A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 17 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 3

— Mas como eles puderam fazer isso sem que notássemos nada?

— Que merda — exclamou Max, abaixando-se para passar debaixo do arco e ficando de pé no corredor, vermelho do lado oposto. — A menos que eu esteja enganado, aquela droga de trem estará esperando por nós quando chegarmos na estação, e as octoaranhas pretendem que a gente volte pacificamente para casa. Tudo certinho demais.

Max estava certo. O trem estava estacionado com a porta aberta quando Robert e ele chegaram no átrio vindos dos corredores vermelhos. Max parou, com um olhar selvagem.

— Eu não vou entrar nessa merda de trem — disse em voz baixa.

— O que pretende fazer? — perguntou Robert, um pouco assustado.

— Vou voltar para o labirinto — disse Max. Pegando o rifle e voltando para o corredor, ele afastou-se da linha azul e correu uns cinqüenta metros até encontrar a primeira octoaranha. Logo em seguida apareceram várias outras, que se espalharam por todo o corredor e começaram a andar na direção de Max.

Max parou, olhou para as criaturas que avançavam e olhou para trás. Na extremidade do corredor, outro grupo de octoaranhas vinha em sua direção.

— Esperem um instante — gritou Max. — Eu tenho uma coisa a dizer. Vocês devem entender pelo menos parte da nossa língua, senão não poderiam saber que estávamos vindo para cá... Eu não estou satisfeito. Quero uma prova de que Eponine está viva...

As octoaranhas, com as cabeças cercadas de cores, estavam quase ao lado dele. Apavorado, Max deu um tiro no ar como um aviso. Em menos de dois segundos ele sentiu uma mordida forte na nuca e caiu desmaiado no chão.

Robert, que por indecisão ficara na estação, correu pela plataforma quando ouviu o tiro. Ao chegar ao corredor vermelho, viu as octoaranhas levantando Max do chão e ficou vendo os extraterrestres carregarem Max para o trem do metrô e depositá-lo gentilmente no canto do carro. Depois, as octoaranhas mostraram a porta aberta para Robert e ele entrou no trem. Em menos de dez minutos, os dois estavam de volta ao salão debaixo da cúpula do arco-íris.

 

3

 

Max só acordou dez horas depois. Nesse meio-tempo, Robert e Nicole o examinaram minuciosamente e não encontraram nenhum ferimento nem lesão. Robert contou várias vezes as aventuras pelas quais eles tinham passado, exceto, é claro, o que ocorrera durante o momento crítico em que Max ficou sozinho no corredor vermelho.

A maioria das perguntas da família era sobre o que eles haviam visto no filme. Ellie ou Eponine demonstravam estar estressadas ou forçadas a se apresentar no filme? Elas tinham perdido peso? Pareciam descansadas?

— Creio que agora sabemos muito mais sobre a natureza das nossas hospedeiras — disse Richard quando a família estava terminando de comentar pela segunda vez a história de Robert. — Primeiro, e antes de tudo, está claro que as octoaranhas, ou qualquer espécie que esteja encarregada de tudo isto aqui, nos observam regularmente e podem compreender nossas conversas. Não há outra explicação possível para aquele filme com Ellie e Eponine ser mostrado a Max e Robert.

— Segundo, o nível tecnológico deles, pelo menos com relação a filmes, ou está centenas de anos atrás do nosso ou, se Robert tem razão quando diz que não havia um projetor na sala nem na parede, eles são tão adiantados que sua tecnologia nos parece mágica. Em terceiro lugar...

— Mas, tio Richard — interrompeu Patrick —, por que o filme não tinha som? Não seria mais fácil Eponine e Ellie simplesmente terem dito que estavam bem? Não é mais provável que as octoaranhas sejam surdas do que elas não terem uma tecnologia avançada na área de filmagem?

— Que idéia interessante, Patrick — comentou Richard. — Nós nunca consideramos isso. É claro que elas não precisam ouvir para se comunicar...

— Criaturas que passaram a maior parte da sua vida evolutiva no fundo do mar em geral são surdas — falou Nicole. — Suas necessidades sensoriais básicas de sobrevivência têm outros comprimentos de onda, e, como elas têm um número limitado de células para os sensores e seu processamento, a audição delas não chega a se desenvolver.

