, e não deixe aqueles cretinos criarem uma encrenca. — Max apertou a mão de Richard e levou os gêmeos Watanabe para fora da sala.
O astral na sala estava ligeiramente alterado. Apesar de ter prometido a si mesma manter-se calma, Nicole sentiu um certo pânico quando percebeu de repente que tinha apenas alguns minutos para se despedir de todos. Patrick, Nai, Benjy e Eponine tinham seguido Max e estavam se despedindo do trio, já pronto para partir.
Nicole tentou abraçar Nikki outra vez, mas a menina correu para fora, para brincar com os gêmeos. Ellie terminou de despedir-se de Eponine e virou-se para Nicole.
— Vou sentir sua falta, mamãe. Te amo muito. Nicole lutou para manter-se equilibrada.
— Eu não podia ter tido uma filha melhor que você — disse. Enquanto as duas mulheres se abraçavam, Nicole falou baixinho no ouvido da filha. — Tome cuidado. Há muita coisa em jogo...
Ellie se soltou e olhou dentro dos olhos da, mãe, respirando fundo.
— Eu sei, mamãe — disse ela com um ar sombrio —, e estou assustada. Espero não desapontar...
— Você não vai desapontar ninguém — disse Nicole, batendo no ombro da filha. — Lembre-se do que o grilo do Pinóquio disse.
Ellie sorriu.
— E sempre deixe sua consciência ser seu guia.
— Archie chegou! — Nicole ouviu Nikki gritar, e procurou o marido. Onde está Richard?, pensou assustada. Eu não me despedi dele... Ellie já se dirigia para a porta, carregando duas mochilas.
Nicole mal pôde respirar quando ouviu Patrick dizer:
— Onde está o tio Richard?
E uma voz respondeu do escritório:
— Estou aqui.
Nicole saiu correndo pelo corredor até o escritório. Richard estava sentado no chão no meio dos seus componentes eletrônicos, com a mochila aberta. Nicole parou na porta por um segundo para tomar fôlego.
Richard ouviu-a por trás da porta e virou-se.
— Oi, querida — disse ele calmamente. — Ainda estou tentando descobrir quantos componentes de back-up devo levar para os meus tradutores.
— Archie chegou — disse Nicole com tranqüilidade. Richard olhou para o relógio.
— Acho que está na hora de ir. — Pegou um punhado de peças eletrônicas e enfiou-as na mochila. Depois levantou-se e foi para perto de Nicole.
— Tio Richard — gritou Patrick.
— Estou indo num minuto — respondeu Richard.
Nicole começou a tremer assim que Richard pôs os braços à sua volta.
— Ei, está tudo bem... Nós já nos separamos antes — disse ele.
O medo de Nicole tornou-se tão grande que ela não conseguia falar. Tentou desesperadamente armar-se de coragem, mas tudo em vão. Sabia que era a última vez que tocaria no marido.
Nicole pôs uma das mãos por trás da cabeça de Richard para poder beijá-lo. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. Queria deter o tempo, fazer com que aquele momento durasse uma eternidade. Seus olhos fotografaram o rosto de Richard, e ela beijou-o suavemente nos lábios.
— Eu te amo, Nicole — disse Richard.
Por um instante, ela achou que não seria capaz de responder, mas final-mente conseguiu dizer:
— Eu também te amo.
Richard pegou a mochila e acenou um adeus para Nicole, que ficou de pé na porta vendo-o sair. Dentro de sua cabeça, ela ouviu a voz de Omeh dizendo: "Lembre-se."
Nikki mal podia acreditar no que via. Ali em frente, fora dos portões da Cidade de Esmeralda, um emassauro esperava por eles, como Archie dissera. Ela ficou impaciente quando sua mãe ajeitou seu zíper.
— Posso dar comida para ele, mamãe? Posso? Posso? — perguntava Nikki. Mesmo com o emassauro sentado no chão, Richard teve de ajudar Nikki a montar o animal.
— Obrigado, vovô — disse a menina quando se acomodou confortavelmente na concavidade do bicho.
— Os horários foram estudados com muito cuidado — disse Archie a Richard e Ellie, quando se dirigiam para a floresta. — Chegaremos ao acampamento quando as tropas estiverem começando a tomar o café da manhã. Assim, todos nos verão.
