A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 45 de 56

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A Revelação de Rama

De Volta a Nodo

 

 

1

Os sonhos vieram antes da luz. Eram sonhos desconexos, imagens a esmo, passando às vezes a blocos unificados, sem aparente finalidade ou direção. Sonhos com cores e padrões geométricos foram os primeiros de que Nicole se lembrou, mas sem saber quando tinham começado. A certa altura pensou pela primeira vez — Sou Nicole, e ainda devo estar viva —, mas isso tinha sido há muito tempo. Desde então ela havia visto em imaginação cenas inteiras, inclusive rostos, dentre os quais conheceu alguns. Esse é Omeh, disse a si mesma. Aquele é meu pai. E sentia grande tristeza à medida que ficava cada vez mais desperta. Richard fazia parte dos seus últimos sonhos, e Katie também. Os dois estão mortos. Eles morreram antes de eu dormir, lembrou-se.

Quando Nicole abriu os olhos, não conseguiu ver nada. A escuridão era completa. Mas aos poucos foi tomando conhecimento do que a cercava. Deixou as mãos caírem para o lado e sentiu com os dedos a textura macia da espuma. Virou-se de lado com grande esforço. Devo estar sem peso, pensou, pondo a cabeça para funcionar depois de anos de adormecimento. Mas onde estou?, perguntou a si mesma antes de cair no sono de novo.

Na próxima vez em que acordou, Nicole viu uma luz vindo do outro lado do container onde dormia. Soltou os pés da espuma branca que os prendia, levantou-os em frente à luz e viu que estavam calçados com uns chinelos transparentes. Esticou-se para ver se conseguia tocar na luz com os dedos dos pés, mas a luz estava muito longe.

Nicole colocou as mãos em frente aos olhos. A luz era tão fraca que ela não conseguiu ver detalhes, apenas a silhueta escura dos dedos. O container era bastante espaçoso; ela se sentou, mas só conseguiu encostar a mão no teto apoiando-se na outra mão e erguendo o corpo. Feito isso, apertou a espuma macia com os dedos, e por trás da espuma sentiu uma superfície dura, possivelmente de madeira ou até mesmo de metal.

Aquela ligeira movimentação deixou-a exausta. Sua respiração acelerou-se, as batidas cardíacas aumentaram e a mente ficou mais alerta. Nicole lem-brava-se perfeitamente de seus últimos momentos antes de cair naquele sono profundo em Rama. A Águia veio logo depois que eu encontrei aquela menininha no Domínio Alternativo... E onde estou agora? Quanto tempo fiquei dormindo?, pensava Nicole.

Ela ouviu uma batida suave na porta do container e deitou-se de costas na espuma. Alguém vem aí. Minhas perguntas serão em breve respondidas. A tampa do container abriu-se lentamente, e Nicole protegeu os olhos da luz. Então viu o rosto da Águia e ouviu sua voz.

 

Ela e a Águia estavam sentadas em uma grande sala onde tudo era branco. As paredes, o teto, a mesinha redonda, e até mesmo as cadeiras, xícaras, tigelas e colheres. Nicole tomou mais uma colherada da sopa quente, que parecia um caldo de galinha. À sua esquerda, encostado na parede, ela viu o container branco no qual ela estivera deitada. Não havia outros objetos na sala.

— ... Ao todo, uns dezesseis anos, no tempo dos viajantes — dizia a Águia. Tempo dos viajantes, pensou Nicole. Esse era o termo que Richard usava... — Nós não retardamos tanto seu envelhecimento como da outra vez. Nossos preparativos foram um tanto apressados.

Apesar de não sentir seu peso, para Nicole cada ato físico era um esforço monumental, pois seus músculos tinham ficado inativos durante muito tempo. A Águia ajudou-a a arrastar os pés entre o container da parede e a mesa. Suas mãos tremiam um pouco quando ela tomou a água e a sopa.

— Então estou com uns oitenta anos agora? — perguntou para a Águia com uma voz fraca, que mal reconheceu.

— Mais ou menos — respondeu o alienígena. — Seria impossível dar uma idade significativa para você.

Nicole olhou para seu Companheiro Águia do outro lado da mesa. Ele não tinha mudado nada. Seus olhos azuis e o bico cinza não tinham perdido nada de sua intensidade mística. As penas do alto da cabeça continuavam brancas como a neve, contrastando com as penas cinza-escuras da cara, do pescoço e das costas. Os quatro dedos de cada mão, esbranquiçados e sem penas, eram macios como os de uma criança.

Nicole examinou suas próprias mãos pela primeira vez: estavam enru-gadas e cheias de manchas senis. Virou-as e lembrou-se das palavras de Richard. Encarquilhado. Não é uma palavra e tanto? Significa mais do que enrugado... Não sei se vou ter a chance de ficar assim... A lembrança de Richard apagou-se. Minhas mãos estão encarquilhadas, pensou Nicole.

