A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 25 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 3

Richard sentou-se no sofá ao lado de Nicole.

— Olhe — disse ele, mostrando seus braços para ela —, ainda estou arrepiado... Essas criaturas me deixam pasmo... Jesus, ainda bem que elas não são hostis.

Nicole olhou para o marido com um ar sério.

— Por que você diz isso?

— Elas podiam comandar um exército de bilhões, ou talvez trilhões. Aposto que elas podem até falar com as plantas! Você viu como elas tomaram uma providência rápida aquele dia na floresta... Imagine o que seria se o seu inimigo pudesse controlar todas as bactérias, até mesmo os vírus, e fazer com que eles acatassem suas ordens... Que idéia assustadora!

Nicole riu.

— Você não acha que está exagerando? Só porque elas trabalharam geneticamente um grupo de câmeras vivas não quer dizer que...

— Eu sei — falou Richard, pulando do sofá. — Mas não posso deixar de pensar na extensão lógica do que vimos hoje... Nicole, Archie admitiu para mim que o único objetivo das octoaranhas midgets é permitir lidar com o mundo minúsculo. As midgets podem ver coisas do tamanho de um micrômetro, ou seja, um milésimo de um milímetro... Agora estenda essa idéia a outras várias ordens de magnitude. Imagine uma espécie cujas morfologias envolvam quatro a cinco relações semelhantes à relação entre as octoaranhas normais e as midgets. Talvez a comunicação com as bactérias não fosse nada impossível.

— Richard — disse Nicole —, você não vai dizer nada sobre o filho de Max e Eponine? Que ele parece ter uma saúde perfeita?

Richard ficou quieto por um instante.

— É maravilhoso — ele disse, um pouco encabulado. — Eu acho que devia ir até lá dar os parabéns aos dois.

— Talvez seja melhor esperar para jantar — falou Nicole, olhando para um dos relógios especiais que Richard fizera para ela. Era um relógio que mostrava o tempo humano em relação com o tempo das octoaranhas.

— Faz uma hora que Patrick, Ellie, Nikki e Benjy estão na casa de Max e Eponine — continuou Nicole sorrindo —, desde que o dr. Azul trouxe umas fotos do pequeno Marius no útero. Como você diria, eles devem chegar em casa dentro de um feng.

 

3

Nicole terminou de escovar os dentes e olhou seu reflexo no espelho. Galileu tinha razão. Sou uma velha.

Esfregou o rosto com os dedos, massageando metodicamente as rugas espalhadas por toda a face. Ouviu Benjy e os gêmeos brincando e depois Nai e Patrick chamando-os para a escola. Eu não nasci velha, pensou ela. Houve uma época em que também ia à escola.

Nicole fechou os olhos, tentando lembrar-se de como era em criança mas não conseguiu definir uma imagem clara de si própria naquela época. Várias outras imagens de anos intermediários distorciam a imagem de Nicole a menininha indo para o colégio.

A certa altura reabriu os olhos e olhou-se no espelho. Na imaginação, apagou todas as bolsas sob os olhos e as rugas do rosto. Mudou a cor do cabelo e das sobrancelhas de cinza para preto-escuro e, vendo-se finalmente uma bela mulher de vinte e um anos, sentiu uma saudade intensa daqueles seus dias de juventude. Pois nós éramos jovens, e sabíamos que nunca iríamos morrer, lembrou-se ela.

Richard enfiou a cabeça pela porta.

— Ellie e eu vamos trabalhar com Hércules no escritório — disse ele. — Por que você não vem também?

— Daqui a pouco — respondeu Nicole. Enquanto ajeitava o cabelo, pensou na rotina desse grupo de humanos na Cidade de Esmeralda. Em geral, eles se reuniam no café da manhã na sala dos Wakefield. A escola terminava antes da hora do almoço. Depois da refeição todos menos Richard faziam a sesta, uma acomodação ao dia oito horas mais longo. Nicole, Ellie e Richard passavam quase todas as tardes com as octoaranhas, aprendendo cada vez mais sobre suas hospedeiras ou contando suas experiências do planeta Terra. Os outros quatro adultos ficavam a maior parte do tempo com Benjy e as crianças, no seu canto sem saída.

E aonde tudo isso nos leva?, Nicole perguntou de repente a si própria. Por quantos anos seremos hóspedes das octoaranhas? E o que acontecerá quando Rama chegar a seu destino?

