A Revelação de Rama
Capítulo 11
Tinham conversado durante duas horas, depois se beijado um pouco antes de Nai ir, sozinha, para seu quarto. Patrick já retomara sua leitura sobre budismo quando Nai lhe disse boa noite da porta do quarto.
Como é difícil, pensou Nai, quando a luz do vaga-lume irrompeu na cidade das octoaranhas, explicar a relevância do budismo a alguém que nunca viu a Terra... Mas mesmo aqui, neste estranho mundo alienígena entre as estrelas, o desejo ainda causa sofrimento, e os seres vivos ainda buscam paz espiritual. É por isso que alguns elementos do budismo, do cristianismo e das outras grandes religiões da Terra durarão enquanto houver seres humanos em algum lugar.
11
Richard saiu da cama com mais entusiasmo do que de costume, e começou a tagarelar com Nicole.
— Deseje-me boa sorte — disse, enquanto se vestia. — Archie disse que nós vamos ficar fora o dia inteiro.
Nicole, que era sempre lenta para acordar e detestava atividades frenéticas de qualquer espécie nas primeiras horas da manhã, rolou na cama e tentou aproveitar seus últimos momentos de descanso. Abriu um olho ligeiramente, viu que ainda estava escuro e fechou-o de novo.
— Não me sinto tão animado assim desde que terminei aquelas duas últimas peças do tradutor — disse Richard. — Sei que as octoaranhas pensam seriamente em me pôr para trabalhar... Só estão tentando encontrar a coisa certa para mim.
Ele saiu do quarto e demorou alguns minutos. Pelos ruídos na cozinha, Nicole, ainda meio adormecida, percebeu que Richard estava preparando seu café. Logo voltou, comendo uma das grandes frutas rosadas de que tanto gostava, e ficou ao lado da cama, chupando a fruta ruidosamente.
Nicole abriu os olhos aos poucos e olhou para o marido.
— Imagino — disse ela suspirando — que você esteja esperando que eu diga alguma coisa.
— Estou — falou Richard. — Gostaria que você dissesse algumas coisas gentis antes de eu ir embora. Afinal de contas, esse pode ser o dia mais importante da minha vida desde que chegamos à Cidade de Esmeralda.
— Você tem certeza — disse Nicole — de que Archie pretende lhe arranjar um trabalho?
— Absoluta — respondeu Richard. — Essa é a finalidade do nosso en-contro hoje. Ele vai me mostrar alguns dos sistemas mais complexos de engenharia e tentar avaliar onde meus conhecimentos poderão ser usados... Pelo menos foi isso que me disse ontem.
— Mas por que você está indo tão cedo? — perguntou Nicole.
— Porque tenho de ver muita coisa, acho eu... De qualquer forma, me dê um beijo. Ele vai chegar daqui a pouco.
Nicole beijou Richard obedientemente e fechou os olhos de novo. O Banco de Embriões era um edifício grande, retangular, localizado no extremo sul da Cidade de Esmeralda, bem perto de onde terminava a Planície Central. A menos de um quilômetro do banco havia um conjunto de três escadas, cada qual com dezenas de milhares de degraus, que subiam para o cilindro do pólo sul. Acima do Banco de Embriões, quase na escuridão de Rama, surgiam as estruturas imponentes do Grande Chifre com seus seis acólitos pontudos, maiores do que qualquer construção de engenharia do planeta Terra.
Richard e Archie haviam montado num emassauro nas imediações da Cidade de Esmeralda, e, acompanhados de três vaga-lumes, passaram pelo Domínio Alternativo em uma questão de minutos. Na parte sul do reinado das octoaranhas havia poucos prédios. Apesar de algumas plantações ocasionais de cereais, Richard notou que a maior parte da área meridional pela qual eles viajavam assemelhava-se, mesmo naquela luz mortiça, ao Hemicilindro Norte de Rama II antes da construção dos dois habitats.
Richard e seu amigo octoaranha entraram no Banco de Embriões por duas portas muito grossas que os levaram diretamente a uma grande sala de conferências. Lá Richard foi apresentado a várias outras octoaranhas, que obviamente esperavam por ele. Richard usou seu tradutor e as octos leram seus lábios, embora ele tivesse de falar devagar e pronunciar bem as palavras, pois essas octoaranhas não eram tão experientes na língua dos humanos quanto Archie.
