A Revelação de Rama
Capítulo 9
Nicole ficou engasgada. Lembrou-se do amigo octoaranha no beco sem saída, jogando bola para divertir as crianças. E agora Hércules está morto, pensou. Porque não se saiu bem no trabalho. Isso é cruel e impiedoso.
Nicole levantou-se e agradeceu de novo ao dr. Azul. Tentou dizer para si própria que estava radiante por Richard estar curado do câncer de próstata e que não devia se preocupar com a morte de uma octoaranha relativamente insignificante. Mas a imagem de Hércules continuava a persegui-la. Elas são uma espécie completamente diferente, disse para si mesma. Não as julgue pelos padrões humanos.
Quando Nicole ia saindo da casa do dr. Azul, teve subitamente um desejo incontido de saber mais sobre Katie. Lembrou-se de que, numa noite recente, depois de ter tido um sonho muito vivido com Katie, acordara pensando se as octoaranhas não permitiriam que ela visse um pouco mais da vida da filha no Novo Éden.
— Dr. Azul — disse Nicole já na porta —, eu gostaria de lhe pedir um favor. Não sei se devo pedir isso ao senhor ou a Archie... Não sei nem se o que vou pedir é possível...
A octoaranha perguntou-lhe que favor era aquele.
— Como o senhor sabe — disse Nicole —, tenho uma filha que ainda está vivendo no Novo Éden. Eu a vi rapidamente em um dos vídeos que o Chefe Otimizador nos mostrou no mês passado... Gostaria muito de saber o que está acontecendo na vida dela.
9
Ao conversar com Nicole no dia seguinte, Archie lhe disse que seu pedido de ver os vídeos de Katie não podiam ser atendidos. Mas Nicole insistiu, aproveitando todas as ocasiões em que ficava sozinha com Archie ou o dr. Azul para reiterar seu pedido. Como nenhuma das duas octoaranhas dizia que nos seus arquivos não havia imagens da vida de Katie no Novo Éden, Nicole ficou certa de que os dados do vídeo estavam disponíveis. E ver esses dados tornou-se uma obsessão para ela.
— O dr. Azul e eu conversamos hoje sobre Jamie — disse Nicole certa noite, quando Richard e ela iam dormir. — Ele decidiu entrar no treinamento de otimizador.
— Que bom — disse Richard com sono.
— Eu disse ao dr. Azul que ele tinha sorte, como guardião, de poder participar dos acontecimentos da vida do seu filho... E expressei de novo nossa preocupação com a vida de Katie... Richard — disse Nicole num tom de voz ligeiramente mais alto —, o dr. Azul não disse hoje que não permitiriam que eu visse os vídeos de Katie. Você acha que isso indica uma mudança de atitude? Será que estou conseguindo solapar a resistência deles?
De início, Richard não respondeu, mas depois de pensar um pouco sentou-se na cama.
— Será que nós podemos dormir só uma noite sem discutirmos nova-mente sobre Katie e os malditos vídeos das octoaranhas? Meu Deus, Nicole, você não fala em outra coisa há duas semanas. Está perdendo seu controle...
— Não estou — interrompeu Nicole de forma defensiva. — Estou simples-mente preocupada com a nossa filha. Tenho certeza de que as octoaranhas têm pilhas de filmes que poderiam mostrar para nós. Você não quer saber...
— É claro que quero — disse Richard, dando um suspiro profundo. — Mas nós já conversamos sobre isso diversas vezes. De que adianta falar mais uma vez sobre isso no meio da noite?
— Eu disse para você — falou Nicole — que senti uma mudança na atitude deles. O dr. Azul não...
— Eu ouvi o que você disse — interrompeu Richard zangado —, e não acho que isso signifique alguma coisa. Provavelmente o dr. Azul está tão cansado quanto eu de discutir esse assunto — disse Richard sacudindo a cabeça. — Olhe, Nicole, nosso grupo está tendo dificuldades... Nós precisamos desesperadamente da sua sabedoria e sanidade mental. Max resmunga todo dia sobre a invasão das octoaranhas na sua intimidade, Ellie anda lúgubre, a não ser nos raros momentos em que Nikki a faz sorrir, e agora, em meio a tudo isso, Patrick anunciou que ele e Nai querem se casar... Mas você anda tão obcecada com Katie e os vídeos que não é capaz de aconselhar ninguém.
Nicole olhou feio para Richard e deitou-se de costas, sem dar resposta ao seu último comentário.
— Por favor, não fique emburrada, Nicole — disse Richard um instante depois. — Só estou pedindo que você seja tão objetiva sobre seu próprio comportamento quanto é em geral sobre o comportamento dos outros.
