A Revelação de Rama
Capítulo 4
Menos de um minuto depois que os grande bandos de vaga-lumes da cú-pula da Cidade de Esmeralda anunciaram o começo de um novo dia, a pequena Nikki foi para o quarto dos avós.
— Já é dia claro, vó — disse ela. — Eles vêm nos buscar daqui a pouco. Nicole saiu da cama e deu um abraço na netinha.
— Ainda temos umas duas horas, Nikki — disse para a menina excitada. — Vovô ainda está dormindo... por que você não volta para o seu quarto e brinca com seus brinquedos enquanto tomamos uma chuveirada?
Quando a menina, desapontada, finalmente foi embora, Richard sentou-se na cama e esfregou os olhos.
— Nikki não pensa em outra coisa há uma semana senão neste dia — disse Nicole. — Ela está sempre no quarto de Benjy olhando para a pintura. Nikki e os gêmeos já deram nomes a todos aqueles animais bizarros.
Nicole pegou a escova de cabelo ao lado da cama.
— Por que as crianças pequenas têm tanta dificuldade em entender o conceito de tempo? Embora Ellie tenha feito um calendário para ela e venha contando dia após dia, Nikki me pergunta toda manhã se "chegou o dia".
— Ela está muito excitada. Todos estão — falou Richard, levantando-se da cama. — Espero que não fiquemos desapontados.
— Como poderíamos ficar? — disse Nicole. — O dr. Azul disse que veremos coisas mais incríveis ainda do que as que você e eu vimos quando entramos na cidade pela primeira vez.
— Acho que todos os animais estarão nas ruas — disse Richard. — Aliás, você sabe o que as octoaranhas estão celebrando?
— Uma espécie de... alguma coisa parecida com o Dia de Graças dos americanos, que as octos chamam de Dia da Fartura. Há um dia separado para celebrar a qualidade de vida delas... Pelo menos foi o que o dr. Azul me explicou.
Antes de ir para o chuveiro, Richard perguntou:
— Você acha que o convite para participarmos da celebração de hoje tem a ver com o seu comentário sobre a discussão da nossa família na mesa do café duas semanas atrás?
— Quando Patrick e Max deram a entender que eles gostariam de voltar para o Novo Éden?
Richard fez que sim.
— Acho sim — respondeu Nicole. — Creio que as octoaranhas tinham se convencido de que estávamos perfeitamente satisfeitos aqui. O convite para participarmos da comemoração delas é uma tentativa de nos integrar na sua sociedade.
— Eu gostaria de ter terminado todos aqueles malditos tradutores — disse Richard. — No momento tenho só dois... e eles não foram completamente checados. Será que eu deveria dar um deles para o Max?
— Seria uma boa idéia — falou Nicole, empurrando o marido para dentro do banheiro.
— O que você está fazendo? — perguntou Richard.
— Vou tomar banho junto com você — disse ela com uma gargalhada —, a menos que você esteja velho demais para uma companhia.
Jamie apareceu para dizer que o transporte estava pronto. Ele era o mais moço das três octoaranhas vizinhas (Hércules morava sozinho do outro lado da praça), e os humanos tinham tido pouco contato com ele. Os guardiões de Jamie, Archie e o dr. Azul, explicaram que ele vivia envolvido em seus estudos e estava chegando a uma fase crucial da vida. Embora à primeira vista Jamie parecesse exatamente como as três octos adultas que o clã via regularmente, era um pouco menor, e as faixas douradas dos seus tentáculos eram ligeiramente mais brilhantes.
Os humanos tinham ficado sem saber o que usar na celebração das octoaranhas, mas viram logo que suas roupas não tinham significado algum para elas. Nenhum elemento das espécies alienígenas da Cidade de Esmeralda se cobria, fato que as octoaranhas comentavam com freqüência. Quando Richard uma vez sugeriu de brincadeira que talvez os humanos também devessem dispensar suas roupas enquanto vivessem na Cidade de Esmeralda, o grupo compreendeu logo como as roupas eram fundamentais para o conforto psicológico dos humanos.
— Eu não conseguiria ficar nua nem mesmo na frente de vocês, meus amigos mais íntimos, sem me sentir extremamente sem jeito — disse Eponine, resumindo todos os seus sentimentos.