Depois de breves formalidades, uma das octoaranhas levou os dois para uma série de painéis de controle que alojavam o equivalente a teclados feitos com as faixas coloridas das octos.
— Temos quase dez mil embriões armazenados aqui — disse a octoaranha-chefe como introdução —, que representam mais de cem mil espécies distintas, e três vezes esse mesmo número de híbridos. Suas durações naturais de vida variam de meio tert a vários milhões de dias, ou seja, cerca de dez mil anos humanos. Seus tamanhos em adultos variam de uma fração de nanômetro a colossos quase tão grandes quanto este prédio. Cada embrião é armazenado no que acreditamos serem as condições quase ideais para sua preservação. Porém, na realidade, só cerca de mil ambientes distintos, combinações de temperatura, pressão e químicas ambientais são necessários para abranger a variedade de condições exigidas. O prédio também aloja um imenso sistema de gerenciamento de dados e monitoração. Esse sistema rastreia automaticamente as condições em cada um dos ambientes distintos e monitora o início do desenvolvimento dos milhares de embriões que estão sempre em germinação ativa. O sistema possui mecanismos de detecção e correção automática de erros, uma estrutura de parâmetro dual de advertência, e também dirige a projeção de informações de status e de catálogo tanto para estas paredes como para as de qualquer área de pesquisa nos andares de cima.
O cérebro de Richard entrou em aceleração quando ele começou a com-preender mais claramente o objetivo do Banco de Embriões. Que conceito fan-tástico, pensou. As octoaranhas armazenam aqui todas as sementes de outras plantas ou espécies animais que possam vir a servir para qualquer finalidade.
— ...Os testes são contínuos — dizia a octoaranha —, para assegurar a integridade dos sistemas de armazenamento e preservação e fornecer espécimes para as atividades de engenharia genética. Cerca de duzentos biólogos octoaranhas estão permanentemente ocupados com experiências genéticas aqui. A meta dessas experiências é produzir formas de vida alteradas que possam aprimorar a eficiência da nossa sociedade...
— Pode me mostrar um exemplo de experiência genética? — interrompeu Richard.
— Certamente — replicou a octoaranha, dirigindo-se ao painel de controle e usando três tentáculos para apertar uma seqüência de botões coloridos. — Creio que o senhor conhece um de nossos métodos fundamentais de geração de energia — disse a octo quando um vídeo foi projetado na parede. — O princípio básico é bem simples, como o senhor sabe. As criaturas marinhas circulares geram e armazenam uma carga eletrônica em seu corpo. Nós captamos essa carga em uma rede de arame, contra a qual os animais têm de se comprimir para pegar seu suprimento alimentar. Embora esse sistema seja bastante satisfatório, nossos engenheiros observaram que ele pode ser substancialmente aprimorado se o comportamento da criatura sofrer umas tantas alterações.
— Olhe esse close-up em movimento rápido de meia dúzia de criaturas marinhas geradoras de energia. Note que durante esse breve filme cada uma das criaturas passará por três a quatro ciclos de carga-descarga. Que aspecto desses ciclos seria de maior interesse para um engenheiro de sistemas?
Richard observou o vídeo cuidadosamente. As criaturas ficam opacas depois de sua descarga, refletiu, mas voltam ao seu brilho original em um intervalo de tempo relativamente curto.
— Partindo do princípio de que o brilho é uma medida de carga armaze-nada — disse Richard de repente, como se estivesse sendo submetido a uma espécie de teste —, o sistema poderia ser mais eficiente se fosse aumentada a freqüência da alimentação.
— Exatamente — respondeu o chefe das octoaranhas.
Archie passou uma mensagem rápida para a octoaranha hospedeira, que foi completada antes que Richard tivesse chance de usar o telescópio do seu tradutor. Nesse meio-tempo, uma imagem diferente apareceu na parede.
— Aqui estão três variantes genéticas da criatura marinha circular, que estão atualmente sendo testadas e avaliadas. O principal candidato à substitui-ção é o da direita. Esse protótipo come com o dobro de freqüência que o componente atualmente em uso; mas ele tem um desequilíbrio metabólico que aumenta significativamente sua suscetibilidade a doenças contagiosas. Todos esses fatores estão sendo pesados na presente avaliação...