Nicole não tinha resposta para nenhuma dessas perguntas. Até Richard tinha deixado de se preocupar com o que acontecia fora da Cidade de Esmeralda. Ele estava completamente envolvido com as octoaranhas e seu projeto de tradução, e passara a só pedir dados da navegação celestial a Archie de dois em dois meses. A cada vez Richard informava aos outros, sem acrescentar seu comentário, que Rama ainda seguia na direção geral da estrela Tau Ceti.

Como o pequeno Marius, pensou Nicole, nós estamos contentes aqui no nosso útero. Enquanto o mundo exterior não se impuser a nós, não faremos perguntas transcendentais.

Nicole saiu do banheiro e seguiu pelo corredor até o escritório. Richard estava sentado no chão entre Hércules e Ellie.

— Identificar o modelo da cor e registrar a seqüência no processador é fácil — dizia ele. — O mais difícil na tradução é converter automaticamente o modelo das cores em uma frase inteligível em inglês.

Richard olhou para Hércules e falou bem devagar.

— Como a língua de vocês é muito matemática, tendo cada cor uma série de ângstroms definida a priori, o sensor só precisa identificar o fluxo das cores e a largura das faixas. Assim, o conteúdo das informações é captado. Como as regras são muito precisas, não é difícil codificar um algoritmo simples contra erros para ser usado por jovens ou por quem não fale bem sua língua, no caso de algum erro de cor à esquerda ou à direita do espectro. Porém, traduzir o que uma octoaranha falou na sua língua é um processo bem mais complexo. O dicionário de tradução é bastante direto. As palavras e os esclarecedores apropriados podem ser identificados com presteza. Mas é quase impossível dar o próximo passo, em frases, sem alguma intervenção humana.

— Isto porque a língua das octoaranhas é basicamente diferente da nossa — comentou Ellie. — Tudo é especificado e quantificado, para minimizar a possibilidade de mal-entendidos. Não há subterfúgios nem nuances. Veja como elas usam o pronome nós, eles e vocês. Os pronomes são sempre marcados por esclarecedores numéricos, e até mesmo séries, quando há incertezas. A octoaranha nunca diz "uns wodens" ou "vários nillets"; há sempre um número ou um grau numérico para especificar a duração de tempo com maior precisão.

— Do nosso ponto de vista — disse Hércules em cores —, há dois aspectos da língua humana que são extremamente difíceis. Um é a falta de especificações precisas, o que exige um vocabulário maciço. Outro é o uso de frases indiretas na comunicação... Ainda tenho dificuldade em compreender Max, porque em geral o que ele diz é exatamente o contrário do que quer dizer.

— Não sei como fazer isso no seu computador — disse Nicole para Richard —, mas todas as informações quantitativas das frases das octoaranhas devem ser refletidas pela tradução. Quase todo verbo ou adjetivo que elas usam têm um esclarecedor numérico correlato. Como, por exemplo, Ellie acabou de traduzir "extremamente difícil" e "vocabulário maciço"? Hércules disse "difícil" com o número cinco usado como esclarecedor, e "grande vocabulário" com o número seis como esclarecedor de "grande". Todos os esclarecedores comparativos dizem respeito à questão de ênfase do adjetivo. Como o sistema numérico deles tem base octal, a série dos comparativos fica entre um e sete. Se Hércules tivesse usado o sete para esclarecer a palavra "difícil", Ellie teria traduzido a frase como "impossivelmente difícil". Se tivesse usado um dois como esclarecedor na mesma frase, ela poderia dizer "ligeiramente difícil".

— Os erros na ênfase dos adjetivos, embora sejam importantes — disse Richard, mexendo distraidamente em um pequeno processador —, quase nunca causam mal-entendidos. Mas quando há erros na interpretação própria dos esclarecedores do verbo a coisa é diferente... como aprendi recentemente depois de fazer meus primeiros testes. Tomemos o verbo ir na língua das octoaranhas, que significa, como vocês sabem, deslocar-se sem ajuda, sem transporte. A faixa amarela com tons de marrom/roxo/limão, cada uma das cores da mesma largura, inclui dezenas de verbos nossos, como andar, passear, perambular, correr e até mesmo zunir.

— É exatamente sobre isso que eu estava falando — disse Ellie. — Não se pode traduzir sem uma completa interpretação dos esclarecedores... Para esse verbo específico, as octos usam um duplo esclarecedor para referir-se a "com que velocidade"? Em certo sentido, as octoaranhas podem ir em sessenta e três velocidades diferentes... Para complicar ainda mais as coisas, elas podem usar também um esclarecedor em série; assim, a frase imperativa "vamos" pode ter inúmeras traduções.

Richard fez uma careta e sacudiu a cabeça.

— O que foi, papai? — perguntou Ellie.

