A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 37 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 3

— Venham conosco — disse um dos homens.

Archie e seus companheiros humanos entraram na casa e foram levados por uma longa escada que dava num porão sem janelas.

— Há comida e água na mesa — disse o outro homem, virando-se para subir as escadas.

— Espere um instante — falou Richard. — Nossas mochilas... nós precisamos das mochilas.

— Elas serão devolvidas — disse o homem com impaciência — assim que seu conteúdo for inspecionado.

— E quando nós vamos ver Nakamura? — perguntou Richard.

O homem deu de ombros com um ar inexpressivo e subiu rapidamente as escadas.

 

3

Os dias se passavam lentamente. No começo, Richard, Ellie e Nikki perde-ram a referência do tempo, mas logo souberam que as octoaranhas têm um relógio interno absolutamente preciso, que é calibrado e aprimorado durante sua educação. Depois que Archie passou a usar as medidas humanas de tempo (Richard usou sua eterna citação "Em Roma, como os romanos" para convencer Archie a abandonar, pelo menos temporariamente, seus terts, wodens, fengs e nillets), eles descobriram, olhando de relance os relógios digitais dos guardas que lhes traziam comida e água, que o relógio interno de Archie não variava mais de dez segundos em cada vinte e quatro horas.

Nikki divertia-se perguntando constantemente as horas a Archie. De tanto observarem suas respostas, Richard e Nikki aprenderam a ler as cores de Archie referentes ao tempo e a pequenos números. Na verdade, à medida que se passavam os dias, as conversas rotineiras no porão ampliavam sensivelmente a compreensão geral de Richard da língua das octoaranhas. Embora sua capacidade de compreender as faixas coloridas ainda não fosse igual à de Ellie, depois de uma semana Richard pôde conversar à vontade com Archie sem que sua filha precisasse servir de intérprete.

Os humanos dormiam em futons no chão, e Archie enroscava-se por trás deles nas poucas horas em que dormia por noite. Um dos orientais trazia-lhes comida uma vez por dia, e sempre que um deles entrava Richard dizia que suas mochilas ainda não tinham sido devolvidas e que eles estavam esperando pela audiência com Nakamura.

Depois de oito dias, os banhos diários de esponja na bacia ao lado do banheiro do porão não foram mais satisfatórios. Richard perguntou se podiam tomar um banho de chuveiro com sabão. Algumas horas depois, um grande tanque de lavar roupa foi trazido pelas escadas. Todos os humanos se banharam, embora de início Nikki tivesse vergonha de ficar nua na frente de Archie. Richard e Ellie sentiram-se bem melhor depois do banho e ficaram mais otimistas.

— Ele não vai poder nos manter escondidos aqui para sempre — disse Richard. — Muitos soldados das tropas nos viram... e vão acabar revelando alguma coisa, por mais que Nakamura os proíba.

— Tenho certeza de que virão nos buscar em breve — acrescentou Ellie, animada.

Porém, no final da segunda semana de prisão, seu otimismo temporário enfraqueceu. Richard e Ellie começaram a perder as esperanças. Nikki começou a dar trabalho, reclamando o tempo todo que não tinha nada para fazer ali, e Archie passou a lhe contar histórias para mantê-la ocupada. Suas lendas das octoaranhas (ele teve uma longa discussão com Ellie sobre o sentido exato da palavra, até que finalmente aceitou o termo) encantaram a menininha.

Quando as traduções de Ellie vinham com as frases ressonantes que Nikki já associava aos contos de fadas contados na hora de dormir, "Era uma vez..." ou "Antigamente, na época dos precursores...", ela começava a dar gritinhos de alegria.

— Como eram os precursores, Archie? — perguntou a menina depois de uma dessas histórias.

— As lendas não dizem — respondeu Archie. — Portanto, você pode criar na sua imaginação a imagem que desejar.

— Essa história é verdadeira? — perguntou ela em outra ocasião. — As octoaranhas realmente nunca teriam deixado seu próprio planeta se os precursores não as tivessem levado para o espaço?

— Assim dizem as lendas — replicou Archie. — Dizem que quase tudo o que aprendemos até há mais ou menos cinqüenta mil anos nos foi ensinado originalmente pelos precursores.

Certa noite, depois que Nikki dormiu, Richard e Ellie perguntaram a Archie sobre a origem das lendas.

