A Revelação de Rama
Capítulo 6
Os filmes na cabeça de Nicole logo tornaram-se completamente diferentes. Agora ela via cenas que acreditava serem do planeta natal dos sésseis. Lembrou-se de que Richard lhe descrevera essas imagens quando eles se encontraram, depois que ela fugira do Novo Éden.
Nicole tinha colocado sua mão direita perto do painel de controle da cadeira de rodas ao entrar na teia. Quando ela apertou o botão de ligar, o ligeiro movimento da cadeira foi registrado pelo séssil. As imagens pararam no mesmo instante, e os fios da criatura foram retirados em seguida.
6
No dia seguinte, uma hora antes de iniciar-se o período de almoço, parte de uma parede em cada apartamento da Estrela do Mar transformou-se numa grande tela de televisão, e os residentes foram informados de que uma importante declaração seria feita nos próximos trinta minutos.
— Essa é a terceira vez que eles fazem uma transmissão geral — disse Max para Nicole. — A primeira vez foi logo que chegamos aqui; a segunda, quando decidiram segregar nossas áreas de moradia.
— O que vai acontecer agora? — perguntou Marius.
— Suponho que vamos saber dos detalhes da nossa mudança — respon-deu Max. — Pelo menos este é o boato que corre por aí.
Na hora marcada, o rosto da Águia apareceu no monitor.
— No ano passado, quando todos vocês acordaram e foram transferidos de Rama — falou a Águia, transmitindo ao mesmo tempo a mensagem em faixas coloridas que se moviam sobre sua testa —, nós lhes dissemos que este veículo não seria uma moradia definitiva. Agora, estamos prontos para transferi-los para outros locais, onde a qualidade de vida será muito melhor.
A Águia fez uma pausa e continuou:
— Nem todos serão transferidos para o mesmo local. Cerca de um terço dos residentes da Estrela do Mar passará para o transportador, aquela nave espacial imensa e chata que está estacionada em Nodo desde a semana passada. Nas próximas horas, o transportador terminará o que tem a fazer em Nodo e virá para cá. Os que foram selecionados para o transportador serão transferidos hoje à noite.
— Os outros se mudarão para Nodo dentro de três a quatro dias. Ninguém ficará aqui na Estrela do Mar... Eu gostaria de repetir que as acomodações desses dois locais são excelentes, muito superiores às que temos aqui neste veículo.
A Águia parou de falar durante quinze segundos, como se estivesse dando tempo para a platéia reagir ao que fora dito.
— Quando esta comunicação terminar, todas as telas de televisão dos apartamentos transmitirão repetidamente a lista de todas as criaturas a bordo, pela ordem do número dos apartamentos, com as devidas indicações para as transferências. As indicações são muito simples. Se seu nome ou código de identificação aparecer no monitor em letra preta contra um fundo branco, você será transferido para o transportador. Se seu nome vier escrito em letra branca contra um fundo preto, você ficará aqui nos próximos dias até ser transferido para Nodo. Para sua informação, no transportador cada espécie terá sua própria área residencial separada. Não haverá intercâmbio de espécies, a não ser nos arranjos simbióticos necessários, é claro. Ao contrário...
— Isso vai agradar aos líderes do Conselho — comentou Max. — Eles vêm tentando há meses uma segregação total...
—... em Nodo haverá regularmente comunicação e atividades entre as espécies... Ao selecionarmos os indivíduos para esses dois locais, procuramos colocar cada um no ambiente mais adequado à sua personalidade. Nossas seleções foram feitas com muito critério, baseadas nas nossas observações aqui, na Estrela do Mar e em Rama... É importante que vocês saibam que não haverá intercâmbio entre os dois grupos depois que as transferências tiverem lugar. Em outras palavras, para que não haja mal-entendidos, aqueles que se mudarem para o transportador hoje à noite nunca mais verão nenhum dos residentes que serão transferidos para Nodo. Quem foi selecionado para o transportador — continuou a Águia — deve começar a arrumar suas coisas imediatamente, de modo a estar com tudo pronto para se mudar antes da hora do jantar. Quem foi indicado para Nodo e acha que sua indicação não foi adequada, pode solicitar uma reconsideração do seu caso. Hoje à noite, depois que todos os residentes designados para o transportador tiverem sido transferidos, vou me encontrar na lanchonete com aqueles que desejarem trocar de Nodo para o transportador... Se algum de vocês tiver alguma dúvida, estarei durante uma hora na mesa grande do saguão...
— O que a Águia falou para você? — perguntou Max a Nicole.
— A mesma coisa que falou para as outras vinte pessoas do saguão que fizeram a mesma pergunta — respondeu Nicole. — Quem foi designado para o transportador não terá possibilidade de mudar... Só serão reconsiderados os casos de quem foi indicado para Nodo.
