A Revelação de Rama
Capítulo 11
— Pensei que você nunca tivesse entrado aí — disse Nicole.
— E não entrei — replicou a Águia. — Mas meu banco de dados do Módulo do Conhecimento foi atualizado e ampliado na noite passada...
Um porta na superfície mais externa da esfera abriu-se e o veículo espa-cial começou a entrar.
— Só um minuto — disse Nicole. — Certamente não sairei viva desse módulo, não é?
— É — respondeu a Águia.
— Então quer por favor virar o veículo bem devagar para eu poder dar uma última olhada no mundo exterior?
O veículo deu uma guinada lenta, e Nicole, sentada na beira do banco, ficou olhando fixamente pela janela. Viu os outros módulos esféricos do Nodo, os corredores de transporte e, a distância, a Estrela do Mar, onde sua família e amigos arrumavam suas coisas para serem transferidos. Em uma certa orientação, a estrela amarela Tau Ceti, muito semelhante ao Sol, era o único objeto grande na janela e, apesar do seu brilho e da luz espalhada do Nodo, Nicole pôde distinguir algumas outras estrelas contra a escuridão do espaço.
Nada neste cenário será mudado depois da minha morte, pensou Nicole. Só haverá um par de olhos a menos para observar seu esplendor. E uma coleção a menos de químicas englobadas em nível de consciência para imaginar o significado de tudo isso.
— Obrigada — disse Nicole, depois que o veículo deu a volta completa. — Agora podemos continuar.
11
Os veículos espaciais que entravam no Módulo do Conhecimento e os tubos vindos dos outros três módulos terminavam em uma longa e fina estação localizada de um lado do anel que rodeava completamente a imensa esfera.
— Há apenas duas entradas, com uma separação de cento e oitenta graus, em cada um dos três domínios concêntricos do Módulo do Conhecimento — disse a Águia, enquanto os dois eram rapidamente carregados ao longo do anel por uma calçada rolante. À direita deles ficava a superfície transparente externa do módulo. À esquerda havia uma parede de cor creme, sem janelas.
— Será que vou poder tirar logo minha roupa espacial e meu capacete? — perguntou Nicole da sua cadeira de rodas.
— Vai, assim que entrarmos nas exposições — disse a Águia. — Eu tive de especificar alguns pontos para você visitar, pois eles não poderiam mudar a atmosfera de todo o módulo da noite para o dia. Nesses lugares, você não vai precisar da sua roupa espacial.
— Então você já selecionou o que vamos ver?
— Foi inevitável. Este lugar é imenso, muito maior do que um dos hemicilindros de Rama, e absolutamente apinhado de informações... Tentei programar nossa visita baseado no que sei sobre os seus interesses, e no nosso limite de tempo... Se houver outras coisas que...
— Não, não — disse Nicole. — Eu não teria idéia do que pedir para ver. Tenho certeza de que você escolheu o melhor...
Os dois aproximaram-se de um lugar onde a calçada rolante parou e um amplo corredor saía para a esquerda.
— A propósito — falou a Águia —, não expliquei a você que a nossa visita é restrita às duas regiões externas... O Domínio das Previsões está fora dos nossos limites.
— Por quê? — perguntou Nicole, movimentando sua cadeira de rodas pelo corredor, ao lado da Águia.
— Não estou bem certo. Mas realmente não importa, se é que compreendi seu objetivo ao vir aqui. Você vai ter muita coisa com que ocupar sua cabeça nos dois domínios disponíveis.
Em frente a eles havia uma alta parede branca. Quando a Águia e Nicole se aproximaram, uma porta larga da parede abriu-se para dentro, deixando ver uma sala circular com uma esfera de dez metros de diâmetro no centro. A parede e o teto da sala eram coalhados de pequenos acessórios ou equipamentos e muitas marcações estranhas. A Águia disse a Nicole que não tinha idéia do que aquilo significava.
— O que me disseram — falou o alienígena — é que a orientação para sua visita a este domínio deve ocorrer dentro daquela esfera em frente a nós.