Richard foi levado de uma demonstração a outra, sempre acompanhado de Archie. Mas para cada demonstração havia um grupo de especialistas octoa-ranhas preparados para uma minipalestra e um grupo para as discussões que se seguiam. Uma das apresentações focalizou a relação entre o Banco de Embriões, o grande zoológico que ocupava uma considerável área no Domínio Alternativo, e a barreira de florestas que formava uma cinta completa em torno de Rama, pouco menos de um quilômetro ao norte da Cidade de Esmeralda.
— Todas as espécies vivas do nosso reino — disse o apresentador — estão em simbiose ativa, observação temporária em um domínio isolado (no zôo, na floresta ou, no seu caso específico, na própria Cidade de Esmeralda), ou então estão sendo submetidas a experiências aqui no Banco de Embriões.
Depois de uma longa caminhada por vários corredores, Richard e Archie se reuniram a meia dúzia de octoaranhas, que estavam avaliando uma reco-mendação de substituição de toda uma cadeia simbiótica de quatro espécies diferentes. Essa cadeia era responsável pela produção de uma substância gelatinosa que melhorava consideravelmente uma doença comum na lente das octoaranhas. Richard ouviu fascinado quando os parâmetros do teste da nova simbiose proposta (recursos consumidos, taxas de reprodução, interações necessárias com as octoaranhas, coeficientes de erros e previsão de comportamento) foram comparados com o sistema existente. Terminada a reunião, decidiu-se que em uma das três zonas de fabricação a nova simbiose seria instalada durante várias centenas de dias operacionais, ao fim dos quais a decisão seria reconsiderada.
No meio do dia de trabalho, Archie e Richard foram deixados sozinhos durante meio tert. A pedido de Richard, os dois apanharam seus almoços e bebidas, voltaram a montar no emassauro, recrutaram um par de vaga-lumes e deram uma volta pela fria e escura planície Central. Quando Richard desmontou, deu uma caminhada com os braços estendidos e olhou para a vastidão de Rama.
— Quem entre vocês se preocupa ou tenta imaginar o significado de tudo isso? — perguntou ele a Archie, movendo os braços em círculo.
A octoaranha respondeu que não tinha compreendido a pergunta.
— Entendeu sim, seu hipócrita — disse Richard sorrindo. — Só que esse intervalo que estamos tendo foi reservado pelos seus otimizadores para um tipo diferente de conversa entre nós... O que eu quero discutir, Archie, não é em que departamento específico de engenharia do seu Banco de Embriões eu gostaria de trabalhar para poder dar a contribuição que justifique os recursos necessários para a minha manutenção... O que eu quero perguntar a você é o que está acontecendo realmente aqui. Por que nós todos — humanos, sésseis, aves e vocês com toda a sua coleção de animais — estamos a bordo desta imensa e misteriosa nave espacial com destino à estrela que os humanos chamam de Tau Ceti?
Archie se manteve calado por uns trinta segundos.
— Foi dito aos membros da nossa espécie, enquanto eles estavam em Nodo, como você esteve, que uma inteligência superior está catalogando formas de vida na galáxia, com ênfase especial para os viajantes do espaço. Nós montamos uma típica colônia, como nos foi exigido, e a estabelecemos dentro desta Rama, para que pudessem ser realizadas observações detalhadas da nossa espécie.
— Então as octoaranhas não sabem nada mais sobre quem ou o quê está por trás desse grande esquema do que nós humanos sabemos?
— Não — respondeu Archie. — Na verdade, nós provavelmente sabemos menos. Nenhuma octoaranha que viveu em Nodo existe ainda na nossa colônia. Como eu já disse, aquele contingente de octoaranhas da Rama II era uma espécie diferente e inferior. A única fonte de informação de primeira mão sobre Nodo a bordo dessa nave espacial são você, sua família e os possíveis dados comprimidos que possam existir dentro daquele pequeno volume de material séssil que ainda está sendo mantido no nosso zôo.
— E fica nisso? — perguntou Richard. — Nenhum de vocês faz perguntas?
— Nós somos treinados desde jovens a não perder tempo com assuntos que não possam ter explicações significativas — respondeu Archie.
Richard ficou um instante em silêncio e depois perguntou abruptamente:
— Como você sabe tanto sobre as aves e os sésseis?
