A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 5 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 3

Ellie sorriu, mas seus olhos não disseram nada em resposta ao olhar inquiridor de sua amiga. Não posso contar nada a ela, pensou.

— A polícia também me interrogou — disse Ellie num tom despreocupado. — Várias vezes. Segundo eles, as perguntas são todas programadas para esclarecer o que chamam de irregularidades no caso da mamãe. Até mesmo Katie foi procurada pela polícia. Ela apareceu sem avisar na semana passada e disse que o adiamento da execução de mamãe foi certamente estranho.

— O irmão de minha amiga — disse Nai depois de um pequeno silêncio — disse que Nakamura suspeita de uma conspiração.

— Isso é ridículo — falou Robert. — Não há nenhuma oposição ativa ao governo em parte alguma da colônia.

Nai chegou mais perto de Ellie.

— E o que você acha que está realmente acontecendo? — perguntou baixinho. — Acha que sua mãe realmente fugiu? Ou que Nakamura mudou de idéia e executou-a em particular para que ela não se tornasse uma mártir?

Ellie olhou primeiro para o marido e depois para a amiga.

Diga a eles, diga a eles, dizia uma voz dentro dela. Mas resistiu. — Não tenho a menor idéia, Nai. É claro que considerei todas as possibilidades que você mencionou. E também algumas outras. Mas não temos meios de saber... Embora eu não seja bem o que se chama de religiosa, tenho rezado a meu modo para que mamãe esteja bem.

 

3

Nicole terminou de comer os damascos e atravessou o quarto para jogar o pacote vazio na lata de lixo, que já estava quase cheia. Tentou empurrar o lixo com o pé, mas o nível continuou praticamente o mesmo.

Meu tempo está se escoando, pensou ela, dando uma olhada para os alimentos que restavam na prateleira. Só posso agüentar aqui mais uns cinco dias. Depois disso vou precisar reforçar meus suprimentos.

Joana e Eleonor estavam fora há quarenta e oito horas. Durante as duas primeiras semanas da permanência de Nicole no quarto subterrâneo do celeiro de Max Puckett, um dos robôs ficara com ela o tempo todo. Conversar com os robôs era quase como conversar com o próprio Richard, pelo menos no início, antes de Nicole esgotar todos os assuntos que os robozinhos tinham armazenados na memória.

Aqueles dois robôs são as maiores criações dele, disse Nicole a si mesma, sentada na cadeira. Ele deve ter gasto meses para fabricá-los. E lembrou-se dos robôs shakespearianos de Richard, nos dias na nave Newton. Joana e Eleonor são muito mais sofisticadas do que o príncipe Hal e Falstaff. Richard deve ter aprendido muito com a engenharia dos biotas-humanos do Novo Éden.

Joana e Eleonor tinham mantido Nicole informada dos acontecimentos mais importantes ocorridos no habitat. Era uma tarefa fácil para elas, pois parte da instrução programada desses robôs era observar e dar as notícias via rádio para Richard durante suas saídas periódicas do Novo Éden; portanto, essas mesmas informações eram passadas para Nicole. Ela sabia, por exemplo, que a polícia especial de Nakamura vasculhara todos os prédios da colônia nas duas primeiras semanas após a fuga, buscando ostensivamente alguém que pudesse lhes dar alguma pista. Tinham ido à fazenda de Puckett, é claro, e durante quatro horas Nicole teve de ficar absolutamente imóvel no esconderijo, em completa escuridão. Ela ouvira uns ruídos acima de sua cabeça, mas quem conduziu a busca não ficou muito tempo no celeiro.

Mais recentemente, Joana e Eleonor tiveram de se ausentar ao mesmo tempo do esconderijo, dizendo que estavam coordenando a próxima fase da fuga. No dia em que Nicole perguntou aos robôs como pensavam em passar pelo posto policial na entrada do Novo Éden, Joana respondeu:

— É muito fácil. Os caminhões de carga atravessam um portão doze vezes ao dia, em geral levando e trazendo material para as tropas e pessoal de construção para o outro habitat, alguns indo para Avalon. É impossível que alguém nos note no meio de uma dessas cargas grandes.

Joana e Eleonor também informaram Nicole sobre toda a história da colônia desde que ela fora presa. Nicole sabia que os humanos tinham invadido o habitat ave/séssil e desalojado seus ocupantes. Richard não gastara espaço na memória dos robôs nem seu próprio tempo passando muitos detalhes para Joana e Eleonor sobre as aves e os sésseis; porém Nicole sabia que Richard conseguira fugir para Nova York com dois ovos de aves, quatro melões-maná contendo embriões de espécies sésseis bizarras, e uma fatia de um verdadeiro séssil adulto. Ela também sabia que as duas aves tinham nascido alguns meses antes, e que Richard andava extremamente ocupado com elas.

