A Revelação de Rama
Capítulo 8
— Mamãe! — gritou Simone correndo para o carro.
Assim que Nicole abriu a porta, ela atirou-se nos braços da mãe. As duas abraçaram-se e beijaram-se, chorando copiosamente, sem conseguirem dar uma palavra.
8
— A visita de Patrick foi boa e ruim ao mesmo tempo — disse Simone, pondo a xícara de café na mesa. — Ele ficou aqui mais de duas horas, que pareceram poucos minutos.
Os três estavam sentados em volta de uma mesa que dava para o jardim giratório que cercava a casa. Nicole olhava a cena bucólica vista da janela.
— A maior parte é ilusória — disse Michael. — Mas muito bem feita... Se você não soubesse, pensaria que estava em Massachusetts ou no sul de Vermont.
— Este jantar está parecendo um sonho — comentou Nicole. — Ainda não acreditei que tudo isso está acontecendo na realidade.
— Sentimos a mesma coisa na noite passada — falou Simone — quando nos disseram que iríamos ver Patrick de manhã... Nem Michael nem eu conseguimos dormir. — Simone riu. — A certa altura da noite, nós nos convencemos de que íamos encontrar um falso Patrick, e ficamos pensando nas perguntas que faríamos e que só o verdadeiro Patrick saberia responder.
— A capacidade tecnológica deles é assombrosa — disse Michael. — Se quisessem criar um robô Patrick, seria difícil dizermos se era verdadeiro ou não.
— Mas não fizeram isso. Logo depois que Patrick entrou, vi que era ele mesmo.
— O que você achou dele? — perguntou Nicole. — Com a confusão do último dia, mal tive tempo de conversar com ele.
— Resignado — respondeu Simone —, mas certo de que tomou a decisão correta. Ele disse que provavelmente levará semanas para digerir todas as emoções que sentiu nessas últimas vinte e quatro horas.
— Acho que todos nós pensamos assim — observou Nicole. Fez-se um breve silêncio.
— Você está cansada, mamãe? — perguntou Simone. — Patrick falou dos seus problemas de saúde, e quando nos avisaram hoje de manhã que você estava atrasada...
— É, estou um pouco cansada — interrompeu Nicole. — Mas não con-seguiria dormir... Pelo menos não nesse instante... — Afastou sua cadeira de rodas da mesa e baixou o assento. — Mas gostaria de ir ao toalete.
— É claro — disse Simone, dando um pulo da cadeira. — Eu vou com você.
Simone acompanhou a mãe por um longo corredor com chão simulando madeira.
— Então você tem seis filhos vivendo aqui, três dos quais de gravidez natural?
— Isso mesmo — respondeu Simone. — Michael e eu tivemos dois me-ninos e duas meninas pelo método natural, como você diz... O primeiro menino, Darren, morreu aos sete anos... É uma longa história. Se houver tempo, conto para você amanhã... As outras crianças foram desenvolvidas em embriões nos laboratórios deles...
As duas chegaram na porta do toalete.
— Você sabe quantas crianças a Águia e seus colegas desenvolveram? — perguntou Nicole.
— Não — respondeu Simone. — Mas eles disseram que tiraram mais de mil óvulos saudáveis dos meus ovários.
Na volta para a sala de jantar, Simone explicou que todas as crianças que haviam nascido pelo método natural tinham vivido sempre com Michael e ela. Seus cônjuges, que eram também produto do esperma de Michael e dos óvulos dela, haviam sido selecionados depois de uma técnica de combinação genética desenvolvida pelos alienígenas.
— Então foram casamentos arranjados? — perguntou Nicole.
— Não exatamente — respondeu Simone rindo. — Meus filhos naturais foram apresentados a vários candidatos possíveis, depois que todos eles passaram pelos testes genéticos.
— E você não teve problemas com seus netos?
— Nada que fosse estatisticamente significativo, para usar a expressão de Michael — respondeu Simone.