— Elas existem há dezenas de milhares dos anos de vocês — disse a octoaranha. — Os primeiros documentos referentes à nossa espécie contêm muitas das histórias que tenho lhes contado nos últimos dias... As opiniões quanto à veracidade das lendas são diversas... o dr. Azul acredita que elas sejam verdadeiras, e provavelmente obra de algum exímio contador de histórias, um alternativo cujo gênio não foi reconhecido durante sua vida.

— Se as lendas são verdadeiras — disse Archie respondendo a outra per-gunta de Richard —, há muitos e muitos anos as octoaranhas eram criaturas marinhas simples, que evoluíram com um mínimo de inteligência e consciência. Foram os precursores que descobriram nosso potencial através do mapeamento da nossa estrutura genética e que nos alteraram ao longo das gerações até nos tornarmos o que éramos na época da Grande Calamidade.

— O que aconteceu com os precursores? — perguntou Ellie.

— Há muitas histórias sobre eles, algumas contraditórias. A maioria ou todos os precursores que viviam originalmente no planeta conosco foram provavelmente mortos na Grande Calamidade. Segundo algumas lendas, seus povoados remotos em volta das estrelas próximas sobreviveram durante centenas de anos, mas acabaram sucumbindo também. Uma das lendas diz que os precursores continuaram a prosperar em outros sistemas estelares mais favoráveis, e se tornaram a forma dominante de inteligência da galáxia. Não sabemos. Só temos certeza de que a porção da terra do nosso planeta primitivo ficou inabitável durante muitos e muitos anos, e que, quando a civilização das octoaranhas aventurou-se novamente no mar, nenhum dos precursores estava vivo.

 

Os quatro prisioneiros do porão desenvolveram seu próprio ritmo diário à medida que as semanas se passavam. Toda manhã, antes que Nikki e Ellie acordassem, Archie e Richard conversavam sobre uma série de assuntos de interesse mútuo. Aquela altura, a leitura de lábios de Archie era quase perfeita, e a compreensão de Richard das cores das octoaranhas era tão boa que Archie raramente tinha de repetir o que havia dito.

Muitas conversas versavam sobre ciência. Archie era fascinado pela his-tória da ciência na espécie humana. Ele queria saber que descobertas haviam sido feitas e quando, o que havia suscitado as investigações ou experiências básicas, e que modelos incorretos explicando fenômenos haviam sido descartados em função de novos conceitos.

— Então foi a guerra que acelerou o desenvolvimento da aeronáutica e da física nuclear na sua espécie — disse Archie certa manhã. — Que conceito fantástico!... Você não pode imaginar — disse uns segundos depois — como é espantoso para mim experimentar, ainda que indiretamente, a progressão do conhecimento de vocês sobre a natureza... Nossa história é completamente diferente. No início nossa espécie era ignorante de todo. Logo depois foi criado um novo tipo de octoaranha, que não só pensava mas também observava o mundo e compreendia o que estava vendo. Nossos mentores e criadores, os precursores, já tinham explicações para tudo. Nossa tarefa como espécie era muito simples. Aprendemos o que pudemos com nossos mestres. Naturalmente, não tínhamos o conceito de tentativa e erro que faz parte da ciência. Portanto, não tínhamos idéia alguma de como evoluem os componentes de uma cultura. A brilhante engenharia dos precursores nos permitiu pular centenas de milhões de anos de evolução. Nem preciso dizer que, infelizmente, não tínhamos nenhum preparo para cuidar de nós próprios depois que ocorreu a Grande Calamidade. Segundo a mais histórica de nossas lendas, nossa atividade intelectual primitiva durante as centenas de anos seguintes limitou-se a acumular e compreender o maior número possível das informações dos precursores que encontrássemos ou de que nos lembrássemos. Nesse ínterim, como não tínhamos mais benfeitores para nos transmitirem princípios éticos, nosso progresso sociológico foi negativo. Entramos em um longo período no qual se questionava se as novas octoaranhas inteligentes criadas pelos precursores sobreviveriam ou não...

Richard estava tomado pela idéia do que chamou de "espécie tecnológica derivativa".

