A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 44 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 10

— Benjy e eu vamos para o hospital — anunciou Nicole. Os outros ainda estavam terminando o café da manhã.

— Por favor, sente aí, Nicole — disse Eponine. — Pelo menos, termine seu café.

— Obrigada — respondeu ela —, mas prometi ao dr. Azul que chegaríamos cedo hoje. Houve muitas baixas no ataque aéreo de ontem.

— Mas você tem trabalhado demais, mãe — falou Patrick. — E não tem dormido bastante.

— Isso ajuda a manter minha cabeça ocupada — disse Nicole. — Assim não tenho tempo para pensar.

— Vamos, ma-mãe — falou Benjy entrando na sala e entregando o casaco a Nicole.

De pé ao lado da mãe, Benjy sorriu e deu adeus para os gêmeos, que por um milagre estavam quietos. Galileu fez uma careta e Benjy e Kepler riram.

— Ela ainda não se permitiu chorar a morte de Katie — disse Nai um instante depois, assim que Nicole saiu. — Isso me preocupa. Mais cedo ou mais tarde...

— Ela está com medo, Nai... — disse Eponine — de um outro ataque cardíaco, ou talvez da sua sanidade... Nicole ainda está negando os fatos.

— Lá vem você, francesinha, com sua maldita psicologia — falou Max.

— Não se preocupe com Nicole... Ela é mais forte que todos nós. Vai chorar a morte de Katie quando estiver pronta.

— Mamãe não vai à sala de vídeo desde que teve o ataque cardíaco. Quando o dr. Azul contou a ela sobre o assassinato e suicídio de Katie, eu achei que ela iria querer ver alguns dos vídeos... para ver Katie pela última vez... ou pelo menos para ver como Ellie estava indo...

— A melhor coisa que sua irmã já fez, Patrick — comentou Max —, foi matar aquele miserável. Por mais que se possa falar dela, Katie foi um bocado corajosa.

— Katie tinha muitas qualidades — falou Patrick com tristeza. — Ela era brilhante, sabia ser charmosa... só que tinha aquele outro lado também.

Fez-se um breve silêncio em volta da mesa do café. Eponine ia dizer alguma coisa quando viram uma luz brilhante na porta da frente.

— Epa! — falou, levantando-se. — Vou passar o Marius para a outra casa. Os ataques aéreos estão começando de novo.

Nai virou-se para Galileu e Kepler.

— Terminem depressa, meninos... vamos voltar para aquela casa especial que o tio Max fez para nós.

Galileu fez uma careta.

— De novo? — reclamou.

 

Nicole e Benjy mal tinham chegado ao hospital quando as primeiras bom-bas começaram a cair pela cúpula arrebentada. Todo dia ocorriam fortes ataques aéreos. Mais de metade da cobertura da Cidade de Esmeralda fora destruída. As bombas caíam em quase todas as partes da cidade.

O dr. Azul cumprimentou os dois e mandou logo Benjy para a área de recepção.

— Mas eles estão finalmente sofrendo um impacto. O Chefe Otimizador disse que os bombardeios devem cessar dentro de uns dois dias no máximo. Ele e sua equipe estão fazendo planos para a próxima fase...

— Certamente os colonos não continuarão com a guerra — disse Nicole forçando-se a não pensar muito no que estava ocorrendo no Novo Éden — principalmente agora que Nakamura está morto.

— Devemos estar preparados para qualquer contingência — observou o dr. Azul. — Mas eu espero que você esteja certa.

Ao passarem pelo corredor, foram abordados por outro médico octoaranha que Benjy chamava de Penny, por causa da marca vermelha do lado direito da sua fenda, que parecia com uma moeda do Novo Éden. Penny descreveu ao dr. Azul as terríveis cenas que havia presenciado no começo da manhã, fora do Domínio Alternativo. Nicole compreendeu grande parte do que Penny dizia, não só porque a octoaranha repetiu as histórias várias vezes como também porque usou frases muito simples na sua linguagem de cor.

