A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 47 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 3

Bateu na porta, que se abriu imediatamente. Cinco rostos sorridentes a saudaram.

— Bem-vinda ao Grande Hotel — disse Max com um grande sorriso e os braços abertos. — Entre para dar um abração neste fazendeiro de Arkansas.

Nicole sentiu uma mão na sua assim que entrou no quarto.

— Alô, mãe — disse Ellie.

Nicole virou-se e olhou para sua filha caçula. Suas têmporas estavam grisalhas, mas seus olhos estavam mais claros e brilhantes do que nunca.

— Alô, Ellie — disse Nicole, as lágrimas caindo. Aquelas lágrimas não seriam as últimas que derramaria durante as várias horas de reunião.

 

3

 

O quarto deles era quadrado, com aproximadamente sete metros de lado. Na parede dos fundos ficava a porta do banheiro, com pia, chuveiro e vaso sanitário. Ao lado do banheiro havia um grande closet aberto, para todas as roupas e pertences. Na hora de dormir, eles espalhavam colchonetes no chão, que eram dobrados no dia seguinte.

Na primeira noite, Nicole dormiu entre Ellie e Nikki; Max, Eponine e Marius dormiram do outro lado do quarto, onde ficavam a mesa e as seis cadeiras, únicos móveis existentes. Nicole estava tão exausta que adormeceu imediatamente, antes que as luzes se apagassem e todos tivessem terminado de ajeitar os colchões. Depois de um sono pesado de cinco horas, Nicole acordou de repente, sem saber onde estava.

Deitada no escuro, Nicole ficou pensando nos acontecimentos da noite anterior. Durante a reunião, ela ficara tão tomada pela emoção que não teve tempo de estudar suas reações ao que estava vendo e ouvindo. Logo depois de sua chegada, Nikki foi buscar os outros no quarto ao lado. Nas duas horas seguintes havia onze pessoas reunidas ali, pelo menos três a quatro falando ao mesmo tempo. Nicole conversou ligeiramente com cada uma delas, mas não conseguiu discutir nada de mais profundo com ninguém.

Os quatro jovens — Kepler, Marius, Nikki e Maria — foram muito arredios. Maria, com seus lindos olhos azuis contrastando com a pele cor de cobre e os cabelos pretos, tinha agradecido gentilmente a Nicole por ter salvo sua vida, e disse a ela que não se lembrava de nada do que acontecera antes de dormir. Nikki ficou nervosa no tête-à-tête com sua avó. Nicole percebeu sinais de medo no olhar dela, mas Ellie disse mais tarde que provavelmente o que ela sentia era respeito por aquela avó sobre quem contavam tantas histórias e que certamente a considerava uma verdadeira lenda viva.

Os dois rapazes foram gentis, mas bastante reservados. A certa altura, Nicole notou que Kepler olhava para ela com grande intensidade, e lembrou-se de que era a primeira velha que eles viam. Os rapazes, em especial, têm dificuldade com velhas encarquilhadas. Isso corta a fantasia deles sobre os membros do sexo oposto, pensou ela.

Benjy deu as boas-vindas a Nicole com um grande abraço. Levantou-a do chão com seus braços fortes, girou-a no ar em círculos e gritou de alegria: "Ma-mãe! Ma-mãe!" Ele parecia muito bem, mas para sua surpresa estava ficando um pouco careca e parecia definitivamente mais velho. Mais tarde, ela disse para si mesma que não devia ter se surpreendido, pois Benjy já estava perto dos quarenta anos.

Patrick e Ellie a receberam calorosamente. Ellie parecia cansada, mas ex-plicou que seu dia tinha sido muito trabalhoso. Estava fazendo um trabalho no Grande Hotel para estimular a atividade social entre as espécies.

— É o mínimo que posso fazer — disse ela —, pois sei falar a língua das octoaranhas... Espero que você me dê uma mão assim que estiver mais forte.

Patrick contou a Nicole que estava preocupado com Nai.