— Nunca pensei — disse ele a Archie certa manhã, com seu habitual entusiasmo por descobertas — que pudesse haver uma espécie de viajantes do espaço que nunca tivesse elaborado por conta própria as leis da gravidade, e nunca tivesse deduzido, através de uma longa seqüência de experiências, as essências da física, tais como as características do espectro eletromagnético. É uma coisa incrível... Mas, agora que compreendo o que você está me dizendo, me parece natural. Se a espécie A, de avançados viajantes do espaço, entrar em contato com a espécie B, inteligentes mas de certa forma mais lentos tecnologicamente, é perfeitamente lógico supor que, depois do contato, a espécie B omita os degraus intermediários...

— O nosso caso — explicou Archie naquela mesma manhã — foi ainda mais inusitado. O paradigma que você está descrevendo é na verdade bem natural e aconteceu, segundo nossa história e as lendas, com grande freqüência. Vários viajantes espaciais são mais derivativos, para usar o seu termo, do que evolutivos. Vejamos as aves e os sésseis. A simbiose deles, que se desenvolveu sem qualquer interferência externa, já existia em um sistema estelar próximo do nosso planeta há milhares de anos, quando os precursores exploraram esse sistema. As aves e os sésseis certamente nunca teriam desenvolvido a capacidade de viajar no espaço por conta própria. Contudo, depois de encontrarem os precursores e verem a primeira nave espacial, eles solicitaram e obtiveram a tecnologia necessária para a viagem espacial... Nossa situação é genericamente distinta, e definitivamente mais derivativa. Se nossas lendas forem verdadeiras, os precursores já eram viajantes do espaço quando as octoaranhas ainda eram totalmente inconscientes. Naquela época, nós não éramos capazes de conceber a idéia de um planeta, e muito menos do espaço que o rodeava. Nosso destino era decidido pelos seres avançados com os quais compartilhávamos nosso mundo. Os precursores reconheceram o potencial da nossa estrutura genética e, através da sua engenharia, nos aprimoraram, deram-nos uma inteligência, passaram-nos informações e criaram uma cultura avançada que provavelmente nunca teria existido...

Uma ligação profunda desenvolveu-se entre Richard e Archie em função dessas conversas regulares no início das manhãs. Sem quaisquer outras distrações, os dois intercambiavam seu amor fundamental pelo conhecimento. Um passava seu conhecimento para o outro, enriquecendo assim sua admiração mútua pelas maravilhas do universo.

Nikki quase sempre acordava antes de Ellie. Logo depois que ela termi-nava o café da manhã, os adultos entravam na segunda parte da sua rotina diária. Embora Nikki às vezes jogasse cartas com Archie, ela passava a maior parte da manhã estudando. Eram três os professores. Nikki lia um pouco, fazia contas de somar e subtrair, conversava com seu avô sobre ciência e natureza, e com Archie sobre moral e ética. E também aprendeu o alfabeto das octoaranhas e umas frases simples. Nikki era muito rápida com a língua das cores, fato que os outros atribuíram aos seus genes alterados e à sua inteligência natural.

— Nossos jovens passam uma boa parte do tempo na escola discutindo e interpretando casos que envolvem problemas morais — disse Archie a Richard e Ellie certa manhã, durante uma discussão sobre educação. — Escolhem-se situações reais de vida como exemplos, embora às vezes os fatos sejam ligeiramente mudados para aguçar o interesse, e as jovens octoaranhas avaliam a aceitabilidade das várias respostas possíveis. Isso é feito em discussões abertas.

— Isso é feito para expor os jovens bem cedo ao conceito de Otimização? — perguntou Richard.

— Não exatamente — replicou Archie. — O que tentamos fazer é preparar a juventude para a vida real, o que envolve um intercâmbio com outros, com muitas escolhas comportamentais. Todo jovem é encorajado a usar os estudos de casos para desenvolver seu próprio sistema de valor. Nossa espécie acredita que o conhecimento não existe no vácuo. Só quando ele é parte integrante de uma forma de viver é que tem um significado real...

Archie apresentava a Nikki estudos de casos com problemas éticos sim-ples porém clássicos. Os temas básicos sobre mentira, justiça, preconceito e egoísmo foram examinados nas oito primeiras aulas. As respostas da menina às situações em geral eram tiradas de exemplos da sua própria vida.

— Galileu sempre vai fazer ou dizer o que for necessário para sua opinião prevalecer — disse Nikki durante uma aula, mostrando que compreendia o princípio fundamental levantado pelo caso em questão. — Para ele, o que ele quer é mais importante do que qualquer outra coisa... Kepler é diferente. Ele nunca me faz chorar...

