A Revelação de Rama
Capítulo 12
Patrick voltou para o nível de onde viera em menos de quinze minutos. Depois de tomar um gole d'água do seu cantil, foi andando rapidamente pelo túnel até o museu. Enquanto caminhava, ia pensando no que iria dizer a todos.
Ele nem notou que a sala estava escura quando atravessou o portal. Mas, quando entrou e as luzes se acenderam, ficou um pouco desorientado. Não estou no lugar certo, pensou de início, devo ter seguido pelo túnel errado. Não, continuou a pensar, dando uma rápida olhada pela sala. A sala deve ser esta. Estou vendo umas penas ali no canto, e as fraldas de Nikki...
A cada segundo que se passava seu coração batia mais forte. Onde estarão eles?, dizia Patrick para si mesmo, vasculhando a sala com os olhos, desesperado. O que pode ter acontecido com eles? Quanto mais olhava as paredes vazias, lembrando-se de tudo o que haviam conversado antes da partida dos cinco, mais Patrick percebia que sua irmã e seus amigos não poderiam ter saído dali por vontade própria. Senão teriam deixado um bilhete! E Patrick ficou procurando em cada cantinho da sala, mas não encontrou bilhete algum. Então alguém, ou alguma coisa, deve tê-los forçado a sair, pensou.
Patrick tentou refletir com clareza, mas não conseguiu. Seu pensamento mudava de uma coisa para outra, entre o que deveria fazer e as terríveis imagens do que poderia ter acontecido. Aos poucos, concluiu que talvez eles tivessem voltado para a primeira sala, aquela que sua mãe e Richard chamavam de galeria de fotos, talvez porque as luzes do museu não estivessem funcionando bem ou por alguma outra razão. Animado por essa idéia, saiu correndo pelo túnel.
Chegou à galeria de fotos três minutos depois. A galeria também estava vazia, e ele sentou-se encostado na parede. Havia apenas duas direções que seus companheiros poderiam ter seguido. Como Patrick não vira ninguém ao subir pelas estacas, eles deveriam ter ido para a sala da catedral e para a saída trancada. Enquanto descia pelo longo corredor, com a mão apertando seu rifle, ele foi se convencendo de que as tropas de Nakamura não tinham saído da ilha, e que eles tinham conseguido de alguma forma invadir a toca e capturar todo mundo.
Logo antes de entrar na sala da catedral, Patrick ouviu Nikki gritando — "Mamãe, mamãe!" —, e depois um chorinho triste. Patrick entrou no salão como uma bala e, não vendo ninguém, subiu a rampa, na direção do grito da sobrinha.
Ao chegar perto da saída trancada, viu uma cena caótica. Nikki chorava sem parar, e Robert Turner andava em círculo, como um louco, com os braços estirados e os olhos virados para cima, dizendo sem parar: "Não, meu Deus, não!" . Benjy soluçava num canto e Nai tentava confortar os gêmeos, sem muito sucesso.
Quando viu Patrick, Nai deu um pulo e correu para ele.
— Oh, Patrick — falou, com as lágrimas escorrendo pelo rosto. — Ellie foi levada pelas octoaranhas.
12
Patrick levou várias horas para conseguir montar uma história coerente a respeito do que tinha acontecido depois que seu grupo de exploração partira da sala do museu. Nai ainda estava em estado de choque, Robert não conseguia falar mais do que um minuto sem cair no choro, e as crianças e Benjy interrompiam com freqüência, dizendo coisas sem sentido. De início, Patrick só conseguiu saber que as octoaranhas tinham entrado, levado Ellie e também as aves, os melões-maná e o material séssil. Mais tarde, depois de muito perguntar, compreendeu melhor como a coisa havia se passado.
Aparentemente, cerca de uma hora depois da partida dos exploradores, mais ou menos na hora em que Richard, Patrick e os outros estavam na plataforma do metrô, os humanos que tinham ficado na sala do museu ouviram o ruído de escovas arrastadas do lado de fora da porta. Quando Ellie foi investigar e viu as octoaranhas aproximando-se nas duas direções, voltou para a sala e tentou acalmar Benjy e as crianças.