— Estou desapontado — respondeu Richard. — Eu esperava que a versão simplificada do tradutor estivesse completa a essa altura. Mas parti do princípio de que a essência do que se dizia podia ser determinada sem o conhecimento de todos os esclarecedores. Incluir todas essas curtas faixas coloridas vai aumentar a armazenagem e diminuir a velocidade da tradução. Talvez eu tenha problema para projetar um tradutor que trabalhe no tempo real.

— E daí? — perguntou Hércules. — Por que você está tão preocupado com o tradutor? Ellie e Nicole já compreendem nossa língua muito bem.

— Não é bem assim — disse Nicole. — Ellie é a única de nós verdadei-ramente fluente nas suas cores. Eu ainda estou aprendendo.

— Embora eu tivesse começado este projeto como um desafio e para me acostumar com a língua de vocês — disse Richard para Hércules —, Nicole e eu comentamos na semana passada como o tradutor se tornou importante. Ela disse, e eu concordei, que nosso clã humano da Cidade de Esmeralda está dividido em dois grupos. Ellie, Nicole e eu temos uma vida mais interessante porque aumentamos nosso intercâmbio com a sua espécie, mas os outros, inclusive as crianças, se mantêm completamente isolados. Se eles não tiverem como se comunicar com vocês, vão acabar se sentindo insatisfeitos. Um bom tradutor automático é a chave para eles se ambientarem aqui.

 

O mapa estava amassado e rasgado em vários pontos. Patrick ajudou Nai a desdobrá-lo devagar e pregá-lo na parede da sala de jantar, que era também a sala de aula das crianças.

— Nikki, você se lembra do que é isso? — perguntou Nai.

— É claro, sra.Watanabe — respondeu a menininha. — É o mapa da Terra.

— Benjy, pode nos mostrar onde seus pais e avós nasceram?

— De novo? — disse Galileu bem alto para Kepler. — Ele nunca vai aprender isso. Ele é burro demais.

— Galileu Watanabe! Vá para o seu quarto e fique sentado na cama du-rante quinze minutos.

— Não faz mal, Nai — disse Benjy andando até o mapa. — Eu já estou acostumado com isso.

Galileu, com quase sete anos segundo as contas humanas, parou na porta para ver se seu castigo seria suspenso.

— O que está esperando? — ralhou a mãe. — Já disse para você ir para o seu quarto.

Benjy ficou parado um instante em frente ao mapa.

— Minha mãe — disse afinal — nasceu aqui na França. — Afastou-se um pouco do mapa e tentou localizar os Estados Unidos, do lado oposto do oceano Atlântico. — Meu pa-pai nasceu aqui em Bos-ton, na A-mé-ri-ca.

Benjy já ia sentar-se quando Nai lhe fez outra pergunta.

— E seus avós? Onde eles nasceram?

— A mãe da minha mãe — disse ele devagar — nasceu na A-fri-ca. — Ficou olhando o mapa e continuou: — Mas não me lembro onde fica isso.

— Eu sei, sra.Watanabe — falou Nikki imediatamente. — Posso mostrar, Benjy?

Benjy virou-se e olhou sorrindo para a garotinha de cabelos pretos.

— Pode me dizer, Nik-ki.

A garota atravessou a sala e colocou o dedinho na parte oeste da África.

— A mãe da minha avó nasceu aqui — disse orgulhosa —, nesse país verde... chamado Costa do Marfim.

— Muito bem, Nikki — falou Nai.

— Desculpe, Nai — disse Benjy. — Eu tenho estudado tanto as frações que não tive tempo de pegar em geo-gra-fia.

Ficou esperando a garotinha de três anos sentar-se e virou-se para Nai com os olhos cheios de lágrimas.

— Nai, não estou com vontade de ficar na escola hoje... Acho que vou voltar para casa.

— OK, Benjy — disse Nai gentilmente. Quando Benjy se encaminhou para a porta, Patrick quase foi atrás dele, mas Nai fez um sinal para ele ir embora.

A classe toda ficou em silêncio por um instante.

— Agora é a minha vez? — perguntou finalmente Kepler.

— Nai fez que sim e o garoto foi até o mapa.

— Minha mãe nasceu aqui na Tailândia, na cidade de Lampun, e o pai dela também. Minha avó materna também nasceu na Tailândia, mas em uma outra cidade chamada Chiang Saen. Aqui está ela, na fronteira com a China.

Kepler deu um passo para a direita e apontou para o Japão.

— Meu pai, Kenji Watanabe, e os pais dele nasceram na cidade japonesa de Kioto.

O menino afastou-se do mapa, parecendo que queria dizer alguma coisa.