Penny informou ao dr. Azul que havia necessidade urgente de pessoal e suprimentos do departamento médico para cuidar dos feridos do Domínio Alternativo. O dr. Azul tentou explicar a Penny que eles não tinham gente suficiente nem para cuidar dos pacientes do hospital.

— Eu podia ficar com Penny algumas horas esta manhã — sugeriu Nicole —, se puder ajudar.

O dr. Azul olhou para a sua amiga humana.

— Tem certeza de que vai agüentar, Nicole? Ouvi dizer que as coisas estão muito feias por lá.

— Tenho me sentindo melhor a cada dia — replicou Nicole. — E quero ir para onde possa ser mais necessária.

O dr. Azul disse a Penny que Nicole iria ajudá-la no Domínio Alternativo no máximo durante um tert, desde que o próprio Penny se comprometesse a trazê-la de volta para o hospital. Penny concordou e agradeceu a Nicole por ter se oferecido como voluntária.

Logo que entraram no transporte, Penny explicou a Nicole o que estava ocorrendo no Domínio Alternativo.

— Os feridos estão sendo levados para qualquer prédio que ainda esteja de pé; ali são examinados, tratados com medicações de emergência se necessário e depois levados para o hospital... A situação está pior a cada dia. Muitos alternativos já perderam a esperança.

O resto da viagem foi deprimente. A luz dos poucos vaga-lumes, Nicole viu destruição por todo lado. Na hora de abrirem o portão do sul, os guardas tiveram de empurrar duas dúzias de alternativos, alguns deles feridos, que queriam entrar na cidade. O teatro onde Nicole e seus amigos tinham assistido à peça de moralidade estava em escombros. Mais de metade das construções junto ao Distrito de Artes estava no chão. Nicole começou a sentir-se mal. Eu não tinha idéia de que a coisa estivesse tão feia, pensou. De repente, uma bomba explodiu no alto do carro de transporte.

Nicole foi jogada na rua. Tonta, ela tentou ficar de pé devagarinho. O carro de transporte foi partido em dois. Penny e o outro médico octoaranha estavam enterrados nos escombros. Nicole tentou tirar Penny de lá, mas depois de algum tempo compreendeu que era impossível. Outra bomba explodiu ali perto. Nicole agarrou sua maleta, que caíra na rua ao seu lado, e foi cambaleando por uma ruela lateral em busca de um abrigo.

Uma octoaranha solitária estava caída no meio da rua. Nicole abaixou-se e tirou a lanterna da bolsa. A lente da octoaranha estava imóvel. Nicole rolou a criatura de lado e viu imediatamente o ferimento na sua cabeça. Uma grande quantidade de material branco e corrugado saía do ferimento e escorria para a rua. Nicole estremeceu e quase vomitou. Olhou em volta rapidamente para ver se encontrava alguma coisa para cobrir a octoaranha. Nesse instante, uma bomba atingiu um prédio a menos de duzentos metros dali, e Nicole resolveu levantar-se e continuar seu caminho.

Encontrou um pequeno abrigo do lado direito da rua, mas já estava ocu-pado por cinco ou seis animaizinhos tipo salsicha polonesa que a expulsaram. Um deles foi mordendo seu calcanhar ao longo de uns vinte metros. A uma certa altura, o animal foi embora, e Nicole parou para tomar fôlego. Passou um instante examinando-se e descobriu, para seu espanto, que não estava muito machucada, só tinha umas mordidas esparsas.

Houve um intervalo nos bombardeios. Fez-se um silêncio sepulcral no Domínio Alternativo. Em frente a Nicole, a uns cem metros, um vaga-lume sobrevoava um prédio que parecia intacto. Nicole viu duas octoaranhas, uma delas obviamente ferida, entrarem no prédio. Deve ser um dos hospitais temporários, pensou, dirigindo-se para lá.