O contingente heterogêneo de onze humanos e suas quatro colegas octoaranhas atravessou a rua na direção da praça. Eponine, em adiantada gravidez, era a última, caminhando devagar e cobrindo a barriga com a mão. As mulheres haviam decidido caprichar nas roupas; Nai usava um vestido tailandês de seda, com flores azuis e verdes. Mas os homens e as crianças, com exceção de Max (com uma horrenda camisa havaiana que ele reservava para ocasiões especiais), estavam de camiseta e jeans, sua roupa de todos os dias desde que chegaram à Cidade de Esmeralda.
Pelo menos todas as suas roupas estavam limpas. No início, encontrar um meio de lavar as roupas fora um problema grave para os humanos. Mas depois que explicaram essa dificuldade a Archie, em poucos dias ele os apresentou aos dromos, seres do tamanho de insetos que limpavam automaticamente todas as roupas.
Ao chegar à praça o grupo entrou no transporte. Logo antes do portão que indicava o final da zona deles o transporte parou, e duas octoaranhas desconhecidas entraram no carro. Richard fez uso do seu tradutor para captar a conversa entre o dr. Azul e os recém-chegados. Ellie leu no monitor por cima do ombro de seu pai e fez um comentário sobre a tradução. Em geral, a tradução era bastante fiel, mas a velocidade era muito baixa, pelo menos considerando a velocidade normal de uma conversa. Uma frase era traduzida enquanto três eram faladas, e Richard tinha de reorganizar o sistema regularmente. Ele não podia, é claro, compreender muito de uma conversa em que faltavam duas a três frases.
Depois que atravessaram o portão, a visão que se tinha do carro de transporte tornou-se fascinante. Os olhos de Nikki foram se arregalando à medida que ela, Benjy e os gêmeos, numa grande gritaria, identificavam a maioria dos animais que haviam visto na pintura das octoaranhas. Havia um tráfego intenso nas ruas largas, não só de carros de transporte deslocando-se em ambas as direções em trilhos de bondes como de pedestres de todas as espécies e tamanhos, criaturas guiando veículos semelhantes a uniciclos e bicicletas, e um grupo misturado de seres em um emassauro.
Max, que nunca saíra da zona dos humanos desde que chegara à Cidade de Esmeralda, entremeava suas observações com palavrões que Eponine havia lhe pedido para retirar do seu vocabulário antes que o bebê nascesse. Max ficou muito preocupado com Eponine quando, na primeira parada do transporte depois do portão, um pequeno grupo de novas criaturas lotou o carro. Quatro das recém-chegadas encaminharam-se na direção de Eponine a fim de examinar o banco especial que as octoaranhas haviam instalado para ela devido à sua gravidez. Max ficou ao seu lado para protegê-la, apoiando-se em uma das barras verticais espalhadas pelo carro de dez metros de comprimento.
Depois entraram mais dois passageiros, que as crianças chamavam de "caranguejos listrados", umas criaturas vermelhas e amarelas, de oito patas, mais ou menos do tamanho de Nikki, com o corpo redondo coberto por uma concha dura e tenazes assustadoras. As duas começaram imediatamente a esfregar suas antenas nas pernas de Eponine por baixo do seu vestido. Elas só estavam sendo curiosas, mas causaram uma sensação esquisita em Eponine, que se encolheu de medo dos alienígenas. Archie, que estava de pé do lado oposto, esticou seu tentáculo e empurrou os alienígenas gentilmente. Um dos caranguejos listrados recuou nas suas quatro patas traseiras, com as tenazes no ar em frente ao rosto de Eponine, e aparentemente disse alguma coisa ameaçadora com suas rápidas antenas. Um instante depois Archie estendeu dois tentáculos, levantou o caranguejo hostil do chão do carro e depositou a criatura na rua.
A cena alterou o humor de todos os humanos. Enquanto Archie explicava o que tinha ocorrido para Max e Eponine através da tradução de Ellie (Max estava mobilizado demais para usar seu próprio tradutor), os gêmeos Watanabe chegaram para bem perto de Nai, e Nikki esticou os bracinhos para que seu avô a segurasse.