Quando a primeira octoaranha apareceu no portal, os humanos se afastaram o máximo possível, abrindo caminho para as nove ou dez criaturas passarem. No começo elas ficaram em grupo, mexendo as cabeças brilhantes de onde saíam as mensagens coloridas com as quais se comunicavam. Depois de um instante, uma delas deu um passo à frente, apontou diretamente para Ellie, tirando do chão um dos tentáculos pretos e dourados, e expôs uma longa seqüência de cores, que foi rapidamente repetida. Ellie achou (segundo Nai, mas Robert insistia em dizer que Ellie sabia o que a octoaranha dizia) que os alienígenas estavam pedindo os melões-maná e o material séssil. Foi apanhá-los no canto e entregou-os para a octoaranha-chefe, que pegou os objetos com três dos seus tentáculos ("uma cena inesquecível", exclamava Robert, "como elas usam aquelas coisas e os cílios que têm por baixo") e passou-os para suas subordinadas.
Ellie e os outros acharam que depois disso as octoaranhas sairiam, mas estavam muito enganados. A octo-chefe continuou a encarar Ellie e passou sua mensagem colorida. Outras duas octoaranhas começaram a mover-se lentamente na direção de Tammy e Timmy.
— Não! — gritou Ellie. — Não façam isso.
Mas era tarde demais. As duas octoaranhas enrolaram seus vários braços em torno dos filhotes de aves e os levaram embora, indiferentes aos seus guinchos. Galileu Watanabe saiu correndo e atacou a octoaranha que tinha três tentáculos em volta de Timmy, e ela simplesmente usou um quarto tentáculo para levantar o garoto do chão e passá-lo para uma de suas colegas. Galileu foi passado de mão em mão até ser colocado de volta no chão, no outro canto da sala. As invasoras deixaram Nai consolar seu filho.
Àquela altura, três a quatro octoaranhas, as aves, os melões e o material séssil já tinham desaparecido portal afora, mas ainda havia quatro octoaranhas na sala, que ficaram conversando entre si por uns dez minutos. E durante esse tempo, segundo Robert ("Eu não estava prestando muita atenção", dizia Nai. "Estava apavorada e preocupada com os meus filhos"), Ellie observava as mensagens coloridas das octoaranhas. A certa altura, Ellie levou Nikki para Robert e coloçou-a nos braços dele. "Acho que entendi alguma coisa do que elas disseram", falou Ellie (citação também de Robert), absolutamente lívida. "Elas querem me levar também."
Mais uma vez a octoaranha-chefe andou na direção deles e começou a falar através das cores, parecendo focalizar Ellie. O que aconteceu exatamente nos dez minutos seguintes foi motivo de discussão entre Nai e Robert, com Benjy em geral ficando do lado de Nai. A versão de Nai era de que Ellie tentara proteger todos que estavam na sala, fazer uma espécie de trato com as octoaranhas. Além de falar com elas, fazia vários gestos, para lhes dizer que iria com elas, se garantissem que as outras pessoas da sala poderiam sair da toca em segurança.
— Ellie foi explícita — insistia Nai. — Explicou que estávamos trancados e que não nos restava muita comida. Infelizmente as octoaranhas a pegaram antes que ela tivesse certeza de que seu trato seria cumprido.
— Você é muito ingênua, Nai — disse Robert, com o olhar confuso e sofrido. — Não compreende como essas criaturas são sinistras. Elas hipnotizaram Ellie. É verdade. Assim que elas chegaram, quando Ellie ficou olhando com atenção aquelas cores. Sei que ela estava fora de si. Toda aquela bobagem de garantir que todos sairiam em segurança foi um subterfúgio. Ela queria ir com as octoaranhas. Sua personalidade foi alterada ali, naquele lugar, com aquelas cores loucas. E ninguém notou isso, só eu.
Patrick deu um bom desconto à versão do marido de Ellie, pois ele estava enlouquecido. Mas Nai concordou com dois pontos dessa versão: Ellie não reagiu nem protestou quando a primeira octoaranha a envolveu, e antes de desaparecer da sala deixou instruções detalhadas para quem fosse ficar cuidando de Nikki.