— Desculpe, Richard — disse Archie depois de uma pausa —, mas não posso falar sobre esse assunto agora... Minha obrigação durante esse nosso intervalo, como supôs, é avaliar se você gostaria ou não de trabalhar como engenheiro no Banco de Embriões; e, em caso de uma resposta positiva, saber quais das áreas vistas hoje lhe parecem mais interessantes.
— É uma droga de incumbência — disse Richard rindo. — Eu gostaria sim, Archie; tudo isso é fascinante, especialmente o que eu chamo de de-partamento de enciclopédia. Acho que preferiria trabalhar lá, pois poderia aumentar meu parco conhecimento de biologia... Mas por que está me fazendo essa pergunta agora? Nós não vamos ter mais demonstrações depois do almoço?
— Vamos — respondeu Archie. — Mas o programa desta tarde já está praticamente tomado. Praticamente metade do Banco de Embriões dedica-se à microbiologia. O gerenciamento dessa atividade é mais complexo, e envolve a comunicação com os midgets. É difícil imaginar você trabalhando em algum desses departamentos.
Por baixo do laboratório microbiológico básico havia um porão no qual só se entrava com credenciais especiais. Quando Archie mencionou que uma grande quantidade de imagens quadróides voadoras era produzida no porão do Banco de Embriões, Richard praticamente implorou para observar o processo. Sua visita oficial foi interrompida, e Richard ficou sem fazer nada durante vários fengs, enquanto Archie obtinha permissão para visitarem o viveiro dos quadróides.
Duas octoaranhas guiaram-nos por várias rampas que desciam para a área subterrânea.
— O viveiro foi construído propositalmente longe do nível do chão — disse Archie — para haver maior isolamento e proteção. Há três outros locais semelhantes espalhados por todo o nosso território.
Que incrível, disse Richard a si mesmo, enquanto ele e seus três companheiros octoaranhas chegaram a uma plataforma da qual se via, abaixo, uma grande área retangular. Seu reconhecimento foi instantâneo. Vários metros abaixo deles, cerca de cem midgets espalhavam-se pela área, executando tarefas que não identificou. Do teto pendiam oito treliças retangulares, de cinco metros de comprimento e dois metros de largura, colocadas simetricamente em volta da sala. Logo abaixo de cada uma dessas treliças via-se um grande objeto oval com a parte externa rígida. Esses oito objetos parecendo nozes colossais eram rodeados por um espesso emaranhado ou teia.
— Vi um arranjo semelhante a este há muitos anos, por baixo de Nova York. Foi antes do meu primeiro encontro pessoal com uma de suas primas. Nicole e eu ficamos assustadíssimos... — disse Richard excitado.
— Acho que li alguma coisa sobre esse incidente — replicou Archie. — Antes de trazermos Ellie e Eponine para a Cidade de Esmeralda, eu estudei todos os arquivos antigos sobre a sua espécie. Alguns dados estavam compactados, por isso não havia muitos detalhes...
— Eu me lembro desse incidente como se fosse ontem — interrompeu Richard. — Coloquei dois robôs em miniatura em um pequeno trem do metrô e eles desapareceram num túnel. Eles chegaram a uma área como esta aqui, e depois de subirem pelas teias foram capturados por uma de suas primas.
— Sem dúvida os robôs caíram em um viveiro de quadróides, e as octos agiram para proteger o viveiro. É realmente muito simples... — Archie fez um sinal para o guia-engenheiro, avisando que estava na hora da sua explicação.
— As rainhas quadróides passam os períodos de gestação em compartimentos especiais, fora do chão — disse o engenheiro octoaranha. — Toda rainha põe milhares de ovos. Depois que vários milhões de ovos são postos, eles são coletados e colocados juntos em um desses compartimentos ovais. O interior desses compartimentos é mantido a uma temperatura muito alta, que reduz notadamente o tempo de desenvolvimento dos quadróides. O espesso emaranhado em volta dos recipientes absorve o excesso de calor, tornando as condições de trabalho aceitáveis para as midgets que supervisionam o viveiro...
Richard ouvia parcialmente, mas sua atenção se fixou numa ocorrência de muitos anos atrás. Agora está tudo claro, disse para si mesmo. E aquele metrô minúsculo era destinado às midgets.