— Essa situação do Galileu está acabando com ela. Nai está furiosa por-que os cabeças de bloco, como são chamados, retiraram Galileu das suas acomodações normais sem muita explicação e sem fazer nenhum processo ou coisa semelhante. E também está irritada por não poder passar mais que duas horas por dia com ele... Tenho certeza de que vai pedir ajuda a você.

Nai estava mudada. Seus olhos não denotavam mais aquele brilho e sua-vidade, e suas observações eram negativas.

— Estamos vivendo aqui o pior tipo de estado policial. Bem pior do que no tempo de Nakamura. Depois que você se organizar, tenho muitas coisas para lhe contar — disse ela.

Max Puckett e sua adorável francesinha Eponine tinham envelhecido como todos os demais, mas o amor que sentiam um pelo outro e pelo filho Marius os sustentava dia a dia. Eponine deu de ombros quando Nicole perguntou se aquela vida amontoada não a incomodava.

— Não muito — respondeu ela. — Eu vivi num orfanato em Limoges quando era criança... Além do mais, estou contente por estar viva e ter Max e Marius. Durante anos, achei que não viveria o suficiente para ver meus cabelos embranquecerem.

Max continuava aquele mesmo ser irrefreável. Seu cabelo também estava grisalho e ele andava com menos segurança, mas dava para perceber que apreciava a vida.

— Tem um sujeito que eu vejo regularmente na sala de fumo que é um grande admirador seu... Ele escapou da peste, mas a mulher dele não... — disse Max com seu riso irônico. — Eu queria que vocês dois se encontrassem assim que você tiver algum tempo livre... Ele é um pouco mais moço, mas acho que isso não faz nenhuma diferença...

Nicole perguntou a Max se havia problemas entre os humanos e as octoaranhas.

— Embora a guerra tenha ocorrido há uns quinze ou dezesseis anos, como você sabe — respondeu ele —, os humanos ainda guardam lembranças muito vividas daquele tempo. Todos aqui perderam alguém, um amigo, um parente ou um vizinho, naquela peste. E eles não conseguem se esquecer de que a peste foi causada pelas octoaranhas.

— Em reação à agressão dos exércitos dos humanos — disse Nicole.

— Mas a maioria não vê as coisas assim. Talvez eles acreditem na propaganda de Nakamura e não na história oficial da guerra apresentada pela Águia logo depois que fomos trazidos para cá... A verdade é que muitos humanos detestam e temem as octoaranhas. Apenas cerca de vinte por cento das pessoas tentam aproximar-se socialmente, apesar dos esforços de Ellie, ou aprender alguma coisa sobre elas. A maioria fica no seu raio... Infelizmente, as acomodações superlotadas não ajudam a aliviar esse problema.

Nicole rolou na cama. Sua filha Ellie dormia virada para o seu lado, com os olhos contraídos. Ela está sonhando, pensou Nicole. Espero que não seja com Robert... E pensou de novo no encontro com sua família e seus amigos... Acho que a Águia sabia o que estava fazendo quando me manteve viva. Mesmo que não haja nada específico para eu fazer... Enquanto não me tomar uma inválida ou uma carga, posso ser útil aqui...

 

— Essa vai ser sua primeira grande experiência no Grande Hotel — disse Max para Nicole. — Toda vez que vou à lanchonete me lembro daquele Dia da Fartura na Cidade de Esmeralda... Aquelas criaturas estranhas que vieram com as octoaranhas podem ser fascinantes, mas é muito melhor quando elas não estão por perto.

— Você não pode esperar até chegar o nosso horário? — perguntou Marius. — Os iguanas assustam Nikki. Eles nos olham com aqueles olhos amarelos e fazem um ruído repulsivo quando estão comendo.

— Filho — disse Max —, se você e Nikki quiserem, podem esperar com os outros até a hora do almoço em separado. Nicole quer comer com todos os residentes. É uma questão de princípio para ela... Sua mãe e eu vamos acompanhá-la para ela aprender a rotina da lanchonete.

— Não se preocupe comigo — falou Nicole. — Estou certa de que Patrick ou Ellie...

— Bobagem — interrompeu Max. — Eponine e eu teremos o maior prazer em acompanhar você... Além do mais, Patrick saiu com Nai para ver Galileu, Ellie está na sala de recreação e Benjy está lendo com Kepler e Maria.