— Como é que uma pessoa em seu juízo normal — disse Robert —, depois de ter sido agarrada por um alienígena, pode falar calmamente sobre o cobertor que sua filha segura quando está dormindo, dizer quando Nikki foi ao banheiro pela última vez, ou coisa parecida... É claro que Ellie estava hipnotizada ou drogada...
A explicação para o fato de todos estarem no patamar abaixo da saída trancada foi dada de modo relativamente coerente. Depois que as octoaranhas levaram Ellie, Benjy saiu correndo pelo corredor, gritando e atacando em vão as octoaranhas pelas costas. Robert foi ao seu encontro e os dois seguiram Ellie e o contingente alienígena até a sala da catedral. O portão estava aberto para o quarto túnel. Uma das octoaranhas barrou Benjy e Robert com quatro grandes tentáculos, e depois que as outras foram embora ela trancou o portão e se foi também.
A viagem no metrô foi hilariante para Max, que se lembrou de um passeio que fizera aos dez anos de idade a um grande parque de diversões perto de Little Rock. O trem corria pelo túnel acima de uma espécie de cinta de metal e não tocava em nada, o que levou Richard a imaginar que ele devia ser movido por magnetismo.
O trem parou depois de dois minutos e a porta abriu-se depressa. Os quatro exploradores viram uma plataforma vazia, de um branco lei toso, por trás da qual havia um arco de cerca de três metros de altura.
— Segundo o plano A, creio que Eponine e eu devemos descer aqui — disse Max.
— É verdade — falou Richard. — É claro que, se o metrô não continuar a viagem, Nicole e eu nos encontraremos com vocês daqui a pouco.
Max deu a mão a Eponine e desceu para a plataforma. Assim que saíram do vagão, a porta se fechou, e uns segundos depois o trem partiu em velocidade.
— Não é romântico? — perguntou Max, depois que eles deram adeus a Nicole e Richard. — Aqui estamos nós dois, finalmente sozinhos. — Colocou os braços em volta de Eponine e beijou-a. — Quero que você saiba, minha francesinha, que eu te amo. Não tenho idéia de onde estamos, mas seja onde for, estou contente de estar com você.
Eponine riu.
— Uma amiga minha do orfanato tinha a fantasia de ficar sozinha numa ilha deserta com um famoso ator francês chamado Marcel duBois, que tinha um peito colossal e braços como troncos de árvores. Eu me pergunto agora como ela teria se sentido num lugar como este. — Olhou em volta e continuou: — Acho que é melhor passarmos por baixo daquele arco.
Max deu de ombros.
— A menos que um coelho branco apareça e a gente caia numa espécie de buraco...
Do outro lado do arco havia uma grande sala retangular de paredes azuis, absolutamente vazia. A sala tinha uma única saída, que dava para um corredor estreito e iluminado, paralelo ao túnel do metrô. Todas as paredes desse corredor, que continuava nas duas direções, pelo menos até onde a vista de Max e Eponine alcançava, tinham o mesmo tom de azul da sala.
— Para que lado vamos? — perguntou Max.
— Nessa direção dá para ver duas portas se abrindo para fora do metrô — disse Eponine, apontando para a direita.
— E na outra direção há mais duas portas — falou Max, olhando para a esquerda. — Por que não vamos até a primeira porta, damos uma olhada e depois pensamos no que fazer?
De braços dados, eles andaram cinqüenta metros pelo corredor azul. Chegando à porta, ficaram desapontados ao verem outro corredor azul idêntico, de vários metros de extensão, com portas nas extremidades.
— Que merda — disse Max. — Isso aqui está parecendo uma espécie de labirinto... Se a gente bobear acaba se perdendo.
— Então o que acha que devemos fazer? — perguntou Eponine.
— Acho que... devemos fumar um cigarro e discutir o assunto. Eponine riu.
— Concordo plenamente com você — disse.