— Eu trabalhei com surdos na Tailândia — disse Nai — e fiquei fascinada ao perceber que não poder ouvir não é um empecilho significativo em uma cultura avançada. A linguagem de sinais deles tem um alcance fantástico, e é muito complexa... Os humanos da Terra não precisam mais ouvir para caçar, ou para fugir de animais perigosos... A linguagem de cores das octoaranhas é mais do que adequada à comunicação...

— Espere um instante — disse Robert. — Você não está desconsiderando a forte evidência de que as octoaranhas podem ouvir? Como elas sabiam que Max e eu íamos sair em busca de Ellie e Eponine se não ouviram nossa conversa?

Fez-se um minuto de silêncio, e Robert continuou:

— Talvez elas tenham mandado Ellie e Eponine traduzir o que estava sendo dito — sugeriu Richard.

— Mas isso exigiria dois acontecimentos pouco prováveis — falou Patrick. — Primeiro, se as octoaranhas são surdas, por que elas teriam um equipamento sofisticado e miniaturizado para registrar sons? Segundo, mandar Eponine e Ellie traduzir o que nós dissemos implica um nível de interação de comunicação difícil de ser desenvolvido em um mês... Não, na minha opinião as octos provavelmente perceberam a razão da viagem de Robert e de Max baseadas na evidência visual: as imagens de Ellie e Eponine no monitor do computador portátil.

— Bravo — bradou Richard. — Brilhante raciocínio...

— Vocês vão ficar papeando sobre essa merda a noite toda? — disse Max entrando no meio do grupo.

Todos pularam de susto.

— Você está bem? — perguntou Nicole.

— É claro. Estou até me sentindo descansado...

— Conte o que aconteceu — interrompeu Robert. — Eu ouvi o tiro, mas quando cheguei na esquina duas octoaranhas já estavam carregando você.

— Também não sei o que aconteceu — disse Max. — Antes de eu desmaiar senti uma picada forte na nuca... Foi isso... Uma das octos atrás de mim deve ter me atingido por trás com uma espécie de dardo.

Max esfregou a nuca, e Nicole deu uma espiada.

— Não vejo nada, nem ao menos um furinho — disse ela. — Os dardos devem ser muito finos.

Max olhou para Robert.

— Espero que você tenha pegado meu rifle.

— Sinto muito, Max — disse Robert. — Só pensei nisso quando estávamos no trem.

Max olhou para os amigos.

— Muito bem, minha gente, quero que vocês saibam que minha revolta se esgotou. Estou convencido de que não podemos lutar contra essas criaturas, por isso é melhor tentarmos seguir o plano delas.

Nicole pôs a mão no ombro do amigo.

— Este é o novo Max Puckett — disse ela com um sorriso.

— Posso ser teimoso — replicou Max com sua risadinha característica —, mas acho que não sou burro.

 

— Eu não acho que todos devam se mudar para o iglu de Patrick — falou Max na manhã seguinte, depois que outro trem chegou com o suprimento de comida e água.

— Por que você diz isso? — perguntou Richard. — É evidente que o iglu foi projetado para os humanos, senão por que teriam construído uma escada?

— Não faz sentido — falou Max. — Especialmente para as crianças. O lugar é apertado para se viver... Acho que o iglu é uma espécie de parada temporária, como uma cabine na mata, se você preferir.

Nicole tentou imaginar os dez vivendo naquele espaço exíguo que Patrick tinha descrito.

— Entendo seu ponto de vista, Max — disse ela —, mas o que você sugere?

— Por que não vamos inspecionar o iglu com mais cuidado? Talvez Patrick tenha deixado de ver alguma coisa, com o exame rápido que ele fez... De qualquer forma, saberemos o que esperam que a gente faça. As octoaranhas, ou quem quer que esteja nos guiando, não nos deixariam na incerteza.

Richard, Max e Patrick foram selecionados para a missão de reconhecimento. A partida deles foi retardada para que Patrick pudesse manter sua promessa a Galileu. Patrick seguiu o menino de seis anos pela longa escada em espiral até o patamar, e depois até o fundo da segunda escada. Aquela altura, o menino já estava exausto para continuar a subir. Na verdade, quando estavam descendo da cúpula, suas pernas não agüentaram e Patrick teve de carregá-lo nos últimos doze metros de descida.

