A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 56 de 56

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A Revelação de Rama

Sumário

12

 

— Nós passamos tanto tempo naquela exposição — disse a Águia quando terminou o exame — que acho melhor reorganizarmos nossa visita. Os dois estavam sentados lado a lado no carro.

— Esta é a sua forma diplomática de dizer que meu coração está enfra-quecendo mais depressa do que você esperava? — perguntou Nicole, forçando um sorriso.

— Não exatamente — disse a Águia. — De fato, passamos lá o dobro do tempo que eu planejava... Não pensei que íamos sobrevoar a França, por exemplo, nem visitar a cidade das octoaranhas...

— Aquela parte foi maravilhosa — disse Nicole. — Eu gostaria de ir lá de novo, tendo o dr. Azul como guia, e conhecer mais sobre a forma de vida delas...

— Então você gostou mais da cidade das octoaranhas do que da visão espetacular das estrelas?

— Eu não diria isso — replicou Nicole. — Foi tudo fantástico... O que eu vi já comprovou que escolhi o lugar certo para... — Nicole não terminou a frase. — Enquanto estava na plataforma, percebi que a morte não só é o fim do pensamento e da consciência como também do sentimento... Não sei por que isso não era óbvio para mim antes.

Houve um breve silêncio.

— Então, meu amigo — disse Nicole animada —, para onde iremos agora?

— Achei que devíamos ir para a engenharia, onde você poderá ver modelos dos Nodos, dos transportadores e de outras naves espaciais. Depois disso, se ainda tivermos tempo, podemos ir à seção de biologia. Alguns dos seus netos gerados fora do útero vivem naquela região, em um dos nossos melhores habitats, semelhantes à Terra. Perto de lá há uma comunidade onde vivem aquelas enguias ou cobras esquisitas que encontramos uma vez em Nodo. E há também uma exposição taxonômica, comparando e contrastando fisicamente todos os viajantes do espaço que foram estudados nessa região...

— Parece tudo incrível — disse Nicole, dando uma risada súbita. — O cérebro humano é espantoso... Imagine o que me veio à cabeça... A primeira linha do poema de Andrew Marvell: "Para sua tímida amada". "Tivéssemos nós muitos mundos de tempo, não seria um crime essa timidez..." De qualquer forma, eu queria dizer que já que não temos tempo para sempre, vamos primeiro à exposição do transportador. Eu gostaria de ver a nave onde Patrick, Nai, Galileu e os outros irão viver... Depois disso, veremos quanto tempo nos resta.

O carro começou a mover-se. Ao notar que a Águia não havia dito uma palavra sobre os resultados do seu exame, o medo de Nicole voltou, dessa vez mais forte. O túmulo é um lugar bom e íntimo, lembrou-se ela. Mas acho que ninguém vai lá por escolha.

 

Eles estavam juntos na superfície plana do modelo do transportador.

— Este é um modelo em escala de um para sessenta e quatro — disse a Águia. — Dá para sentir como o transportador é grande.

Nicole olhou da sua cadeira de rodas.

— Meu Deus, essa nave deve ter quase um quilômetro de comprimento.

— Você calculou mal — disse a Águia. — O topo do atual transportador tem cerca de quarenta quilômetros de comprimento e quinze de largura.

— E cada uma dessas bolhas tem um ambiente diferente?

— Tem. A atmosfera e outras condições são controladas pelos equipa-mentos que ficam na superfície, e também pelos outros sistemas de engenharia lá embaixo, no corpo principal da nave espacial... Cada um dos habitats tem sua própria velocidade de rotação para criar a gravidade adequada... Existem divisórias para separar as espécies, se necessário, dentro de uma das bolhas. Os residentes da Estrela do Mar foram colocados no mesmo domínio, pois eles se sentem bem em condições ambientais mais ou menos iguais. Mas não têm acesso uns aos outros.

Eles estavam descendo por um caminho entre os equipamentos e as bolhas.

