A Revelação de Rama
Capítulo 7
— É possível — disse Richard. — Mas lembre-se de que pretensões extraordinárias exigem...
— ...provas extraordinárias. Eu sei disso — falou Nicole, fazendo uma pausa por um instante. — Gostaria de saber o que é o destino. Será uma coisa que nós humanos criamos em vista de um fato? Ou o destino é real? E se o destino existe como conceito, como pode ser explicado pelas leis da física?
— Não estou te entendendo, querida — disse Richard.
— Isso tudo é confuso para mim também — falou Nicole. — Eu sou o que sou porque, como Omeh insistia em dizer quando eu era uma garotinha, era meu destino viajar no espaço? Ou eu sou o que sou em função das escolhas que fiz pessoalmente e dos conhecimentos que desenvolvi conscientemente?
Richard riu novamente.
— Agora você está se avizinhando dos enigmas filosóficos fundamentais, o debate entre a onisciência de Deus e o livre-arbítrio do homem.
— Não foi essa a minha intenção — falou Nicole pensativa. — Só não consigo tirar da cabeça a idéia de que nada do que aconteceu na minha vida absolutamente incrível seria surpresa para Omeh.
7
O café da manhã de despedida foi uma festa. As octoaranhas enviaram mais de uma dúzia de diferentes frutas e legumes, e também um cereal quente, feito, segundo Archie e Ellie, com as gramas muito altas plantadas ao norte da usina elétrica. Enquanto eles comiam, Richard perguntou à octoaranha o que tinha acontecido com os filhotes de aves Tammy e Timmy, os melões-maná e o material séssil. Ele não ficou satisfeito com a resposta um tanto vaga de que todas as outras espécies estavam bem.
— Olhe aqui, Archie — disse Richard com seu modo ríspido característico. Ele agora se sentia à vontade com seu hospedeiro alienígena e achava que não tinha mais de ser gentil o tempo todo. — Tenho mais do que um interesse passageiro por aquelas aves. Eu as salvei e criei desde que elas nasceram, e gostaria de vê-las nem que fosse por um instante... De qualquer forma, acho que mereço uma resposta mais clara à minha pergunta.
Archie levantou-se, saiu pela porta da suíte e voltou uns minutos depois.
— Você vai poder ver as aves pessoalmente hoje à tarde, na nossa viagem de volta — disse ele. — Quanto às outras espécies, dois ovos acabaram de ser germinados e são agora filhotes de myrmigatos. O desenvolvimento deles está sendo monitorado de perto do outro lado do nosso território e você não vai poder visitá-los.
Os olhos de Richard brilharam.
— Dois deles germinaram! Como vocês conseguiram isso?
— Os ovos da espécie séssil devem ser colocados em um líquido termicamente controlado durante um mês do tempo dos humanos antes mesmo que o processo do desenvolvimento do embrião comece — disse Ellie, interpretando as cores de Archie muito lentamente. — A temperatura deve ser mantida dentro de um limite extremamente baixo, menos de um grau dos humanos, no mesmo valor considerado ótimo para a manifestação da espécie dos myrmigatos. Caso contrário, os processos de crescimento e desenvolvimento não ocorrerão.
Richard ficou de pé.
— Então é este o segredo — disse ele, quase aos gritos. — Que droga, eu devia ter pensado nisso. Tinha várias pistas, tanto das condições dentro do habitat deles quanto dos murais que me foram mostrados... — Enquanto falava, ele andava de um lado para outro na sala. — Mas como as octoaranhas souberam isso? — perguntou, de costas para Archie.
Archie respondeu depressa depois que Ellie lhe traduziu a pergunta.
— Nós colhemos informações da outra colônia de octoaranhas. Os arquivos delas explicavam toda a metamorfose dos sésseis.
Tudo parecia simples demais para Richard. Pela primeira vez, ele suspeitou que talvez seu colega alienígena não estivesse dizendo toda a verdade. Richard estava pronto para fazer mais algumas perguntas quando o dr. Azul entrou na suíte com mais três octos, duas das quais carregavam um objeto grande hexagonal, embrulhado num material semelhante a papel.
— O que é isso? — perguntou Richard.
— É nossa festa oficial de despedida — respondeu Ellie. — E um presente dos moradores da cidade.
