A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 48 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 4

— Assim é que está certo — disse Nicole para Ellie, tirando sua roupa do armário. — Eu devia ter ido para o outro quarto desde o começo.

— Nós falamos sobre isso antes de você chegar, mas tanto Nai quanto Maria disseram que Maria voltaria para o quarto ao lado para que você pudesse ficar aqui comigo e com Nikki.

— Mesmo assim... — disse Nicole, pondo as roupas na mesa e olhando para a filha. — Ellie, estou aqui há poucos dias, mas me espanta ver como todos se absorvem nas coisas triviais do dia-a-dia... E não estou me referindo só a Nai e seus problemas. As pessoas com quem conversei na lanchonete, ou em outros lugares comunitários, passam grande parte do seu tempo discutindo sobre o que realmente está acontecendo. Só duas pessoas me fizeram perguntas sobre a Águia. E na noite passada, no terraço de observação, umas dez pessoas olhavam abismadas para o tetraedro, mas nenhuma delas tinha interesse em saber quem o tinha construído e com qual finalidade.

Ellie riu.

— Essas pessoas já estão aqui há um ano, mãe. E já fizeram todas essas perguntas há muito tempo, durante muitas semanas, mas nunca tiveram uma resposta satisfatória. É próprio da natureza humana, quando não se pode responder a uma pergunta infinita, deixá-la de lado até dispor de novas informações.

Ellie pegou as coisas da mãe e disse:

— Agora está na hora de você fazer sua sesta. Todos estão avisados para não entrarem no quarto nas próximas duas horas. Por favor, mãe, aproveite para descansar um pouco... Quando o dr. Azul saiu na noite passada, me disse que seu coração está mostrando sinal de fadiga, apesar de todas as suas sondas complementares.

— O sr. Kowalski certamente não ficou muito contente com a presença de uma octoaranha no nosso raio — comentou Nicole.

— Eu já expliquei a ele, e o Grande Bloco também explicou. Não se preocupe com isso.

— Obrigada, Ellie — disse Nicole, beijando o rosto da filha.

 

4

 

— Você está pronta, mãe? — perguntou Ellie, entrando no quarto.

— Creio que sim — respondeu Nicole. — Mas estou meio sem jeito. Fora aquele jogo de ontem com você, Max e Eponine, eu não jogo bridge há anos.

Ellie sorriu.

— Não importa se você joga bem ou não, mãe. Já falamos sobre isso na noite passada.

Max e Eponine estavam esperando na parada do transporte.

— Hoje vai ser muito interessante — disse Max depois de cumprimentar Nicole. — Vamos ver quanta gente vai aparecer.

O Conselho votara na noite anterior por mais três dias de boicote. Embora o Grande Bloco tivesse respondido à lista de agravos e persuadido as octoaranhas, mais numerosas do que os humanos, a cederem mais tempo nas áreas comuns para uso exclusivo dos humanos, o Conselho ainda não estava satisfeito com muitas respostas.

Houve também uma discussão na reunião do Conselho sobre a forma de fazer vigorar o boicote. Alguns dos participantes mais ativos queriam estabelecer punições para aqueles que ignorassem a resolução. No final da reunião, ficou decidido que os membros do Conselho engajariam ativamente os humanos que continuassem a desconsiderar as recomendações do Conselho de evitar intercâmbio com todas as outras espécies.

O transporte do corredor principal estava quase vazio. No primeiro carro havia uma meia dúzia de octoaranhas, e no segundo, umas quatro e um par de iguanas. Nicole e seus amigos eram os únicos humanos a bordo.

— Há três semanas, antes de começar essa nova onda de tensões — disse Ellie —, tínhamos vinte e três mesas para o nosso torneio semanal de bridge. Achei que estávamos fazendo progresso, pois entravam uns cinco a seis humanos novos toda semana.

— Ellie — perguntou Nicole quando o transporte parou e outro par de octoaranhas entrou —, de onde você tirou essa idéia de torneio de bridge? Quando me falou pela primeira vez em jogar cartas com as octoaranhas, achei que você estava ficando maluca.

Ellie riu.

— No começo, logo depois que todos nós fomos trazidos para cá, eu sabia que seria preciso algum tipo de atividade organizada para facilitar a interação entre as espécies. Ninguém iria puxar conversa com uma octoaranha, mesmo que eu ou um cabeça de bloco servíssemos de intérpretes... E então achei que o jogo poderia ser uma boa forma de estimular essa mistura... Isso funcionou durante algum tempo, mas logo se tornou óbvio que os humanos não chegavam aos pés das octoaranhas em jogo algum... Mesmo que ganhassem vantagens...