— Você nunca envelhece? — perguntou à Águia.

— Não, pelo menos não no sentido que vocês dão a essa palavra... Sou submetido a uma manutenção regular, e os subsistemas que mostram de-sempenho e degradação são substituídos.

— Então você nunca morre? A Águia hesitou um instante.

— Não exatamente assim. Como todos os membros do meu grupo, fui criado para um determinado fim. Quando minha existência não for mais necessária e eu não puder ser programado rapidamente para desempenhar uma função nova e necessária, serei desligado.

Nicole começou a rir, mas conteve-se.

— Desculpe, sei que não é engraçado... mas a forma de você usar as palavras foi um tanto peculiar... Desligado é tão...

— Mas é a palavra correta — disse a Águia. — Dentro de mim há várias fontes mínimas de energia, e também um sofisticado sistema de distribuição de energia. Todos esses elementos são essencialmente modulares e portanto transferíveis. Quando eu não for mais necessário, os elementos podem ser retirados e usados em outro ser.

— Como se fosse um transplante de órgãos — falou Nicole, terminando de beber sua água.

— Mais ou menos. O que me faz lembrar de outra coisa... Durante seu sono profundo, seu coração parou de bater duas vezes, sendo que da segunda vez logo depois que chegamos aqui no sistema Tau Ceti... Nós conseguimos mantê-la viva com drogas e estímulo mecânico, mas seu coração está extremamente fraco... Se você quiser ter uma vida ativa durante algum tempo, terá de pensar em trocar de coração...

— Foi por isso que me deixou aqui durante tanto tempo? — disse Nicole apontando para o container.

— Em parte foi — disse a Águia. Ele já explicara a Nicole que quase todos os outros de Rama tinham acordado muito antes, alguns até um ano antes, e que estavam vivendo amontoados em outro lugar perto dali. — Mas nós também ficamos preocupados com o seu conforto naquela nave adaptada... Ela foi re-modelada muito depressa, por isso não tem muita sofisticação... E também nos preocupamos por você ser a sobrevivente humana mais velha de todas...

É isso mesmo, disse Nicole para si mesma. O ataque das octoaranhas ceifou todas as pessoas acima de quarenta anos... Eu fui a única poupada...

A Águia parou de falar por algum tempo. Quando Nicole olhou para o alienígena de novo, seus olhos hipnotizantes pareciam expressar emoção.

— Além do mais, você é muito especial para nós... você teve um papel básico nesse nosso empreendimento...

Será possível, pensou Nicole de repente, ainda olhando para os olhos fascinantes da Águia, que esta criatura eletrônica realmente tenha sentimentos? Será que Richard tinha razão quando dizia que não há nenhum aspecto dos humanos que não acabe sendo duplicado pela engenharia?

— ...Nós esperamos o máximo possível para acordar você — disse a Águia —, para diminuir o tempo que você teria de passar em condições não ideais... Mas agora estamos nos preparando para entrar em outra fase das nossas operações... Como você vê, esta sala foi esvaziada há muito tempo. Só restou você. Dentro de mais uns dez dias, começaremos a desmontar as paredes, e até lá você já terá se recuperado...

Nicole perguntou de novo sobre sua família e amigos.

— Como eu já disse, todos sobreviveram ao longo sono. Mas a adaptação à vida no que seu amigo Max chama de Grande Hotel não tem sido fácil para eles. Todos os que estiveram com você na Cidade de Esmeralda, além de Maria e do marido de Ellie, foram mandados para dois quartos grandes contíguos, em uma seção da Estrela do Mar. Todos foram avisados de que aquele arranjo de vida seria temporário, e que mais tarde seriam transferidos para um lugar melhor. Porém Robert e Galileu não conseguiram adaptar-se bem às condições inusitadas do Grande Hotel.

— O que aconteceu com eles? — perguntou Nicole alarmada.

— Foram transferidos, por razões sociológicas, para outro local mais bem supervisionado da espaçonave. Robert foi o primeiro. Ele acordou do sono profundo com uma depressão grave e não conseguiu se recuperar. Infelizmente Robert morreu há quatro meses... Galileu está bem fisicamente, mas seu comportamento anti-social continua...

Nicole teve muita pena quando soube da morte de Robert. Pobre Nikki, pensou imediatamente, ela nunca teve chance de conhecer seu pai... e Ellie, seu casamento não foi como ela esperava...

Nicole sentou-se em silêncio, lembrando-se de tudo o que dizia respeito a Robert Turner. Você era um homem complicado, talentoso e dedicado ao seu trabalho. Mas em termos pessoais não funcionava bem. Talvez uma parte essencial sua tenha morrido há muito tempo... naquele tribunal no Texas, no planeta chamado Terra...