Uma das octoaranhas pediu a Ellie que juntasse todos os humanos na avenida para a cerimônia de despedida. Os humanos pegaram seus pertences e saíram pelo vestíbulo para as luzes brilhantes. Nicole ficou surpresa com o que viu. Com exceção das octoaranhas que haviam saído da suíte com eles, a avenida estava deserta. Até mesmo as cores dos jardins pareciam mais apagadas, como se dois dias antes tivessem sido temporariamente avivadas por toda a atividade que cercara a chegada de Nicole e Richard dois dias antes.
— Onde estão todos? — perguntou Nicole a Ellie.
— Tudo está quieto de propósito — respondeu a filha. — As octos não queriam ver você alarmada de novo.
As cinco octoaranhas enfileiraram-se no meio da avenida, de costas para o prédio em forma de pirâmide. As duas do lado direito equilibravam o embrulho hexagonal, maior do que elas. Os quatro humanos enfileiraram-se do lado oposto às octoaranhas, em frente aos jardins da cidade. A octoaranha do centro, que Ellie havia finalmente apresentado como o "Chefe Otimizador" (depois de várias tentativas vãs de encontrar uma palavra humana exata para a descrição feita por Archie das obrigações do chefe das octoaranhas), deu um passo à frente e começou a falar.
O Chefe Otimizador expressou sua gratidão a Richard, Nicole, Ellie e Eponine, incluindo uma atenção especial com um "obrigado" a cada um, e disse que esperava que aquele breve intercâmbio fosse o "primeiro de muitos" que levariam a uma maior compreensão entre as duas espécies. Depois, declarou que Archie voltaria com os humanos, não só para que o intercâmbio pudesse continuar e expandir-se como também para demonstrar aos outros humanos que agora existia uma confiança mútua entre as duas espécies.
Durante uma breve pausa, Archie deu um passo para a área entre as duas fileiras, e Ellie acolheu-o simbolicamente no grupo viajante. As duas octos da direita abriram o presente, uma pintura magnífica, representando em detalhes tudo o que Richard e Nicole haviam visto quando entraram na Cidade de Esmeralda. A pintura era tão viva que Nicole ficou pasma por um instante. Um minuto depois, os humanos aproximaram-se da pintura para examinar os detalhes. Todas as criaturas estranhas estavam ali representadas, inclusive os três onduladores azul-rei, cujas antenas longas e retas apontadas para cima, na direção de uma massa fervilhante, fez Nicole lembrar-se de como ficara perturbada no dia anterior.
Enquanto examinava a pintura e imaginava como ela teria sido criada, Nicole lembrou-se do quase desmaio que tivera ao presenciar aquela cena. Eu estava tendo uma premonição de perigo?, falou a si mesma. Ou foi alguma outra coisa? Deu uma olhada em volta e viu as octoaranhas conversando. Talvez tenha sido uma epifania, um instante de reconhecimento de uma coisa muito além da minha compreensão. Uma força ou um poder nunca sentido antes por nenhum ser humano. E sentiu um arrepio na espinha quando os portões da Cidade de Esmeralda começaram a se abrir.
Richard estava sempre se preocupando em dar nome às coisas. Depois de inspecionar em menos de um minuto as criaturas com quem eles iriam viajar, chamou-as de "emassauros".
— Esse nome não é muito imaginativo, querido — falou Nicole brincando.
— Talvez não seja, mas é uma descrição perfeita. Elas parecem emas gigantes com cara e pescoço daqueles dinossauros herbívoros.
As criaturas tinham quatro pernas de pássaros, um corpo macio e emplumado com uma concavidade nas costas, onde quatro humanos podiam sentar-se, e um pescoço comprido que se estendia a três metros em qualquer direção. Como suas pernas tinham cerca de dois metros de comprimento, o pescoço podia encostar no chão sem dificuldade.
Os dois emassauros eram incrivelmente velozes. Archie, Ellie e Eponine viajaram em um deles, ao qual tinha sido amarrada, com uma espécie de barbante, a grande pintura hexagonal. Nicole e Richard foram sozinhos na outra. Os emassauros não eram guiados por rédeas nem por qualquer outro meio de controle, mas antes que o grupo partisse da Cidade de Esmeralda, Archie passara dez minutos "conversando" com eles.
— Ele está explicando todo o trajeto — disse Ellie. — E também dando instruções sobre o que deve ser feito em caso de acidente.
— Que tipo de acidente? — perguntou Richard aos gritos, mas Ellie deu de ombros.