— Alguns desses habitats — disse Nicole, examinando uma pequena saliência oval que se elevava a apenas uns cinco metros da nave — parecem muito pequenos e apertados para abrigar muitos indivíduos...

— Há alguns viajantes espaciais muito pequenos — disse a Águia. — Uma espécie, de um sistema estelar não muito distante do seu, tem só um milímetro de comprimento. A maior nave espacial deles não é nem do tamanho deste nosso carro.

Nicole tentou imaginar um grupo inteligente de formigas ou pulgões trabalhando em conjunto para construir uma nave espacial, e sorriu.

— E todos esses transportadores viajam só de um Nodo para outro? — perguntou Nicole, mudando de assunto.

— Basicamente — respondeu a Águia. — Quando não há mais criaturas vivas em uma bolha específica, aquele habitat é recondicionado em um dos Nodos.

— Como no caso de Rama — disse Nicole.

— De certa forma — disse a Águia —, mas com algumas diferenças signi-ficativas. Nós estamos sempre estudando qualquer espécie existente em uma nave espacial da classe de Rama. Tentamos colocá-las no ambiente mais realista possível, para podermos observá-las em condições naturais. Ao contrário, não precisamos de mais nenhum dado sobre as criaturas designadas para o transportador. Por isso não interferimos nos problemas deles.

— A não ser para impedir a reprodução... A propósito, na sua ética, impedir a reprodução é mais humano, ou qualquer outra palavra equivalente, do que exterminar criaturas diretamente?

— Nós acreditamos que sim — respondeu a Águia.

Eles chegaram a um local no alto do modelo do transportador, onde o caminho saía para a esquerda, voltando para a rampa e os corredores do Módulo do Conhecimento.

— Acho que consegui o que queria aqui — disse Nicole, hesitando por um instante. — Mas ainda tenho umas duas perguntas a fazer.

— Pode perguntar — disse a Águia.

— Partindo do princípio de que a descrição de São Michael sobre a fina-lidade de Rama, Nodo e tudo o mais está correta, vocês não estão transtornando e alterando o próprio processo que observam? Parece que só o fato de estarem aqui, interagindo...

— Você tem razão — disse a Águia. — Nossa presença aqui causa um ligeiro impacto no curso da evolução. É uma situação análoga ao Princípio de Incerteza de Heisenberg, da física... Não se pode observar sem influenciar... Entretanto, nossas interações podem ser consideradas pelo Monitor Motriz e levadas em conta na organização do processo como um todo. E temos regras que minimizam nossos transtornos à evolução natural...

— Gostaria que Richard tivesse ouvido comigo a explicação de São Michael sobre tudo — disse Nicole. — Ele teria ficado fascinado e, estou certa, teria feito perguntas excelentes.

A Águia não respondeu. Nicole suspirou.

— O que vamos fazer agora, Senhor Diretor da Visita? — disse ela.

— Almoçar — respondeu a Águia. — Nós temos no carro uns dois sanduí-ches, um pouco de água e aquela fruta das octoaranhas de que você tanto gosta.

Nicole riu e virou sua cadeira de rodas para o corredor.

— Você pensa em tudo — disse.

 

— Richard não acreditava no Céu — disse Nicole quando a Águia comple-tou outro exame. — Mas se ele pudesse ter construído sua vida perfeita no além teria incluído um lugar como este.

A Águia estava estudando as estranhas curvas que apareciam no monitor que segurava na mão.

— Acho que seria uma boa idéia — disse, olhando para Nicole — deixar de lado uma parte da visita... e passar diretamente para as exposições mais importantes do próximo domínio.

— Meu exame está ruim, não é? — disse Nicole.

A dor ocasional que sentiu no peito antes de visitar a França e a cidade das octoaranhas tornou-se constante.

E o medo também tornou-se constante. Entre cada palavra, cada pensa-mento, ela tinha a exata consciência de que sua morte estava próxima. De que você tem medo?, perguntou a si mesma. Como o nada pode ser tão ruim assim? Mas seu medo persistia.