— Foi ao saber disso que Nai... desabou? — perguntou Eponine.
— Foi — respondeu Nicole. — Até aquela hora ela estava se contendo. Quando veio ao nosso apartamento, depois que a lista foi transmitida pela primeira vez, achei que ela estava calma demais... Certamente convencera-se de início que havia algum erro na indicação de Galileu.
— Posso compreender como ela está se sentindo — disse Eponine. — Eu estava aflitíssima antes de ver que todos nós ficamos juntos na lista de transfe-rência para Nodo.
— Aposto que Nai não é a única que está sofrendo com essas seleções — disse Max, levantando-se e andando pelo quarto. — Isso é realmente uma arbitrariedade. O que teríamos feito se Marius tivesse sido indicado para o transportador?
— Muito fácil — respondeu Eponine imediatamente. — Nós dois teríamos nos candidatado a ir com o nosso filho.
— É — ele falou, depois de uma pausa. — Acho que você tem razão.
— É isso o que Patrick e Nai estão discutindo no apartamento ao lado — falou Nicole. — Eles pediram que a rapaziada saísse para poderem conversar a sós.
— Você acha que Nai vai agüentar mais esse problema, logo depois do... incidente? — perguntou Eponine.
— Ela não tem escolha — disse Max. — Eles só têm mais pouco mais de duas horas para tomar uma decisão.
— Nai parecia muito melhor há uns vinte minutos — falou Nicole. — O sedativo que tomou era leve mas logo fez efeito... Patrick e Kepler foram muito carinhosos com ela... Acho que Nai assustou-se mais com a sua própria reação.
— Ela atacou mesmo a Águia? — perguntou Eponine.
— Não. Um dos cabeças de bloco segurou-a logo que ela gritou — respondeu Nicole. — Mas ela estava descontrolada... poderia ter feito alguma coisa.
— Merda — disse Max. — Se você tivesse dito, quando morávamos na Cidade de Esmeralda, que Nai poderia ficar violenta, eu lhe responderia...
— Quem nunca teve um filho — interrompeu Nicole — não pode compreender os fortes sentimentos de uma mãe quando seus filhos estão em jogo. Nai está zangada há meses... Eu não posso apoiar a reação dela, mas posso compreender...
Nicole parou quando bateram na porta, e Patrick entrou. Seu rosto de-notava ansiedade.
— Mãe — disse ele —, preciso falar com você.
— Eponine e eu vamos para o corredor — falou Max. — Se vocês acharem melhor...
— Obrigado, Max... Eu prefiro mesmo que vocês saiam — falou Patrick com dificuldade. Nicole nunca o vira tão preocupado.
— Não sei o que fazer — disse ele, assim que os dois ficaram a sós. — Tudo está acontecendo muito depressa... Acho que Nai não está sendo racional, mas não consigo... — Sua voz tremeu. — Mãe, ela quer que todos nós solicitemos uma reconsideração. Todos. Você, eu, Kepler, Maria, Max... Todos nós... Senão ela acha que Galileu vai se sentir abandonado.
Nicole olhou para o filho e viu que ele estava prestes a chorar. Ele ainda não viveu o suficiente para lidar com uma crise dessas, pensou ela rapidamente. Só viveu acordado pouco mais de dez anos.
— O que Nai está fazendo agora? — perguntou Nicole de forma carinhosa.
— Está meditando... — respondeu Patrick. — Ela disse que isso lhe dá calma e cura a sua alma... E lhe dá força...
— E ela quer que você convença a nós todos?
— Acho que sim... Mas, mãe, Nai nem considerou que talvez alguém não concorde com essa proposta. Ela acredita que o que todos nós devemos fazer é absolutamente claro.
O sofrimento de Patrick era evidente. Nicole teve vontade de chegar perto dele, de tocá-lo e expulsar sua agonia.
— O que você acha que devemos fazer? — perguntou Nicole depois de algum tempo.
— Não sei — respondeu Patrick, andando pelo quarto. — Como todos os outros, assim que a lista saiu eu notei que todos os membros ativos do Conselho foram transferidos para o transportador, e também a maioria dos humanos que tinham sido transferidos dos apartamentos comuns. As pessoas de que gostamos e que respeitamos, assim como todas as octoaranhas, estão indo para Nodo... Mas eu compreendo Nai. Ela não consegue imaginar Galileu isolado, desligado para sempre do único sistema de apoio que ele conheceu na vida...
O que você faria, falou uma voz dentro de Nicole, se fosse Nai? Você não entrou em pânico hoje de manhã, quando achou que talvez pudesse ser separada de Benjy?