Os dois prosseguiram com muito cuidado. Cada vez que dobravam num novo corredor azul, Max fazia marcas na parede com o batom de Eponine, indicando todo o trajeto de volta para a sala por trás do arco. Ele também insistiu que Eponine, mais hábil no computador do que ele, registrasse o trajeto também no seu computador portátil.
— É para o caso de acontecer alguma coisa que retire as marcas que deixei — disse Max.
No início a aventura estava divertida, e nas duas primeiras vezes em que Max e Eponine tentaram voltar para o arco, para ver se conseguiam achar o caminho, tiveram uma certa sensação de realização. Mas depois de pouco mais de uma hora, quando a cada curva surgia mais um corredor azul, os dois começaram a desanimar. A certa altura pararam, sentaram-se no chão e fumaram outro cigarro.
— Por que uma criatura inteligente — disse Max soprando a fumaça no ar — criaria um lugar desses? Ou nós estamos, sem saber, passando por uma espécie de teste...
— Ou há alguma coisa aqui que eles não querem que seja encontrada facilmente — terminou Eponine, tirando o cigarro de Max e dando uma tragada. — Se for este o caso, deve haver um código simples definindo a localização dessa coisa especial, um código como o daquelas fechaduras antigas, segundo à direita, quarto à esquerda, e...
— Seguir em frente até de manhã — interrompeu Max, fazendo uma careta. Em seguida deu um beijo em Eponine e levantou-se. — Então é melhor assumirmos que estamos procurando uma coisa especial e organizar nossa busca de forma lógica.
Eponine ficou de pé e olhou para Max com a sobrancelha franzida.
— O que você quis dizer com esta última frase?
— Não estou certo — ele respondeu, com uma risada —, mas a frase pareceu muito inteligente.
Depois de andarem para cima e para baixo nos corredores azuis durante quase quatro horas, Max e Eponine perceberam que estavam com fome. Assim que começaram a comer a comida ramaiana, viram alguma coisa passar à sua esquerda, num cruzamento de corredores. Max deu um pulo e correu até o cruzamento. Ao chegar lá, notou que alguns segundos antes um veículo minúsculo, de uns dez centímetros de altura, tinha feito uma curva à direita do corredor seguinte. Max correu para a frente e chegou a ver o veículo desaparecer por baixo de um pequeno arco cortado na parede de outro corredor azul, a uns vinte metros de distância.
— Venha cá — gritou para Eponine. — Encontrei uma coisa.
Num segundo Eponine estava ao seu lado. A parede superior do pequeno arco na parede ficava a apenas uns vinte e cinco centímetros do chão, por isso os dois tiveram de ajoelhar-se e encolher-se um pouco mais para ver onde estava o veículo. A primeira coisa que viram foram cinqüenta a sessenta criaturas minúsculas, do tamanho de formigas, descendo do pequeno ônibus e espalhando-se em todas as direções.
— Que droga é aquilo lá? — exclamou Max.
— Olhe, Max — disse Eponine excitada. — Olhe com cuidado... Aquelas criaturazinhas são octoaranhas... Está vendo? São iguais àquela que você descreveu para mim.
— Macacos me mordam — disse Max. — Você tem razão... Devem ser bebês de octoaranhas.
— Acho que não — falou Eponine. — Bebês não entram assim naquelas colméias, ou casas, ou sei lá o quê... Olhe ali, estou vendo uma espécie de canal, e um barco...
— Onde está a máquina fotográfica? — gritou Max. — Vá lá pegar minha máquina... Há uma verdadeira cidade em miniatura aqui.
Eponine foi correndo buscar a máquina que eles tinham colocado no chão junto das mochilas, quando se sentaram para comer. Max continuou a olhar, fascinado, aquele complexo mundo em miniatura do outro lado do arco. Um minuto depois ele ouviu um grito abafado e sentiu um arrepio na espinha.
Seu idiota, pensou Max enquanto voltava para o lugar onde os dois tinham parado para comer. Nunca, nunca largue o rifle.