Quando elas chegaram à sala de jantar, a mesa estava vazia e Michael disse que o bule de café e as xícaras estavam no escritório. Nicole acionou a cadeira de rodas e seguiu-os até um escritório amplo, com estantes de madeira escura e uma lareira acesa.
— Esse fogo é autêntico? — perguntou Nicole.
— É — disse Michael, inclinando o corpo para a frente. — Você perguntou sobre nossos filhos. Queremos que você os conheça, mas achamos que seria cansativo ver tanta gente ao mesmo tempo...
— Eu compreendo — disse Nicole, dando um gole no café fresco —, e concordo com você... Não teríamos esse jantar sossegado se houvesse mais seis pessoas aqui conosco.
— E não se esqueça dos quatorze netos — disse Simone.
Nicole olhou para Michael e sorriu.
— Desculpe, Michael, mas você é a parte mais irreal desta noite. Toda vez que olho para o seu rosto fico confusa. Você deve ser uns quarenta anos mais velho do que eu, mas não parece ter mais de sessenta, e está definitivamente mais moço do que quando saí de Nodo. Como é possível?
— A tecnologia deles é absolutamente mágica — disse Michael. — Eles refizeram praticamente todo o meu corpo. Meu coração, pulmões, fígado, aparelho digestivo e sistemas excretores e a maior parte das glândulas endócrinas foram substituídos, alguns várias vezes, por equivalentes menores e mais eficientes. Meus ossos, músculos, nervos e vasos sangüíneos são reforçados com milhões de implantes microscópicos, que, além de garantirem as funções críticas, em muitos casos rejuvenescem bioquimicamente as células velhas. Minha pele é feita de um material especial que foi aperfeiçoado recentemente; ela tem todas as boas propriedades da pele humana, mas não envelhece nem cria manchas ou verrugas... Uma vez por ano vou ao hospital, fico inconsciente durante dois dias e saio de lá literalmente novo.
— Você se importa de chegar aqui para eu examiná-lo de perto? — per-guntou Nicole rindo. — Não preciso encostar nas suas chagas feito São Tome, mas você há de convir que é difícil acreditar no que está me contando.
Michael O'Toole atravessou a sala e ajoelhou-se ao lado da cadeira de rodas. Nicole estendeu a mão e tocou no rosto dele. Era suave e macio como o de um rapaz. Seus olhos eram frescos e claros.
— E quanto a seu cérebro, Michael — perguntou Nicole —, o que fizeram com ele?
Michael sorriu, e Nicole notou que não havia rugas na sua testa.
— Muita coisa. Quando a minha memória começou a falhar, eles recondicionaram meu hipocampo. E até o complementaram com uma pequena estrutura especial que me torna mais capaz, segundo informaram... Há mais ou menos vinte anos foi instalado no meu cérebro um sistema operacional melhor, como eles descrevem, para aprimorar meu raciocínio...
Michael estava a menos de um metro dela, e a luz da lareira refletia-se em seu rosto. De repente, Nicole foi tomada por uma torrente de lembranças. Re-cordou-se de como tinham sido amigos em Rama, e dos seus momentos de intimidade, quando Richard foi embora e pensaram que tinha morrido. Nicole tocou mais uma vez no rosto dele.
— E você continua a ser Michael O'Toole — perguntou ela — ou tornou-se outra pessoa, parte humano e parte alienígena?
Michael levantou-se sem dar uma palavra e voltou para sua cadeira. Seus movimentos eram de um atleta, não os de um homem de mais de cento e vinte anos.
— Não sei como responder à sua pergunta — disse ele. — Eu me lembro com todos os detalhes da minha infância em Boston e de todas as fases importantes da minha vida. Ao que eu saiba, ainda sou mais ou menos o mesmo...
— Michael anda extremamente interessado em religião e na criação — falou Simone pela primeira vez depois de algum tempo. — Mas ele mudou um pouco; todos nós ficamos alterados com a nossa experiência de vida...