— Você vai conseguir subir de novo? — perguntou Richard a Patrick.

— Creio que sim — disse ele, ajeitando sua mochila.

— Pelo menos assim ele não terá de esperar pelos velhinhos o tempo todo — comentou Max com uma risada.

Os três pararam para admirar a vista do patamar do alto das escadas cilíndricas.

— Às vezes — disse Max, olhando as maravilhosas cores do arco-íris da cúpula, poucos metros acima da sua cabeça —, acho que tudo o que me aconteceu desde que subi a bordo do Pinta foi um sonho... Como é que os porcos, galinhas e até mesmo Arkansas se encaixam neste cenário?... É demais.

— Deve ser difícil — disse Patrick, caminhando pelo corredor — comparar tudo isso com a sua vida normal na Terra. Mas pense na minha situação. Eu nasci em uma espaçonave extraterrestre com destino a um mundo localizado perto da estrela Sírius. Passei mais da metade da minha vida dormindo. Não tenho idéia do que seja uma vida normal...

— Que merda, Patrick — disse Max, pondo o braço em torno do rapaz. — Se eu fosse você estaria completamente maluco.

Mais tarde, quando estavam subindo a segunda escada, Max parou e virou-se para Richard, abaixo dele.

— Espero que você entenda, Wakefield — disse, em tom caloroso —, que sou um intratável e que não tive intenção de agredir você durante nossas discussões dos últimos dias.

Richard sorriu.

— Eu compreendo, Max. E também sei que sou tão arrogante quanto você é intratável... Aceito suas desculpas indiretas se você aceitar as minhas.

Max fingiu-se indignado.

— Não pedi desculpas porra nenhuma — disse ele, subindo o degrau seguinte.

O iglu era exatamente como Patrick havia descrito. Os três homens vestiram as jaquetas e se prepararam para ir para o lado de fora. Richard, que foi o primeiro a sair pela porta, viu o outro iglu antes que Max e Patrick tivessem dado a primeira respirada no ar de Rama.

— Aquele outro iglu não estava lá, tio Richard — insistiu Patrick. — Eu andei por essa área toda.

O segundo iglu, exatamente um décimo menor do que o primeiro, ficava cerca de trinta metros mais longe do penhasco que beirava o mar Cilíndrico e brilhava na escuridão de Rama. Quando os homens começaram a andar na sua direção, a porta do iglu menor abriu-se e surgiram duas figuras humanas minúsculas, de cerca de vinte centímetros de altura e iluminadas por dentro.

— Que droga é aquilo? — exclamou Max.

— Olhe bem — disse Patrick excitado —, é minha mãe e tio Richard.

As duas figuras viraram-se para o sul na escuridão, afastando-se do penhasco e do mar. Richard, Max e Patrick aproximaram-se delas para ver melhor. As figuras estavam vestidas com as mesmas roupas que Richard e Nicole haviam usado no dia anterior. A atenção para os detalhes era extraordinária. O cabelo, o rosto, a cor da pele, e até mesmo a cor da barba de Richard, eram uma perfeita réplica dos Wakefield. As figuras também estavam carregando mochilas.

Max parou para pegar a figura de Nicole, mas recebeu um choque elétrico quando tocou nela. A figura virou-se para Max e sacudiu a cabeça enfaticamente. Os homens seguiram o casal durante mais uns cem metros e depois pararam.

— Não há muita dúvida do que nós devemos fazer em seguida — disse Richard.

— Não — disse Max. — Parece que você e Nicole estão sendo chamados.

 

Na tarde do dia seguinte, Richard e Nicole colocaram nas mochilas alimento e água suficientes para vários dias e despediram-se da família. Nikki tinha dormido na cama com eles na noite anterior e ficou muito chorosa quando seus avós partiram. A subida pela escada era cansativa.

— Eu devia ter subido mais devagar — disse Nicole, respirando com dificuldade, quando ela e Richard chegaram ao patamar abaixo da cúpula e acenaram para todos. Nicole sentia os batimentos irregulares do seu coração, e esperou pacientemente que as palpitações diminuíssem.

