A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 32 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 10

Àquela altura, Nicole estava entorpecida. Sentia-se tão esgotada emocionalmente que não tinha forças para se mover. Quando finalmente desligou os controles, pôs a cabeça na mesa, chorou durante mais algum tempo e adormeceu. Archie acordou-a quatro horas depois e lhe disse que era hora de voltar para casa.

 

Estava escuro. O transporte estacionara na praça havia dez minutos, mas Nicole não desembarcava. Archie estava de pé ao lado dela.

— Não vou conseguir dizer a Richard o que vi hoje — disse, olhando para a octoaranha. — Ele vai ficar completamente destruído.

— Eu compreendo — falou Archie com simpatia. — Agora você sabe por que sugeri que você não assistisse àqueles vídeos.

— Você tinha razão — respondeu Nicole, soltando aos poucos a barra vertical e esticando resignadamente uma perna para fora do carro —, mas é tarde demais agora. Não posso apagar aquelas cenas horríveis da minha cabeça.

— Você me disse antes — falou Archie, assim que saíram do carro de transporte — que ficou óbvio através dos vídeos que Patrick sabia alguma coisa sobre a vida que Katie estava levando antes de fugir do Novo Éden. Mas ele preferiu não contar a você e a Richard os detalhes piores. Seria contra os seus princípios fazer uma coisa semelhante?

— Obrigada, Archie — disse Nicole, batendo no ombro da octoaranha, quase sorrindo —, por ler meus pensamentos... Você está começando a nos conhecer bem demais.

— Nós também tivemos um tempo difícil com a verdade na nossa socie-dade — comentou Archie. — Uma das linhas fundamentais para os novos otimizadores é dizer a verdade em todas as ocasiões. É aceitável guardar infor-mações, diz a polícia, mas não passar informações falsas. Os otimizadores mais jovens são muito exigentes com a verdade, sem levar em conta as conse-qüências... Às vezes, a verdade e a compaixão não são compatíveis.

— Concordo com você, meu sábio amigo alienígena — disse Nicole com um suspiro. — E agora, depois de um dos piores dia da minha vida, vou ter de enfrentar não uma, mas duas missões muito difíceis. Preciso dizer a Max que ele não poderá sair da Cidade de Esmeralda, e preciso informar a meu marido Richard que sua filha favorita é uma viciada e uma gerenciadora de prostitutas. Espero que essa humana velha e exausta encontre a força necessária para cumprir essas duas obrigações da melhor forma possível.

 

10

Richard estava dormindo quando Nicole chegou em casa, e ela sentiu-se confortada por não ter de explicar nada para ele imediatamente. Nicole vestiu a camisola e entrou de mansinho na cama, mas não conseguiu dormir. Na sua mente, continuava a ver aquelas horríveis imagens que vira ao longo do dia, e ficou pensando como iria contar a Richard e aos outros tudo aquilo.

No seu estado de vigília, Nicole de repente viu-se sentada nos terraços em Rouen, ao lado de seu pai, na praça onde Joana d'Arc fora queimada viva oitocentos anos antes. Sentiu-se então de novo uma adolescente, como era de fato quando seu pai a levara a Rouen, para que visse o cortejo em celebração a Joana d'Arc. A carroça que carregava a mártir estava chegando na praça, e o povo gritava.

— Papai — perguntou a adolescente Nicole, gritando para que seu pai a ouvisse por cima daquele tumulto —, o que posso fazer para ajudar Katie?

Seu pai não ouviu a pergunta. Sua atenção estava completamente voltada para a Donzela de Orleans, ou melhor, para a francesinha que estava inter-pretando Joana. Nicole viu quando a menina, que tinha os mesmos olhos claros e penetrantes atribuídos a Joana, foi amarrada na estaca e começou a rezar baixinho, enquanto um dos bispos lia sua sentença de morte.

— E Katie? — perguntou Nicole de novo, mas outra vez ficou sem resposta.