— Continuo a ser um devoto católico apostólico romano — disse Michael — e faço minhas orações diariamente... Mas é claro que minha visão de Deus e da humanidade mudou de forma drástica, em razão de tudo o que Simone e eu vimos... Mas minha fé se fortaleceu... basicamente por causa das minhas con-versas iluminadas com...
Michael parou e olhou para Simone.
— Nos primeiros anos, mãe — falou ela —, quando Michael e eu estáva-mos sozinhos em Nodo perto de Sírius, enfrentamos muitas dificuldades... Tínhamos só um ao outro para conversar... Eu era uma garota e Michael, um homem maduro... Eu não conhecia nada de física, de religião ou de vários outros assuntos favoritos dele...
— Nós não tínhamos um problema grave — falou Michael. — Mas éramos muito solitários, de uma forma muito especial... Nossa vida em comum era ótima e enriquecedora... Mas precisávamos de outra coisa, de uma coisa a mais...
— A Inteligência Nodal, ou qualquer outro nome que se dê ao poder que cuidava de nós, percebeu nossa dificuldade. E também reconheceu que a Águia poderia preencher nossas necessidades individuais. Então, criaram um companheiro para cada um de nós, em certo sentido como a Águia.
— Foi um golpe de mestre — disse Simone — que acabou com a tensão emocional que ameaçava nosso casamento perfeito. Quando São Michael...
— Deixe que eu conto, querida — interrompeu Michael. — Uma noite, quase dois anos depois que você e os outros partiram, Simone estava no quarto do apartamento, amamentando Katya, quando ouvimos uma batida na porta... Imaginei que fosse a Águia... Ao abrir a porta, vi um rapaz de cabelos pretos e crespos, olhos azuis, uma perfeita reconstrução de São Miguel de Siena. O rapaz me disse que a Águia não teria mais contato conosco e que ele seria meu novo intermediário com a inteligência que governava Nodo...
— São Michael — falou Simone — tinha um vasto conhecimento da história da Terra, do catolicismo, de física e de todos os outros assuntos que eu desconhecia por completo...
— Além disso — falou Michael, levantando-se da cadeira —, ele nos expli-cava o que acontecia à nossa volta em Nodo... Não que a Águia não explicasse, mas São Michael era muito mais caloroso, mais pessoal. Era como se tivesse sido enviado por eles, ou por Deus, para ser um companheiro do meu pensamento.
Nicole ficou olhando para Simone e para Michael, cuja expressão era ab-solutamente radiante. O fervor religioso dele não declinou, foi redirecionado, pensou ela.
— E esse São Michael ainda anda por aqui? — perguntou Nicole, engo-lindo o último gole de café.
— É claro — falou Michael. — Nós não o apresentamos a Patrick porque ele não tinha muito tempo, mas queremos que você o conheça. — Michael atravessou a sala, cheio de energia. — Lembra-se que Richard perguntava infinitas vezes quem havia construído Nodo e Rama, e com que propósito? São Michael pode dar essas respostas e explica tudo com grande eloqüência.
— Meu Deus! — exclamou Nicole com um ligeiro traço de ironia na voz. — Parece uma coisa fantástica... Boa demais para ser verdade... Quando vou ter o privilégio de conhecê-lo?
— Agora mesmo, se quiser — respondeu Michael O'Toole esperançoso.
— Muito bem — falou Nicole, dando um bocejo. — Mas lembre-se de que estou cansada, doente, e que sou uma mulher idosa... Não posso ficar acordada até tarde...
Michael foi até a porta do escritório.
— São Michael —- chamou —, pode vir até aqui conhecer a mãe de Simone?
Um instante depois, um jovem padre de pouco mais de vinte anos, vestido com uma túnica azul-escura, entrou na sala e foi até a cadeira de rodas de Nicole.
— Estou encantado em conhecê-la — disse ele, com um sorriso beatificado. — Ouço falar na senhora há muitos anos.
Nicole estendeu a mão e examinou o alienígena atentamente. Não havia nada naquele indivíduo que demonstrasse que ele não era um ser humano normal. Meu Deus, não só a tecnologia deles é fantástica como seu aprendizado é incrível, pensou Nicole.