A Águia explicou que não havia tempo para uma orientação no segundo domínio. Eles atravessaram os portões para a segunda esfera concêntrica e viajaram durante uns dez minutos.

— O que sobressai neste domínio — dizia a Águia enquanto guiava — é como tudo muda no tempo. Há uma seção separada para cada elemento concebível na galáxia que seja afetado por, ou que afete, sua evolução total... Achei que você ficaria especialmente interessada por esta primeira exposição.

A sala era semelhante àquela onde a Águia e Nicole tinham visto a Via Láctea, só que muito menor. Mais uma vez, eles subiram numa plataforma móvel para se moverem em volta da sala escura.

— O que você vai ver requer uma explicação — disse a Águia. — É essencial um resumo do tempo da evolução das civilizações que viajaram no espaço em uma região galática contendo o seu Sol e cerca de dez milhões de outros sistemas estelares. Isto significa que é aproximadamente um décimo de milésimo da galáxia inteira, mas o que você vai ver é uma representação da galáxia como um todo... Você não verá nenhuma estrela, nem planeta, nem qualquer outra estrutura física nessa exposição, embora a localização deles seja considerada na concepção do modelo. Depois que começarmos, você vai ver luzes representando um sistema estelar no qual uma espécie biológica tornou-se viajante espacial, pelo menos por ter colocado uma nave em órbita em volta do seu próprio planeta... Enquanto o sistema estelar continuar a ser um centro vivo para viajantes espaciais ativos, a luz daquele local específico se manterá brilhando... Vou começar a exposição há cerca de dez bilhões de anos, logo depois que a atual galáxia da Via-Láctea foi inicialmente formada. Como havia muita instabilidade e rápidas mudanças no início, não surgiu nenhum viajante espacial por longo tempo. Portanto, nos primeiros cinco milhões de anos até a formação do seu sistema solar, vou expor as imagens rapidamente, numa velocidade de vinte milhões de anos por segundo... Para fins de referência, a Terra começará a incorporar-se a esse processo cerca de quatro minutos depois. Vou interromper a exposição nessa época.

Eles estavam sobre a plataforma na sala grande, a Águia de pé e Nicole na cadeira de rodas. Havia apenas uma pequena luz na plataforma, que dava para os dois se verem. Depois de olhar à sua volta na total escuridão durante mais de trinta segundos, Nicole quebrou o silêncio.

— Você começou o processo? Não aconteceu nada.

— Exatamente — respondeu a Águia. — O que nós observamos, olhando as outras galáxias muito mais velhas do que a Via-Láctea, foi que não surgiu nenhuma vida até a galáxia estabelecer-se e desenvolver zonas estáveis. A vida requer algumas estrelas constantes em um ambiente relativamente benigno e uma evolução estelar, que resultam na criação dos elementos críticos no quadro periódico, tão importantes em todos os processos químicos. Se a matéria toda for composta de partículas subatômicas e de átomos mais simples, a probabilidade de vida de qualquer tipo de vida é muito, muito pequena. Só depois que as estrelas grandes completam seus ciclos de vida e produzem elementos mais complexos, como nitrogênio, carbono, ferro e magnésio, é que haverá maior probabilidade de surgimento de vida.

Abaixo deles brilhou uma luz temporária, mas durante os quatro pri-meiros minutos só apareceram umas centenas de luzes esparsas, e apenas uma durou mais de três segundos.

— Agora chegamos à época da formação da Terra e do sistema solar — disse a Águia, preparando-se para ativar de novo a exposição.

— Espere um instante, por favor — falou Nicole. — Quero ter certeza de que compreendi... Você acabou de me mostrar que na primeira metade da história galática, quando não havia a Terra nem o Sol, relativamente poucos viajantes espaciais passaram pela região em volta da qual o Sol iria mais tarde se formar?... E que quase todos esses viajantes eram espécies cuja duração de vida foi de menos de vinte milhões de anos, e que só uma conseguiu sobreviver por sessenta milhões de anos?