A esfera cintilante era dividida ao meio. A metade superior da bola oca levantou-se o suficiente para a Águia e Nicole passarem por baixo até o interior da esfera. Depois que estavam dentro, essa parte superior voltou à posição original e os dois se viram completamente encerrados ali.
Durante uns dois segundos apenas ficou escuro. Em seguida, luzes espa-lhadas iluminaram a parte lateral da esfera que ficava em frente a eles.
— A esfera é decorada com muitos detalhes — comentou Nicole.
— O que nós estamos vendo — falou a Águia — é um modelo do domínio inteiro. Estamos olhando de dentro, como se estivéssemos bem no centro do Módulo do Conhecimento e nenhum dos dois domínios internos existisse... Você vai notar que, graças à disposição dos objetos ao longo e contra a superfície, não só à nossa frente e atrás, mas também acima e abaixo de nós, nada interfere no espaço vazio central além de uma determinada distância. A parede externa do próximo domínio concêntrico localiza-se naquele ponto do módulo real... Agora, as luzes vão lhe mostrar, no modelo, aonde iremos nas próximas horas.
Um grande setor da superfície da esfera interna em frente a eles, cerca de trinta por cento de toda a área, ficou subitamente visível sob uma luz suave.
— Tudo o que se encontra na região iluminada — disse a Águia fazendo um gesto circular com a mão — se associa à viagem espacial. Limitaremos nossa visita a essa porção do domínio... A luz vermelha que pisca naquela superfície em frente a nós mostra onde estamos no momento...
Quando Nicole olhou, uma linha de luzes vermelhas moveu-se rapida-mente na superfície, parando num ponto acima da sua cabeça, onde havia uma imagem da galáxia Via Láctea.
— Iremos primeiro à seção de geografia — disse a Águia, apontando para o lugar onde a fileira de luzes tinha parado —, depois para a engenharia e finalmente para a biologia... Depois de uma pequena pausa, seguiremos para o segundo domínio... Alguma pergunta antes de começarmos?
Eles subiram por uma espécie de rampa num pequeno carro semelhante ao que haviam usado no Módulo de Habitação quando foram visitar Simone e Michael. Embora o caminho em frente e atrás deles fosse iluminado, o que estivesse ao lado do carro ficava sempre no escuro.
— O que existe à nossa volta? — perguntou Nicole, uns dez minutos depois de entrarem no carro.
— Em grande parte, armazenagem de dados, além de umas pequenas exposições — disse a Águia. — Está escuro para você não se distrair sem necessidade.
Mais tarde, eles pararam ao lado de outra porta alta.
— A sala em que você vai entrar agora — disse a Águia, montando a cadeira de rodas de Nicole — é a maior sala deste domínio. Mede meio quilômetro no seu ponto mais largo. Dentro há atualmente um modelo da Via-Láctea. Quando entrarmos, vamos pisar numa plataforma móvel que nos levará a qualquer ponto da sala sob o nosso comando... Vai estar escuro dentro, salvo algumas demonstrações e estruturas acima e abaixo de nós. Talvez você tenha a sensação de que vai cair, mas lembre-se de que está sem peso...
A vista da plataforma era espetacular. Mesmo antes de passarem para o centro da imensa sala, Nicole ficou maravilhada. As luzes representando as estrelas espalhavam-se pela escuridão que os rodeava. Estrelas simples, binárias, triplas. Pequenas estrelas amarelas fixas, estrelas vermelhas gigantes, estrelas anãs brancas passavam diretamente sobre uma supernova em explosão. Em todos os lugares e em todas as direções havia alguma coisa diferente e fascinante a ser vista.
Depois de uns minutos, a Águia parou a plataforma.
— Achei que seria bom começarmos aqui, onde o território lhe é familiar — disse.
Com uma ponteira de raios de luz múltiplos, ele indicou uma estrela ama-rela próxima.
— Você reconhece este lugar?
Nicole ainda olhava as infinitas luzes em todas as direções.
— Todas as estrelas de cem bilhões de anos da galáxia estão realmente modeladas nesta sala? — perguntou ela.