— Obrigada pela sua compreensão, Max — falou Nicole. — É importante para mim fazer a coisa certa, especialmente no começo... A Águia e o dr. Azul não me deram detalhes dos problemas...

— Não precisa explicar. Na verdade, depois que você foi dormir ontem à noite, eu disse para a francesinha que tinha certeza de que você ia querer se misturar com todos — disse ele, dando uma risada. — Não se esqueça de que nós a conhecemos muito bem.

Eponine chegou e eles foram até o átrio, que estava quase vazio. Algumas pessoas andavam no corredor à esquerda, longe do centro da Estrela do Mar, e um homem e uma mulher estavam juntos na entrada do raio.

Os três esperaram uns três minutos pelo transporte. Quando estavam perto da última parada, Max chegou perto de Nicole e disse:

— Aquelas duas pessoas na entrada do raio não estavam só passando o tempo... São grandes ativistas do Conselho... Muito opinativos e insistentes.

Nicole pegou no braço de Max ao desembarcarem.

— O que eles querem? — perguntou baixinho, quando viu o casal aproximar-se.

— Não sei — respondeu Max —, mas logo vamos saber.

— Boa tarde, Max... Alô, Eponine — disse o homem, de seus quarenta anos. Olhou para Nicole e deu um sorriso de político. — A senhora deve ser Nicole Wakefield — disse, aprontando-se para um aperto de mão. — Nós ouvimos falar tanto da senhora... Bem-vinda... Bem-vinda... Eu sou Stephen Kowalski.

— E eu, Renée du Pont — disse a mulher, estendendo a mão para Nicole.

Depois de trocar algumas amabilidades, o sr. Kowalski perguntou a Max o que eles estavam fazendo ali.

— Vamos levar a sra. Wakefield para almoçar — respondeu Max sim-plesmente.

— É o horário comunitário — comentou o homem com um sorriso. — Se esperarem uns quarenta e cinco minutos, Renée e eu iremos com vocês... Nós fazemos parte do Conselho, como você sabe, e gostaríamos muito de conversar com a sra. Wakefield sobre nossas atividades...

— Obrigado pela sugestão, mas estamos com fome. Queremos comer logo — respondeu Max.

O sr. Kowalski franziu as sobrancelhas.

— Eu não faria isso se fosse você, Max. Há muita tensão por aí agora... Depois daquele incidente de ontem na piscina, o Conselho votou por una-nimidade o boicote a todas as atividades coletivas nos próximos dois dias... Emily ficou especialmente enraivecida porque o Grande Bloco mandou prender Garland e não tomou qualquer iniciativa contra a octoaranha. Esta é a quarta vez consecutiva que os cabeças de bloco vão contra nós.

— Essa não, Stephen — disse Max. — Ouvi essa história ontem na hora do jantar... Garland ficou na piscina quinze minutos depois do nosso horário especial... Foi ele quem investiu contra a octoaranha.

— Foi uma provocação deliberada — disse Renée du Pont. — Havia só três octoaranhas na piscina... Não era preciso que uma delas entrasse na faixa em que Garland estava nadando.

— Além do mais — acrescentou Stephen —, como foi discutido no Conselho na noite passada, o que nos preocupa não são os detalhes desse incidente específico. É preciso que os cabeças de bloco e as octoaranhas saibam que estamos unidos como espécie... O Conselho vai convocar uma sessão especial para hoje à noite, a fim de fazer uma lista de agravos...

Max estava ficando irritado.

— Obrigado pela informação, Stephen — disse ele bruscamente. — Agora nos deixe passar, porque queremos almoçar.

— Você está cometendo um erro — disse o sr. Kowalski. — Será o único humano na lanchonete... E vamos relatar essa conversa na reunião do Conselho hoje à noite.

— Vá em frente — falou Max.

Max, Eponine e Nicole entraram no corredor principal que formava um anel em volta do centro da Estrela do Mar.

— O que é o Conselho? — perguntou Nicole.