— Muito bem — disse a Águia. — Agora vou acrescentar outro parâmetro à exposição... Se o viajante espacial conseguiu viajar fora do seu próprio sistema estelar e estabeleceu uma presença permanente em outro sistema, o que vocês humanos ainda não conseguiram, a exposição reconhece essa expansão iluminando o outro sistema também, com uma luz da mesma cor. Assim, poderemos seguir a expansão de uma espécie determinada de viajante espacial... Agora também vou mudar a velocidade da exposição, de dois para dez milhões de anos por segundo...

No período seguinte, em meio minuto, uma luz vermelha apareceu num canto da sala e foi rodeada por centenas de outras luzes da mesma cor seis a oito segundos depois. Elas brilhavam com tal intensidade que o resto da sala, com sua ocasional luz solitária, parecia escuro e desinteressante. De repente, o campo de luzes vermelhas desapareceu em uma fração de segundo. Primeiro, o núcleo interno do modelo vermelho escureceu, deixando pequenos grupos de luzes nas extremidades do que tinha sido uma região gigantesca. Depois, num piscar de olhos, todas as luzes vermelhas desapareceram também.

A cabeça de Nicole estava funcionando a todo vapor enquanto ela obser-vava as luzes à sua volta. Deve ser uma história interessante, pensou, ao refletir sobre as luzes vermelhas. Imagine uma civilização espalhada por uma região com centenas de estrelas, e de repente aquela espécie desaparece... A lição é inevitável... A imortalidade só existe como conceito, não como realidade.

Nicole deu uma olhada em volta. Um modelo geral recorrente se desen-volvia à medida que mais e mais regiões apresentavam luzes ocasionais, indi-cando o surgimento de novas civilizações de viajantes espaciais. Porém, a maioria desses viajantes durava em média um breve momento, muito menos do que um segundo completo, e mesmo aqueles que se espalhavam e colonizavam sistemas estelares contíguos só raramente chegavam na proximidade de uma luz que indicava a presença de outra espécie de viajante espacial.

Existe inteligência e viagem espacial na nossa parte da galáxia desde antes de existir a Terra, pensou Nicole... Mas muito poucas dessas criaturas avançadas tiveram a emoção do contato mantido com seus pares... Portanto, a solidão também é um dos princípios básicos do universo... Pelo menos deste universo...

Oito minutos depois, a Águia congelou de novo a exposição.

— Chegamos agora em um ponto no tempo dez milhões de anos antes do presente. Na Terra, os dinossauros desapareceram há muito tempo, destruídos por sua incapacidade de adaptação às mudanças climáticas causadas pelo impacto de um grande asteróide... Seu desaparecimento, contudo, permitiu que os mamíferos prosperassem, e uma dessas linhas evolutivas dos mamíferos começou a mostrar rudimentos de inteligência...

A Águia parou. Nicole estava olhando para ela com uma expressão in-tensa, quase de dor.

— O que aconteceu? — perguntou o alienígena.

— Será que o nosso universo específico acabará em harmonia? — per-guntou ela. — Ou nós nos tornaremos, por exclusão, um daqueles dados que ajudam Deus a definir a região que Ele procura?

— O que fez você perguntar isso agora? — disse a Águia.

— Toda essa exposição — respondeu Nicole abanando as mãos — é um espantoso catalisador. Estou com dezenas de perguntas na cabeça, mas, como não tenho tempo para todas, achei melhor fazer a pergunta mais importante primeiro... Olhe o que aconteceu aqui — continuou Nicole. — Até mesmo agora, depois de dez bilhões de anos de evolução, as luzes continuam muito dispersas. E nenhum dos agrupamentos existentes tornou-se permanente ou amplamente espalhado, nem mesmo nessa porção relativamente pequena da galáxia. Se o nosso universo for terminar em harmonia, certamente mais cedo ou mais tarde as luzes que indicam viajantes espaciais e inteligência deverão brilhar em quase todos os sistemas estelares de cada galáxia... Ou será que interpretei mal o que São Michael quis dizer com harmonia?