— Essa espécie não é muito inteligente — disse Archie para seus amigos humanos —, e temos tido dificuldade em trabalhar suas tendências agressivas. Aquela criatura que joguei para fora do carro já criou encrencas antes. O otimizador responsável pela espécie já havia marcado isso com dois pontinhos verdes na parte traseira da sua carapaça, não sei se vocês notaram... Essa última transgressão certamente redundará no término da espécie.
Quando Ellie terminou a tradução, os humanos inspecionaram os outros alienígenas que estavam dentro do carro de transporte para ver se identificavam mais alguns pontinhos verdes. Aliviados ao confirmar que todas as outras criaturas não ofereciam perigo, os adultos se tranqüilizaram.
— O que aquela "coisa" disse? — Richard perguntou a Archie, quando o transporte se aproximava de outra parada.
— Foi uma ameaça padrão — replicou Archie —, típica de animais com inteligência limitada... Suas antenas passaram uma mensagem rude, com muito pouco conteúdo informativo.
O transporte continuou a descer a avenida durante oito a dez nillets, parando duas vezes para que novos passageiros entrassem, inclusive meia dúzia de octoaranhas e cerca de vinte outras criaturas de umas cinco espécies dife-rentes. Quatro animais azul-rei, com o topo hemisférico contendo um material ondulado semelhante a um cérebro, ficaram agachados ao lado de Richard, que ainda segurava Nikki no colo. Suas oito antenas, no total, estenderam-se para cima, na direção dos pés de Nikki e entrelaçaram-se, como se estivessem se comunicando. Quando a menina mexeu ligeiramente os pés, as antenas se recolheram rapidamente para a massa estranha que formava os corpos das criaturas alienígenas.
Àquela altura o carro estava lotado. Um animal que os humanos nunca ti-nham visto, e que Max mais tarde disse que parecia uma salsicha com um nariz comprido e seis pernas curtas, levantou-se por uma das barras verticais e agar-rou a bolsa de Nai com as duas patas dianteiras. Jamie intercedeu antes que algum dano fosse causado à bolsa ou a Nai, e logo depois Galileu chutou com força a salsicha e ela teve de largar a barra. O menino explicou que pensara que a salsicha estava se preparando para agarrar a bolsa de novo. A criatura foi para o outro lado do carro, olhando fixamente para Galileu.
— É bom ter cuidado — disse Max com ironia, despenteando o cabelo do garoto —, senão as octos colocam dois pontinhos verdes no seu traseiro.
Na avenida enfileiravam-se prédios de um e dois andares, quase todos pintados com motivos geométricos em cores brilhantes. Grinaldas e coroas com flores e folhas de cores vivas enfeitavam as portas e os telhados. Em uma longa parede que Hércules disse a Nai ser os fundos do hospital principal, um imenso mural retangular de quatro metros de altura e vinte de comprimento retratava médicos octoaranhas cuidando de doentes da sua espécie e ajudando muitas outras criaturas que viviam na Cidade de Esmeralda.
O transporte diminuiu ligeiramente a marcha e começou a descer a rampa. O veículo cruzou uma ponte de centenas de metros de comprimento sobre um largo rio ou canal, onde se viam barcos, octoaranhas divertindo-se, e várias outras criaturas marinhas desconhecidas. Archie explicou que eles estavam entrando no centro da Cidade de Esmeralda, onde ocorriam todas as cerimônias principais e onde os otimizadores mais importantes viviam e trabalhavam.
— Lá — disse Archie, apontando para um prédio octogonal de cerca de trinta metros de altura — é nossa biblioteca e centro de informações.
Em resposta à pergunta de Richard, Archie disse que o canal, ou fosso, rodeava todo o centro administrativo.
— Salvo em ocasiões especiais como aquela, ou algum acontecimento oficial aprovado pelos otimizadores — disse Archie —, só as octoaranhas têm acesso a essa área.
O transporte estacionou em uma área grande e plana ao lado de uma es-trutura oval que parecia um estádio, ou um auditório descoberto. Depois que eles desceram do carro, Nai contou a Patrick que durante a última etapa da viagem tivera uma sensação de claustrofobia que não tinha desde que estivera no metrô de Kioto na hora do rush, quando foi visitar a família de Kenji.