Um instante depois, Nicole ouviu um som peculiar, logo acima de onde ela estava. No início não registrou aquele som, mas da segunda vez percebeu que era um choro e parou abruptamente na rua, toda arrepiada. É um choro de bebê, pensou, permanecendo imóvel. Durante uns segundos não ouviu mais nada. Seria imaginação minha?, perguntou a si própria.

Nicole apertou os olhos e olhou para a direita, tentando ver naquela escuridão de onde vinha o choro. Viu uma cerca de arame quase toda caída, a uns quarenta metros de uma rua transversal. Olhou de novo para o prédio vizinho. As octoaranhas certamente estão precisando de mim ali, pensou. Mas não posso deixar de... O choro ressoou na noite, dessa vez mais claro, subindo e descendo de amplitude como um típico choro de bebê humano.

Nicole foi depressa para a cerca derrubada e viu um cartaz colorido, que-brado no chão. Ajoelhou-se e pegou um pedaço do cartaz. Quando reconheceu as cores do zoológico, seu coração deu um pulo. Richard ouviu o choro quando esteve no zôo, lembrou-se.

Houve uma explosão a cerca de um quilômetro à esquerda, e depois outra mais perto. Os helicópteros tinham voltado à carga. O choro do bebê tornou-se contínuo. Nicole tentou andar naquela direção, mas seu progresso era lento. Era difícil identificar o choro em meio ao barulho das explosões.

Uma bomba explodiu na sua frente, a menos de cem metros, e fez-se um silêncio total. Oh, não, pensou aflita, logo agora que eu estava quase chegando. Houve outra explosão a distância, seguida de um período de silêncio. Talvez fosse um tipo diferente de animal, Nicole lembrou-se de ter dito a Richard. Em algum lugar do universo deve haver uma criatura que chore como um bebê humano.

Tudo o que ela podia ouvir agora era a sua própria respiração. O que faço agora? Continuo a busca, esperando que... ou viro as costas e vou embora?, perguntou para si mesma.

Seu pensamento foi interrompido pelo reinicio do choro penetrante. Nicole moveu-se tão depressa quanto podia. Não, continuou dizendo consigo mesma, seu coração de mãe dilacerado por aquele choro, é inconfundível. Não pode haver outro som como esse. A cerca estava caída do lado direito da rua estreita. Nicole passou por cima dela e viu uma certa movimentação nas sombras à sua frente.

O bebê estava sentado no chão ao lado de um adulto humano sem vida, possivelmente sua mãe. A mulher estava emborcada no chão de terra, coberta de sangue. Depois de constatar rapidamente que a mulher estava morta, Nicole abaixou-se e pegou a criança de cabelos escuros. Espantado, o bebê ofereceu resistência e deu um berro no meio da noite. Nicole encostou-o no ombro e bateu ligeiramente nas suas costas.

— Não, não, pare de chorar, tudo vai dar certo — falou, enquanto o bebê continuava a gritar.

Na luz mortiça, Nicole viu que as roupas bizarras, duas camadas de sacos com aberturas nos lugares apropriados, estavam manchadas de sangue. Apesar dos protestos da criança, Nicole lhe fez um ligeiro exame. A não ser por um pequeno ferimento na perna e a sujeira que cobria todo o seu corpo, a menina, de cerca de um ano, parecia estar bem.

Nicole deitou a criança com cuidado em um pequeno pano limpo, tirado de sua maleta médica, e começou a limpá-la. Toda vez que uma bomba explodia na vizinhança, o corpo da menina estremecia. Nicole tentou acalmá-la cantando uma canção de ninar de Brahms. A certa altura, a menina parou de chorar e olhou-a com seus imensos olhos azuis. Quando Nicole começou a tirar sua sujeira com um pano úmido, ela não protestou. Continuou a limpar por baixo da roupa de saco e descobriu, assustada, um colarzinho de corda no peitinho da menina, que começou a gritar de novo.