— Não — respondeu a Águia. — O que você está vendo agora é apenas uma grande seção da galáxia... Explicarei mais daqui a pouco, quando chegarmos no topo da sala e virmos lá embaixo a planície galática central... Eu trouxe você a esse lugar específico por outra razão.
Nicole reconheceu o Sol e a constelação do Centauro, sua vizinha mais próxima, e até as estrelas Barnard e Sírius. Ela não se lembrava dos nomes de grande parte das estrelas que ficavam perto do Sol, mas conseguiu localizar outra estrela amarela solitária não muito distante.
— É Tau Ceti? — perguntou.
— É sim — respondeu a Águia.
Tau Ceti parece muito perto do Sol, pensou Nicole, mas na realidade fica muito distante. O que significa que a galáxia é maior do que qualquer de nós poderia supor.
— A distância do Sol até Tau Ceti — disse a Águia, como se estivesse lendo o pensamento dela — é de um décimo de milésimo da extensão total da galáxia.
Nicole sacudiu a cabeça quando a plataforma começou a afastar-se do Sol e de Tau Ceti. Existe muito mais coisa do que eu imaginava, pensou. Até mesmo minhas viagens foram feitas em uma ínfima área do espaço.
Fora da plataforma móvel, à direita, a Águia projetou um desenho em três dimensões de um sólido retangular. Manipulando o aparelhinho preto que segurava, tornou o volume do sólido maior e menor.
— Há várias formas diferentes de controlarmos o que está projetado nesta sala — disse a Águia. — Com este aparelho, podemos mudar a escala e focalizar de perto qualquer região da galáxia... Vou lhe mostrar. Vamos supor que eu ponha a luz vermelha aqui no meio da nebulosa Órion, o que marcará a posição inicial desejada da plataforma. Agora vou expandir essa forma geométrica para que caibam aí umas mil estrelas... Então, pronto...
A sala tornou-se um breu durante um segundo. De repente, Nicole ficou estupefata de novo, mas dessa vez com um conjunto diferente de luzes. As estrelas aglomeradas ou individuais eram definidas muito mais claramente. A Águia explicou que a sala toda estava agora contida dentro da nebulosa Órion, e que a maior dimensão da sala equivalia agora a poucas centenas de anos-luz, em vez de sessenta mil anos-luz, como antes.
— Esta área específica é um viveiro estelar, onde as estrelas e os planetas acabaram de nascer — continuou a Águia, movendo a plataforma para a direita. — Aqui está, por exemplo, um sistema estelar infantil, no seu primeiro estágio de formação, com muitas das características apresentadas pelo seu sistema solar há quatro e meio bilhões de anos.
A Águia inseriu um pequeno sólido em volta de uma das estrelas, e um instante depois a sala foi tomada da luz de um sol jovem. Nicole ficou observando uma gigantesca tempestade solar atravessar a superfície. Uma explosão na coroa solar, acima da sua cabeça, projetou raios alaranjados e vermelhos na escuridão do espaço.
A Águia virou a plataforma para um corpo muito menor e mais distante, um entre uma dúzia de agregações de massa que podiam ser identificadas na região em volta da jovem estrela. Aquele planeta específico mostrava uma superfície derretida e ligeiramente avermelhada. Enquanto observavam, um grande projétil estilhaçou-se no líquido quente, espalhando material da superfície e criando um movimento ondulado em todas as direções.
— Segundo nossos dados estatísticos — disse a Águia —, esse planeta tem uma boa probabilidade de criar vida depois de uns bilhões de anos de evolução, quando o período de bombardeamento e formação for concluído. Ele terá uma estrela hospedeira solitária e permanente, uma atmosfera com suficiente variação climática, e todos os ingredientes químicos... Aqui, veja você mesma. Mantenha os olhos fixos naquele planeta. Vou ativar uma rotina especial que explorará rapidamente metade do fundo da carta periódica e mostrará dados quantitativos a respeito do número comparativo dos diferentes tipos de átomos existentes naquela massa em ebulição...