— Como saberemos precisamente quando devemos aparecer? — per-guntou Richard.
— Uns quadróides estão sendo orientados dos acampamentos do extremo norte. Logo depois que os primeiros soldados acordarem e estiverem se movimentando nas barracas, Timmy, sua ave amiga, sobrevoará as barracas no escuro carregando uma mensagem escrita sobre a nossa chegada iminente. Nessa mensagem informará que seremos precedidos pelos vaga-lumes, e que levaremos uma bandeira branca, como você sugeriu.
Nikki percebeu uns olhos estranhos olhando para ela da floresta escura.
— Não é engraçado? — disse ela para sua mãe. Ellie não respondeu.
Archie parou o emassauro a cerca de um quilômetro do acampamento hu-mano. As lanternas e outras luzes do lado de fora das barracas distantes pareciam estrelas brilhando à noite.
— Timmy deve estar jogando nossa mensagem agora — falou Archie. Eles se moviam cautelosamente no escuro há quase um tert; não queriam usar os vaga-lumes para que não houvesse a menor possibilidade de serem notados antes da hora. Nikki dormia pacificamente, com a cabeça no colo da mãe. Richard e Ellie estavam tensos.
— O que faremos — perguntou Richard antes de pararem — se as tropas atirarem em nós antes de podermos falar alguma coisa?
— Daremos meia-volta e fugiremos o mais rápido possível — respondeu Archie.
— E se eles nos perseguirem com helicópteros e holofotes? — perguntou Ellie.
— Em alta velocidade, o emassauro leva quase quatro wodens para chegar à floresta — disse Archie.
Timmy voltou para o grupo e relatou a Archie, numa língua que misturava guinchos e cores, que sua missão fora cumprida. Depois, Richard e Timmy se despediram. Quando Richard fez um carinho na barriga da ave, percebeu em seus olhos grandes uma emoção que nunca vira antes. Um instante depois, quando Timmy voou para a Cidade de Esmeralda, um par de vaga-lumes iluminou o caminho e dirigiu-se para o acampamento humano. Richard liderava o cortejo, agarrando a bandeira branca com a mão direita. O emassauro vinha uns cinqüenta metros atrás, carregando Ellie, Archie e Nikki, que ainda dormia.
Richard viu os soldados através dos seus binóculos quando estava a uns quatrocentos metros de distância deles. Contou vinte e seis soldados ao todo, inclusive três com rifles e dois vasculhando a escuridão com binóculos.
Conforme planejado, Ellie, Nikkie e Archie desmontaram quando estavam a uns duzentos metros do acampamento. O emassauro foi mandado de volta para a Cidade de Esmeralda antes de os quatro se aproximarem dos soldados humanos. Nikki, que ainda não estava bem acordada, começou a reclamar; mas, ao sentir a importância do pedido de sua mãe, ficou em silêncio.
Archie caminhava entre os dois adultos. Nikki segurava a mão de sua mãe e tentava seguir seu passo.
— Ei, vocês aí — gritou Richard quando achou que já podia ser ouvido. — Eu sou Richard Wakefield. Nós viemos em paz — disse, acenando a bandeira branca com força. — Estou com minha filha Ellie, minha neta Nikki e um representante das octoaranhas.
Deve ter sido uma cena incrível para os soldados, pois nenhum deles tinha visto uma octoaranha antes. Com os vaga-lumes sobrevoando as tropas, Richard e seu grupo emergiram do escuro.
Um dos soldados deu um passo à frente.
— Eu sou o capitão Enrico Pioggi, comandante deste acampamento... Aceito sua rendição em nome das forças armadas do Novo Éden.
Como a chegada iminente deles tinha sido anunciada no acampamento menos de meia hora antes, o comando do Novo Éden não teve tempo de formular um plano para os prisioneiros. Assim que foi confirmado que um grupo composto de um homem, uma mulher, uma criança e uma octoaranha alienígena aproximava-se do acampamento, o capitão Pioggi comunicou-se de novo pelo rádio com o quartel-general de Nova York e pediu instruções de procedimento. O coronel encarregado da campanha lhe disse para cuidar dos prisioneiros e esperar novas ordens.
Richard previra que nenhum dos oficiais se disporia a tomar qualquer atitude definitiva sem antes consultar o próprio Nakamura. Ele dissera a Archie, durante a longa viagem no emassauro, que seria importante aproveitar o contato com os soldados para começar a rebater a propaganda que o governo do Novo Éden estava espalhando.