Nicole pegou a criança nos braços e levantou-se. Ela está com fome, pensou, olhando em volta para ver se encontrava algum abrigo. Deve haver alguma comida por aqui. Por baixo de uma saliência de pedra a uns quinze metros de distância, que parecia ter sido uma área fechada antes do início dos bombardeios, Nicole descobriu uma grande panela com água, uns pequenos objetos com finalidade desconhecida, uma esteira de dormir e vários outros pedaços de saco com os quais a criança e a mulher estavam vestidas. Mas não viu qualquer comida. Tentou em vão fazer com que a menina bebesse um pouco de água, e depois teve uma idéia.

Voltou para o corpo da mãe e verificou que ainda havia algum leite na-queles seios, pois a mulher tinha morrido recentemente. Nicole levantou o tronco da mulher e sentou-se por trás dela no chão. Apoiando o corpo morto no seu, segurou o bebê contra os peitos da mãe e viu que ela mamava.

A criança estava faminta. No meio da mamada, uma bomba estourou e iluminou o rosto da mulher morta. Era o mesmo rosto que Nicole vira na pintura feita pelas octoaranhas na Praça dos Artistas. Então não era minha imaginação, pensou.

A menininha dormiu quando terminou de mamar. Nicole enrolou-a em um dos sacos que estavam por ali, colocou-a no chão e examinou a mulher morta pela primeira vez. Dois grandes estilhaços de bombas haviam perfurado sua coxa direita e ela sangrara até a morte. Quando examinava aqueles ferimentos, sentiu uma saliência estranha na nádega direita da mulher. Curiosa, Nicole levantou ligeiramente o corpo do chão, passou os dedos pela saliência e teve a impressão de que um objeto duro fora implantado por baixo da pele da mulher.

Pegou a tesoura na sua maleta, fez uma incisão ao lado da saliência e retirou um objeto que parecia ser de prata, do tamanho e forma de um charuto pequeno, de doze a quinze centímetros de comprimento e cerca de dois centí-metros de diâmetro. Estupefata, Nicole colocou o objeto na mão direita e tentou imaginar o que poderia ser aquilo. Provavelmente é uma espécie de marcação do zôo, pensou. Nesse instante, uma bomba explodiu ali perto, e a criança acordou.

Na direção da Cidade de Esmeralda, bombas caíam com intensidade cada vez maior. Enquanto confortava a criança, Nicole pensava no que fazer. Uma grande bola de fogo cortou o céu enquanto uma bomba produzia uma explosão ainda maior no solo. Em meio ao clarão, Nicole pôde ver que ela e a criança estavam no topo de um morro, muito perto da parte desenvolvida do Domínio Alternativo. A planície Central começava a uns cem metros dali.

Nicole levantou-se com o bebê apoiado no ombro e sentiu-se exausta. — Vamos sair desse bombardeio todo — disse em voz alta para o bebê, dirigindo-se para a planície Central. Jogou o objeto cilíndrico dentro da sua maleta e pegou mais uns dois sacos limpos. Eles podem ser úteis se fizer frio, pensou, jogando os sacos pesados por cima dos ombros.

Foi preciso caminhar uma hora, carregando o bebê e os sacos, para che-gar a um ponto da planície Central onde parecia a salvo do bombardeio. Nicole deitou-se de costas, com o bebê em cima do peito, e enrolou os sacos em volta delas duas. Um segundo depois estava dormindo.

 

Nicole acordou com o bebê se mexendo. Ela acabara de sonhar que estava conversando com Katie, mas não se lembrava do que haviam dito uma à outra. Sentou-se e improvisou uma fralda para o bebê com um pano limpo, tirado de sua maleta. A criança olhava-a com um ar curioso, os olhos azuis bem abertos.

— Bom dia, menininha, quem quer que você seja — disse Nicole animada. E a criança sorriu pela primeira vez.

Já não estava muito escuro. Um grupo de vaga-lumes iluminava a Cidade de Esmeralda a distância, e os grandes buracos feitos na cúpula deixavam a luz passar, clareando toda a área em volta de Rama. A guerra deve ter terminado, pensou Nicole, ou pelo menos os bombardeios. Senão a cidade não estaria tão iluminada.