— Um grupo que se auto-elegeu para representar todos os humanos — respondeu Max. — No início eles eram apenas inconvenientes, mas nos últimos meses têm começado a exercer algum poder... Chegaram a recrutar a pobre Nai para sua organização em troca de solucionarem o problema de Galileu.

O grande bonde parou uns vinte metros à direita e dois iguanas desem-barcaram. Dois robôs-blocos que estavam parados discretamente de um lado atravessaram o corredor entre os humanos e os estranhos animais de dentes ameaçadores. Quando os iguanas passaram, Nicole lembrou-se da cerimônia do Dia da Fartura, quando Nikki foi atacada.

— Por que os iguanas andam por ali? — perguntou Nicole. — Eu pensava que eles fossem muito agressivos...

— O Grande Bloco e a Águia explicaram em assembléias para os huma-nos, em duas ocasiões distintas, que os iguanas são essenciais para a produção da planta barrican, sem a qual as octoaranhas entram em parafuso... Eu não segui todos os detalhes da explicação biológica, mas lembro que os ovos frescos do iguana são um elo vital no processo... A Águia enfatizou várias vezes que só pouquíssimos iguanas haviam sido admitidos aqui no Grande Hotel.

Os três estavam perto da entrada da lanchonete.

— Os iguanas causaram muitos problemas? — perguntou Nicole.

— Não muitos — respondeu Max. — Eles podem ser perigosos, como você sabe, mas, se deixarmos de lado as besteiras que o Conselho conta, chegamos à conclusão de que muito poucas vezes os iguanas atacaram sem serem provocados... Em geral, as brigas são começadas pelos humanos... Nosso amigo Galileu matou dois iguanas uma noite na lanchonete durante uma de suas crises de violência.

Max notou a reação de Nicole ao seu comentário.

— Não quero que isso pareça fofoca de colégio —- continuou Max —, mas esse caso do Galileu realmente destruiu a família... Eu prometi a Eponine que deixaria você falar com Nai sobre isso primeiro.

Os robôs-blocos menores eram construídos no mesmo modelo do Grande Bloco. Uns doze serviam na lanchonete, e mais uns seis a oito ficavam de pron-tidão na área de refeições. Quando Nicole e seus amigos entraram, umas cinco octoaranhas, inclusive duas repletas gigantes, e umas oitenta midgets, que comi-am em um canto do chão, já estavam na lanchonete. Algumas viraram-se para ver Nicole, Max e Eponine passando pela fila. Uns doze iguanas sentados perto da fila de servir pararam de comer e ficaram espreitando os humanos.

Nicole ficou surpresa com a grande variedade de alimentos. Escolheu um pouco de peixe e batatas, umas frutas das octoaranhas e o mel com sabor de laranja para passar no pão.

— De onde vêm todos esses alimentos frescos? — perguntou, quando se sentaram à mesa desocupada.

Max apontou.

— Há um segundo andar na Estrela do Mar. Toda essa comida é plantada lá... Nós comemos muito bem, embora o Conselho tenha reclamado da falta de carne.

Nicole deu umas colheradas na comida.

— Acho que deveria lhe dizer — falou Max debruçando-se sobre a mesa — que duas octoaranhas estão vindo na nossa direção.

Nicole virou-se e viu as octoaranhas aproximando-se. Com o canto dos olhos viu também o Grande Bloco correndo para a mesa.

— Alô, Nicole — disse uma da octoaranhas em cores. — Eu era assistente do dr. Azul no hospital da Cidade de Esmeralda... Quero lhe dar as boas-vindas e agradecer a ajuda que você nos deu...

Nicole tentou reconhecer a octoaranha.

— Desculpe — disse, num tom amigável —, mas não estou conseguindo localizar você...

— Você me chamava de Leitosa — disse a octoaranha —, porque naquela época eu estava me recuperando de uma operação na lente e tinha muito líquido branco...

— Ah, agora me lembrei, Leitosa — disse Nicole com um sorriso. — Nós não tivemos uma longa discussão, um dia no almoço, sobre a velhice? Se não me engano, você teve dificuldade em acreditar que nós humanos continuamos a viver mesmo que não sejamos mais úteis, até morrermos por algum motivo natural...