Nikki fazia a sesta à tarde. Enquanto ela dormia, Richard, Ellie e Archie trocavam comentários e impressões que salientavam as semelhanças e as diferenças entre as duas espécies.

— Se entendi direito — disse Ellie um dia, depois de uma conversa ani-mada sobre como os seres inteligentes e sensíveis deviam lidar com os membros da sua comunidade que se comportam de modo anti-social —, sua sociedade é muito menos tolerante do que a nossa... Há claramente uma forma preferida de viver nas suas comunidades. As octoaranhas que não seguem esse modelo preferido não só são afastadas cedo como não têm permissão para participar de muitas atividades gratificantes e são exterminadas depois de um período de vida mais curto que o normal...

— Na nossa sociedade — disse Archie em resposta —, o aceitável é sempre claro; não é dúbio como na sua. Assim, os nossos indivíduos fazem suas escolhas com pleno conhecimento das conseqüências... A propósito, o Domínio Alternativo não é como uma das suas prisões. É um lugar onde as octoaranhas, e também outras espécies, podem viver sem a regulamentação e a otimização necessárias para o contínuo desenvolvimento e sobrevivência da colônia. Alguns alternativos vivem até muito tarde, e são bastante felizes... Sua sociedade, pelo menos o que eu pude observar dela, parece não compreender a inconsistência básica entre liberdade individual e bem-estar comum. Essas duas coisas devem ser cuidadosamente equilibradas. Nenhum grupo pode sobreviver, que dirá prosperar, se o bem-estar de toda a comunidade não for mais importante do que a liberdade individual. Tomemos como exemplo a alocação de recursos. Como pode um ser dotado de inteligência justificar, em termos da comunidade como um todo, o acúmulo de bens materiais por poucos indivíduos quando outros mal têm o que comer, vestir e outras coisas essenciais?

No porão Archie não era reticente nem evasivo, como era às vezes na Cidade de Esmeralda. Falava abertamente a respeito de todos os aspectos da sua civilização, como se a missão que estava desempenhando junto com os humanos o tivesse liberado, de certa forma, de todas as suas contenções. Estaria ele enviando inconscientemente uma mensagem aos outros humanos que deviam estar gravando aquelas conversas? Talvez. Mas até que ponto aquelas conversas seriam compreendidas pelos homens de Nakamura, se eles não conheciam nada da linguagem das cores? Não, era mais provável que Archie tivesse percebido, melhor que seus companheiros humanos, que sua morte era iminente, e quisesse que seus últimos dias fossem os mais significativos e estimulantes possíveis.

Certa noite, antes de Richard e Ellie dormirem, Archie disse que tinha uma coisa pessoal para lhes contar.

— Eu não desejo alarmar vocês, mas já consumi quase todo o suprimento de barrican da minha reserva. Se ficarmos aqui muito tempo e meu barrican acabar, vou entrar na minha maturidade sexual, como vocês sabem. Segundo nossos arquivos, vou me tornar agressivo e possessivo ao mesmo tempo. Espero que não...

— Não se preocupe com isso — disse Richard, dando uma gargalhada. — Eu já lidei com adolescentes antes... E certamente posso lidar com uma octoaranha que não tem mais um temperamento perfeito.

 

Uma manhã, o guarda que trazia comida e água disse a Ellie para preparar-se para sair com a menina.

— Quando? — perguntou Ellie.

— Daqui a dez minutos — respondeu o guarda.

— Para onde nós vamos? — perguntou ela outra vez. O guarda não disse nada e desapareceu escada acima.

Enquanto Ellie se esforçava para ajeitar-se o melhor possível (tinha trazido apenas três mudas de roupa e era difícil lavá-las), foi treinando com Richard e Archie o que diria caso se encontrasse com Nakamura ou algum dos líderes da colônia.

— Embora você vá dizer que as octoaranhas são uma espécie pacífica — disse seu pai aos cochichos em um canto da sala —, não se esqueça de acrescentar que só conseguiremos deter uma guerra se pudermos convencer Nakamura de que ele não se sairá vitorioso de um conflito armado. É importante que eles saibam que a tecnologia das octoaranhas é muito mais avançada do que a nossa.

— Mas se me pedirem exemplos específicos?