— No final do primeiro mês — interrompeu Max —, joguei xadrez com o seu amigo, dr. Azul... Ele me deu uma vantagem de uma torre e dois peões para começar o jogo, mas mesmo assim me deu uma surra... Foi deprimente...

— O último fiasco foi o nosso torneio de palavras cruzadas — continuou Ellie. — Todos os prêmios foram das octoaranhas, embora as palavras usadas fossem na nossa língua! Então percebi que tinha de inventar um jogo no qual os humanos não jogassem contra as octoaranhas...

— O bridge foi uma solução perfeita. Cada par consiste de um humano e uma octoaranha, e não é necessário que os parceiros conversem entre si. Preparei umas convenções nas duas línguas, e até mesmo o humano menos brilhante pode aprender em uma sessão os números das octoaranhas de um a sete e seus símbolos para os quatro naipes... Funcionou às mil maravilhas...

Nicole sacudiu a cabeça.

— Ainda assim acho isso uma maluquice — disse sorrindo. — Embora eu reconheça que a idéia é brilhante.

Havia só quatorze outras pessoas na sala de jogo do complexo de recrea-ção na hora marcada para o bridge começar. Ellie ajeitou as coisas fazendo dois jogos separados, um para os pares mistos, como os chamou, e outro só para as octoaranhas.

O dr. Azul era parceiro de Nicole. Eles concordaram em fazer um leilão de cinco cartas, uma das seis jogadas codificadas por Ellie, e sentaram-se a uma mesa perto da porta. Como as cadeiras das octoaranhas eram mais altas que as dos humanos, Nicole e seu parceiro ficavam sentados olho a olho. Ou melhor, olho a lente.

Nicole nunca tivera um parceiro de bridge tão excepcional. Ela aprendera a jogar quando estudava na Universidade de Tours, encorajada pelo pai, que achava que através de atividades extracurriculares ela faria mais amigos. Nicole também jogara bridge no Novo Éden, onde o jogo foi alta moda no primeiro ano que se seguiu ao Assentamento. Porém, apesar de gostar bastante de bridge, achava que era um jogo que consumia muito tempo, e que havia muitas outras coisas mais importantes a serem feitas.

Nicole percebeu logo que o dr. Azul e as outras octoaranhas que tinham vindo com seus parceiros humanos para o torneio duplo eram exímios jogadores de cartas. Na segunda cartada, ele fez um contrato de "três sem trunfo" terrivelmente difícil, usando as sutilezas de um jogador profissional.

— Muito bem — disse Nicole para seu companheiro octoaranha, depois que o dr. Azul fez o contrato e uma vaza extra.

— É muito simples, desde que você saiba onde estão todas as cartas — disse o dr. Azul em cores.

Era fascinante observar as octoaranhas usando o baralho. Elas retiravam as cartas com as duas últimas juntas de um só tentáculo, com o ajuda dos cílios das extremidades, e seguravam-nas na frente da lente com três tentáculos, um de cada lado e um terceiro no meio. Para colocar uma carta na mesa, a octoaranha usava o tentáculo mais próximo à carta em questão, equilibrando-a entre os cílios durante a descida.

Nicole e o dr. Azul conversavam animadamente entre as cartadas. O dr. Azul estava lhe dizendo que o novo Chefe Otimizador ficara intrigado com a última ação do Conselho, quando a porta da sala de jogo abriu-se e entraram três humanos, seguidos do Grande Bloco e um dos cabeças de bloco menores.

A mulher que vinha na frente, que Nicole reconheceu ser Emily Bronson, a presidente do Conselho, deu uma olhada pela sala e encaminhou-se para a mesa de Nicole. Estava começando uma rodada, e a octoaranha Leitosa e sua parceira, uma bonita mulher de meia-idade chamada Margaret, tinham ido jogar com Ellie e o dr. Azul.

— Ora, Margaret Young, estou espantada por vê-la aqui — disse Emily Bronson. — Você não deve ter ouvido dizer que o Conselho estendeu o prazo do boicote na noite passada.

Os dois homens que tinham entrado na sala com a sra. Bronson, um dos quais era o Garland do incidente da piscina, seguiram-na até a mesa de Nicole. Os três estavam em pé ao lado de Margaret.