A platéia em volta dela nos terraços tossiu quando as pilhas de madeira que rodeavam Joana começaram a pegar fogo. Nicole levantou-se com a multidão quando as chamas espalharam-se rapidamente em volta da base da imensa fogueira. Ela podia ouvir claramente as preces de Santa Joana, invocando a bênção de Jesus. As chamas aproximaram-se da menina. Nicole olhou para o rosto da adolescente que mudara a história e sentiu um arrepio na espinha.

— Katie! — gritou. — Não! Não!

Nicole tentou desesperadamente encontrar um jeito de escapar das cha-mas, mas viu-se bloqueada de todos os lados. Não havia como salvar sua filha do fogo.

— Katie! Katie! — gritou Nicole de novo, lutando para escapar da multidão em volta.

Sentiu então braços em torno do seu peito, mas só alguns segundos de-pois percebeu que aquilo era um sonho e que Richard a olhava alarmado. Antes que ela pudesse falar, Ellie, de robe entrou no quarto.

— Você está bem, mamãe? Eu estava acordada e fui dar uma espiada em Nikki quando ouvi você gritando o nome de Katie...

Nicole olhou primeiro para Richard e depois para Ellie, e fechou os olhos. Ainda podia ver o rosto angustiado de Katie, contorcido de dor, logo acima das chamas. Nicole abriu os olhos de novo e olhou para o marido e para a filha.

— Katie está muito infeliz — disse, caindo em prantos.

Nicole estava inconsolável. Toda vez que começava a contar para Richard e para Ellie os detalhes do que havia visto, começava a chorar.

— Eu me senti tão frustrada, tão desprotegida! — disse enfim, quando conseguiu se controlar. — Katie está numa situação terrível e não há nada que possamos fazer para ajudá-la.

Resumindo a história da filha sem omitir nada, a não ser algumas cenas sexuais mais escabrosas, Nicole desistiu de tentar suavizar seu relato. Richard e Ellie ficaram assombrados e entristecidos com as notícias.

— Não sei como você conseguiu ficar lá sentada vendo isso durante tantas horas — falou Richard a certa altura. — Eu teria saído em poucos minutos.

— Katie está tão perdida, tão terrivelmente perdida — disse Ellie, sacu-dindo a cabeça. Minutos depois, a pequena Nikki entrou pelo quarto procurando por sua mãe. Ellie a abraçou e voltou para seu próprio quarto com a filha.

— Desculpe eu ter ficado tão perturbada, Richard — disse Nicole um pouco depois, antes de voltarem a dormir.

— Isso é compreensível — falou Richard. — O dia deve ter sido horrível para você.

Nicole secou os olhos pela milésima vez.

— Só me lembro de ter chorado tanto assim uma única vez em toda a minha vida — observou, tentando sorrir. — Eu tinha quinze anos, e meu pai me disse que estava pensando em propor casamento a uma inglesa com quem ele estava saindo. Eu não gostava dela, era uma mulher distante e fria, mas achava que não tinha o direito de dizer nada para meu pai... De qualquer forma, fiquei arrasada. Peguei Dunois, meu pato selvagem, e fui correndo até o nosso lago em Beauvois. Remei até o meio do lago, coloquei os remos dentro do bote e fiquei chorando durante várias horas.

Os dois ficaram em silêncio por um instante. Depois, Nicole debruçou-se para beijar Richard.

— Obrigado por ficar me ouvindo — disse. — Eu estava precisando de apoio.

— Também não é fácil para mim — falou Richard. — Mas pelo menos eu não vi Katie, e assim fica parecendo...

— Oh, meu Deus — interrompeu Nicole —, eu quase ia me esquecendo... Archie também me disse hoje que nenhum de nós terá permissão para voltar para o Novo Éden, por razões de segurança... Max vai ficar furioso.

— Não se preocupe com isso agora — falou Richard de forma carinhosa. — Tente dormir um pouco. A gente fala sobre isso amanhã.

Nicole aninhou-se nos braços de Richard e caiu no sono.