Nicole sacudiu a cabeça.

— Acho que a energia que usei para salvar Katie e Robert dos agentes das octoaranhas foi um desperdício — comentou ela.

— Não exatamente — disse a Águia com simplicidade. — Foi importante para você naquela época.

Nicole sorriu e olhou para seu colega alienígena. Bem, meu amigo oniscien-te, pensou, dando um bocejo, devo admitir que estou contente por estar de novo na sua companhia... Talvez você não seja um ser vivo, mas é certamente um ótimo conhecedor dos seres vivos.

— Vou ajudá-la a voltar para a cama — disse a Águia. — Você já ficou de pé tempo demais para a primeira vez.

 

Nicole estava muito contente consigo mesma. Tinha finalmente consegui-do dar uma volta completa pelo quarto sem parar.

— Bravo! — disse a Águia, chegando perto dela. — Você está fazendo um progresso fabuloso. Pensamos que você não andaria tão bem em tão pouco tempo.

— Mas agora preciso de um pouco de água — disse ela sorrindo. — Este corpo velho está suando muito.

A Águia pegou um copo de água na mesa. Quando Nicole terminou de beber virou-se para seu amigo alienígena.

— Agora você vai manter sua palavra? Você tem um espelho e uma muda nova de roupas naquela mala ali?

— Tenho sim. E trouxe até os cosméticos que você pediu... Mas primeiro quero examinar você para ver como seu coração respondeu ao exercício. — Ele segurou um aparelhinho preto na frente de Nicole e esperou aparecerem umas marcações na tela. — Ótimo. Aliás, excelente... Não houve qualquer irregularidade. Só uma indicação de que seu coração está trabalhando muito, o que deve se esperar numa mulher da sua idade...

— Posso ver isso? — perguntou, apontando para o monitor que a Águia passou para ela. — Imagino que esta coisa esteja recebendo sinais de dentro do meu corpo... mas o que são exatamente esses estranhos símbolos na tela?

— Você tem mais de mil sondas minúsculas dentro do seu corpo, sendo mais da metade na região cardíaca. Elas não só medem o desempenho crítico do seu coração e de outros órgãos como também regulam importantes parâmetros, como fluxo sangüíneo e distribuição de oxigênio. Algumas sondas até complementam as funções biológicas normais... O que você está vendo na tela é o resumo de dados do tempo em que você esteve se exercitando. Eles foram compactados e telemedidos pelo processador dentro do seu corpo.

Nicole franziu a sobrancelha.

— Talvez eu não deva perguntar, mas a idéia de ter todas essas coisas eletrônicas dentro de mim me deixa aflita.

— As sondas não são realmente eletrônicas — explicou a Águia —, pelo menos não no sentido que os humanos dão a essa palavra. E elas são absolu-tamente necessárias nesse ponto da sua vida. Se não ficassem aí dentro, você não sobreviveria nem um dia...

Nicole olhou para a Águia.

— Por que vocês não me deixaram morrer? — perguntou. — Vocês ainda têm alguma finalidade para mim que justifique todo esse esforço? Alguma função que eu deva desempenhar?

— Talvez — respondeu a Águia. — Mas talvez nós tenhamos considerado que você gostaria de ver sua família e seus amigos mais uma vez.

— É difícil acreditar que meus desejos tenham um papel significativo na sua hierarquia de valores — falou Nicole.

A Águia não respondeu. Foi até a mala que estava ao lado da mesa e voltou com um espelho, um pano úmido, um vestido azul simples e uma bolsa com cosméticos. Nicole tirou a camisola branca que estava usando, limpou-se com o pano, colocou o vestido e respirou fundo quando a Águia lhe passou o espelho.

— Tenho certeza de que não estou preparada para isso — disse ela com um sorriso triste.

Ela não teria reconhecido o rosto do espelho se não tivesse se preparado emocionalmente. Parecia uma colcha de retalhos, cheia de sulcos e rugas. Seu cabelo, inclusive as sobrancelhas e pestanas, estavam grisalhos ou brancos. Seu primeiro impulso foi chorar, mas ela conseguiu driblar as lágrimas bravamente. Meu Deus, estou tão velha!... Será que sou eu mesma?, pensou.

Guiada pela memória, Nicole pesquisou suas feições no espelho, os ves-tígios da mulher encantadora que fora em tempos idos. Viu aqui e ali uns traços do que havia sido considerado um rosto bonito, mas foi preciso procurar muito. Sentiu uma dor no coração ao lembrar-se de repente de um pequeno incidente quando era adolescente e andava pela estrada com seu pai, perto de sua casa em Beauvois. Uma velha apoiada em uma bengala vinha na direção deles, e Nicole perguntou ao pai se podiam atravessar a estrada para não passarem perto dela.

— Por quê? — perguntou o pai.