— Não estou emburrada — replicou Nicole —, e não estou ignorando os outros. De qualquer forma, por que sou sempre eu a responsável pela felicidade da nossa vida familiar? Por que ninguém pode de vez em quando fazer o papel de mãe do grupo?
— Porque ninguém é como você — respondeu Richard. — Você sempre foi a melhor amiga de todos.
— Pois agora cansei —- disse Nicole. — E tenho um problema meu, uma obsessão, segundo você... A propósito, Richard, estou desapontada com sua aparente falta de interesse. E sempre achei que Katie era sua favorita...
— Isso não é justo, Nicole — replicou Richard imediatamente. — Nada me deixaria mais feliz do que saber que Katie está bem... Mas tenho outras coisas na cabeça...
Nenhum dos dois disse nada durante algum tempo.
— Diga uma coisa, querida — falou Richard num tom mais suave. — Por que Katie se tornou tão importante de repente? O que mudou? Não me lembro de você tão preocupada com ela antes.
— Eu me fiz essa mesma pergunta — respondeu Nicole. — E não tenho uma resposta pronta para isso. Só sei que Katie tem sido uma presença constante nos meus sonhos ultimamente, mesmo antes de vê-la no vídeo, e que tenho sentido uma vontade incontrolável de falar com ela... Além disso, a primeira coisa que passou pela minha cabeça depois que o dr. Azul falou da morte de Hércules foi que eu tinha de ver Katie de novo antes de morrer... Não sei realmente por quê, nem sei o que quero dizer a ela, mas nosso relacionamento ainda me parece muito incompleto...
Mais uma vez fez-se silêncio no quarto.
— Desculpe eu ter sido meio insensível ainda há pouco — falou Richard.
Tudo bem, Richard, pensou Nicole. Esta não é a primeira vez, e nem será a última. Mesmo nos melhores casamentos há falhas de comunicação. Nicole acariciou a mão do marido.
— Aceito suas desculpas — disse, dando-lhe um beijo no rosto.
Nicole ficou surpresa ao ver Archie de manhã tão cedo. Patrick, Nai, Benjy e as crianças tinham acabado de passar para a outra casa que servia de escola. Os outros adultos ainda não tinham acabado de tomar o café da manhã quando a octoaranha apareceu na sala de jantar dos Wakefield. Max foi rude.
— Desculpe, Archie — disse ele —, mas nós não recebemos visita, pelo menos as que são visíveis, antes do café da manhã, ou que merda for essa que a gente bebe todo dia de manhã.
Nicole levantou-se da mesa quando a octoaranha fez menção de sair.
— Não preste atenção em Max — disse ela —, ele está sempre de mau-humor.
Max pulou da cadeira segurando um dos pacotes vazios onde ainda restava um pouco de cereal e balançou-o no ar, primeiro em uma direção e depois em outra, sem fechar bem o pacote antes de passá-lo para Archie.
— Sirva-se de uns quadróides — disse Max em voz alta. — Ou será que eles se moveram depressa demais para mim?
Archie não respondeu. Os outros humanos ficaram sem jeito. Max voltou para seu lugar ao lado de Eponine e Marius.
— Que merda, Archie — disse ele em frente à octoaranha —, acho que em breve você vai me marcar com dois daqueles pontinhos verdes. Ou será que vai me exterminar sumariamente?
— Max! — gritou Richard. — Você está saindo da linha... Pelo menos pense na sua mulher e no seu filho.
— É só neles que venho pensando, amigo, há quase um mês. E sabe o que mais, Richard? Este fazendeiro aqui do Arkansas não consegue pensar em nada que ele possa fazer para mudar... — A voz de Max falhou, e de repente ele deu um soco em uma das cadeiras. — Que merda! — gritou ele. — Eu me sinto tão inútil.
Marius começou a chorar. Eponine saiu da mesa com o bebê e Ellie foi ajudá-la. Nicole levou Archie até o vestíbulo, deixando Richard e Max sozinhos. Richard debruçou-se sobre a mesa e disse:
— Acho que sei como você está se sentindo, Max — falou com suavidade —, e estou do seu lado... Mas não vamos melhorar a situação insultando as octoaranhas.
— Que diferença faz? — disse Max, olhando para Richard com uma cara zangada. — Somos prisioneiros aqui, isso é óbvio. Deixei meu filho nascer em um mundo onde ele será sempre um prisioneiro. Que tipo de pai sou eu?
Enquanto Richard tentava acalmar Max, Nicole recebia de Archie o recado que esperava havia dias.
— Conseguimos permissão — disse a octoaranha — para você usar a biblioteca de dados hoje. Nós compilamos os vídeos em que aparece sua filha Katie em nossos arquivos históricos.