— Agora vamos deixar uma coisa bem clara desde o início — disse ela para São Michael, com um sorriso de esguelha. — Há muitos Michaels aqui. Não pretendo chamar você de São Michael; não é meu feitio. Posso chamar de São, de Mike ou de Mikey? O que você prefere?
— Quando os dois estão juntos, eu chamo meu marido de Grande Michael — falou Simone. — E tem dado certo.
— Muito bem — falou Nicole. — Como dizia Richard, "Em Roma, como os romanos..." Sente-se aqui, Michael, perto da minha cadeira... O Grande Michael fez tantos elogios a você que não quero perder uma filigrana da sua sabedoria por causa da minha má audição.
— Obrigado, Nicole — disse São Michael com um sorriso. — Michael e Simone também têm me falado das suas virtudes, mas eles subestimaram sua inteligência aguçada.
E ele tem personalidade. Será que as maravilhas não vão cessar nunca?, pensou Nicole.
Uma hora depois, Simone levou-a para o quarto de hóspedes no final do corredor. Nicole deitou-se de lado e ficou olhando para a janela. Embora estivesse muito cansada, não conseguia dormir. Sua cabeça funcionava a todo vapor, repassando todos os acontecimentos do dia.
Talvez eu deva pedir um remédio para dormir, pensou, passando a mão pelo botão da mesa-de-cabeceira. Simone disse que São Michael viria se eu o chamasse. E que ele pode fazer tudo o que a Águia faz. Tendo certeza de que podia pedir ajuda caso sua insônia persistisse, Nicole ajeitou-se numa posição confortável e soltou seus pensamentos.
Pensou no que tinha visto e ouvido desde que chegara naquele isolado enclave em que Michael, Simone e sua família viviam. São Michael explicara que aquela pseudo-Nova Inglaterra era uma pequena seção do Módulo de Habitação de Nodo, e que havia centenas de outras espécies vivendo de forma semipermanente na vizinhança. Nicole tinha perguntado por que Michael e Simone preferiram viver separados de todos os outros.
— Durante anos — Michael O'Toole respondeu —, vivemos em ambientes com várias espécies. Na verdade, até depois de nossos quatro filhos naturais nascerem fomos passados de um lugar para outro, a fim de que testassem nosso senso de adaptação e compatibilidade com uma gama de outras plantas e espécies animais... Naquela época, São Michael confirmou o que suspeitávamos, isto é, que nossos hospedeiros queriam expor-nos a uma variedade de ambientes para colher mais informações sobre nós... Cada novo local era um novo desafio...
Michael fez uma pausa, como se estivesse controlando sua emoção.
— As provações psicológicas foram terríveis nos primeiros dias. Assim que nos adaptávamos a uma condição de vida, elas mudavam abruptamente... Eu ainda acho que Darren não teria morrido se tudo não fosse tão estranho naquele mundo subterrâneo... E quase perdemos Katya também quando ela estava com uns dois anos e sua curiosidade foi tomada como um ato de agressividade por uma criatura marinha semelhante a uma lula.
— Depois que nos puseram para dormir pela segunda vez — disse Simone — e nos trouxeram para este Nodo, Michael e eu estávamos exaustos de tantos testes durante anos e as crianças estavam crescidas e começavam a casar-se. Pedimos para ter um pouco de privacidade, e nosso pedido foi acatado...
— Nós ainda vamos ao outro mundo — acrescentou Michael —, mas agora interagimos com os seres exóticos de distantes sistemas estelares porque que-remos, e não por obrigação... São Michael nos informa regularmente sobre os jogos de basquete e as tartarugas voadoras. Ele é nossa janela informativa para o resto do Nodo.
São Michael é extraordinário, pensou Nicole, e muito mais avançado até mesmo do que a Águia. Responde a qualquer pergunta com segurança. Mas há alguma coisa nele que me deixa intrigada... Será que todas aquelas respostas sobre Deus, a origem e o destino do universo eram realmente corretas? Ou São Michael foi programado para ser o perfeito companheiro alienígena de Michael, com base no seu fervor religioso?