— Bem, minha nova amiguinha — disse Nicole, colocando o bebê sobre um dos sacos limpos e ficando de pé para dar uma boa espreguiçada — vamos ver que aventuras nos foram reservadas para hoje.

A menina saiu de cima do saco e engatinhou pela terra da planície Cen-tral. Nicole pegou-a e colocou-a de novo sobre o saco, porém mais uma vez ela saiu engatinhando.

— Espere aí, garotinha — disse Nicole com uma risada, pegando a menina pela segunda vez.

Foi difícil juntar seus pertences com o bebê no colo, mas enfim conseguiu e foi andando lentamente na direção da civilização. Os prédios mais próximos do Domínio Alternativo ficavam a uns trezentos metros; durante a caminhada, ela decidiu ir direto procurar o dr. Azul no hospital. Partindo do princípio de que a guerra terminara, ou que estava temporariamente suspensa, Nicole pensou em passar a manhã tentando descobrir o que fazer com a criança. Quem são seus pais e há quanto tempo eles foram raptados do Novo Éden seriam suas primeiras perguntas. Ela estava zangada com as octoaranhas. Por que vocês não me contaram que havia outros humanos na Cidade de Esmeralda? E como vocês podem explicar a forma como trataram esta criança e sua mãe? Era o que pretendia perguntar ao Chefe Otimizador.

A menina, que estava bem acordada, não parava quieta nos braços de Nicole, que começou a sentir-se cansada. Decidiu então parar para descansar. Enquanto a menina brincava na terra, ela ficou olhando a destruição à sua frente, ali no Domínio Alternativo e na Cidade de Esmeralda ao longe, e de repente sentiu-se muito triste. E para que tudo isso?, perguntou a si mesma. A imagem de Katie passou pela sua cabeça, mas Nicole afastou-a, preferindo sentar-se na terra e brincar com o bebê. Cinco minutos depois ouviu um apito.

O som vinha do céu, da própria Rama. Nicole deu um pulo e seu pulso acelerou-se. Sentiu uma ligeira dor no peito, mas isso não impediu sua excitação.

— Olhe — gritou ela para a menina —, olhe lá ao sul!

Ao longe, raios coloridos brincavam em volta da ponta do Grande Chifre, o obelisco maciço que subia ao longo do eixo de rotação da nave espacial cilíndrica. Os raios de luz fundiram-se e formaram um imenso anel vermelho perto da ponta do obelisco. Minutos depois, o anel planava lentamente para o norte ao longo do eixo de Rama. Em torno do Grande Chifre juntaram-se mais cores, e um segundo anel cor de laranja se formou e seguiu o anel vermelho na direção norte do céu de Rama.

O apito continuou, mas não era um apito áspero nem estridente. Para Nicole parecia um som quase musical.

— Alguma coisa vai acontecer — disse, exultante —, alguma coisa boa! A menininha não tinha idéia do que acontecia, mas começou a rir quando a mulher levantou-a e balançou-a no ar. Para ela, aqueles anéis eram fascinantes. Aos poucos um anel amarelo e um verde cruzaram o céu negro de Rama, e o anel vermelho, na frente da procissão, chegou ao mar Cilíndrico.

Mais uma vez Nicole balançou a menina no ar, e o colar que ela trazia por baixo das roupas quase voou por cima de sua cabeça. Nicole pegou a menina e deu-lhe um grande abraço.

— Eu tinha me esquecido do seu colar. Agora que a luz está mais forte, vou dar uma olhada nele.

A menina deu um risinho quando Nicole puxou a corda do colar por cima de sua cabeça para examinar a peça redonda de madeira, de uns quatro centímetros de diâmetro, com a efígie de um homem com os braços erguidos, cercado por todos os lados pelo que parecia ser fogo. Nicole tinha visto uma escultura de madeira assim há muitos anos, na mesa do quarto de Michael O'Toole em Newton. San Miguel de Siena, disse ela baixinho, virando a peça de madeira.