— Eu creio que não — disse a Águia.

— Onde está nosso sistema solar nessa exposição? — perguntou Nicole.

— Bem aqui — disse a Águia, usando sua ponteira iluminada. Nicole deu uma olhada primeiro na área em volta da Terra, e depois inspecionou o resto da sala.

— Então, há dez milhões de anos, havia cerca de sessenta espécies de viajantes espaciais nas nossas dez mil vizinhanças mais próximas... E uma dessas espécies, creio que aquele agrupamento de luzes verde-escuro, originou-se não muito longe de nós e chegou a desenvolver-se em vinte a trinta sistemas estelares ao todo...

— Correto — falou a Águia. — Quer que eu passe as imagens mais uma vez em menos velocidade?

— Daqui a pouco — respondeu Nicole. — Primeiro quero apreciar essa configuração particular... Até agora tudo aconteceu rápido demais nessa ex-posição e não pude assimilar muito bem.

Ficou olhando o grupo de luzes verdes e notou que sua borda externa não ficava a mais de quinze anos-luz de onde a Águia indicara o sistema solar. Depois, pediu que a Águia passasse as imagens de novo, e o alienígena disse que a velocidade daquela vez seria de apenas duzentos mil anos por segundo.

As luzes verdes aproximaram-se cada vez mais da Terra e subitamente desapareceram.

— Pare — gritou Nicole.

A Águia parou a exposição e olhou para Nicole com ar intrigado.

— O que aconteceu com aqueles sujeitos? — perguntou Nicole.

— Falei sobre eles com você há uns dois dias — disse a Águia. — Eles foram manipulados geneticamente para deixarem de existir.

Eles quase chegaram na Terra, pensou Nicole. E como toda a história teria sido diferente se tivessem chegado... Eles teriam reconhecido imediatamente o potencial intelectual dos proto-humanos da África, e teriam sem dúvida feito com eles o que os precursores fizeram com as octoaranhas. Então nós...

De repente, Nicole lembrou-se de São Michael explicando calmamente a finalidade do universo em frente à lareira do escritório de Michael e Simone.

— Posso ver o começo? — perguntou Nicole.

— O começo de quê? — respondeu a Águia.

— O começo de tudo. O instante em que o universo começou e todo o processo da evolução foi posto em movimento — disse ela, mostrando o modelo abaixo deles.

— Podemos fazer isso — disse a Águia depois de uma breve pausa. Nós não temos conhecimento de nada antes do universo ser criado — continuou a Águia, quando os dois estavam juntos na plataforma em completa escuridão. — Mas supomos que tenha existido algum tipo de energia antes do instante da criação, pois nos disseram que a matéria desse universo resultou de uma transformação de energia.

Nicole olhou à sua volta.

— Escuridão por todo lado — disse, quase para si mesma. — E em algum lugar dessa escuridão havia energia, se é que a expressão algum lugar faz sentido... E um Criador... Ou será que a energia fazia parte do Criador?

— Isso nós não sabemos — disse a Águia com certa hesitação. — O que sabemos é que o destino de cada elemento do universo foi determinado naquele instante inicial. A forma como aquela energia foi transformada em matéria definiu bilhões de anos da história...

Enquanto a Águia falava, uma luz fortíssima tomou conta da sala. Nicole virou-se de costas e tapou os olhos.

— Pegue isso — disse a Águia, tirando uns óculos da sua pochete.

— Por que você fez essa simulação tão brilhante? — perguntou ela ajustando os óculos.