— Isso mesmo — respondeu Leitosa. — Bem, não quero perturbar seu jantar, mas esta minha amiga queria muito conhecer você.

— E também lhe agradecer — disse a companheira de Leitosa — por ter sido tão justa em tudo... O dr. Azul disse que você foi um exemplo para todas nós...

Outras octoaranhas começaram a levantar-se de onde estavam e a fazer fila por trás daquelas duas. As cores para "obrigado" eram visíveis em todas as cabeças. Nicole ficou profundamente comovida. Por sugestão de Max, levantou-se e falou para todas as octoaranhas.

— Obrigada — disse ela — por essa calorosa acolhida. Fiquei muito contente... Espero ter oportunidade de falar com cada uma de vocês enquanto estivermos morando aqui.

Nicole olhou à direita da fila das octoaranhas e viu Ellie e Nikki.

— Vim assim que pude — disse Ellie, aproximando-se para beijar sua mãe. — Eu devia saber... — acrescentou com um sorriso, dando um grande abraço em Nicole. — Eu te amo, mamãe. E senti muito a sua falta.

 

— Eu expliquei para o Conselho — falou Nai — que você tinha acabado de chegar e não sabia bem o significado do boicote. Acho que eles ficaram satisfeitos.

Nai abriu a porta e Nicole seguiu-a até a lavanderia. Usando as lavadoras e secadoras do Novo Éden como base, os alienígenas, que tinham adaptado o Grande Hotel às pressas, haviam construído a lavanderia perto da lanchonete. Nai resolveu usar as máquinas do lado oposto para poder ter uma conversa em particular com Nicole.

— Pedi para você vir comigo hoje — disse Nai, enquanto começava a separar as roupas — porque quero lhe falar sobre Galileu... — disse, hesitante. — Desculpe, Nicole, mas meus sentimentos sobre este assunto são muito fortes... Não estou certa se...

— Tudo bem, Nai — disse Nicole suavemente. — Eu compreendo... Lembre-se de que também sou mãe...

— Estou desesperada, Nicole — continuou Nai. — Preciso da sua ajuda... Nada na minha vida, nem mesmo a morte de Kenji, me afetou tanto quanto esta situação... Estou morrendo de aflição por meu filho... Nem mesmo a meditação tem me dado paz.

Nai tinha dividido as roupas em três pilhas. Colocou uma delas na má-quina e voltou para onde estava Nicole.

— Olhe, eu sou a primeira a admitir que Galileu não teve um comporta-mento perfeito... Depois do longo sono, quando fomos trazidos para cá, ele ficou muito lento... Não participava das aulas que Patrick, Ellie, Eponine e eu dávamos para as crianças, e quando participava não fazia os deveres de casa... Galileu tornou-se difícil e desagradável com todos, menos com Maria. Ele nunca expôs seus sentimentos para mim... A única coisa de que gostava era ir para a sala de recreação fazer exercícios de musculação... Aliás, ele tornou-se muito orgulhoso da sua força física.

Nai fez uma pausa.

— Galileu não é uma má pessoa, Nicole — disse ela, como que se des-culpando. — Ele está apenas confuso... Ficou dormindo durante dezesseis anos e acordou aos vinte e um anos de idade, com o corpo e os desejos de um rapaz...

Seus olhos encheram-se de lágrimas, e depois de um instante continuou, com dificuldade.

— Como podiam esperar que ele agisse de outra forma... — Nicole es-tendeu os braços para consolar Nai, mas ela se esquivou. — Eu tentei, mas não consegui ajudar meu filho. Não sei o que fazer... e estou com medo de que seja tarde demais.

Nicole lembrou-se das suas noites de insônia no Novo Éden, quando vivia chorando por causa de Katie.

— Eu compreendo, Nai. Compreendo mesmo.

— Uma vez, só uma vez — continuou Nai —, percebi uma fresta naquele exterior tão frio do qual Galileu tanto se orgulha... Foi no meio da noite, depois do problema com Maria, quando ele voltou da sua sessão com o Grande Bloco. Estávamos juntos no corredor, só nós dois, e ele começou a chorar e a bater na parede... "Eu não queria machucar Maria, mãe; acredite em mim", ele gritava, "eu amo a Maria... Só que não consegui me controlar..."