Nicole fez Archie repetir as cores para ter certeza de que entendera bem suas palavras.
Archie e Nicole não conversaram quando o transporte atravessou, sem pa-rar, a Cidade de Esmeralda até o alto prédio onde ficava a biblioteca das octoaranhas. E Nicole não prestou muita atenção às cenas da rua. Estava completamente imersa em seus próprios pensamentos e emoções. Lembrava-se de vários momentos importantes de sua vida, quando Katie era ainda criança. Lembrava-se especialmente do terror e da alegria de sua descida na toca das octoaranhas, anos atrás, para procurar sua filhinha de quatro anos que estava perdida. Você sempre esteve perdida, Katie, pensou Nicole. De uma forma ou de outra. Nunca consegui fazer você sentir-se segura.
Nicole sentia o coração batendo com fúria quando Archie finalmente a levou a uma sala onde havia apenas uma cadeira, uma mesa grande e uma tela de parede. Archie mandou-a sentar-se na cadeira.
— Antes de você aprender a usar este equipamento, quero lhe dizer duas coisas. Primeiro, que como otimizador do grupo quero responder oficialmente à solicitação de alguns de vocês para voltarem para o Novo Éden.
Archie fez uma pausa. Nicole concentrou-se. Era difícil tirar Katie tempo-rariamente da cabeça, mas ela sabia que tinha de se concentrar no que Archie ia lhe dizer. Os outros do grupo esperariam um relatório textual dela.
— Acho — continuou Archie um instante depois — que não será possível nenhum de vocês partir no futuro próximo. Só estou autorizado a dizer que o assunto foi examinado pelo próprio Chefe Otimizador em uma reunião de equipe, e que a solicitação foi negada por motivos de segurança.
Nicole ficou assombrada. Não esperava por isso, certamente não naquela hora. Ela havia dito a todos que achava que eles permitiriam...
— Então Max tinha razão — disse, lutando contra as lágrimas que ame-açavam escorrer-lhe pelo rosto. — Nós somos prisioneiros.
— Você pode interpretar a decisão como quiser — disse Archie. — Mas vou lhe dizer que, até onde posso compreender sua língua, acho que o termo "prisioneiro" que Max usa com freqüência não é correto.
— Então me dê uma palavra melhor, e um pouco mais de explicação — disse Nicole furiosa, levantando-se da cadeira. — Você sabe o que os outros vão dizer...
— Não posso — replicou Archie. — Já transmiti toda a nossa mensagem.
Nicole ficou andando para cima e para baixo na sala, com o humor pas-sando da raiva à depressão. Ela sabia como Max iria reagir. Todos ficariam furiosos. Mas por que não explicam nada mais?, pensou ela. Isso não é característico das octoaranhas. Nicole sentiu uma ligeira dor no peito e afundou na cadeira.
— E qual é a segunda coisa que você tem a me dizer? — perguntou ela a certa altura.
— Eu trabalhei pessoalmente com os engenheiros de dados — disse Archie — para preparar os arquivos de vídeo que você vai ver agora... Pelo que conheço dos seres humanos, e de você especificamente, acho que vai ficar muito angustiada ao ver esse material... Por isso peço que considere a desistência desses arquivos.
Archie escolheu palavra por palavra com cuidado, sem dúvida porque sabia como aqueles vídeos eram importantes para Nicole. A mensagem dele era clara. O que eu vou ver vai me causar sofrimento, pensou Nicole. Mas não tenho escolha. Entre nada e sofrimento, escolho o sofrimento.
Depois de Nicole agradecer a Archie por sua preocupação e informar à octoaranha que queria ver os vídeos de qualquer jeito, Archie empurrou a cadeira na qual Nicole estava sentada para perto da mesa e mostrou-lhe como acionar os dados. O código de tempo fora traduzido pelas octoaranhas em números humanos, em termos de dias antes do presente; as imagens podiam ser vistas em quatro velocidades, cobrindo quatro ordens octais de magnitude, de um oitavo de tempo real a sessenta e quatro vezes a velocidade normal.
— Os dados sobre Katie estão quase completos — disse Archie — com relação aos últimos seis meses do seu tempo. Nosso processo normal de gerenciamento de dados filtra e resume os dados mais antigos, com base na sua importância. Os arquivos de Katie mostram a maioria dos acontecimentos principais dos últimos dois anos, mas antes disso há pouca coisa.
Nicole pegou os controles, e quando entrou com os dados mais recentes e viu o rosto de Katie aparecer na tela, sentiu Archie bater no seu ombro.
— Pode usar o aparelho o dia inteiro — disse a octoaranha quando ela se virou —, mas é só isso... Como há muitos dados disponíveis, sugiro que você use as altas velocidades para localizar os acontecimentos do seu interesse.