No início, Richard e Nicole tinham se agarrado às "penas" que rodeavam a concavidade na qual eles estavam sentados, mas depois de alguns minutos relaxaram. Os emassauros caminhavam de modo muito suave, com poucos solavancos.
— Você acha — disse Richard, depois que a Cidade de Esmeralda sumiu ao longe — que esses animais evoluíram naturalmente desta forma, com esta concavidade quase perfeita no meio das costas? Ou que a engenharia genética das octoaranhas criou essas criaturas para servirem de meio de transporte?
— Não tenho dúvida sobre isso — respondeu Nicole. — Acho que a maioria das coisas vivas que nós vimos, inclusive aquelas criaturas escuras espiraladas que andaram por debaixo da minha pele, foi projetada pelas octoaranhas para funções específicas. Não poderia ser de outra forma.
— Mas não dá para acreditar que esses animais tenham sido projetados a partir de um esboço. Isso implicaria uma tecnologia fantástica, muito além do que se possa imaginar.
— Eu não sei, querido. Talvez as octoaranhas tenham viajado para muitos sistemas planetários diferentes e encontrado em cada um deles formas de vida que pudessem ser ligeiramente alteradas para se encaixar nos seus grandes esquemas simbióticos... Mas não aceito a idéia de que essa biologia harmoniosa tenha acontecido por uma evolução natural.
Os dois emassauros e os cinco viajantes foram guiados por três vaga-lumes gigantes. Depois de umas duas horas, o grupo aproximou-se de um grande lago que se estendia para o sul e para o oeste. Os emassauros agacharam-se no chão para Archie e os humanos descerem.
— Vamos almoçar e beber água aqui — disse Archie aos outros, passando para Ellie uma vasilha com comida e depois levando os emassauros até o lago. Nicole e Eponine foram ver umas plantas azuis que cresciam à beira d'água, e Richard e Ellie ficaram sozinhos.
— Sua desenvoltura na língua delas é impressionante — disse Richard enquanto ia comendo.
Ellie riu.
— Não sou tão boa quanto pareço. As octos fazem frases muito simples para eu poder entender. E falam devagar, em largas faixas de cor... Mas estou melhorando... Não sei se você percebeu que elas não usam sua verdadeira língua quando falam conosco. Usam uma forma derivada.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou Richard.
— Expliquei para a mamãe lá na Cidade de Esmeralda, mas ela certamente não teve oportunidade de comentar esse assunto com você... A língua verdadeira das octoaranhas consiste de sessenta e quatro símbolos coloridos, como falei, mas onze não são acessíveis a nós. Oito ficam na parte infravermelha do espectro, e as outras três na ultravioleta. Portanto nós só conseguimos distinguir claramente cinqüenta e três símbolos. No início isso foi um grande problema... Mas, por sorte, cinco dos onze símbolos que ficam de fora são esclarecedores. De qualquer forma, as octoaranhas desenvolveram em nosso benefício uma espécie de dialeto, que usa apenas as cores que podem ser vistas por nós... Archie disse que esse novo dialeto está sendo ensinado em algumas classes adiantadas...
— Fantástico — disse Richard. — Quer dizer que elas adaptaram sua linguagem às nossas limitações físicas?
— Não exatamente, papai. Elas ainda usam sua verdadeira língua quando conversam entre si. É por isso que eu nem sempre entendo o que estão dizendo... Mas esse novo dialeto está sendo desenvolvido e expandido só para que as comunicações conosco se tornem mais fáceis.
Richard terminou de almoçar. Estava para fazer uma pergunta a Ellie sobre a língua das octoaranhas quando ouviu Nicole gritar:
— Richard — gritou ela a uns cinqüenta metros de distância —, olhe lá no ar, na direção da floresta.
Richard esticou o pescoço, fez sombra para os olhos e viu a distância dois pássaros voando na direção deles. Por alguma razão, só foi reconhecê-los quando ouviu seus guinchos. Deu um pulo e correu para as aves. Tammy e Timmy, já completamente crescidos, deram um mergulho no céu e baixaram ao lado de Richard, que ficou tomado de alegria com seus guinchos incessantes e começou a acariciá-los.
As duas aves pareciam perfeitamente saudáveis, e não havia vestígio de tristeza em seus olhos. Richard e elas ficaram juntos durante algum tempo até que Timmy se afastou, gritou alguma coisa num tom muito alto e saiu voando. Dentro de poucos instantes, voltou com uma companheira de plumas aveludadas cor de laranja, diferente de tudo o que Richard jamais vira. Richard ficou um pouco confuso, mas percebeu que Timmy estava tentando apresentá-lo à sua companheira.