— ...A monitoração dentro dos compartimentos identifica exatamente quando os quadróides estão prontos para se agrupar. As treliças ali em cima são encharcadas com agentes químicos apropriados durante alguns fengs, antes que os recipientes ovais se abram automaticamente. As novas rainhas voam primeiro, atraídas para os elementos das treliças. Segue-se o vôo das hordas frenéticas de machos, que chegam a formar nuvens pretas, apesar de seu tamanho minúsculo. Os quadróides são colhidos da treliça e vão imediatamente para o treinamento de massa...
— Muito elegante — disse Richard. — Mas tenho uma pergunta simples. Por que os quadróides tiram todas essa fotos para vocês?
— A resposta é simples — disse Archie. — Porque elas foram trabalhadas geneticamente durante milhares de anos para nos serem receptivas. Nós, ou melhor, nossos especialistas em morfologias de midgets falam a linguagem química que os quadróides usam para se comunicar. Quando os quadróides fazem o que lhes é pedido, recebem comida. Quando seu desempenho é satisfatório durante um longo período, têm permissão de gozar os prazeres do sexo.
— De um certo grupo, ou enxame, qual a percentagem de quadróides que seguem suas ordens?
— A taxa de erro na primeira foto é de cerca de dez por cento — respondeu o engenheiro octoaranha. — Depois que o modelo é estabelecido e o ciclo de recompensa é posto em vigor, a taxa de erro cai muito.
— Muito impressionante — falou Richard em tom de elogio. — Talvez essa biologia tenha mais coisas do que jamais pensei.
Na viagem de volta para a Cidade de Esmeralda, Richard e Archie discutiram sobre as forças e fraquezas relativas dos sistemas de engenharia biológica e não-biológica. Uma conversa um tanto esotérica e filosófica, com poucas conclusões definitivas. Porém eles concordaram que a função enciclopédica, basicamente armazenagem, manipulação e apresentação de grandes quantidades de informações, era mais bem trabalhada por sistemas não-biológicos.
Quando estavam se aproximando da cidade da cúpula, o brilho verde extinguiu-se de repente. A noite caíra de novo sobre o centro do território das octoaranhas. Logo depois, mais um par de vaga-lumes apareceu para iluminar melhor o caminho do emassauro.
O dia tinha sido longo, e Richard estava cansado. Quando entraram nas imediações do Domínio Alternativo, ele teve a impressão de ver uma coisa voando à sua direita na escuridão.
— O que aconteceu com Tammy e Timmy? — perguntou.
— Eles acasalaram — respondeu Archie — e tiveram vários filhotes, que são cuidados no zôo.
— Posso vê-los? — perguntou Richard. — Você me disse uns meses atrás que um dia isso seria possível...
— Creio que sim — replicou Archie depois de um curto silêncio. — Em-bora o zôo seja uma zona restrita, a área das aves é muito próxima da entrada.
Chegando à primeira grande estrutura do Domínio Alternativo, Archie des-montou e entrou no prédio. Ao voltar, falou alguma coisa com o emassauro.
— Podemos fazer uma visita muito rápida — disse, quando o emassauro se desviou da via principal e começou a serpentear pelas faixas menores da comunidade.
Richard foi apresentado ao zelador do zoológico, que os levou em um carro ao departamento das aves, a apenas uns cem metros da entrada. Tammy e Timmy estavam ali, e reconheceram Richard imediatamente; seus matraqueamentos e guinchos de prazer encheram os céus escuros. As aves apresentaram Richard aos filhotes agrupados. Eles se mostraram muito tímidos diante do primeiro ser humano que viam. Richard sentiu uma forte emoção quando acariciou o papo aveludado de seus amigos alienígenas, e recordou-se dos dias em que era seu único protetor na toca abaixo de Nova York.
Richard despediu-se das aves e entrou no carro com Archie e o zelador do zôo. Quando estavam a meio caminho da saída, ele ouviu um som que o pôs em alerta e fez com que ficasse todo arrepiado. Richard sentou-se imóvel e se concentrou. O som repetiu-se logo antes que o carro silencioso parasse. — Posso estar enganado — falou Richard para Nicole. — Mas ouvi duas vezes. Não há nenhum outro som igual ao choro de uma criança humana.
— Não estou duvidando de você, Richard — disse Nicole. — Só estou tentando excluir pela lógica todas as outras possíveis fontes do som que você ouviu. Aves novinhas têm um guincho especial que pode parecer um pouco com o choro de um bebê... e, afinal de contas, você estava em um zôo. Pode ter sido algum outro animal.