 

— Por razões de segurança! — gritou Max. — E que merda eles querem dizer com isso?

Patrick e Nai levantaram-se da mesa do café.

— Deixem a comida aí — disse Nai, mandando que as crianças a seguis-sem. — A gente come fruta e cereais na escola.

Kepler e Galileu relutaram em sair. Eles sentiram que alguma coisa im-portante seria discutida. Só quando Patrick chegou na mesa é que eles em-purraram a cadeira para trás e se levantaram.

Benjy teve permissão para ficar depois de prometer a Nicole que não repetiria nada da conversa para as crianças. Eponine saiu da mesa para amamentar Marius em um dos cantos da sala.

— Eu não sei o que isso significa — disse Nicole para Max depois que as crianças saíram. — Archie não deu maiores explicações.

— Ora, que maravilha — disse Max. — Nós não podemos sair daqui, mas seus amigos magricelas nem ao menos nos dizem por quê... Por que você não pediu para falar com o Chefe Otimizador naquela mesma hora? Você não acha que eles nos devem algum tipo de explicação?

— Acho sim — replicou Nicole. — E talvez fosse uma boa idéia pedirmos uma audiência com o Chefe Otimizador... Sinto muito, Max, mas não tratei desse caso muito bem... Eu estava preparada para assistir aos vídeos de Katie e, para falar com franqueza, a declaração de Archie me pegou desprevenida...

— Que merda, Nicole — falou Max. — Não estou te culpando... De qual-quer forma, como Ep, Marius e eu somos os únicos que ainda querem voltar para o Novo Éden, é problema nosso ir contra essa decisão... Eu duvido que o Chefe Otimizador já tenha visto um bebê de dois meses em carne e osso.

O resto da conversa na mesa do café foi sobre Katie e o que vira no dia anterior nos vídeos. A família explicou a razão da infelicidade de Katie sem entrar em maiores detalhes.

Quando Patrick voltou, disse que as crianças já estavam concentradas na aula.

— Nai e eu temos conversado sobre muitas coisas — disse ele, dirigindo-se a todos na mesa. — Primeiro, Max, queremos lhe pedir para ser um pouco mais cuidadoso diante das crianças com seus comentários negativos sobre as octoaranhas... Elas vivem com medo quando Archie ou o dr. Azul estão por aí, e devem ter esse tipo de reação baseadas no que escutam quando estamos conversando.

Max começou a resmungar.

— Por favor, Max — acrescentou Patrick —, você sabe que sou seu ami-go... Não vamos discutir sobre isso... Só pense no que eu disse e lembre-se de que talvez a gente tenha de ficar com as octoaranhas por muito tempo...

— Em segundo lugar — continuou Patrick —-, Nai e eu achamos, espe-cialmente em vista do que ouvimos hoje de manhã, que as crianças deviam aprender a língua das octoaranhas. E queremos que elas comecem o mais depressa possível... Acho que vamos precisar de Ellie ou de mamãe, além de uma ou duas octoaranhas... não só para ensinar, mas também para familiarizar as crianças de novo com nossos hospedeiros alienígenas... Hércules foi embora há uns dois meses... Mamãe, você pode falar com Archie sobre isso?

Nicole fez que sim e Patrick desculpou-se, dizendo que precisava voltar para a sala de aula.

— Pa-trick é um ótimo pro-fes-sor — disse Benjy. — Ele é muito pa-ci-en-te comigo e com as cri-an-ças.

Nicole sorriu intimamente e olhou para o filho por cima da mesa do café da manhã. Considerando as circunstâncias, pensou ela, nossos filhos se saíram bem. Eu devia estar contente por ter Patrick, Ellie e Benjy. E não me preocupar tanto assim com Katie.

 

Em um dos cantos do seu quarto, Nai Watanabe terminou sua meditação e fez as preces budistas, parte de sua rotina diária desde que era menina na Tailândia. Nai atravessou a sala de estar, encaminhando-se ao outro quarto para acordar os gêmeos, e viu, para sua surpresa, que Patrick estava dormindo no sofá. Ele ainda estava vestido, com o leitor eletrônico em cima do peito. Nai sacudiu-o com cuidado.