Nicole respirou fundo e virou-se para a tela.
Ela achou que não poderia chorar mais. Seus olhos quase se fechavam de tão inchados pelas lágrimas incessantes. Nicole já vira Katie injetando a droga kokomo pelo menos dez vezes, mas a cada vez que via sua filha enrolar o cordão de borracha no braço e introduzir a agulha na veia intumescida, vinham-lhe mais lágrimas aos olhos.
O que vira em quase dez horas era tão pior do que as piores coisas que tinha imaginado. Nicole estava arrasada. Apesar de não haver som em nenhuma das imagens, foi fácil para Nicole perceber o tipo de vida que Katie levava. Primeiro, sua filha era uma viciada irrecuperável. Pelo menos quatro vezes ao dia, e mais quando a vida não lhe corria bem, Katie retirava-se para seu apartamento charmoso, sozinha ou com amigos, e usava a elegante parafernália de droga que mantinha trancada numa caixa grande, no seu quarto de vestir.
Katie ficava exuberante logo depois da droga. Tornava-se afável, engra-çada e cheia de energia e aparente autoconfiança. Mas quando o efeito das drogas acabava no meio de uma festa, Katie transformava-se numa mulher vulgar e agressiva, acabando muitas noites sozinha no seu apartamento com suas agulhas.
Seu emprego oficial era o gerenciamento das prostitutas de Vegas. Seu cargo também incluía o recrutamento de novos talentos. De início, o coração partido de Nicole relutou em reconhecer o que seus olhos viam. Mas depois de uma seqüência sórdida, que começava com Katie aliciando uma adolescente linda e pobre de San Miguel e terminava com a menina, agora ricamente vestida e cheia de jóias, transformada na concubina temporária de um dos chefes zaibatsus de Nakamura alguns dias depois, Nicole foi forçada a admitir para si própria que sua filha era absolutamente despida de moral e de escrúpulos.
Depois que Nicole estava vendo os vídeos havia várias horas, Archie en-trou na sala e ofereceu-lhe alguma coisa para comer, mas ela recusou. Sabia que, no seu estado de agitação, seria impossível manter qualquer alimento no estômago.
Por que Nicole ficava olhando tanto tempo para aquilo? Por que não desligava os controles e saía da sala? Mais tarde, ela se fez essas mesmas perguntas e concluiu que, depois das primeiras horas, começara, pelo menos subconscientemente, a buscar a possibilidade de algum sinal de esperança para a vida de Katie. Não fazia parte da sua natureza aceitar sem argumentação que sua filha fosse fundamentalmente corrupta. Nicole ansiava por ver alguma coisa nos vídeos que lhe sugerisse que o futuro de Katie poderia ser diferente.
Com o passar das horas, ela encontrou dois elementos na vida infeliz de Katie que lhe pareceram sinais de que talvez um dia a filha abandonasse aquele comportamento autodestrutivo. Durante seus terríveis acessos de depressão, que ocorriam com mais freqüência quando seu suprimento de drogas estava baixo, Katie em geral ficava frenética, quebrando tudo o que encontrava no apartamento, com exceção das fotos de Richard e de Patrick. No final desses acessos de cólera, quando sua energia diminuía, Katie sempre tirava aquelas fotos da penteadeira e colocava-as com cuidado em cima da cama. Deitava-se ao lado delas e ficava soluçando durante uns trinta minutos. Para Nicole, esse comportamento repetido indicava que Katie ainda mantinha algum amor pela família.
O outro elemento de esperança, na cabeça de Nicole, era Franz Bauer, o capitão de polícia que era o companheiro regular de Katie. Nicole não tentava compreender aquela relação bizarra; uma noite o casal tinha uma briga terrível e obscena, e na outra Franz lia para Katie poemas de Rainer Maria Rilke como um prelúdio a várias horas de atividade sexual energética e incessante. Mas ela podia ver pelos vídeos que Franz amava Katie na sua forma estranha, e que não aprovava o vício dela. Durante uma das brigas, Franz pegou o suprimento de droga de Katie e ameaçou jogar tudo no vaso sanitário e dar a descarga. Katie ficou tomada de fúria e atacou Franz com uma escova de cabelo.
Hora após hora, Nicole ficou assistindo àquilo, tentando compreender a vida trágica de sua filha. A medida que o dia foi passando e Nicole continuava a olhar os vídeos anteriores, alguns nos primeiros dias de droga de Katie, foi descobrindo que Katie tinha tido um envolvimento sexual com o próprio Nakamura, e que o tirano do Novo Éden fornecia drogas para Katie regularmente durante todo o tempo em que estiveram ligados.