— Emily... me desculpe — disse Margaret olhando para baixo —, mas você sabe como eu adoro bridge...

— O que está em questão agora é muito mais do que o bridge — disse a sra. Bronson.

Ellie tinha se levantado de uma mesa próxima e fez um apelo para o Grande Bloco impedir a interrupção, mas Emily Bronson foi rápida.

— Todos vocês — disse num tom bem alto — estão sendo desleais com sua presença aqui. Se saírem agora o Conselho não apresentará queixa contra vocês... Mas se ficarem depois de terem sido avisados...

O Grande Bloco interveio e disse à sra. Bronson que ela e seus amigos estavam interrompendo o jogo. Quando os três estavam saindo, mais de metade dos humanos levantou-se para segui-la.

— Isso é um absurdo — disse Nicole de pé, com a mão apoiada na mesa e uma voz incrivelmente clara e forte. — Sentem-se. Não se deixem levar por essa fomentadora de ódios.

Os jogadores voltaram aos seus lugares.

— Cale a boca, sua velha — disse Emily Bronson com raiva. — Isso não lhe diz respeito.

O Grande Bloco levou-a com seus companheiros para fora da sala.

 

— A senhora tem alguma idéia, sra. Wakefield, do que são esses objetos?

— Sei tanto quanto você, Maria — disse Nicole. — Certamente são coisas que tinham algum significado especial para sua mãe. Na época eu pensei que o cilindro de prata implantado na pele de sua mãe fosse uma espécie de placa de identificação do zôo, mas como nenhum empregado do zôo sobreviveu ao bombardeio, e como restaram muito poucos registros, não é provável que possamos um dia confirmar a minha hipótese.

— O que é uma hipótese? — perguntou a garota.

— É uma suposição experimental, ou uma explicação do que aconteceu quando não há prova suficiente para se chegar a respostas definitivas — respon-deu Nicole. — Aliás, eu gostaria de dizer que você se expressa muito bem.

— Obrigada, sra. Wakefield.

As duas estavam sentadas em um salão comunitário fora do terraço de observação, tomando suco de frutas. Embora Nicole já estivesse no Grande Hotel há uma semana, era a primeira vez que tinha oportunidade de estar a sós com a menina que ela encontrara nas ruínas do zôo das octoaranhas, dezesseis anos antes.

— Minha mãe era mesmo bonita? — perguntou Maria.

— Era dessas pessoas que chamam a atenção — respondeu Nicole —, embora eu não pudesse vê-la muito bem naquela luz mortiça. A pele era da mesma cor que a sua, talvez um pouco mais clara, e sua estatura era mediana. Devia ter uns trinta e cinco anos ou pouco menos.

— E não havia sinal do meu pai? — perguntou Maria.

— Não que eu visse. É claro que naquelas circunstâncias eu não pude procurar muito... É possível que ele estivesse em algum lugar do Domínio Alternativo, procurando ajuda. A cerca que separava o seu abrigo tinha sido destruída no bombardeio. Quando acordamos na manhã seguinte, receei que seu pai tivesse procurado por você, mas acabei me convencendo, pelo que tinha visto no abrigo, que você e sua mãe estavam sozinhas.

— Então, segundo sua hipótese, meu pai já tinha morrido? — perguntou Maria num tom tímido.

— Não necessariamente — replicou Nicole. — Eu não seria tão taxativa... Mas não parecia que alguém pudesse manter-se vivo naquele lugar por muito tempo.

Maria deu um gole no seu suco e fez-se um silêncio temporário.

— A senhora contou na outra noite, sra. Wakefield, quando estávamos conversando com Max e Eponine, que supunha que minha mãe, ou talvez meus pais, tivessem sido raptados muito antes pelas octoaranhas de um lugar chamado Avalon... Não entendi muito bem o que a senhora disse...

Nicole sorriu para Maria.

— Você é muito gentil, Maria. Mas agora faz parte da família... pode me chamar de Nicole.

Seu pensamento desviou-se para o Novo Éden, muitos e muitos anos atrás. E de repente notou que Maria estava esperando uma resposta ao seu comentário.

— Avalon era um assentamento fora do Novo Éden — disse Nicole -—, na escura e fria planície Central, criada originalmente pelo governo da colônia a fim de abrigar as pessoas que tinham um vírus mortal chamado RV-41. Depois que Avalon foi construído, o ditador do Novo Éden, chamado Nakamura, convenceu o Senado de que aquele era um lugar perfeito para outros humanos anormais, inclusive os que protestavam contra o governo, os que eram mentalmente retardados...