— Acorde, Patrick. Já é de manhã... Você dormiu a noite inteira aqui. Patrick acordou imediatamente e pediu desculpas a Nai. Quando estava saindo, disse que tinha vários assuntos para conversar com ela, sobre budismo, é claro, mas que podia deixar a conversa para uma hora mais conveniente. Nai sorriu e deu-lhe um beijo no rosto, dizendo que ela e os meninos iriam tomar o café da manhã dentro de meia hora.

Ele é tão jovem e sério, disse Nai para si mesma quando Patrick estava indo embora. E gosto muito da sua companhia... Mas será que alguém poderá substituir Kenji como meu marido?

Nai lembrou-se da noite anterior. Depois que os gêmeos foram dormir, Patrick e ela tiveram uma conversa longa e séria. Patrick queria se casar logo, e ela respondeu que não tinha pressa, que concordaria em marcar uma data quando tivesse se habituado com a idéia. Patrick perguntou então, de forma desajeitada, se poderiam ter um "maior intercâmbio sexual" enquanto esperavam. Então Nai lembrou a Patrick que lhe dissera desde o início que a relação deles não passaria dos beijos antes do casamento. Para tranqüilizá-lo, Nai lhe garantira que o achava muito atraente fisicamente e que gostaria de fazer amor com ele quando se casassem, mas que, pelas razões que já tinham discutido várias vezes, ela insistia em adiar o "intercâmbio sexual" por enquanto.

Durante o resto da noite, o casal ficou conversando sobre os gêmeos e sobre budismo. Nai disse que estava preocupada com o impacto que o casamento poderia causar a Galileu, sobretudo porque o menino se sentia seu protetor. Patrick disse a Nai que não acreditava que seus freqüentes choques com Galileu tivessem alguma coisa a ver com ciúmes.

— O menino se ressente de qualquer autoridade — disse Patrick — e resiste à disciplina... Kepler, por sua vez...

Quantas vezes nos últimos seis anos, pensou Nai, alguém começou um comentário com a frase "Kepler, por sua vez"... Lembrou-se de quando Kenji ainda estava vivo e os meninos apenas começavam a andar. Galileu caía e dava encontrão nas coisas com freqüência. Kepler, por sua vez, era cuidadoso e preciso nos seus passos. Quase não caía.

Os vaga-lumes gigantes ainda não tinham levado a aurora para a Cidade de Esmeralda. Nai continuou a divagar, como sempre fazia depois de um meditação pacífica. Disse a si mesma que ultimamente andava fazendo muitas comparações entre Kenjy e Patrick. Isso não é justo. Só posso me casar com Patrick depois que esse processo estiver terminado.

Mais uma vez ela pensou na noite anterior, e sorriu ao recordar-se da discussão acalorada que tiveram sobre a vida de Buda. Patrick ainda é ingênuo como uma criança, um idealista puro. Essa é uma das coisas que mais gosto nele.

— Eu admiro tanto a filosofia básica de Buda quanto sua abordagem — dissera Patrick. — Admiro mesmo... Mas tenho alguns problemas... Como você pode adorar um homem, por exemplo, que deixa a esposa e o filho para se tornar um mendigo?... E a responsabilidade dele para com sua família?

— Você está tirando a ação de Buda do seu contexto histórico — res-pondera Nai. — Em primeiro lugar, no norte da Índia, há dois mil e setecentos anos, viver pelas estradas mendigando era uma coisa aceitável. Havia alguns mendigos nos vilarejos e muitos nas cidades. Quando um homem queria procurar a verdade, seu primeiro passo era despir-se de todos os confortos materiais... Além do mais, você se esqueceu de que Buda veio de uma família muito rica. Sua mulher e seu filho não ficariam sem comida, abrigo, roupas e outras coisas essenciais...