Nicole rolou na cama e considerou seu próprio relacionamento com a Águia. Talvez eu esteja com ciúmes, porque parece que Michael aprendeu muito... e a Águia não tem boa-vontade de responder, ou não sabe responder às minhas perguntas... Mas quem sai ganhando mais, a criança cujo mentor sabe e conta tudo, ou a criança cujo professor ajuda a encontrar suas próprias respostas?... Eu não sei... Eu não sei... Mas foi uma apresentação e tanto de São Michael no altar...
— Está vendo, Nicole? — disse Michael, pulando da cadeira pela enésima vez. — Todos nós estamos participando da grande experiência de Deus. Todo o universo, não só a nossa própria galáxia, mas todas as galáxias que se estendem até o final dos céus fornecerão pontos de referência para Deus... Ele busca a perfeição, aquela pequena série de parâmetros iniciais que — como o universo é movimentado pela transformação de energia em matéria — evoluirão ao longo de bilhões de anos em uma harmonia perfeita, um testemunho da capacidade consumada do Criador...
Nicole teve dificuldade em seguir a alta matemática, mas compreendeu a essência dos diagramas que São Michael desenhou no quadro-negro do escritório.
— Então, neste momento — disse ela para o alienígena de cabelos pretos e olhos azuis —, há inúmeros outros universos em evolução, cada um iniciado por Deus em condições diferentes, e de certa forma Deus introduziu você, a Águia, Nodo e Rama dentro desse específico processo de evolução para adquirir informações? E tudo isso para que Ele possa definir alguma construção matemática associada com a criação que sempre produzirá um resultado harmonioso?
— Exatamente — respondeu São Michael, apontando mais uma vez para o diagrama do quadro-negro. — Imagine que esse sistema coordenado que desenhei seja uma representação simbólica em duas dimensões das hipersuperfícies disponíveis de parâmetros que definem o instante da criação, o momento em que a energia é transformada pela primeira vez em matéria. Qualquer disposição ou vetor que represente um conjunto específico de condições iniciais para o universo pode ser descrita com um único ponto no meu diagrama. O que Deus está e esteve buscando é um conjunto muito especial, fechado e denso, localizado nesta hipersuperfície matemática. A propriedade desse conjunto especial que Ele busca é que qualquer de seus elementos, isto é, qualquer disposição de condições no instante da criação, escolhida dentro deste conjunto, produza um universo que finalmente terminará em harmonia.
— É um problema quase insolúvel — disse Michael — criar um universo onde todos os seres vivos acabarão proclamando a glória de Deus. Se não houver matéria suficiente, a explosão e a expansão do instante da criação resultarão num universo expandindo-se para sempre, sem interação dos componentes individuais durante a evolução para produzir e sustentar a vida. Se houver matéria em excesso, o tempo será insuficiente para que a vida e a inteligência se desenvolvam plenamente, antes que a gravidade determine a grande compressão que acabará com o universo.
— O caos também atrapalha Deus — explicou São Michael — O caos é um fruto de todas as leis físicas que regem a evolução de qualquer universo criado. Ele impede a predição exata dos resultados dos processos em grande escala, e assim Deus não pode, a priori, calcular o que irá acontecer no futuro e, através de técnicas analíticas, isolar as zonas de harmonia... A experiência é a única forma possível para Deus descobrir o que está buscando...
— A estrutura que se opõe ao projeto de Deus é avassaladora — acres-centou Michael. — Para que Deus tenha êxito, não só a vida e a inteligência devem evoluir de partículas subatômicas brutas a átomos, através dos cataclismos estelares, como a vida deve alcançar um nível de conscientização espiritual e capacidade tecnológica tal, que transforme ativamente tudo em volta dela...