Uma magnífica demonstração visual apareceu no escuridão acima do jovem planeta. Cada átomo contido na sua massa era indicado por uma cor específica e por seu número de nêutrons e prótons. O tamanho do átomo mostrava sua freqüência comparativa na mistura.
— Note que há significativas densidades de carbono, nitrogênio, halógenos e ferro — dizia a Águia. — Esses são os átomos críticos. Foram criados por uma supernova próxima, num passado não muito distante, e enriqueceram as possibilidades organizacionais desse corpo em formação... Sem uma química complexa não pode haver vida eficiente... Por exemplo, se o ferro não fosse o átomo central da hemoglobina no seu planeta, o sistema de distribuição de oxigênio em muitas formas de vida avançadas seria muito menos eficiente...
Então o processo continua, pensou Nicole, era após era. As estrelas e planetas formam-se da poeira cósmica. Poucos planetas contêm a matéria química certa que poderia acabar produzindo vida e inteligência. Mas o que organiza esse processo? Que mão invisível faz com que essas químicas se tornem cada vez mais complexas e estruturadas no tempo, até atingirem o estado de autoconsciência? Haverá alguma lei natural ainda não formulada sobre a matéria organizando-se segundo leis específicas?
A Águia agora explicava como era improvável que a vida evoluísse em sistemas estelares que contivessem apenas átomos simples como o hidrogênio e o hélio, sem nenhum dos átomos mais complexos, de ordem mais alta, forjados pela morte das estrelas nas explosões das supernovas. Nicole começou a sentir-se insignificante. E a ansiar por alguma coisa na escala humana.
— Até que ponto você pode diminuir esta sala? — perguntou de repente, rindo da sua própria frase canhestra. — Para ser mais precisa, qual é a resolução final desse sistema?
— O maior nível possível de detalhe — disse a Águia — é numa escala de 4096 para 1. Em outro extremo, podemos dispor um cenário intergalático com a dimensão máxima de cinqüenta milhões de anos-luz... Lembre-se de que nosso interesse por atividades fora da galáxia é limitado...
Nicole fazia seus próprios cálculos mentais.
— Já que a maior dimensão desta sala é meio quilômetro, no seu nível de resolução mais alto seria possível caber nela um pedaço de terra de apro-ximadamente dois mil quilômetros de comprimento?
— Seria — respondeu a Águia. — Mas por que está perguntando isso? Nicole estava cada vez mais excitada.
— Nós podemos focalizar a Terra de perto? Podemos sobrevoar a França?
— Creio que sim — respondeu a Águia, um pouco hesitante. — Mas não foi isso que planejei...
— Isso seria muito importante para mim.
— Tudo bem — falou a Águia. — Vai levar uns dois segundos, mas dá para fazer...
O vôo começou sobre o Canal da Mancha. A Águia e Nicole já estavam sentadas na plataforma no alto da sala escura por uns três segundos quando viram uma explosão de luz logo abaixo. Depois que os olhos de Nicole se adaptaram, ela reconheceu a água azul e a forma da costa da Normandia. A distância, o Sena desaguava no Canal.
Nicole pediu que a Águia imobilizasse a plataforma sobre a foz do Sena e depois a movesse lentamente na direção de Paris. À vista daquela geografia familiar, Nicole ficou muito emocionada. Lembrou-se claramente dos dias da sua juventude, quando andava livremente por aquela região com seu querido pai.
O modelo abaixo deles era soberbo. Chegava a ter três dimensões quando o tamanho dos acidentes geográficos e das construções abaixo ultrapassava os limites de resolução do sistema alienígena. Em Rouen, a famosa igreja onde Joana d'Arc fora temporariamente repudiada, tinha meio centímetro de altura e dois centímetros de comprimento. Ao aproximar-se de Paris, Nicole viu a forma familiar do Arco do Triunfo elevando-se da superfície do modelo.