Nicole tinha dificuldade em imaginar seu marido Richard servindo de pai e mãe para dois seres alienígenas. Ela lembrou-se de que, quando seus próprios filhos eram pequenos, Richard não mostrava muito interesse no desenvolvimento deles, e que se mostrava extremamente insensível às necessidades emocionais das crianças. É claro que ele fora maravilhoso ensinando-lhes coisas, especialmente os conceitos abstratos da matemática e da ciência. Mas Nicole e Michael O'Toole observaram muitas vezes, durante sua longa viagem na nave Rama II, que Richard não parecia capaz de lidar com crianças no nível delas.

A infância dele foi sofrida, pensou Nicole, recordando-se de suas conversas com Richard sobre seu pai violento. Ele deve ter crescido sem capacidade de amar ou confiar nos outros... Todos os seus amigos eram fantasias ou robôs criados por ele próprio... Nicole parou de pensar por um instante. Mas durante nossos anos no Novo Éden ele mudou definitivamente... Nunca tive oportunidade de lhe dizer como me sentia orgulhosa dele. Por isso eu quis deixar a carta especial...

A luz do quarto apagou-se de repente e Nicole ficou na escuridão. Sentou-se quieta na cadeira e ficou prestando atenção aos ruídos. Embora soubesse que a polícia estava novamente por ali, não conseguia ouvir nada. Foi ficando mais assustada, e só então percebeu como Joana e Eleonor tinham se tornado importantes para ela. Na primeira vez em que a polícia especial foi à fazenda de Puckett, os dois robôs estavam no quarto para acalmá-la.

O tempo passou muito lentamente. Nicole podia ouvir as batidas de seu coração. Depois do que lhe pareceu uma eternidade, ela ouviu vozes lá em cima, como se houvesse muita gente no celeiro. Nicole respirou fundo e tentou acalmar-se. Alguns segundos depois, quase morreu de susto quando ouviu uma voz suave ao seu lado recitando um poema:

 

Invada-me agora, meu amigo implacável

E me deixe encolhida no escuro.

Lembre-me de que estou sozinha

E deixe sua marca no meu rosto.

Como conseguiu me capturar,

Se todos os meus pensamentos negam sua força?

Será o réptil no meu cérebro

Que deixa o seu terror seguir seu curso?

O medo infundado nos anula

Apesar da nossa busca por metas elevadas

Nós os pretensos Galahads não morremos

O medo só congela nossa alma.

E nos emudece quando sentimos o amor,

Lembrando-nos o que podemos perder

E se por acaso conhecermos o sucesso

O medo nos diz qual o caminho seguro a seguir.

 

Nicole reconheceu aos poucos que aquela voz pertencia ao robô Joana, e que ela estava recitando as duas famosas estrofes de Benita Garcia sobre o medo, escritas depois que Benita foi politizada pela pobreza e destruição do grande caos. A voz familiar do robô e os versos familiares do poema atenuaram temporariamente o pânico de Nicole. Por um instante, ouviu com mais calma os ruídos vindos lá de cima, embora eles estivessem aumentando.

Quando Nicole ouviu que as grandes sacas de ração colocadas na entrada do seu esconderijo estavam sendo retiradas, seu medo aumentou subitamente. É isso aí, disse para si mesma. Agora vou ser capturada.

Nicole ficou pensando se a polícia especial a mataria assim que a encontrasse. Depois ouviu uma batida metálica forte na extremidade da passagem para o seu quarto, e não conseguiu mais se manter sentada. Ao se levantar, sentiu fortes dores no peito e teve dificuldade para respirar. O que está me acontecendo? pensou, quando Joana falou ao seu lado.

— Depois da primeira busca, Max teve medo de não ter camuflado bem a entrada do esconderijo. Uma noite, enquanto você dormia, ele construiu no alto do buraco um sistema de escoamento para o galinheiro, com os canos de descarga correndo por cima deste quarto. Aquele som metálico que você ouviu foi alguém batendo nos canos.

Nicole prendeu a respiração para tentar ouvir a conversa abafada por cima do quarto. Depois de um minuto, ouviu de novo as sacas do galinheiro sendo mexidas. Pobre Max, pensou, relaxando. A dor no peito diminuiu. Passados mais alguns minutos, os ruídos cessaram completamente. Nicole deu um suspiro e sentou-se na cadeira, mas só conseguiu dormir quando a luz voltou a acender.