Então, Deus é o supremo projetista, o supremo engenheiro, pensou Nicole no seu quarto, ao lembrar-se da discussão. Ele modela o momento da criação de tal forma, que bilhões de anos .mais tarde os seres vivos atestam a maravilha da criação...
— Há uma parte aí que ainda não entendo — falou Nicole para os dois Michaels e Simone no final da noite. — Por que Deus cria tantos universos para realizar sua experiência? Uma vez comprovado um resultado harmonioso, a tarefa não se torna mais fácil? As condições iniciais daquele universo não podem simplesmente ser repetidas?
— Esse não é um problema difícil para Deus — respondeu São Michael. — Deus deseja saber a extensão da zona de harmonia na hipersuperfície dos parâmetros de criação e também todas as características matemáticas da zona... Além do mais, acho que você ainda não avaliou o alcance do problema de Deus. Apenas uma fração minúscula de todos os universos possíveis poderá vir a ser harmoniosa. O resultado natural da transformação de energia em matéria é um universo absolutamente desprovido de vida, ou, na melhor das hipóteses, com criaturas agressivas, de vida temporária, mais destrutivas que construtivas. Mesmo uma pequena área de harmonia dentro de um universo em evolução é um milagre... Por isso o empreendimento todo é tão desafiador para Deus.
Michael deu outro pulo e voltou a discursar.
— Deus está buscando um universo que alcance uma total harmonia antes de morrer na grande compressão. Ele não deseja apenas que as espécies vivas de todo o mundo trabalhem juntas para o bem comum, mas que todas as partículas subatômicas da Sua criação participem ativamente dessa harmonia... Durante algum tempo, eu mesmo não compreendia toda a grandeza desse conceito. Então, São Michael me falou sobre uma espécie que cria seres vivos com pedra e terra, como nosso Deus bíblico fez, transmutando e reorganizando os elementos. A harmonia total requer que espécies avançadas, como nós, usem seus instrumentos tecnológicos para transformar coisas inanimadas em criaturas que contribuam para essa harmonia...
Nicole lembrou-se de que naquele ponto da conversa havia dito que sua cabeça estava estourando e que queria ir para a cama. São Michael lhe pedira para esperar só mais uns minutos para ele resumir a discussão, que a seu ver fora desorganizada. Nicole tinha concordado.
— Voltando à nossa pergunta original — disse São Michael —, cada um dos Nodos faz parte de uma inteligência hierárquica que colhe informações através da sua galáxia específica. A maioria das galáxias, inclusive a Via-Láctea, tem uma única superestação chamada Monitor Motriz, localizada perto dos centros. O conjunto de Monitores Motrizes foi criado por Deus no mesmo instante em que o universo começou, e depois foi desdobrado, a fim de conhecer ao máximo os processos evolutivos. Os Nodos, os transportadores e todas as outras construções de engenharia que você viu foram, por sua vez, projetados pelo Monitor Motriz. Toda a atividade, inclusive a ocorrida desde que a primeira nave Rama entrou no seu sistema solar muitos anos atrás, tem por objetivo o desenvolvimento de critérios quantitativos, a serem usados pelo Criador, que permitirão que os universos subseqüentes terminem em harmonia gloriosa, apesar das tendências caóticas das leis naturais.
Nicole deu um assobio.
— Esta conversa está complicada demais e agora estou exausta — falou, movimentando sua cadeira de rodas.
Mas não tão exausta a ponto de dormir, pensou. Como é possível dormir depois de ouvir a explicação do objetivo do universo? Nicole riu para si própria na cama. Não posso imaginar o que Richard diria depois dessa discussão... Uma boa teoria talvez, mas como explicaria a liderança da África na Copa do Mundo de 2140 a 2160?... Nicole riu novamente. Richard teria gostado de São Michael, sem dúvida alguma, mas teria feito centenas de perguntas... Nós teríamos feito amor assim que voltássemos para o quarto e conversaríamos a noite toda...
Ela bocejou e virou-se para o outro lado. À medida que afundava no sono, visões do universo dançavam na sua cabeça.