— O que aconteceu com Galileu e Maria? — perguntou Nicole quando Nai parou de falar por um instante. — Não ouvi nada sobre isso.

— Oh — disse Nai surpresa —, eu estava certa de que alguém já tinha contado esse episódio para você. Max disse um dia que Galileu tentou estuprar Maria, e que só não conseguiu porque Benjy voltou para o quarto e arrastou-o para fora... Mais tarde, Max admitiu que exagerou quando usou a palavra estuprar, mas que Galileu tinha definitivamente saído da linha... Meu filho disse que Maria o tinha encorajado, pelo menos no início, e que eles estavam no chão se beijando... Segundo Galileu, Maria estava no maior entusiasmo até a hora em que ele começou a tirar suas calcinhas... Foi aí que começou a briga...

Nai tentou acalmar-se.

Nai sacudiu a cabeça.

— Agora me diga, Nicole, como é possível uma menina de dezesseis anos que só passou dois anos da sua vida acordada ser assim tão sofisticada? Acho que Max e Eponine andaram lhe dizendo como ela deveria agir. Maria quis me humilhar e fazer Galileu sofrer o máximo possível. E conseguiu.

— Sei que não parece provável — falou Nicole pela primeira vez depois de longo tempo —, mas conheci gente que sabe desde cedo, intuitivamente, lidar com qualquer tipo de situação. Talvez Maria seja assim.

Nai ignorou seu comentário.

— O encontro correu bem, Galileu foi cooperativo, e Maria aceitou as desculpas que ele tinha mandado por escrito. Nas semanas seguintes, ela passou a incluir Galileu nas atividades dos jovens... Mas ele continuou como um estranho no grupo, dava para notar. E acho que ele também notou isso. Então um dia, quando os cinco estavam sentados na lanchonete, dois iguanas sentaram-se do outro lado da mesa. Nós tínhamos comido mais cedo e já estávamos em casa. Segundo Kepler, os iguanas agiram de propósito de forma repulsiva. Baixaram a cabeça na tigela, chuparam ruidosamente aqueles vermes nojentos e depois ficaram olhando para as meninas, especialmente para Maria, com os olhos amarelos em forma de contas. Nikki comentou que tinha perdido a fome, e Maria concordou com ela. De repente, Galileu levantou-se, deu uns passos na direção dos iguanas e tentou enxotá-los de lá, mas elas não se mexeram. Ele deu mais um passo e um deles pulou-lhe em cima. Galileu sacudiu-a com toda a sua força e torceu-lhe o pescoço. Então a outra atacou, enfiando seus dentes afiados no braço dele. Quando os cabeças de bloco chega-ram para apartar a briga, Galileu tinha matado o iguana, de tanto bater com ele no tampo da mesa.

Nai parecia surpreendentemente calma quando terminou a história.

— Eles levaram Galileu, e três horas depois o Grande Bloco veio ao nosso quarto informar que meu filho ficaria detido em outra parte da nave espacial. Quando perguntei por quê, o Grande bloco me deu a mesma resposta que me dá até hoje: "Nós concluímos que o comportamento do seu filho não é aceitável."

Novamente os sininhos tocaram, mostrando que o ciclo de secagem estava completo. Nicole ajudou Nai a dobrar as roupas na mesa comprida.

— Só posso ver Galileu duas horas por dia — disse Nai. — Embora ele seja orgulhoso demais para se queixar, sei que está sofrendo... O Conselho incluiu o nome do meu filho na lista dos cinco humanos retidos sem justificativa, mas não sei se os cabeças de bloco têm levado a sério essas queixas.

Nai parou de dobrar as roupas e pôs a mão no braço de Nicole.

— É por isso que estou pedindo sua ajuda — disse ela. — Na hierarquia alienígena, a Águia está acima do Grande Bloco, e é óbvio que ela presta atenção ao que você diz... Será que você conversaria com ela sobre Galileu?