— Pelo menos no Japão — disse Patrick com um ligeiro estremecimento — você estava rodeada de outros seres humanos... Aqui é tudo tão esquisito... Eu me senti como se estivesse sendo examinado por todos. Tive de fechar os olhos para não enlouquecer.
Quando desembarcaram e começaram a se dirigir para o estádio, os hu-manos caminharam em grupo, rodeados pelos quatro amigos octoaranhas e as outras duas que tinham entrado no carro ainda na zona dos humanos. Essas seis octoaranhas protegiam Nicole e os outros das centenas de criaturas vivas espalhadas por todas as direções. Eponine começou a sentir-se tonta com a mistura de cheiros e visões estranhas, e também por ter andado demais, e então Archie fez o grupo descansar a cada cinqüenta metros. Finalmente, eles entraram por um dos portões para a área destinada aos humanos.
Havia só uma cadeira na sessão reservada para os humanos. Na verdade, a cadeira de Eponine devia ser a única de todo o estádio. Olhando por cima da arquibancada superior da arena com os binóculos de Richard, Max e Patrick viram vários seres apoiados em fortes postes verticais espalhados pelos terraços, mas não viram nenhuma cadeira.
Benjy ficou fascinado com as sacolas de pano que Archie e outras octoa-ranhas carregavam, todas idênticas, do tamanho de uma bolsa de mulher e em tom creme. As sacolas ficavam penduradas na altura do pseudoquadril das octoaranhas, presas por cima da cabeça com uma simples tira. Era a primeira vez que os humanos viam octoaranhas usando acessórios. Benjy reparou logo nas sacolas e perguntara a Archie para que elas serviam, quando ainda estavam na praça. Benjy pensou que Archie não entendera a sua pergunta naquela hora e esqueceu o assunto, mas quando chegaram ao estádio ele viu outras sacolas semelhantes.
Archie deu uma explicação um tanto vaga sobre a utilidade daquele acessório, e Nicole pediu que ele repetisse as cores para que ela pudesse responder a Benjy.
— Archie falou que é um equipamento de que ele pode precisar para nos proteger numa emergência.
— Que tipo de e-qui-pa-men-to? — perguntou Benjy, mas Archie estava longe dali, falando com outra octoaranha numa área adjacente.
Os humanos ficaram separados das outras espécies por duas cordas retesadas de metal, passadas em torno da parte superior e da base de pilastras verticais, do lado de fora do enclave, e por duas octoaranhas protetoras (ou guardas, como Max as chamou), que se postaram na área vazia entre as diferentes espécies. Ao lado dos humanos, à direita, havia um grupo de centenas de alienígenas com seis braços flexíveis, as mesmas criaturas que haviam construído a escada debaixo da cúpula do arco-íris. À esquerda e abaixo do clã humano, do outro lado de uma grande área vazia, havia uns mil animaizinhos marrons atarracados, parecidos com iguanas, com rabos compridos e pontudos e dentes protuberantes. Eram do tamanho de gatos domésticos.
O que ficou imediatamente óbvio para todos é que o estádio inteiro era rigidamente segregado. Cada espécie tinha seu lugar próprio. E, com exceção dos guardas, não havia nenhuma octoaranha na arquibancada superior. As mil e quinhentas octoaranhas (segundo estimativa de Richard), presentes como espectadores, estavam na arquibancada inferior.
— Há razões para essa segregação — explicou Archie, sendo traduzido por Ellie. — Primeiro, o que o Chefe dos Otimizadores disser vai ser transmitido em trinta a quarenta línguas simultaneamente. Se vocês olharem com atenção vão ver que cada seção especial tem um aparelho (ali está o de vocês, por exemplo, que Richard chama de microfone) para apresentar o que for dito na língua daquela espécie. Todas as octoaranhas, inclusive as várias morfologias, podem entender nossa língua-padrão de cores. É por isso que ficamos na arquibancada de baixo, onde não há nenhum equipamento especial de tradução... Vocês já vão entender o que estou falando... Olhem lá (Archie esticou um tentáculo), estão vendo aquele grupo de caranguejos listrados? Estão vendo os dois arames grandes verticais naquela mesa em frente à seção deles? Quando o Chefe Otimizador começar a falar, aqueles arames serão ativados e apresentarão o que estiver sendo dito na língua das antenas deles.