No verso vinha escrito "Maria" em letras cuidadosamente gravadas em baixo-relevo.

— Deve ser o seu nome. Maria... Maria — disse Nicole para a menina, que não deu nenhum sinal de reconhecimento.

E, pela terceira vez, Nicole balançou-a no ar, dando uma risada.

Um instante depois, a criança estava no chão brincando na terra. Nicole vigiava a menina e ao mesmo tempo observava os anéis coloridos no céu de Rama. Agora podiam ser vistos oito anéis em azul, marrom, rosa e roxo sobre o Hemicilindro Sul, os quatro primeiros da fila sobrevoando o norte. Quando o anel vermelho sumiu no horizonte ao norte, outro da mesma cor formou-se na ponta do Grande Chifre.

Exatamente como há muitos anos, pensou Nicole. Mas sua cabeça ainda não estava concentrada naqueles anéis. Ela tentava lembrar-se de todas as pessoas dadas como desaparecidas nos registros do Novo Éden. Tinha havido alguns acidentes de barco no lago Shakespeare, e de vez em quando um doente mental do sanatório de Avalon desaparecia... Mas como um casal pôde desaparecer assim? E onde estava o pai de Maria? Eram muitas as perguntas que pensava em fazer para as octoaranhas.

Os deslumbrantes anéis continuavam a flutuar sobre sua cabeça. Nicole lembrou-se que quando Katie tinha uns onze anos ficou tão encantada com uns anéis como aqueles que gritou de alegria. Ela sempre foi minha filha mais desinibida, pensou Nicole, sem conseguir deter seus pensamentos. Sua risada era contagiante e espontânea... Katie tinha muito potencial.

Seus olhos encheram-se de lágrimas. Nicole limpou os olhos, e com grande esforço conseguiu concentrar-se em Maria, que estava toda feliz comendo terra da planície Central.

— Não, Maria — disse Nicole, limpando com carinho as mãozinhas da menina. — Isso é sujo.

Maria fez uma careta e começou a chorar. Até parece Katie, pensou Nicole imediatamente. Não suportava que eu lhe dissesse não. E uma quantidade de lembranças de Katie invadiu sua cabeça: primeiro Katie bebê e adolescente em Nodo, e finalmente já uma moça no Novo Éden. Nicole sentiu uma dor forte no coração, seu rosto se cobriu de lágrimas e seu corpo foi tomado de soluços.

— Oh, Katie — disse em voz alta. — Por quê? Por quê? Por quê? Maria parou de chorar e ficou olhando assustada para aquela mulher com o rosto coberto com as mãos.

— Não chore, Nicole — disse uma voz por trás dela. — Tudo vai acabar em breve.

Nicole achou que estava delirando. Virou-se lentamente e viu a Águia aproximando-se com os braços estendidos.

 

O terceiro anel vermelho tinha atingido o norte, e não havia mais luzes coloridas em volta do Grande Chifre.

— Então todas as luzes aparecerão quando os anéis sumirem? — per-guntou Nicole à Águia.

— Que boa memória! Você deve estar certa.

Maria, no colo de Nicole, deu um sorriso quando foi beijada com carinho.

— Obrigada pela menina — disse Nicole. — Ela é maravilhosa... e com-preendo o que você está me dizendo.

A Águia olhou para Nicole.

— Do que está falando? — perguntou. — Nós não tivemos nada a ver com esse bebê.

Nicole olhou fundo nos olhos azuis místicos da criatura alienígena. Ela nunca vira dois olhos tão expressivos como aqueles. Mas fazia muito tempo que não lia a linguagem dos olhos da Águia. Será que estava brincando a respeito de Maria, ou estava falando sério? Certamente não foi por acaso que ela descobriu a criança logo depois de Katie se matar...

Você está sendo muito severa no seu julgamento, dissera-lhe Richard um dia em Nodo. Só porque a Águia não é como você e eu biologicamente não quer dizer que não tenha vida. Ela é um robô, tudo bem, mas é muito mais inteligente do que nós... e muito mais sutil...