Richard também ficou sem ar.

— Já não somos mais tão jovens como éramos anos atrás em Nova York — disse ele depois de um longo silêncio, sorrindo e pondo os braços em volta de Nicole. — Está pronta para continuar nossa aventura?

Nicole fez que sim. Os dois foram andando devagar pelo longo corredor, de mãos dadas.

— Querido — disse ela de repente —, não é incrível estarmos sozinhos de novo, só nós dois, ainda que por poucas horas apenas?... Eu gosto dos outros, mas é uma carga a gente se sentir responsável o tempo todo...

Richard deu uma risada.

— Foi o papel que você escolheu, Nicole, ninguém a forçou a isso. Richard inclinou-se e beijou-lhe o rosto. Nicole virou-se para ele e lhe deu um forte beijo nos lábios.

— Você sugeriu com esse beijo — perguntou Richard imediatamente, com um amplo sorriso — que devíamos passar esta noite no iglu e começar a viagem amanhã?

— Acho que você está lendo meus pensamentos, sr. Wakefield — falou Nicole com um sorriso matreiro. — Na verdade, eu estava pensando que seria divertido imaginarmos hoje à noite que somos amantes de novo... Pelo menos nossa imaginação ainda deve funcionar bem.

 

Quando estavam a trezentos metros ao sul dos dois iglus, Richard e Nicole não conseguiram ver mais nada, a não ser iluminando o caminho com a lanterna. Embora a estrada de terra, com alguma pedras, fosse boa, era preciso andar com muito cuidado, pois de vez em quando um deles tropeçava.

— Talvez essa caminhada no escuro seja longa e muito cansativa — falou Nicole, quando pararam para beber água.

— E fria também — acrescentou Richard, bebendo um gole. — Você não está sentindo frio?

— Quando me mexo, não — disse Nicole, esticando os braços e ajeitando sua mochila.

Tinha se passado quase uma hora quando viram uma luz no céu ao sul, movendo-se na direção deles e tornando-se maior.

— O que você acha que é isso? — perguntou Nicole.

— Será a Fada Azul? — respondeu Richard. — A gente podia fazer um pedido para a estrela...

Nicole riu.

— Você é impossível — disse ela.

— Depois da noite passada — falou Richard, enquanto a luz continuava a mover-se na direção deles —, estou me sentindo um garoto de novo.

Nicole riu satisfeita e balançou a cabeça. Eles se deram as mãos em silêncio, enquanto a bola de luz continuava a aumentar de tamanho. Um minuto depois ela parou, uns trinta metros à frente deles e uns vinte metros acima de suas cabeças. Richard e Nicole desligaram as lanternas, pois agora podiam ver bem o terreno em volta numa extensão de cem metros.

Richard tapou parcialmente os olhos e tentou identificar a fonte de iluminação, mas a luz era tão brilhante que não dava para olhar diretamente para ela.

— O que quer que isso seja — falou Nicole quando recomeçaram a caminhar —, parece que sabe para onde nós devemos ir.

Duas horas mais tarde, Richard e Nicole encontraram um caminho que levava para sudoeste, com campos cultivados dos dois lados da estrada. Quando interromperam a viagem para almoçar, foram andar pelos campos e descobriram que um dos alimentos básicos vindos da cúpula, um legume com gosto semelhante à vagem mas parecendo uma abóbora amarela, era a principal plantação dali. Esse legume se alternava com fileiras de uma planta de um vermelho brilhante que eles nunca haviam visto. Richard puxou uma do chão e deixou-a cair imediatamente quando a esfera verde e rija que ficara debaixo do solo começou a enroscar-se no fundo do talo vermelho. Ao bater no chão, a criatura rolou uns centímetros até seu buraco original e enterrou a esfera verde no mesmo lugar.

Richard riu.

— Acho que vou ter de pensar duas vezes antes de fazer uma coisa assim.

— Olhe lá — falou Nicole um instante depois. — Não é um dos animais que construíram a escada?

Os dois desceram pelo caminho e atravessaram o campo para ver melhor.