— Esta criatura — disse Richard em voz alta, depois que os prisioneiros foram revistados e as tropas curiosas os rodearam — é uma octoaranha. Todas as octoaranhas são muito inteligentes, de certa forma mais inteligentes do que nós; cerca de quinze mil vivem no Hemicilindro Sul, que se estende daqui até a base do pólo sul. Minha família e eu vivemos no território delas há mais de um ano, por livre escolha, e consideramos as octoaranhas muito pacíficas. Minha filha Ellie e eu viemos aqui com este representante, a quem chamamos de Archie, para tentar encontrar um meio de deter um confronto militar entre nossas duas espécies.
— A senhora não é esposa do dr. Robert Turner? — perguntou um sol-dado. — A que foi raptada pelas octoaranhas?
— Sou — respondeu Ellie com uma voz bem clara. — Só que não fui exatamente raptada. As octoaranhas queriam estabelecer comunicações conosco e não conseguiam. Eu fui levada porque elas acreditavam que pudesse aprender a sua língua.
— Essa coisa fala? — perguntou outro soldado incrédulo.
Até aquele momento, Archie tinha ficado quieto, como planejado. Os soldados olharam estupefatos quando as cores começaram a jorrar do lado direito da sua fenda e a passar em volta da sua cabeça.
— Archie está cumprimentando vocês — traduziu Ellie. — Disse que quer que vocês saibam que nem ele nem qualquer membro da sua espécie pretendem lhes fazer mal. Disse também que sabe ler os lábios, e que terá prazer em responder a qualquer pergunta de vocês...
— Isso é verdade? — perguntou um soldado.
Enquanto isso, o capitão Pioggi, irritado, relatava pelo rádio ao coronel em Nova York o que estava presenciando.
— Sim, senhor — dizia ele —, cores em volta da cabeça dela... cores dife-rentes, senhor, vermelho, azul, amarelo... como se fossem retângulos, retângulos móveis em volta da cabeça dela, e depois outros... O quê, senhor? A mulher, a esposa do doutor, senhor... aparentemente sabe o significado das cores... Não, senhor, não são letras coloridas, só faixas coloridas... Nesse instante, senhor, o alienígena está conversando com os soldados... Não, senhor, eles não estão usando cores... Segundo a mulher, a octoaranha sabe ler os lábios... como se fosse uma pessoa surda, senhor... eu creio que é a mesma técnica... de qualquer forma, ela responde em cores e a esposa do doutor traduz... Nenhuma arma, senhor... muitos brinquedos, roupas, objetos de aspecto estranho que o prisioneiro Wakefield diz serem componentes eletrônicos... Brinquedos, senhor, eu disse brinquedos... a menininha trouxe vários brinquedos na sua mochila... Não, nós não temos um escaneador aqui... Muito bem, senhor... o senhor tem idéia de quanto tempo vamos ter de esperar?
Quando o capitão Pioggi finalmente recebeu ordens para mandar os prisioneiros para Nova York em um dos helicópteros, Archie tinha impressionado todos os soldados do acampamento. A octoaranha começara a demonstrar suas prodigiosas habilidades mentais multiplicando de cabeça números de cinco e seis casas decimais.
— Como podemos saber que aquela octoaranha está dando a resposta certa? — perguntou um dos soldados. — Ela jorra uma porção de cores e está acabado.
— Meu rapaz — disse Richard dando uma gargalhada —, você não acabou de verificar na calculadora do tenente que o número dado pela minha filha estava correto? Você acha que ela computou o resultado de cabeça?
— Ah, é mesmo — disse o jovem. — Entendo o que o senhor quer dizer. O que realmente assombrou os soldados foi a memória fenomenal de
Archie. A um sinal de Richard, um dos elementos da tropa listou uma se-qüência de centenas de números em uma folha de papel, e depois leu para Archie um número de cada vez. A octoaranha repetiu os números todos através de Ellie, sem errar nenhum. Alguns soldados acharam que havia algum truque naquilo, que talvez Richard estivesse passando sinais codificados para Archie. Mas quando Archie duplicou sua façanha em condições cuidadosamente controladas, quem ainda tinha dúvidas saiu convencido de sua memória prodigiosa.