Bem ao longe, por cima do que seria um campo afundado em um estádio da Terra, uma ampla cobertura com faixas coloridas foi suspensa a partir de montantes presos nas seções dos fundos da arquibancada inferior.
— Você consegue ler o que está escrito lá? — perguntou Ellie ao pai.
— O quê? — falou Richard, ainda assombrado com a grandeza do espetáculo.
— Há uma mensagem naquela cobertura — falou Ellie, apontando para baixo. — Leia as cores.
— Então é isso — falou Richard lentamente. — Fartura significa comida, água, energia, informações, equilíbrio e... qual é a última palavra?
— Eu traduziria como "diversidade" — falou Ellie.
— O que significa essa mensagem? — perguntou Eponine.
— Creio que vamos descobrir isso.
Um instante mais tarde, depois de Archie ter explicado aos humanos que a outra razão para a segregação das espécies era confirmar o censo feito pelas octoaranhas, a cobertura do campo foi enrolada por cima de dois postes grossos e compridos por dois pares de animais pretos gigantescos. Os pares partiram de lados opostos do meio da arena e encaminharam-se para as extremidades do estádio, enrolando a cobertura em volta de seus postes para desvelar o campo inteiro.
Ao mesmo tempo, um grupo de vaga-lumes desceu do alto do estádio para que todos os espectadores pudessem ver claramente não só a abundância das frutas, legumes e grãos agrupados em centenas de pilhas dos dois lados do campo, como também as duas coleções de seres diversos que se encontravam em áreas separadas do chão da arena, dos dois lados do seu centro. O primeiro grupo de alienígenas andava em torno de um grande círculo numa superfície normal de terra, presos uns aos outros por uma espécie de corda. Ao lado deles havia uma grande piscina, onde mais trinta a quarenta espécies, também presas umas às outras, nadavam em um segundo grande círculo.
Exatamente no meio do campo havia uma plataforma elevada, onde se viam apenas algumas caixas pretas espalhadas, e rampas desciam na direção das duas áreas adjacentes. Enquanto todos olhavam, quatro octoaranhas irromperam do círculo na piscina e subiram pela rampa até a plataforma. Mais quatro octoaranhas saíram do grupo que andava na área de terra e foram juntar-se às suas colegas. Depois, uma dessas oito octoaranhas ficou de pé sobre uma caixa no meio da plataforma e começou a falar em cores.
— Estamos reunidos hoje aqui... — A voz assustou os humanos, e a pe-quena Nikki começou a chorar. De início foi extremamente difícil para eles compreender o que estava sendo dito, pois cada sílaba tinha a mesma inflexão e os sons, embora pronunciados com cuidado, não eram muito inteligíveis, como se fossem produzidos por alguém que nunca tivesse ouvido um humano falar. Richard ficou estupefato. Largou imediatamente seu tradutor e abaixou-se para examinar o dispositivo que emitia aqueles sons.
Ellie pegou os binóculos de Richard para poder seguir as cores com mais rapidez. Embora ela tivesse de adivinhar algumas palavras por causa de parte das faixas fora do seu raio de visão, achava mais fácil observar do que se concentrar completamente nas palavras ouvidas através do equipamento de áudio das octoaranhas.
Com o tempo, os adultos se adaptaram à cadência e à pronúncia da voz alienígena e pegaram grande parte do que estava sendo dito. A octoaranha Chefe Otimizador declarou que tudo ia bem no seu reino de fartura, e que o permanente sucesso de sua sociedade complexa e diversa refletia-se na variedade de alimentos encontrados no campo.
— Uma fartura como esta — dizia ele — não poderia ter sido produzida sem a grande cooperação entre as espécies.
Mais adiante, na sua breve mensagem, o Chefe Otimizador entregou kudos pelos desempenhos excepcionais. Várias espécies foram destacadas; a produção de uma substância semelhante ao mel, por exemplo, aparentemente tinha sido excelente, pois dezenas de vaga-lumes iluminaram a seção dos besouros focinhudos por alguns instantes. Depois de uns três fengs de discurso, os humanos ficaram cansados de tentar compreender o que dizia aquela voz estranha e não prestaram mais atenção às suas palavras. Por isso ficaram surpresos quando os vaga-lumes pairaram por cima de suas cabeças e os apresentaram à multidão alienígena. Milhares de olhos estranhos voltaram-se na direção deles durante meio nillet.