 

O robô Eleonor estava de volta quando Nicole acordou. Ela explicou que Max ia começar a retirar o sistema de drenagem nas próximas horas, e que Nicole finalmente iria sair do esconderijo. Nicole ficou surpresa quando, depois de rastejar pelo túnel, encontrou Eponine ao lado de Max. As duas se abraçaram.

— Ça va bien? Je ne t'ai pas vue depuis si longtemps — disse Eponine para Nicole.

— Mais mon amie, pourquoi es-tu ici? J'ai pensé que...

— Ei, vocês duas, já chega — interrompeu Max. — Vão ter muito tempo para conversar mais tarde. Agora precisamos nos apressar. Já estamos atrasados porque levei muito tempo retirando essa droga de canos... Ep, leve Nicole lá dentro e lhe dê a roupa. E pode ir explicando o plano enquanto ela se veste... Tenho de tomar uma ducha e fazer a barba.

Quando as duas iam andando no escuro, do celeiro até a casa de Max, Eponine contou para Nicole que tudo estava preparado para ela fugir do habitat.

— Nos últimos quatro dias Max escondeu o equipamento de mergulho, peça por peça, em volta das margens do lago Shakespeare. Ele também tem outro conjunto guardado num armazém em Beauvois, caso alguém tenha tirado sua máscara ou seu tanque de ar de onde estavam escondidos. Enquanto você e eu estivermos na festa, Max vai dar um jeito para que tudo corra bem.

— Que festa? — perguntou Nicole, confusa. Eponine deu uma risada quando elas entravam em casa.

— Oh, meu Deus, eu me esqueci que você não está seguindo o calendário. Esta noite é o Mardi Gras. Há uma grande festa em Beauvois e outra em Positano. Quase todo mundo vai estar na rua à noite. O governo está animando as pessoas a tomarem parte das festividades, provavelmente para afastarem da cabeça os outros problemas da colônia.

Nicole olhou de forma estranha para a amiga, e Eponine riu de novo.

— Você não entende? Nossa maior dificuldade é saber como fazer você atravessar a colônia até o lago Shakespeare sem ser vista. Todos em Novo Éden a conhecem. Até mesmo Richard acha que essa era a única oportunidade razoável. Você vai fantasiada e mascarada...

— Então você falou com Richard? — perguntou Nicole, começando a compreender pelo menos o esboço do plano.

— Não diretamente, mas Max comunicou-se com ele através dos robozinhos. Richard foi quem teve a idéia de construir o sistema de drenagem que tapeou a polícia na última vez em que estiveram na fazenda. Ele estava com medo de que você fosse descoberta...

Obrigada mais uma vez, Richard, pensou Nicole, enquanto Eponine continuava a falar. A essa altura, já lhe devo minha vida pela terceira vez.

As mulheres entraram no quarto e viram sobre a cama um lindíssimo vestido branco.

— Você vai à festa fantasiada de rainha da Inglaterra — disse Eponine.

— Venho trabalhando neste seu vestido há duas semanas sem parar. Com essa máscara cobrindo seu rosto todo, as luvas brancas compridas e as polainas, ninguém vai ver seu cabelo nem sua pele. Não teremos de ficar na festa muito mais que uma hora, e você não vai ter de conversar muito com as pessoas; mas se alguém perguntar, diga simplesmente que você é Ellie. Ela vai ficar em casa hoje à noite com o bebê.

— Ellie sabe que eu fugi? — perguntou Nicole um instante depois, sentindo uma vontade louca de ver sua filha e a pequena Nicole, que ela ainda não conhecia.

— Provavelmente — disse Eponine. — Pelo menos ela sabia que haveria uma tentativa... Foi Ellie a primeira pessoa que me envolveu na sua fuga. Ellie e eu escondemos seus suprimentos para a planície Central.

— Então você não vê Ellie desde que eu saí da prisão?

— Já vi sim. Mas não falamos sobre isso. Nessa fase ela tem de ser extremamente cuidadosa. Nakamura a está vigiando como um falcão...

— Há mais alguém envolvido? — perguntou Nicole, segurando o vestido para ver se ele lhe serviria.

— Não. Só Max, Ellie e eu... e, naturalmente, os pequenos robôs de Richard.

 

Nicole ficou em frente ao espelho durante alguns minutos. Aqui estou eu, finalmente a rainha da Inglaterra, pelo menos por uma a duas horas. Ela estava certa de que a idéia daquela fantasia específica fora de Richard. Ninguém mais teria feito uma escolha tão apropriada, pensou Nicole ajustando a coroa na cabeça. Com esse rosto branco, Henry talvez me tivesse tornado uma rainha.