— O que foi, Kepler? — perguntou Nai.

— Mamãe — disse o garoto depois de um longo silêncio —, o meu pai era um homem mau?

— O quê? — perguntou Nai espantada, olhando diretamente nos olhos do filho. — Seu pai era um ser humano maravilhoso... Inteligente, sensível, amoroso, com alto senso de humor, um verdadeiro príncipe. Ele...

Nai teve de parar, pois sentia sua emoção aflorar. Levantou-se, olhou um instante para o teto e recobrou o controle.

— Kepler — disse ela —, por que você me fez essa pergunta? Você adorava seu pai. Como pôde pensar...

— O tio Max nos disse que o sr. Nakamura veio do Japão, e nós sabemos que ele é um homem mau. Galileu disse que como o papai veio do mesmo lugar...

— Galileu — gritou Nai, com uma voz que assustou as crianças. — Venha cá imediatamente.

O menino entrou na sala e olhou intrigado para a mãe.

— O que você andou dizendo a seu irmão sobre o seu pai?

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Galileu, com um ar de inocente.

— Você disse que o papai devia ter sido mau, porque veio do Japão como o sr. Nakamura...

— Bom, eu não me lembro muito bem do papai. O que eu disse é que talvez...

Nai teve de se controlar para não dar um tapa em Galileu. Ela pegou o menino pelos ombros e falou:

— Mocinho, se eu ouvir você falando contra o seu pai outra vez...

Nai não terminou a frase, pois não sabia como poderia ameaçar seu filho nem o que mais poderia dizer. E de repente sentiu-se completamente esmagada por tudo o que lhe acontecera na vida.

— Sentem-se, por favor — disse ela afinal para os gêmeos —, e ouçam com bastante atenção. — Nai respirou fundo e continuou, apontando para o mapa: — Este mapa na parede mostra todos os países do planeta Terra. Em cada nação há todos os tipos de pessoas, boas, ruins, a maioria uma mistura de boas e ruins. Nenhum país tem só gente boa ou só gente má. Seu pai cresceu no Japão, e o sr. Nakamura também. Concordo com o tio Max que o sr. Nakamura é um homem muito mau. Mas o fato de ele ser mau não tem nada a ver com ser japonês. Seu pai, Kenjy Watanabe, que também era japonês, era um dos melhores homens que conheci. Sinto muito se vocês não conseguem se lembrar dele e se nunca souberam como ele era...

Nai fez uma pausa.

— Eu nunca me esquecerei do seu pai — disse ela num tom suave, como que falando consigo própria. — Ainda me lembro dele voltando para casa no Novo Éden no final da tarde. Vocês dois gritaram ao mesmo tempo: "Oi, papai, oi papai", quando ele entrou. Ele me beijou, pôs vocês no colo e levou-os para o balanço no quintal. Mesmo quando o dia dele tinha sido difícil, sempre era carinhoso e paciente...

A voz de Nai vacilou, seus olhos encheram-se de lágrimas e seu corpo começou a tremer. Ela virou-se de costas e olhou para o mapa.

— A aula terminou por hoje.

 

Meia hora depois, quando Patrick estava ao lado de Nai vendo os gêmeos e Nikki brincarem com uma grande bola azul no final da rua sem saída, ela falou:

— Desculpe, Patrick — disse Nai. — Eu não esperava ficar...

— Você não tem nada para se desculpar — replicou o rapaz.

— Tenho sim. Anos atrás me prometi que nunca mostraria meus senti-mentos diante de Kepler e Galileu. Eles não podem entender.

— A essa altura os dois já se esqueceram do assunto — disse Patrick depois de um breve silêncio. — Olhe para eles. Estão completamente absortos na brincadeira.

Naquele instante, os gêmeos estavam tendo uma de suas discussões típi-cas. Como sempre, Galileu tentava tirar alguma vantagem em uma brincadeira que não tinha regras rigorosas. Nikki estava ao lado dos meninos, acompanhando todas as palavras que eles diziam.

— Meninos, meninos — chamou Nai. — Parem com isso... Se não pu-derem brincar sem discutir é melhor virem para dentro de casa.

Um instante depois a bola azul foi rolando pela rua na direção da praça e as três crianças correram atrás dela.

— Gostaria de beber alguma coisa, Patrick? — perguntou Nai.

— Gostaria sim... você ainda tem aquele suco de melão verde que Hér-cules trouxe na semana passada? Era um bocado gostoso.

— Tenho — respondeu ela, abaixando-se para pegar o suco na cômoda onde guardava as bebidas. — A propósito, por onde anda o Hércules? Eu não o vejo há dias.