— O lugar não devia ser nada bom — comentou Maria.

Benjy viveu lá mais de um ano. Ele nunca fala sobre isso, pensou Nicole, sentindo-se culpada por não ter passado mais tempo a sós com Benjy desde que acordara. Mas ele nunca se queixou.

Mais uma vez, Nicole teve de esforçar-se para prestar atenção a Maria. Nós, velhos, estamos sempre com a cabeça no ar, pois vemos e ouvimos muitas coisas que nos fazem lembrar o passado, disse a si mesma.

— Eu já andei checando — respondeu ela. — Mas, infelizmente, todo o pessoal administrativo de Avalon morreu na guerra... Descrevi sua mãe para várias pessoas que passaram algum tempo em Avalon, mas ninguém se lembrou dela.

— Será que ela era uma doente mental? — perguntou Maria.

— Talvez — respondeu Nicole. — Nunca saberemos ao certo... Aliás, o seu colar é nossa melhor pista para a identidade de sua mãe. Ela era devota da ordem da Igreja Católica criada por São Miguel de Siena... Ellie me disse que há outros devotos dessa ordem a bordo... Pretendo conversar com eles quando tiver tempo...

Nicole parou e virou-se para o terraço de observação, onde estava come-çando uma movimentação. Alguns humanos e um grande grupo de octoaranhas apontavam para a janela e gesticulavam. Um casal saiu em direção do corredor principal, aparentemente para buscar outras pessoas para assistirem ao que estavam vendo.

Nicole e Maria saíram da mesa, subiram para o terraço e olharam pela grande janela. A distância, para além do tetraedro de luzes, uma imensa espaçonave de teto chato, parecendo um transportador, aproximava-se de Nodo. Nicole e Maria ficaram olhando, quietas, durante vários minutos, e a nave espacial foi se tornando cada vez maior.

— O que é isso? — perguntou Maria.

— Não tenho a menor idéia — respondeu Nicole.

O terraço de observação lotou rapidamente. Não paravam de chegar mais humanos, octoaranhas, iguanas, e até mesmo um par de aves. A multidão começava a comprimir-se contra Nicole e Maria.

O veículo de teto chato era extremamente longo, ainda mais longo do que os corredores de transporte que ligavam as esferas de Nodo. Dezenas de grandes bolhas transparentes espalhavam-se por sua superfície. O transportador parou perto de um dos vértices esféricos de Nodo e estendeu um longo tubo transparente que se encaixou perfeitamente do lado da esfera.

O terraço estava tumultuado. Todos os tipos de criaturas empurravam-se para chegar mais perto da janela. Um par de iguanas pulou para cima contra a janela no vácuo, e logo depois uns dez a vinte humanos fizeram o mesmo. Nicole começou a sentir claustrofobia e tentou sair do caminho. Não havia espaço suficiente para toda aquela multidão. Nicole foi empurrada em todas as direções e perdeu-se de Maria. Um grupo compacto empurrou-a de lado e jogou-a contra a parede. Com o impacto, Nicole sentiu uma forte dor no quadril esquerdo. Com toda a confusão que se seguiu, ela teria ficado muito mais machucada, não fosse a interferência do Grande Bloco e dos cabeças de bloco que entraram no meio da multidão e restauraram a ordem.

Nicole estava muito abalada quando o Grande Bloco chegou perto dela. A dor no quadril era insuportável, e ela não conseguia andar.

 

— São coisas que vêm com a idade — disse a Águia. — Você precisa ter mais cuidado. — Ela e Nicole estavam sozinhas no apartamento. Os outros tinham saído para tomar o café da manhã.

— Não gosto de ser frágil — comentou Nicole. — Nem de não fazer as coisas por medo de me machucar.

— Seu quadril vai ficar curado — falou a Águia. — Mas vai levar algum tempo. Você teve sorte de não sofrer uma fratura, foi só uma luxação. Na sua idade, uma fratura de quadril pode deixar a pessoa inválida para sempre.

— Obrigada pelas palavras confortadoras — disse Nicole, dando um gole no seu café. Ela estava deitada na esteira com a cabeça ligeiramente elevada por vários travesseiros. — Mas já basta de falar em mim... Vamos passar a outras coisas mais interessantes... Que nave chata é aquela?