O ambiente do acampamento era de congraçamento quando chegaram as ordens para que os prisioneiros fossem transportados para Nova York. A primeira parte do plano deles teve mais sucesso do que o esperado. Entretanto, Richard não estava muito confiante quando eles subiram no helicóptero para atravessar uma parte do mar Cilíndrico.
Eles só ficaram em Nova York por aproximadamente uma hora. Guardas armados receberam os prisioneiros no heliporto, na praça ocidental, confiscaram as mochilas, apesar dos protestos veementes de Richard e Nikki, e fizeram com que eles caminhassem até o Porto. Richard carregava Nikki nos braços, e mal teve tempo de admirar seus arranha-céus preferidos projetando-se na escuridão.
O iate que atravessou com eles a parte norte do mar Cilíndrico era seme-lhante aos barcos que Nakamura e seus asseclas usavam em suas farras no lago Shakespeare. Em hora alguma durante a travessia os guardas falaram com os prisioneiros.
— Vovô — cochichou Nikki para Richard depois de fazer várias perguntas que não foram respondidas —, esses homens não sabem falar?
Um aerobarco os esperava em um cais, recentemente construído para fazer face às novas atividades em Nova York e no Hemicilindro Sul. Com grande esforço e despesa, os humanos haviam feito uma abertura na barreira do sul, numa área adjacente ao habitat das aves e dos sésseis, e construído um grande ancoradouro.
No início, Richard ficou pensando por que seria que ele e seus companhei-ros não tinham sido enviados diretamente para o Novo Éden de helicóptero. Mas depois de um instante concluiu que, em virtude da enorme altura da barreira, que se estendia bem acima da região em que a gravidade artificial causada pelo movimento giratório da nave Rama começava a diminuir substancialmente, e da provável falta de pilotos hábeis, havia um limite máximo de altitude para aqueles helicópteros construídos às pressas. Quer dizer, pensou Richard quando entrou no aerobarco, que os humanos devem movimentar todo o seu equipamento e seu pessoal por esse cais ou através de um fosso e um túnel debaixo do segundo habitat.
O aerobarco era guiado por uma biota Garcia. Em frente e atrás deles havia dois outros aerobarcos, ambos com homens armados. Eles atravessaram a escuridão da planície Central, Richard sentado no banco da frente ao lado da Garcia, e Archie, Ellie e Nikki instalados no banco de trás. Richard virou-se para Archie e ia lembrar-lhe dos cinco tipos de biotas do Novo Éden quando a Garcia o interrompeu:
— O prisioneiro Wakefield deve olhar para a frente e permanecer em silêncio — disse ela.
— Isso não é um tanto ridículo? — perguntou Richard.
A Garcia tirou o braço direito do timão e deu um tapa no rosto de Richard com as costas da mão.
— Olhe para a frente e permaneça em silêncio — repetiu a biota, enquanto Richard se encolhia com o impacto do tapa.
Nikki começou a chorar depois da súbita demonstração de violência. Ellie tentou acalmar e confortar sua filha.
— Eu não gosto dela, mamãe — disse a garota. — Não gosto mesmo. Era noite no Novo Éden quando eles passaram pela guarda na entrada do habitat. Archie e os três humanos foram colocados em um carro elétrico aberto, guiado por outra biota Garcia. Richard notou imediatamente que estava quase tão frio no Novo Éden quanto em Rama. O carro balançava pela estrada, que estava em péssimo estado de conservação, e dobrou em direção ao norte num lugar que antes fora uma estação ferroviária para o vilarejo de Positano. Quinze a vinte pessoas amontoavam-se em torno de fogueiras nas áreas de concreto que rodeavam a antiga estação, e mais três a quatro dormiam pelo chão debaixo de caixas de papelão e roupas velhas.
— O que essa gente está fazendo, mamãe? — perguntou Nikki. Ellie não respondeu porque a Garcia virou-se rapidamente com ar hostil.
Já dava para ver em frente as luzes de neon de Vegas quando o carro fez uma curva fechada para a esquerda, entrando numa área residencial em uma seção arborizada que tinha sido parte da floresta de Sherwood. O carro fez uma parada súbita em frente a uma grande casa tipo rancho. Dois orientais armados com pistolas e punhais aproximaram-se do carro, fazendo gestos para os passageiros descerem e dispensando a biota.