— Eles não esperam que você saiba detalhes. Diga-lhes que eu posso dar vários exemplos da tecnologia delas.

Ellie e Nikki foram levadas no carro elétrico até o hospital da colônia na Cidade Central. As duas foram conduzidas pela entrada de emergência e chegaram a um consultório árido, com duas cadeiras, um sofá que servia de cama de exame e alguns equipamentos eletrônicos complexos. Ellie e Nikki ficaram sentadas ali durante uns dez minutos, até o dr. Robert Turner entrar.

Ele estava muito envelhecido.

— Oi, Nikki — disse, sorrindo e agachando-se com os braços estendidos. — Venha dar um abração no papai.

A menina hesitou por um instante e depois saiu correndo para o colo do pai. Robert levantou-a e girou-a pela sala.

— Que bom te ver, Nikki.

Ellie levantou-se e ficou esperando. Depois de alguns segundos Robert colocou a filha no chão e olhou para a esposa.

— Como vai, Ellie? — perguntou.

— Bem — disse ela, sentindo-se pouco à vontade de repente. — E como vai você, Robert?

— Mais ou menos na mesma.

Os dois encontraram-se no meio da sala e abraçaram-se. Ellie tentou beijá-lo com ternura, mas ele beijou-a secamente e virou-se de lado. Ellie pôde sentir como seu marido estava tenso.

— O que foi, Robert? — perguntou ela de forma carinhosa. — O que aconteceu?

— Tenho trabalhado demais, como sempre — respondeu Robert, andando até a cama de exame. — Por favor, tire sua roupa e deite-se aqui, Ellie. Quero ter certeza de que você está bem.

— Nesse instante? — perguntou Ellie incrédula. — Antes de falarmos sobre tudo o que aconteceu nesses meses em que estivemos separados?

— Sinto muito, Ellie — disse Robert, com um ligeiro sorriso. — Estarei muito ocupado hoje à noite. A equipe do hospital está muito reduzida. Eu os convenci a soltar vocês prometendo que...

Ellie chegou-se para o lado do marido e pegou a mão dele.

— Robert, eu sou sua esposa. Eu te amo. Não nos vemos há mais de um ano. Certamente você pode tirar um minuto para...

Os olhos de Robert encheram-se de lágrimas.

— O que foi, Robert? Conte para mim — falou Ellie assustada. Ele se casou com outra mulher, pensou ela em pânico.

— O que aconteceu com você, Ellie? — disse ele de repente em voz alta. — Como você pôde dizer àqueles soldados que não foi raptada e que as octoaranhas não eram hostis?... Você fez de mim motivo de chacota... Todos os cidadãos do Novo Éden me viram na televisão, descrevendo aquele momento terrível em que você foi seqüestrada... Minha lembrança desse dia é tão clara...

Ellie dera um passo atrás quando Robert começou a falar alto. Ficou ali ouvindo, ainda segurando na sua mão, sentindo toda a angústia do marido.

— Fiz aqueles comentários, Robert, porque estava, e estou, tentando fazer o possível para deter o conflito entre nós e as octoaranhas... Sinto muito se minhas observações prejudicaram você.

— As octoaranhas fizeram lavagem cerebral em você, Ellie — disse Robert num tom amargo. — Percebi isso assim que os homens de Nakamura me mostraram os relatórios. De alguma forma, elas adulteraram sua mente a fim de que você perdesse o senso de realidade.

Nikki ficou choramingando quando seu pai elevou a voz. Ela não com-preendia por que seu pai e sua mãe estavam discutindo, mas sabia que as coisas não iam bem. Agarrou-se na saia da mãe e pôs-se a chorar.

— Está tudo bem, Nikki — disse Ellie consolando a filha. — Seu pai e eu estamos só conversando.

Quando Ellie olhou para o alto, viu Robert tirando da gaveta um capuz transparente.

— Então você vai me fazer um eletroencefalograma para ter certeza de que não me tornei uma octoaranha? — perguntou, nervosa.

— Isso não tem graça nenhuma, Ellie — replicou Robert. — Os meus eletroencefalogramas saem esquisitos desde que voltei para o Novo Éden. Nem eu nem o neurologista da minha equipe temos uma explicação para isso. Ele disse que nunca viu mudanças tão radicais na atividade cerebral de um indivíduo, a não ser por lesão grave.