Patrick riu.

— Tio Richard recrutou-o para trabalhar em horário integral no tradutor. Até Ellie e Archie estão indo lá toda tarde. — Patrick agradeceu a Nai pelo copo de suco.

Nai deu um gole do seu próprio copo e foi até a sala de estar.

— Sei que você queria consolar o Benjy hoje de manhã — disse ela. — Só o impedi porque conheço seu irmão muito bem... Benjy é muito orgulhoso, e não quer que ninguém sinta pena dele.

— Eu compreendi — disse Patrick.

— Benjy notou hoje de manhã, até certo ponto, que mesmo Nikki, que ele considera ainda um bebê, vai em breve passar à sua frente na escola. Ao descobrir isso, ficou chocado e lembrou-se de suas próprias limitações.

Nai ficou em frente ao mapa da Terra, que ainda estava preso na parede.

— Nada neste mapa tem um significado especial para você, não é? — perguntou ela.

— Não muito. Vi muitas fotos e filmes, é claro, e quando era mais ou menos da idade dos gêmeos meu pai costumava me falar sobre Boston, a cor das folhas na Nova Inglaterra durante o outono e a viagem à Irlanda com o pai dele... Mas "minhas lembranças são de outros lugares... A toca de Nova York é uma lembrança muito viva na minha cabeça, assim como o ano fantástico que passamos em Nodo. — Patrick ficou calado um instante e depois continuou. — E a Águia! Que criatura! Eu me lembro dela com mais clareza que meu pai.

— Você se considera um habitante da Terra? — perguntou Nai.

— Esta é uma pergunta interessante — respondeu Patrick. — Certamente eu me considero um humano. Mas um habitante da Terra? Acho que não.

Nai encostou o dedo no mapa.

— Se Lampun, minha terra natal, fosse maior, apareceria aqui, bem ao sul de Chiang Mai. Às vezes não me parece possível que eu tenha vivido lá quando era criança.

Os dedos de Nai correram pelo contorno da Tailândia, enquanto ela se mantinha em silêncio ao lado de Patrick.

— Na outra noite — disse ela a certa altura —, Galileu jogou um copo de água na minha cabeça quando eu estava dando banho neles, e de repente lembrei-me dos três dias que passei em Chiang Mai com meus primos, quando tinha quatorze anos... Era época do festival de Songkran, em abril, e o povo da cidade estava celebrando o Ano Novo tailandês. Havia paradas e os discursos de sempre, sobre a forma como os reis Chakri desde a primeira nave Rama tinham preparado o povo tailandês para seu importante papel no mundo. Mas o que lembro com mais clareza é o passeio que fiz pela cidade com minha prima Oni e seus amigos, em uma camionete movida a eletricidade. Por todo lugar que passávamos, jogávamos um balde de água em alguém e eles jogavam em nós, e todos nós ríamos muito.

— Por que uns jogavam água nos outros? — perguntou Patrick.

— Já não lembro mais — disse Nai dando de ombros. — Era alguma coisa ligada com a cerimônia... Mas a experiência em si, os risos, as roupas completamente ensopadas no corpo e de repente ser atingida por mais um balde de água, tudo isso eu me lembro com detalhes.

Os dois ficaram mais uma vez em silêncio quando Nai tirou o mapa da parede.

— Então acho que Kepler e Galileu também não irão se considerar habi-tantes da Terra — falou, pensativa, enrolando o mapa com cuidado. — Talvez estudar geografia e a história da Terra seja uma perda de tempo.

— Eu não penso assim — falou Patrick. — O que as crianças estudarão então? Além do mais, nós todos precisamos compreender de onde viemos.

Três rostos infantis apareceram no portal da sala.

— Já está na hora do almoço? — perguntou Galileu.

— Quase — disse Nai. — Vão lavar as mãos primeiro... Um de cada vez — disse ela quando os pezinhos passaram pelo corredor.

Nai virou-se abruptamente e viu que Patrick olhava para ela de uma forma diferente. Nai sorriu.

— Apreciei muito sua companhia hoje de manhã — ela falou. — Sua presença tornou as coisas mais fáceis para mim. — Nai estendeu os braços e pegou as mãos de Patrick. — Você tem me ajudado muito com Benjy e as crianças nestes últimos dois meses. E seria bobagem minha não reconhecer que não me sinto tão solitária desde que você começou a passar os dias conosco.

Patrick deu um passo desajeitado na direção de Nai, mas ela segurou firme nas mãos dele.

— Ainda não. Ainda é muito cedo — disse, de modo carinhoso.