— Para indicar, pelo menos em alguma medida, como foram aqueles momentos iniciais... Olhe — falou, apontando para baixo —, eu parei o modelo em 10-40 segundos depois do instante da criação. O universo existia há apenas um tempo infinitesimal, mas já era rico em estrutura física. Essa incrível quantidade de luz vem toda daquela ínfima parte de mistura cósmica abaixo de nós... Toda aquela coisa que forma o universo primitivo é completamente alheia a qualquer coisa que possamos reconhecer ou entender. Não há átomos nem moléculas. A densidade dos quarks, dos léptons e de seus companheiros é tão grande que uma pitada menor que um átomo de hidrogênio daquela coisa pesaria mais do que um grande aglomerado de galáxias na nossa era...

— Só por curiosidade, onde você e eu estamos neste momento? — perguntou Nicole.

A Águia hesitou.

— Em lugar algum, seria a melhor resposta — disse depois de um instante. — Para fins ilustrativos, estamos fora do modelo do universo. Mas podíamos estar em outra dimensão. A matemática do universo primitivo só funcionaria se houvesse inicialmente mais de quatro dimensões. É claro que tudo no espaço-tempo que mais tarde se transformou no nosso universo é contido naquele pequeno volume que produz essa luz ofuscante. A propósito, se o modelo fosse uma representação verdadeira, a temperatura aqui seria dez trilhões de trilhões de vezes mais alta do que a estrela mais quente que surgisse.

— Este nosso modelo também distorceu os conceitos de tamanho e distância — continuou a Águia depois de uma breve pausa. — Dentro de um instante, vou começar a simulação do início do universo de novo, e nós ficaremos completamente subjugados quando a gotícula compacta de radiação explodir a uma velocidade assombrosa... Enquanto a simulação daquilo que os cosmólogos chamam de Era de Inflação estiver ocorrendo, o suposto tamanho desta sala também aumentará rapidamente. Se não mudássemos a escala, você não poderia ver agora a estrutura do universo 10-40 segundos após sua criação sem um fantástico microscópio.

Nicole olhou para a fonte de luz lá embaixo.

— Então aquele minúsculo glóbulo informe de matéria quente e pesada foi a semente de tudo? Daquela ínfima mistura de partículas subatômicas vieram as grandes galáxias que você me mostrou no outro domínio? Não parece possível...

— Não só aquelas galáxias — disse a Águia. — O potencial de tudo do cosmo está armazenado naquela mistura peculiar superaquecida...

Subitamente, o pequeno glóbulo começou a expandir-se em uma veloci-dade imensa, e Nicole teve a impressão de que o exterior do glóbulo ia encostar no seu rosto a qualquer instante. Milhões de estruturas bizarras formaram-se e desapareceram em frente aos seus olhos. Nicole observou fascinada o material mudar de natureza várias vezes, passando por estados de transição tão peculiares e estranhos quanto o primitivo glóbulo superaquecido.

— Eu andei com o tempo para a frente neste modelo — disse a Águia um pouco depois. — O que você está vendo lá agora, aproximadamente um milhão de anos depois da criação, poderia ser reconhecido por qualquer bom aluno de física. Alguns átomos simples se combinaram: três tipos de hidrogênio e dois de hélio, por exemplo. O lítio é reconhecidamente o átomo mais pesado que existe em abundância... A densidade do universo agora é mais ou menos equivalente à do ar da Terra, e a temperatura caiu para cem milhões de graus, ou seja, vinte ordens de magnitude menos do que na época do glóbulo quente.

A Águia ativou e guiou a plataforma entre as luzes, as massas e os filamentos.

— Se fôssemos realmente inteligentes — disse a Águia —, poderíamos olhar para toda essa matéria primitiva e prever quais as massas que acabariam se tornando aglomerados de galáxias... Foi mais ou menos nessa época que o pri-meiro Monitor Motriz apareceu, o único intruso nesse processo de evolução natural... Nenhuma monitoração podia ter ocorrido antes, pois o processo é muito sensível... Qualquer tipo de observação durante o primeiro segundo da criação, por exemplo, teria distorcido por completo a resultante evolução.