O resto da reunião com as aves durou de dez a quinze minutos. Depois que Archie explicou que aquele lago supria quase metade da água fresca do território das octoaranhas, ele insistiu que se continuasse a viagem. Richard e Nicole já estavam na concavidade das costas do emassauro quando as três aves partiram. Tammy ficou sobrevoando o grupo por algum tempo, perturbando a criatura que os transportava, e a certa altura seguiu o irmão e sua companheira na direção da floresta.
Richard permaneceu muito quieto enquanto suas montarias se dirigiam para a floresta.
— Essas aves significam muito para você, não é? — perguntou Nicole.
— Muito mesmo. Durante muito tempo elas foram minha única companhia. Timmy e Tammy dependiam de mim para sobreviver... Criar essas aves foi o primeiro ato da minha vida despido de egoísmo e me expôs a novas dimensões tanto de ansiedade quanto de felicidade.
Nicole pegou a mão de Richard.
— Sua vida emocional foi uma verdadeira odisséia — disse ela suavemente —, com cada parte tão diversa quanto a viagem que você empreendeu.
Richard beijou Nicole.
— Ainda tenho alguns demônios que precisam ser exorcizados. Talvez, com a sua ajuda, dentro de mais dez anos eu me torne um ser humano decente.
— Você não se dá muito crédito, querido — disse Nicole.
— Para o meu cérebro dou bastante crédito — disse Richard, com uma risadinha que mudou o tom da conversa. — E você sabe o que meu cérebro estava pensando agora mesmo? De onde veio aquela ave com a barriga cor de laranja?
Nicole ficou intrigada.
— Do segundo habitat — disse ela. — Você mesmo nos disse que lá devia haver quase mil aves antes da invasão das tropas de Nakamura... As octoaranhas também devem ter salvo algumas.
— Mas eu vivi lá durante meses — protestou Richard. — E nunca vi uma ave com a barriga cor de laranja. Nenhuma, senão eu teria me lembrado.
— O que você está querendo dizer?
— Nada. Mas estou começando a imaginar se nossas amigas octoaranhas não têm alguns segredos que ainda não discutiram conosco.
Eles chegaram ao grande iglu próximo do mar Cilíndrico depois de algumas horas. O pequeno iglu brilhante que havia a seu lado tinha desaparecido. Archie e os quatro humanos apearam. A octoaranha e Richard desamarraram a pintura hexagonal e encostaram-na na parede do iglu, e depois Archie chamou os emassauros e deu-lhes instruções para sua viagem de volta.
— Eles não podem ficar um pouco aqui? — perguntou Nicole. — As crianças iriam adorar vê-los.
— Infelizmente não — respondeu Archie. — Eles são poucos e muito necessários.
Embora Eponine, Ellie, Richard e Nicole se sentissem cansados com a viagem, estavam muito animados para se encontrarem com os outros. Antes de saírem do iglu, Eponine e Ellie olharam-se no espelho e ajeitaram os cabelos.
— Por favor, minha gente — disse Eponine —, quero pedir um favor. Não digam a ninguém que estou curada enquanto eu não contar ao Max em particular. Esta vai ser minha surpresa para ele.
— Espero que Nikki me reconheça — falou Ellie nervosa, quando começaram a descer a primeira escada e entraram no corredor que levava ao patamar. O grupo todo ficou com medo de que os outros estivessem dormindo àquela hora, mas Richard conferiu no seu computador e garantiu que debaixo da cúpula do arco-íris eles estavam no meio da manhã.
Os cinco andaram pelo patamar, olhando para o chão circular abaixo. Os gêmeos Kepler e Galileu estavam brincando, e a pequena Nikki os olhava e ria. Nai e Max descarregavam a comida do trem do metrô, que aparentemente acabara de chegar. Eponine não se conteve e gritou.
— Max, Max!
Max reagiu como se tivesse levado um tiro. Deixou cair a comida que estava carregando e virou-se para o patamar. Ao ver Eponine acenando para ele, saiu zunindo para a escada em espiral. Dois minutos depois apareceu no patamar e apertou Eponine nos braços.
— Oh, minha francesinha — disse ele, levantando-a do chão e abraçando-a com fúria —, como eu senti a sua falta!