— O que ele disse sobre nós? — perguntou Max a Ellie, que continuava a traduzir as cores. Ele tinha conversado com Eponine durante quase todo o discurso do Chefe Otimizador.
— Falou que nós somos novos no território deles e que ainda estão estu-dando as nossas habilidades... Depois apareceram vários números que devem ter sido usados para nos descrever. Essa parte eu não entendi.
Depois de mais duas espécies terem sido rapidamente apresentadas, o Chefe Otimizador começou a fazer um resumo dos pontos principais do seu discurso.
— Mamãe, mamãe! — gritou Nikki de repente por cima da voz alienígena.
Enquanto os humanos adultos prestavam atenção ao discurso e ao espe-táculo em volta, Nikki subira no muro baixo que cercava a seção dos humanos e entrara no espaço aberto que os separava dos iguanas. A octoaranha Hércules, que patrulhava a área, pelo visto também não tinha notado a menina ali, pois não percebera que um dos iguanas tinha enfiado a cabeça pelo vão das duas cordas de metal em volta da sua seção e agarrara o vestido de Nikki com seus dentes afiados.
O terror na voz da criança paralisou momentaneamente a todos, até mesmo a Benjy. Num abrir e fechar de olhos, ele pulou por cima do muro para ajudar Nikki e apertou a cabeça do iguana com toda força. A criatura alienígena, assustada, soltou o vestido de Nikki. Seguiu-se um pandemônio. Nikki correu de volta para os braços da mãe, mas, antes que Hércules e Archie conseguissem alcançar Benjy, o iguana enraivecido atravessou o vão entre as cordas e pulou nas costas dele. Benjy deu um grito lancinante quando sentiu os dentes do iguana no seu ombro e começou a se debater, tentando fazer com que a criatura o largasse. Um instante depois, o iguana caiu no chão completamente inconsciente, e dois pontos verdes apareceram claramente entre o rabo e o corpo da criatura.
Todo o incidente ocorreu em menos de um minuto, e o discurso não foi interrompido. Com exceção das seções próximas à dos humanos, ninguém mais notou o ocorrido. Mas Nikki ficou apavorada, Benjy saiu seriamente ferido e Eponine começou a ter uma contração. Abaixo deles, os iguanas enfurecidos forçavam as cordas de metal, desconhecendo as ameaças das dez octoaranhas que tinham se deslocado para o espaço entre as duas espécies.
Archie disse que estava na hora de os humanos partirem, e ninguém discutiu. Archie escoltou-os para fora do estádio às pressas; Ellie carregava a filhinha nos braços e Nicole esfregava desesperadamente no ferimento de Benjy um anti-séptico que estava na maleta médica.
Richard apoiou-se nos cotovelos quando Nicole entrou no quarto.
— Ele está bem? — perguntou.
— Creio que sim — falou Nicole, suspirando. — Ainda estou com medo de que a saliva daquela criatura contenha alguma substância que possa fazer mal a Benjy... O dr. Azul foi de grande valia para mim. Ele me explicou que os iguanas não têm veneno tóxico, mas recomendou que eu preste atenção em alguma possível reação alérgica em Benjy... Dentro de um ou dois dias, poderemos saber se vamos ter problemas ou não.
— E a dor, já melhorou?
— Benjy não se queixa... Acho que ele está se sentindo orgulhoso, e não quer dizer nada que possa tirá-lo da posição de herói da família.
— E Eponine? — perguntou Richard depois de um breve silêncio. — Ainda está tendo contrações?
— Não, as contrações pararam temporariamente. Mas se seu parto for amanhã, Marius não será o primeiro bebê com nascimento induzido por adrenalina.
Nicole começou a se despir.
— Ellie é que está tendo um momento difícil... Está se considerando uma mãe terrível, e disse que não pode se perdoar por não ter vigiado Nikki melhor... Um instante atrás, ela estava se parecendo com Max e Patrick, falando em voz alta consigo mesma se não seria melhor voltar para Novo Éden e correr o risco de ser presa por Nakamura. "Para o bem da minha filha", dizia ela.