— ... Você pode ir lá, mãe, assim que ela acabar de meditar? — pediu Patrick. — Ela ouvirá você. Nai sempre disse que respeita sua sabedoria.
— E você quer que eu lhe diga alguma coisa em especial? — perguntou Nicole.
— Diga que... — falou Patrick, torcendo as mãos — diga que não cabe a ela decidir o que é melhor para todos do nosso grupo. Ela devia concentrar-se na sua própria decisão.
— Este é um bom conselho — falou Nicole. — Agora me diga, Patrick — perguntou ela um instante depois —, você já decidiu o que vai fazer se Nai resolver optar pelo transportador e nenhum de nós a seguir?
— Já, mãe — falou Patrick, tranqüilo. — Eu irei com Nai e Galileu.
Nicole estacionou sua cadeira de rodas em um canto em frente à janela de observação. Ela estava sozinha, a seu próprio pedido. A tarde tinha sido tão carregada de emoções que estava absolutamente exausta. No início, pensara que seu encontro com Nai tinha sido bom. Nai ouvira com atenção o seu conselho, sem muitos comentários. Por essa razão, Nicole ficou abismada quando, uma hora depois, fervendo de raiva, Nai foi tomar satisfação com Max, Eponine, Ellie e com ela.
— Patrick me disse que nenhum de vocês irá comigo — falou Nai. — Foi essa a recompensa que tive pela minha permanente dedicação todos esses anos... Tirei meus filhos da casa deles por lealdade a vocês, meus amigos... Privei Galileu e Kepler de uma infância normal por causa do meu respeito e da minha admiração por você, Nicole, meu modelo de mulher... E agora, quando peço pela primeira vez um favor...
— Você está sendo injusta, Nai — disse Ellie com carinho. — Nós todos te amamos e estamos muito aflitos com tudo isso... Nós gostaríamos de ir com você e Galileu se achássemos...
— Ellie, Ellie — disse Nai, caindo de joelhos ao lado da amiga e desatando a chorar. — Você se esqueceu de todas as horas que passei com Benjy em Avalon?... Tenho de admitir que foi por minha livre e espontânea vontade, mas será que eu teria me dedicado tanto a Benjy se ele não fosse seu irmão e você não fosse minha melhor amiga?... Eu te amo, Ellie... Preciso do seu apoio... Por favor, por favor, venham conosco. Você e Nikki, pelo menos...
Ellie também chorava. Até esse encontro terminar, ninguém ficou com os olhos secos no quarto. No final, Nai desculpou-se com todos.
Nicole respirou fundo e olhou pela janela. Sabia que precisava de uma pausa naquele tumulto emocional. Duas vezes durante a tarde sentira dor no peito. Nem mesmo todas aquelas sondas mágicas, pensou, poderão me proteger se eu não me cuidar.
O imenso transportador estava estacionado a apenas umas centenas de metros dali. Era uma espantosa construção de engenharia, muito maior do que parecia quando estava perto de Nodo. Como a nave espacial estava estacionada de lado, só uma parte dela podia ser vista da janela. Seu topo era constituído de uma superfície plana longa e chata, interrompida apenas por pequenos equipamentos espalhados e cúpulas transparentes, ou bolhas, como eram chamadas originariamente, localizadas de forma ordenada por todo o comprimento e a largura da superfície. Algumas cúpulas eram bastante altas. Uma, diretamente em frente à janela, elevava-se a uns duzentos metros. Outras eram muito pequenas. Partes de onze bolhas transparentes eram visíveis da janela. Quando o transportador se aproximou, no início da tarde, e a nave inteira pôde ser vista, foram contadas ao todo setenta e oito cúpulas.
A parte inferior do transportador era de um cinza-metálico. Estendia-se por cerca de um quilômetro abaixo da superfície plana, com ligeiras elevações laterais e o fundo arredondado. A distância, a parte de baixo parecia insignificante comparada à vasta superfície plana, que tinha pelo menos quarenta quilômetros de comprimento e quinze de largura. Porém, de perto, ficava claro que um enorme volume estava contido dentro daquela estrutura opaca.
Enquanto Nicole olhava fascinada, uma pequena reentrância do lado do exterior cinza, logo abaixo da superfície, expandiu-se e transformou-se num tubo redondo movendo-se para fora do transportador. O tubo chegou bem perto da Estrela do Mar e então, depois de umas pequenas correções do vernier, fixou-se na câmara de compressão principal.
Nicole sorriu. Mais um dia inacreditável, pensou, da minha espantosa existência. Mudou de posição na cadeira e sentiu um pouco de dor no quadril. Eu gostaria de poder fazer alguma coisa por Nai, disse para si mesma. Mas fazer com que todos se sacrifiquem por Galileu não é a solução certa.
Nicole sentiu alguém tocando no seu braço. Era o dr. Azul.