Quando chegaram a Paris, a plataforma pairou alguns segundos sobre o 16º arrondissement, e os olhos de Nicole focalizaram rapidamente um edifício. Ao ver aquele edifício, um moderno centro de convenções, lembrou-se de um momento pungente da sua adolescência. Para minha preciosa filha, Nicole, e todos os jovens do mundo, ofereço uma simples percepção, dizia o pai, quase no final do seu discurso ao receber o prêmio Mary Renault. Eu descobri ao longo da vida duas coisas de valor inestimável: aprender e amar. Nada mais, seja fama, poder, ou realização por si só, têm esse mesmo valor duradouro.
Uma imagem do pai surgiu na lembrança de Nicole. Obrigada, papai, pen-sou ela. Obrigada por ter cuidado tão bem de mim depois que a mamãe morreu. Obrigada por tudo o que você me ensinou...
Uma saudade forte e doída fez com que seus olhos se enchessem de lágrimas. Por um instante, ela voltou a ser criança, querendo desesperadamente falar com seu pai sobre a iminência da morte. De forma lenta e deliberada, Nicole lutou contra as emoções que ameaçavam dominá-la. Não era isso que eu queria sentir agora, disse a si mesma com dificuldade. Eu queria deixar tudo isso para trás...
Nicole afastou os olhos do modelo da França abaixo dela.
— O que foi? — perguntou a Águia. Ela forçou um sorriso.
— Eu queria ver mais uma coisa. Uma coisa espetacular... e nova. Que tal uma cidade das octoaranhas?
— Tem certeza?
Nicole fez um gesto afirmativo.
A sala escureceu imediatamente. Dois segundos depois, quando Nicole se virou para o lado da luz, a plataforma sobrevoava um vasto oceano verde-escuro.
— Onde estamos? E para onde estamos indo?
— Estamos agora a uma distância de cerca de trinta anos-luz do Sol, no primeiro planeta oceânico colonizado pelas octoaranhas depois do desapa-recimento dos precursores... Estamos sobre o mar, é claro, a uns duzentos quilômetros da mais famosa cidade das octoaranhas.
Nicole sentiu uma onda de excitação quando a plataforma focalizou de perto o mar. A distância, ela podia ver o vago contorno de alguns prédios. Por um instante, imaginou que era uma viajante espacial aventureira, chegando naquele planeta pela primeira vez, ansiosa para ver as maravilhas das fabulosas cidades que outros viajantes interestelares haviam descrito.
Que maravilha!, pensou Nicole, prestando atenção por um instante ao oceano abaixo dela.
— Por que a água é tão verde? — perguntou à Águia.
— O ponto mais alto desta parte do oceano é um rico ecossistema próprio, dominado por um gene especial de planta fotossintetizadora cujas várias espécies, todas verdes, fornecem abrigo e alimento para dez milhões de cria-turas... Algumas plantas individuais cobrem mais de um quilômetro quadrado de território... Os precursores criaram esse domínio... As octoaranhas o descobriram e aprimoraram...
Quando Nicole olhou, a plataforma estava quase sobre a cidade, com suas centenas de prédios de vários formatos e tamanhos. Grande parte dos prédios da cidade das octoaranhas era construída na terra, mas alguns pareciam flutuar na água. O conjunto mais denso dessas estruturas situava-se ao longo de uma península estreita, que se prolongava até o mar. No final da península viam-se imensas cúpulas verdes, muito próximas umas das outras, dominando o horizonte da cidade.
Na periferia via-se um amplo círculo separado com oito cúpulas menores, todas ligadas por modelos lineares de transporte às cúpulas centrais. Essas cúpulas eram de cores diferentes, e quase todos os prédios da seção da cidade que rodeava cada uma delas eram pintados da mesma cor. No oceano, por exemplo, a brilhante cúpula vermelha tinha oito longas barras vermelhas, finas e longas, que representavam outros prédios e se estendiam para fora do mar num padrão geométrico e equilibrado.
Todos os prédios da cidade ficavam dentro do círculo definido pelas oito cúpulas coloridas. Nicole imediatamente encantou-se por uma estranha estrutura marrom que flutuava na água, parecendo quase tão grande quanto as imensas cúpulas centrais. Do alto, o prédio retangular dava a idéia de vinte camadas de teias trançadas e densamente comprimidas; materiais de ninhos de pássaros enchiam os vãos existentes em cada uma das centenas de células.