Max fez a última curva e parou abruptamente. Ali onde tinham parado para comer havia cinco octoaranhas, uma segurando Eponine com três tentáculos e outra segurando o rifle. Uma terceira apanhara a mochila de Eponine, onde ela guardava todos os seus artigos pessoais.
Eponine olhou para Max com horror e gritou:
— Por favor me ajude, Max...
Max deu um passo à frente mas foi barrado por duas octoaranhas. Uma delas enviou uma série de mensagens coloridas pela cabeça.
— Não compreendo o que vocês estão falando — gritou Max com raiva. — Mas soltem a moça.
Como se fosse um raio, Max passou pelas duas primeiras octos e estava quase alcançando Eponine quando sentiu os tentáculos apertando seu braços e seu peito. Por mais que esperneasse, foi tudo em vão. A criatura era inacreditavelmente forte.
Três octoaranhas, inclusive a que tinha capturado Eponine, começaram a se afastar pelo corredor azul.
— Max... Max... — gritou a moça em pânico. Mas ele não pôde fazer nada. A octoaranha que o segurava não se moveu, e depois de um instante não deu mais para ouvir os gritos de Eponine.
Max ficou enlaçado ali durante uns dez minutos, até sentir os poderosos músculos que o prendiam se soltarem aos poucos.
— E agora? — disse, ao se ver livre. — O que mais vocês vão fazer?
Uma das octoaranhas apontou para a mochila dele, que ainda estava encostada na parede. Max abaixou-se e tirou um pouco de água e de comida. As octoaranhas conversaram em cores entre si enquanto Max, que sabia muito bem que estava sendo vigiado, dava umas dentadas na comida.
Esses corredores são muito estreitos, pensou ele, considerando como poderia fugir. E essas criaturas são muito grandes, especialmente com os seus tentáculos. Acho que vou ter de esperar para ver o que acontece.
As duas octoaranhas não se moveram durante horas, e a certa altura Max caiu no sono entre elas.
Quando Max acordou estava sozinho. Andou com cuidado até a primeira esquina, olhou dos dois lados do corredor azul, mas não viu nada. Depois de estudar durante um minuto as marcas de batom na parede, e fazer mais uns rabiscos descrevendo o lugar da cidade das octoaranhas minúsculas, voltou para a sala atrás da plataforma do metrô.
Max não sabia ao certo o que fazer. Passou vários minutos andando pelos corredores azuis e de quando em vez gritando o nome de Eponine, mas tudo em vão. Então decidiu sentar-se na plataforma e esperar o metrô. Depois de mais de uma hora, quando estava disposto a voltar para a cidade em miniatura, ouviu o trem se aproximando. Vinha na direção oposta aos corredores de estacas verticais.
Quando o trem foi chegando, Max viu pela janela Richard e Nicole.
— Max! — gritaram eles ao mesmo tempo, antes que a porta se abrisse. Os dois estavam extremamente agitados.
— Nós encontramos — dizia Richard, saindo para a plataforma. — Uma sala gigantesca, com uma cúpula de uns quarenta metros de altura, com as cores do arco-íris... Fica do outro lado do mar Cilíndrico; o trem do metrô atravessa o mar em um túnel transparente... — Richard fez uma pausa enquanto o trem se afastava.
— A sala tem banheiros, camas e água corrente — acrescentou Nicole rapidamente.
— E comida fresca, acredite se quiser... umas frutas e verduras esquisitas, mas que servem muito bem para todos...
— Onde está Eponine? — perguntou Nicole de repente, interrompendo Richard no meio da frase.
— Ela foi embora — falou Max laconicamente.
— Embora? — disse Richard. — Mas como... para onde?
— Suas amigas não-hostis a levaram — falou Max secamente.
— O quê? — exclamou Richard.
Max contou a história devagar e com detalhes, sem omitir nada de importante, e Richard e Nicole ouviram com atenção até ele terminar.
— Elas passaram a perna na gente — comentou Richard no final, sacudindo a cabeça.
— Na gente não, em mim — falou Max enraivecido. — Elas fizeram com que Ep e eu pensássemos que estávamos resolvendo uma espécie de quebra-cabeça naquele labirinto de corredores azuis... Merda! Que merda!