A Águia apontou para uma esfera metálica mínima no centro de várias imensas aglomerações de matéria.

— Aquele primeiro Monitor Motriz foi enviado pelo Criador de outra dimensão do universo primitivo para o nosso sistema evolutivo de espaço-tempo. Sua finalidade era observar o que estava ocorrendo e criar, se necessário, com sua própria inteligência, os outros sistemas de observação que iriam colher todas as informações pertinentes ao processo inteiro.

— Então, o Sol, a Terra e todos os seres humanos — disse Nicole lenta-mente — resultaram da imprevisível evolução natural desse cosmo. Nodo, Rama e até mesmo você e São Michael foram criados a partir de um desenvolvimento projetado originalmente por aquele primeiro Monitor Motriz...

Nicole fez uma pausa, olhou em volta e virou-se para a Águia.

— Você podia ter sido previsto logo depois do momento da criação... Eu e até mesmo a existência da humanidade viemos de um processo tão matematicamente perverso, que não podíamos ter sido previstos nem mesmo cem milhões de anos atrás, o que é apenas um por cento do tempo desde o início do universo...

Nicole sacudiu a cabeça e as mãos.

— Muito bem, isso basta... Eu estou farta de tanto infinito.

A grande sala ficou escura de novo, a não ser pelas luzes do chão da plataforma.

— O que foi? — perguntou a Águia, vendo a expressão de sofrimento no rosto de Nicole.

— Não tenho certeza — respondeu ela. — Estou me sentindo triste, como se tivesse sofrido uma grande perda pessoal... Se compreendi direito tudo isso, todos os humanos são muito mais especiais do que vocês, ou até mesmo que Rama. Há muito pouca probabilidade de que quaisquer criaturas, até mesmo semelhantes a nós, voltem a surgir neste universo ou em qualquer outro... Somos um dos produtos do caos. Você, ou pelo menos algo como você, provavelmente existe em todos os outros universos que o Criador esteja observando...

Houve um minuto de silêncio.

— Acho que, depois de ouvir o que São Michael me disse — continuou Nicole —, imaginei que haveria vozes humanas naquela harmonia que Deus buscava... Agora vejo que é só no planeta Terra, neste universo específico, que nossas canções...

Sentiu uma dor aguda no peito, que se tornou tão forte que não a deixava respirar. Ela pensou por um instante que seu fim viria imediatamente.

A Águia, em silêncio, observou-a com cuidado. Quando finalmente conseguiu respirar, Nicole disse, com voz entrecortada:

— Você me falou... na hora do almoço... de um lugar pessoal... onde eu podia ver minha família e meus amigos...

 

Eles conversaram um pouco no carro quando a dor de Nicole deu um ins-tante de trégua. Sabiam, sem precisar dizer nada, que seu próximo ataque seria o último.

Os dois entraram em outra área de exposição do Módulo do Conhecimento. A sala era um círculo perfeito, com um espaço numa pequena parte do centro onde dava para a Águia ficar de pé ao lado da cadeira de rodas de Nicole. Eles foram até o centro e viram réplicas de humanos representando cenas da vida adulta de Nicole em cada um dos seis cenários de teatro que os rodeavam.

Nicole ficou estupefata com a verossimilhança das representações. Não só toda sua família e amigos eram mostrados como na época em que aquelas cenas haviam acontecido como os cenários haviam sido reconstruídos na perfeição. Em uma das cenas, Katie esquiava perto da costa do lago Shakespeare, rindo e acenando com aquela sua espontaneidade característica. Em outra, Nicole assistia ao pequeno corpo de teatro de Rama II durante uma festa em homenagem ao milésimo aniversário de morte de Eleonor de Aquitânia. Ao ver Simone aos quatro anos, Katie aos dois, Richard e ela própria, Nicole ficou com os olhos cheios de lágrimas.