— O que é aquilo? — perguntou Nicole, apontando da plataforma.
— Essas octoaranhas são muito avançadas em termos de microbiologia — respondeu a Águia. — Aquela estrutura, que se estende mais dez metros para dentro do mar, tem mais de mil habitats diferentes de espécies microscópicas... O que você está vendo é basicamente uma estação de suprimento, contendo a população excedente desses seres minúsculos. Caso as octoaranhas precisem de algumas dessas criaturas, vêm solicitá-las nesse prédio.
Nicole adorou aquela arquitetura inusitada. Podia imaginar-se andando nas ruas e olhando espantada para uma variedade muito maior de criaturas do que na Cidade de Esmeralda. Eu quero ir lá, disse para si mesma. Quero ver...
Pediu para a Águia movimentar a plataforma diretamente sobre uma das grandes cúpulas verdes.
— O interior desta cúpula é semelhante ao da Cidade de Esmeralda? — perguntou Nicole.
— Não. A escala é completamente diferente... O reino das octoaranhas em Rama era um microcosmo comprimido. As funções, normalmente separadas nos seus planetas por centenas de quilômetros de distância, devido às limitações de espaço, tiveram de ser localizadas mais ou menos na mesma área... Nas colônias avançadas dos genes das octoaranhas, por exemplo, as formas alternativas não vivem em uma comunidade fora da cidade, e sim em um planeta completamente diferente.
Nicole sorriu. Um planeta cheio de octoaranhas alternativas. Devia ser uma visão e tanto, pensou.
— ...Esta cidade específica abriga mais de dezoito milhões de octoaranhas, considerando todas as diferentes variações morfológicas — continuou a Águia. — É também a capital administrativa deste planeta. Dentro de seus portões vivem dez bilhões de criaturas, que representam cinqüenta mil espécies... Em extensão, a cidade equivale mais ou menos a Los Angeles ou a qualquer grande área urbana da sua Terra...
A Águia continuou a dissertar sobre fatos e estatísticas da cidade das octoaranhas vista da plataforma. Mas Nicole pensava em outra coisa.
— Archie viveu aqui? — perguntou, interrompendo o monólogo enci-clopédico do seu companheiro alienígena. — Ou o dr. Azul ou qualquer das octoaranhas que nós conhecemos?
— Não — respondeu a Águia. — Na verdade, elas nem vieram deste planeta ou desse sistema estelar... As octoaranhas de Rama vieram da chamada "colônia de fronteira", especialmente projetada em termos genéticos para intercambiar com outras formas de vida inteligentes...
Nicole sacudiu a cabeça e sorriu. É claro, eu devia ter suposto que elas eram especiais, disse para si mesma.
Estava ficando cansada. Depois de alguns minutos, agradeceu à Águia e disse que já vira o suficiente da cidade das octoaranhas. Em um instante, as cúpulas, a estrutura marrom de teias trançadas e o mar verde-escuro desa-pareceram, e a Águia reconduziu a plataforma para o alto da imensa sala.
Abaixo de Nicole, a Via-Láctea limitava-se a um pequeno espaço no centro da sala.
— O universo é uma seqüência de vizinhanças e vácuos em permanente expansão — dizia a Águia. — Veja o vazio em volta da Via-Láctea. Com exceção das duas Nuvens de Magalhães, que não são realmente classificadas como galáxias, Andrômeda é nossa vizinha galática mais próxima, embora esteja muito distante. A maior distância da Via-Láctea em toda a sua extensão é apenas um vigésimo da distância até Andrômeda.
Nicole não estava pensando em Andrômeda. Estava tomada de pensa-mentos filosóficos sobre a vida e os diferentes mundos, sobre as cidades e sobre o provável alcance das criaturas feitas de simples átomos que haviam evoluído, com ou sem a ajuda de seres superiores, até se tornarem seres conscientes. Ela saboreava aquele momento, sabendo que muito em breve não estaria mais imaginando coisas que tanto haviam enriquecido sua vida.