— Como está se sentindo? — perguntou em cores a octoaranha.
— Agora estou melhor — respondeu ela. — Mas tive momentos difíceis hoje à tarde.
Dr. Azul examinou Nicole com o aparelho de monitoração.
— Tive pelo menos duas grandes irregularidades — disse Nicole ao mé-dico. — E lembro-me bem delas.
O médico octoaranha estudou as cores que apareceram no pequeno monitor.
— Por que não me chamou? — perguntou.
— Pensei nisso, mas estava acontecendo tanta coisa... E achei que você devia estar ocupado com seus próprios...
Dr. Azul passou para Nicole um pequeno frasco com um líquido azul claro.
— Beba isto. Vai limitar sua resposta cardíaca ao estresse emocional nas próximas doze horas.
— E nós vamos continuar juntos, o senhor e eu, depois que o transpor-tador partir?... Não olhei a sua parte da lista com muito cuidado.
— Vamos sim — respondeu a octoaranha. — Oitenta e cinco por cento dos da nossa espécie serão transferidos para Nodo. Mais de metade das octoaranhas que vão para o transportador é alternativa.
— Então, meu amigo — disse Nicole depois de beber o líquido —, o que vocês acham que significa essa transferência?
— Nós achamos que toda essa experiência chegou a uma encruzilhada significativa, e que os dois grupos se envolverão em atividades radicalmente diferentes.
Nicole riu.
— Isso não é muito específico — disse.
— Não, não é — respondeu a octoaranha.
Havia oitenta e dois humanos e nove octoaranhas na lanchonete quando a Águia começou a reunião de reconsideração, cinco minutos depois de o último residente da Estrela do Mar designado para o transportador ter partido através da câmara de compressão. Só aqueles que tinham solicitado oficialmente uma reconsideração tiveram permissão de participar da reunião. Muitos outros membros de todas as espécies ainda estavam no terraço de observação e nas áreas comuns, conversando sobre a partida e esperando para saber o resultado da reunião com a Águia.
Nicole tinha voltado para seu posto na janela de observação. Estava na cadeira de rodas, olhando para o transportador e refletindo sobre as cenas que presenciara na última hora. Quase todos os humanos tinham partido contentes, felizes por não terem mais de conviver com os alienígenas. Houve algumas despedidas tristes na porta da câmara de compressão, mas, surpreendentemente, foram poucas.
Galileu teve permissão de passar dez minutos com a família e os amigos na área comum. Patrick e Nai garantiram ao rapaz, que demonstrava muito pouca emoção, que eles e seu irmão Kepler, que ainda estava arrumando suas coisas, iriam encontrar-se com ele no transportador antes do final da noite.
Galileu foi o último humano a sair da Estrela do Mar, seguido de um pequeno contingente de aves e myrmigatos. O material rede-neural e os restantes melões-manás tinham sido acondicionados em grandes engradados e carregados por um grupo de robôs-blocos. Provavelmente nunca os verei de novo, pensou Nicole quando a última ave virou-se e deu um guincho de adeus aos espectadores.
— Todos vocês — começou a Águia na reunião da lanchonete — solici-taram que sua designação seja reconsiderada, para que possam trocar seu futuro lar de Nodo pelo transportador... Agora explicarei mais duas diferenças entre os tipos de vida no transportador e em Nodo. Depois de pesarem essas informações, se vocês ainda desejarem mudar sua designação, serão atendidos... Como eu já disse hoje à tarde, não haverá intercâmbio entre espécies diferentes no transportador. Não só cada espécie ficará isolada no seu próprio habitat como não haverá nenhum tipo de interferência por parte de outra inteligência, nem mesmo a que eu represento, nos problemas de cada espécie. Nem agora, nem nunca. Cada espécie do transportador ficará por conta própria. Em Nodo, ao contrário, onde haverá intercâmbio das espécies, a vida será supervisionada. Não tanto quanto aqui na Estrela do Mar, mas será. Acreditamos que supervisão e monitoração são essenciais quando espécies diferentes vivem juntas... A segunda diferença talvez seja a mais importante. Não haverá reprodução no transportador. Todos os indivíduos que habitarem o transportador, de qualquer espécie, ficarão estéreis para sempre. Todos os elementos necessários a uma vida longa e feliz serão fornecidos aos que forem viver no transportador, mas ninguém poderá reproduzir. Em contraste, não haverá restrições à reprodução em Nodo... Por favor, deixem-me terminar — disse a Águia, quando vários membros da platéia tentaram fazer perguntas. — Vocês têm mais duas horas para decidir... Se ainda quiserem transferir-se para o transportador, simplesmente tragam suas bagagens e peçam que o Grande Bloco abra a câmara de compressão...