— Então você esteve escondida em Rama todo esse tempo? — perguntou Nicole pouco depois.

— Não — respondeu a Águia, sem maiores explicações. Nicole sorriu.

— Você já me disse que nós não chegamos a Nodo ou a algum lugar equivalente, e estou certa de que não apareceu por aqui só para uma visita social... Vai me dizer por que está aqui?

— Esta é uma intercessão no estágio dois — disse a Águia. — Nós deci-dimos interromper o processo de observação.

— Sim — falou Nicole, pondo o a menina chão. — Eu compreendo o conceito... mas o que irá acontecer agora?

— Todos irão dormir — respondeu a Águia.

— E quando acordarem?...

— Só posso dizer que todos irão dormir.

Nicole deu um passo na direção da Cidade de Esmeralda e levantou os braços para o céu. Só restavam agora três anéis coloridos, e eles estavam muito longe, acima do Hemicilindro Norte.

— Mais uma pergunta, só por curiosidade... Não estou reclamando, você sabe... — disse Nicole com um traço de ironia na voz, olhando para a Águia. — Por que você não intercedeu por nós há mais tempo? Antes de tudo isso acontecer? Antes de ocorrerem tantas mortes?... — disse, estendendo os braços para a Cidade de Esmeralda.

A Águia não respondeu imediatamente.

— Você não pode ter duas coisas ao mesmo tempo — disse afinal. — Não pode ter livre-arbítrio e um poder superior benevolente que a proteja de si mesma.

— Desculpe — falou Nicole com ar intrigado. — Terei feito por engano uma pergunta religiosa?

— Não — respondeu a Águia. — Mas você precisa compreender que nosso objetivo é desenvolver um catálogo completo de todos os viajantes espaciais nessa região da galáxia. Não somos juízes. Somos cientistas. Não nos importa se vocês forem naturalmente propensos à autodestruição. Porém, importa-nos se os resultados futuros do nosso projeto não mais justificarem os recursos significativos que aplicamos.

— O quê? — disse Nicole. — Está me dizendo que não vai interceder contra esse derramamento de sangue, mas por outra razão?

— Estou. Mas agora tenho de mudar de assunto, pois nosso tempo é extremamente limitado. As luzes aparecerão daqui a dois minutos, e você dormirá um minuto depois... Se desejar comunicar alguma coisa a esta menina...

— Nós vamos morrer? — perguntou Nicole assustada.

— Não imediatamente — respondeu a Águia. — Mas não posso garantir que todos estarão vivos depois desse período de sono.

Nicole sentou-se no chão ao lado da menina. Maria estava novamente com a boca cheia de terra. Nicole limpou seu rosto com cuidado e ofereceu-lhe um pouco de água. Para sua surpresa, Maria deu uns goles, derramando o resto pelo queixo.

Nicole sorriu e Maria deu uma risadinha. Nicole fez cócegas debaixo do queixo da menina, e ela soltou uma gargalhada, um riso mágico, puro e desinibido. Era um som tão bonito e comovente que os olhos de Nicole encheram-se de lágrimas. Tudo bem, se este for o último som que vou ouvir na vida...

De repente, Rama ficou toda iluminada. O espetáculo era assombroso. O Grande Chifre e os seis acólitos que o rodeavam dominaram o céu por cima deles.

— Quarenta e cinco segundos? — Nicole perguntou à Águia.

O homem-pássaro alienígena fez que sim. Nicole pegou a menina e disse:

— Sei que nada do que te aconteceu recentemente faz sentido, Maria — disse, com a menina no colo —, mas quero que saiba que você passou a ser muito importante na minha vida e que eu te amo muito.

Os olhos da menina demonstravam certa sabedoria. Ela inclinou-se e encostou a cabeça no ombro de Nicole, que ficou sem saber o que fazer. Depois deu umas palmadinhas nas costas dela e começou a cantar baixinho:

— Deite aqui... pra descansar... Tenha um sono abençoado...