— Não se culpe assim — disse Nicole com carinho, tocando no ombro de Max. — Você não podia saber...
— Mas que estupidez colossal — falou Max, elevando a voz. — Eu trago um rifle para me proteger, e onde está esse rifle quando nossas amigas de oito patas aparecem? Encostado naquela parede de merda...
— Nós estivemos no começo em um lugar semelhante — disse Richard —, só que todos os nossos corredores eram vermelhos, e não azuis. Nicole e eu exploramos alguns durante uma hora e depois voltamos para a plataforma. O trem do metrô nos apanhou dez minutos depois e atravessou o mar Cilíndrico.
— Você chegou a procurar Eponine? — perguntou Nicole. Max fez que sim.
— Mais ou menos. Fiquei andando e gritando o nome dela por aí.
— Talvez fosse bom a gente gritar de novo — sugeriu Nicole.
Os três amigos voltaram para o mundo dos corredores azuis. Quando saíram no primeiro cruzamento, Max explicou as marcas de batom na parede.
— Acho que seria melhor nos separarmos — disse Max. — Provavelmente seria uma forma mais eficiente de encontrar Eponine... Por que não nos encontramos na sala atrás do arco daqui a, digamos, uma meia hora?
Na segunda esquina, Max, que agora estava sozinho, não encontrou o mapa de batom. Intrigado, tentou lembrar se tinha feito um mapa em cada curva, ou se nunca tinha passado por ali... Enquanto pensava, sentiu uma mão em seu ombro e quase morreu de susto.
— Epa! — disse Richard, vendo o ar assustado do amigo. — Sou eu... Você não me ouviu chamar seu nome?
— Não — disse Max sacudindo a cabeça.
— Eu estava a apenas dois corredores de distância... Deve haver uma fantástica redução acústica neste lugar... Bom, nem Nicole nem eu encontramos nenhum dos seus mapas quando fizemos a segunda curva. Por isso não tínhamos certeza...
— Que merda! — falou Max. — Aquelas imbecis espertas limparam as paredes... Está vendo? Elas planejaram tudo isso desde o começo, e nós fizemos exatamente o que elas queriam.
— Mas, Max — falou Richard —, elas não podiam prever com tantos detalhes tudo que íamos fazer. Nem nós tínhamos um plano completo. Então como elas podiam...
— Não posso explicar — disse Max. — Mas senti isso. Aquelas criaturas esperaram deliberadamente para nos mostrar aquele veículo quando eu e Eponine paramos para comer. Elas sabiam que nós iríamos atrás dele e que teriam chance de agarrar Eponine... De certa forma estavam nos vigiando todo o tempo...
Até mesmo Max concordou que não fazia sentido procurar mais por Eponine naquele labirinto de corredores azuis.
— É claro que ela não está mais aqui — disse ele, com objetividade.
Enquanto o trio esperava o trem na plataforma, Richard e Nicole contaram para Max mais detalhes do salão com a cúpula de arco-íris do lado sul do mar Cilíndrico.
— O.K. — disse Max quando eles terminaram —, uma ligação é bem clara, até mesmo para este fazendeiro de Arkansas. O arco-íris da cúpula está obviamente ligado ao arco-íris do céu que distraiu as tropas de Nakamura. Então esse pessoal do arco-íris, sejam eles quem forem, não quer que a gente seja capturado nem morra de fome... Foram provavelmente eles que construíram o metrô; pelo menos isso faz mais sentido para mim. Mas qual é a ligação entre o pessoal do arco-íris e as octoaranhas?
— Antes de você nos contar que Eponine tinha sido raptada — falou Richard —, eu estava quase certo de que eles eram uma entidade só. Agora já não sei. O que você passou só pode ser interpretado como um ato hostil.
Max riu.
— Richard, você é muito jeitoso com as palavras. Por que continua a ter dúvidas sobre aquelas cretinas horrorosas? Eu poderia esperar isso de Nicole, mas de você! Essas octoaranhas já o prenderam durante meses, mandaram umas criaturazinhas subirem pelo seu nariz e provavelmente mexeram no seu cérebro...