Foi uma vida fantástica, pensou. Movimentou sua cadeira de rodas até a cena de Rama II e a ação parou. Inclinou-se para a frente e pegou o robô TB que Richard criara para divertir as crianças. Até o peso do robô era o mesmo.

— Como conseguiram fazer isso? — perguntou.

— Tecnologia avançada — respondeu a Águia. — Eu não saberia explicar para você.

— E se eu fosse lá onde Katie está esquiando, se tocasse na água, ficaria com a mão molhada?

— É claro.

Nicole deixou o cenário segurando o pseudo-robô. Depois que ela saiu, apareceu outro TB e a cena continuou igual. Eu tinha me esquecido, Richard, de todas as suas brilhantes criações, disse para si mesma.

Seu coração lhe concedeu mais uns minutos para aproveitar aquelas re-presentações da sua vida. Ficou emocionada no momento do nascimento de Simone, reviveu sua primeira noite de amor com Richard logo depois de chegar a Nova York, e sentiu pela segunda vez a incrível sensação de ser cumprimentada, junto com Richard, por todas aquelas criaturas da Cidade de Esmeralda, quando atravessaram seus portões pela primeira vez.

— Você pode fazer uma retrospectiva de qualquer acontecimento da minha vida? — perguntou, sentindo um aperto no peito.

— Desde que tenha acontecido depois da sua chegada a Rama e que eu possa encontrar nos arquivos — respondeu a Águia.

Nicole estava arfando. Seu último ataque cardíaco estava a caminho.

— Por favor — disse com dificuldade —, eu gostaria de ver minha última conversa com Richard, quando ele foi embora...

Não vai demorar, dizia uma voz dentro de Nicole. Ela cerrou os dentes e tentou concentrar-se na cena em que Richard explicava à pseudo-Nicole por que era ele quem devia ir com Archie ao Novo Éden.

— Eu compreendo — disse a pseudo-Nicole na cena.

Eu compreendo, disse a verdadeira Nicole para si mesma. Essa é a declaração mais importante que se pode fazer... compreender é a chave da vida... E agora eu compreendo que sou uma criatura mortal e que a morte está chegando.

A próxima dor intensa veio acompanhada da lembrança de um verso em latim de um antigo poema. "Timor mortis conturbat me"... mas eu não terei medo porque compreendo.

A Águia a observava de perto.

— Eu gostaria de ver Richard e Archie nos seus últimos momentos... na cela... logo antes da chegada dos biotas — disse ela, em grande sofrimento.

Eu não terei medo porque compreendo.

— E meus filhos, se eles puderem aparecer aqui... E o dr. Azul.

A sala ficou escura e os segundos se passaram. A dor era horrível. Eu não terei medo...

As luzes acenderam-se de novo. Richard e Archie estavam na sua cela bem em frente à cadeira de rodas de Nicole. E ela ouviu os biotas abrirem a porta no corredor...

— Congele essa cena, por favor — falou Nicole gaguejando. À esquerda da cena com Richard e Archie apareceram seus filhos e o dr. Azul. Nicole saiu com esforço da cadeira e andou uns metros para ficar ao lado deles. Lágrimas escorriam-lhe dos olhos quando tocou pela última vez aqueles rostos queridos.

As paredes do seu coração começaram a entrar em colapso. Nicole caiu no cenário da cela de Richard e abraçou seu pseudomarido.

— Eu compreendo, Richard — disse.

Nicole foi caindo lentamente. Virou o rosto para a Águia e ainda conseguiu dizer, com um sorriso:

— Eu compreendo.

E a compreensão é felicidade, pensou.

 

FIM

SUMÁRIO

 

 

PRÓLOGO...........................................................................................................................4

 

FUGA...................................................................................................................................8

 

A OPERAÇÃO ARCO-ÍRIS ................................................................................................87

 

A CIDADE DE ESMERALDA ...........................................................................................141

 

GUERRA EM RAMA........................................................................................................226

 

DE VOLTA A NODO .........................................................................................................294

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