Nicole estava afundada em seus pensamentos quando Max e Eponine apareceram. Começou a rir assim que viu Max vestido numa sumária roupa verde, segurando um tridente. Estava fantasiado de Netuno, o rei do mar, e Eponine era sua princesa-sereia sensual.

— Vocês dois estão ótimos! — exclamou Nicole, piscando para Eponine.

— Puxa, Max — acrescentou logo depois, num tom de brincadeira —, eu não tinha idéia de que seu corpo fosse tão imponente.

— Isso é ridículo — resmungou Max. — Eu tenho cabelo por todo lado, no peito, nas costas, nas orelha, até mesmo...

— Só que está ficando um pouco escasso aqui — disse Eponine, dando uma batidinha na cabeça de Max quando ele tirou a coroa.

— Merda — disse Max. — Agora sei por que nunca vivi com uma mulher... Vamos embora, vocês duas aí. A propósito, o tempo está instável de novo esta noite. É melhor levarem um xale ou uma jaqueta para a viagem de carruagem.

— Carruagem? — perguntou Nicole, olhando para Eponine. A amiga riu e disse:

— Você vai ver daqui a pouco.

 

Quando o governo do Novo Éden requisitou todos os trens para converter as ligas metálicas extraterrestres, muito leves, em aviões de guerra e outros armamentos, a colônia do Novo Éden foi deixada com um sistema de transporte deficiente. Por sorte, grande parte dos cidadãos tinha comprado bicicletas, e um sistema completo de ciclovias fora desenvolvido nos três primeiros anos depois do assentamento inicial. De outra forma, teria sido muito difícil para as pessoas se deslocarem na colônia.

Na época em que Nicole fugiu, os antigos trilhos de trem tinham sido retirados, dando lugar a estradas de rodagem. Essas estradas eram usadas pelos carros elétricos (restritos aos líderes do governo e militares graduados), caminhões de transporte (que também rodavam por eletricidade) e por outros veículos criativos e variados, construídos pelos cidadãos do Novo Éden. A carruagem de Max era um destes. Na frente era uma bicicleta, mas na parte de trás havia dois bancos macios, quase como poltronas, pousados sobre duas rodas e um forte eixo, mais ou menos como as carruagens puxadas por cavalos usadas uns trezentos anos antes na Terra.

O rei Netuno foi lutando com os pedais à medida que o trio fantasiado passava pela estrada na direção da Cidade Central.

— Merda — disse Max, fazendo esforço para acelerar —, por que eu fui concordar com esse plano absurdo?

Nicole e Eponine ficaram rindo no banco traseiro.

— Porque você é um homem maravilhoso — disse Eponine — e queria que nos sentíssemos confortáveis... Além disso, você poderia imaginar uma rainha andando de bicicleta por quase dez quilômetros?

A temperatura estava realmente mais baixa. Eponine levou uns minutos explicando a Nicole que o tempo estava ficando cada vez mais instável.

— Houve uma reportagem recente na televisão dizendo que o governo pretende assentar mais colonos no segundo habitat, onde o ambiente ainda não foi desgastado... Ninguém tem confiança de que um dia cheguemos a resolver os problemas aqui no Novo Éden.

Ao se aproximarem da Cidade Central, Nicole achou que Max poderia estar sentindo frio. Ofereceu o xale que Eponine lhe havia emprestado, e ele aceitou.

— Você devia ter arranjado uma fantasia mais quente — disse Nicole, brincando.

— Vestir Max de Netuno também foi idéia de Richard — disse Eponine. — Assim, se ele precisar carregar algum equipamento de mergulho para você, a coisa vai parecer perfeitamente natural.

Nicole ficou emocionada quando a carruagem foi diminuindo a marcha no tráfego crescente e serpenteando pelos prédios principais da colônia na Cidade Central. Lembrou-se da noite, anos atrás, em que ela era o único ser humano acordado no Novo Éden. Naquela mesma noite, depois de dar mais uma olhada em sua família, Nicole, apreensiva, subiu no seu beliche e preparou-se para dormir durante a viagem que duraria vários anos, de volta ao sistema solar.

Uma imagem da Águia, aquela estranha manifestação de inteligência alienígena que fora a guia deles em Nodo, apareceu na sua frente. Você podia ter previsto tudo isso? Nicole ficou pensando, sintetizando rapidamente toda a história da colônia, desde aquele primeiro encontro com os passageiros da Terra a bordo da Pinta. E o que você pensa de nós agora?, pensou ela, balançando a cabeça com raiva, vivamente constrangida com o comportamento de seus companheiros humanos.

— Eles nunca substituíram aquilo — disse Eponine ao lado dela, quando a carruagem entrou na praça principal.

— Desculpe — falou Nicole. — Acho que eu estava sonhando acordada.