— Não temos certeza disso — disse Richard com calma.
— Tudo bem — falou Max. — Mas acho que você está se esquecendo de muitas evidências...
Max parou quando ouviu o ruído familiar. O trem chegou, com a frente voltada na direção da toca das octoaranhas.
— Então me diga — disse Max com um ar sarcástico, logo antes de embarcarem —, por que este trem sempre segue na direção certa?
Patrick tinha conseguido convencer Robert e Nai a voltar para a sala do museu, mas com grande dificuldade. Os dois adultos e as crianças estavam muito traumatizados com o ataque das octoaranhas. Robert não conseguia dormir, e os gêmeos eram atormentados por sonhos que os faziam acordar aos gritos. Quando Richard, Nicole e Max apareceram, a comida quase tinha acabado e Patrick já estava começando a fazer planos de racionamento.
Foi uma reunião tensa. Os dois raptos foram discutidos à exaustão, deixando os adultos e até mesmo Nicole muito deprimidos. Ninguém se entusiasmou muito com a notícia da cúpula de arco-íris do sul. Mas não havia dúvida do que eles teriam de fazer. Richard fez um resumo da situação.
— Pelo menos lá debaixo da cúpula teremos comida — disse.
Eles juntaram todos os seus pertences em silêncio. Patrick e Max carregaram as crianças pelo corredor vertical de estacas. Logo depois que todos estavam na plataforma chegou o trem do metrô, que não parou em nenhuma das duas estações intermediárias. Como Max previra, ele continuou pelo túnel transparente através do mar Cilíndrico. Estranhas e maravilhosas criaturas marinhas do lado de fora da parede do túnel, muito provavelmente biotas, fascinaram as crianças e fizeram Richard lembrar-se da sua viagem a Nova York, anos antes, quando foi procurar Nicole.
O amplo salão debaixo da cúpula na outra extremidade da linha do metrô era verdadeiramente espantoso. No início, Benjy e as crianças se interessaram mais pela variedade de comidas novas espalhadas sobre uma mesa comprida em um lado da sala, mas os adultos estavam pasmos. Olhavam não só as brilhantes cores do arco-íris acima de suas cabeças, mas também examinavam as alcovas do fundo da plataforma, onde se localizavam os banheiros e as suítes individuais.
Max calculou as dimensões do andar principal: cinqüenta metros de lado a lado, no seu ponto mais largo, e quarenta metros da ponta da plataforma do metrô até as paredes brancas e as entradas para as alcovas na parte de trás do salão. Patrick foi conversar com Max, que estava de pé ao lado da fenda cortada na plataforma para o metrô, enquanto os outros escolhiam suas suítes.
— Sinto muito sobre Eponine — falou Patrick, pondo a mão no ombro do amigo.
Max deu de ombros.
— De certa forma o desaparecimento de Ellie foi pior. Eu não sei se Robert ou Nikki vão conseguir superar isso completamente.
Os dois homens ficaram lado a lado, olhando o túnel longo, escuro e vazio.
— Sabe, Patrick? — falou Max com tristeza. — Eu gostaria de convencer o fazendeiro que existe em mim de que nossos problemas terminaram e que o pessoal do arco-íris tomará conta de nós.
Kepler chegou correndo, segurando um legume comprido parecendo uma cenoura verde.
— Sr. Puckett, o senhor precisa provar isso. É uma delícia.
Max aceitou o presente do meninozinho, enfiou o legume na boca e deu uma dentada.
— É bom mesmo, Kepler — disse ele, fazendo um carinho na cabeça dele. — Muito obrigado.
Kepler voltou correndo para onde estavam os outros, e Max ficou chupando o legume devagar.
— Sempre cuidei muito bem dos meus porcos e das minhas galinhas — disse a Patrick. — Eles tinham bastante comida e uma boa condição de vida. — Max mostrou com a mão direita a cúpula e a mesa cheia de comida. — Mas eu também retirava os animais, alguns de cada vez, quando chegava a hora de matá-los ou vendê-los no mercado.