— Porque não quero ver aquela mulher de perto. Ela é muito velha e feia... e me dá arrepios.

— Você também vai ficar velha um dia — disse o pai, recusando-se a atravessar a estrada.

Eu estou velha e feia, e provoco arrepios em mim mesma, pensou, passando o espelho para a Águia.

— Você me avisou. Eu devia ter seguido seu conselho.

— É claro que você ficou chocada — disse a Águia. — Faz dezesseis anos que não se vê no espelho. A maioria dos humanos tem dificuldades com o processo de envelhecimento, mesmo que ele seja seguido dia a dia — falou a Águia, entregando a bolsa de cosméticos para Nicole.

— Não, obrigada — disse ela, desanimada. — Não vai adiantar nada. Nem mesmo Michelangelo poderia fazer alguma coisa com um rosto assim.

— Você é quem sabe — falou a Águia. — Mas eu achei que talvez quisesse usar os cosméticos antes de sua visita chegar.

— Visita! — disse Nicole, entre alarmada e excitada. — Eu vou ter uma visita... Quem é? — falou, pegando a bolsa de cosméticos.

— Acho que é melhor ser uma surpresa. Sua visita chegará daqui a um instante.

Nicole pôs batom e pó, escovou os cabelos grisalhos e ajeitou as sobran-celhas. Quando terminou, deu uma olhada no espelho.

— Isso é o melhor que posso fazer — disse para si própria e para a Águia. Um instante depois, a Águia abriu a porta do outro lado do quarto, saiu e voltou seguido de uma octoaranha.

Nicole viu a faixa azul-rei varrendo o quarto.

— Alô, Nicole. Como está se sentindo? — disse a octoaranha.

— Dr. Azul! — gritou ela, animada.

 

O dr. Azul segurou o aparelho na frente de Nicole.

— Vou ficar aqui até você poder ser transferida — disse o médico octoaranha. — A Águia tem outras obrigações a cumprir.

Faixas coloridas apareceram na telinha.

— Não compreendo — disse Nicole, olhando para o aparelho de cabeça para baixo. — Quando a Águia usou essa coisa, a legenda vinha em símbolos engraçados.

— Essa é a linguagem tecnológica deles para fins especiais — disse o dr. Azul. — É incrivelmente eficiente, muito melhor que as nossas cores... Mas é claro que não sei ler nada disso... Este aparelho, na verdade, vem em todas as línguas. Há até um módulo em inglês.

— Então que língua o senhor fala para se comunicar com a Águia quando não estou por perto? — perguntou Nicole.

— Nós usamos cores — respondeu ele. — Elas passam na testa dela da esquerda para a direita.

— O senhor está brincando — falou Nicole, tentando imaginar a Águia com cores na testa.

— Nada disso. A Águia é fantástica. Matraqueia e guincha com as aves, grita e assobia com os myrmigatos...

Nicole nunca ouvira a palavra myrmigato na linguagem de cores. Quando perguntou o que significava, o dr. Azul disse que seis dessas estranhas criaturas estavam vivendo no Grande Hotel, e que mais quatro iam nascer de melões-maná germinados.

— Embora todas as octoaranhas e humanos tenham dormido durante a longa viagem, os melões-maná transformaram-se em myrmigatos e depois em material séssil. Agora vão entrar na geração seguinte.

O dr. Azul colocou o aparelho na mesa.

— Então, qual é o veredicto para hoje, doutor? — perguntou Nicole.

— Você está ganhando forças — respondeu o dr. Azul. — Mas só está viva devido às sondas complementares que colocaram dentro de você. Em alguma hora terá de considerar...

— ...Substituir meu coração... já sei — completou Nicole. — Pode parecer estranho, mas a idéia não me agrada muito... Não sei exatamente por que sou contra isso... Talvez eu não saiba ainda o que me resta para viver... Sei que se Richard estivesse vivo...

Nicole parou e por um instante imaginou que estava na sala de vídeo olhando as imagens em câmera lenta dos últimos segundos de vida de Richard. Ela não tinha pensado naquilo desde que acordara.

— Importa-se que eu lhe faça uma pergunta muito pessoal? — disse Nicole.

— De jeito nenhum — respondeu a octoaranha.

— Nós assistimos à morte de Richard e Archie juntos, e eu fiquei tão desesperada que saí do ar... Archie foi assassinado na mesma hora, e ele era seu companheiro de vida. Mas você ficou ao meu lado, me consolando.. Não teve nenhuma sensação de perda ou de tristeza com a morte de Archie?

O dr. Azul não respondeu imediatamente.

— Nós, octoaranhas, somos treinadas desde que nascemos para controlar o que os humanos chamam de emoção. Os alternativos, é claro, são muito suscetíveis aos sentimentos. Mas nós que...

— Com o devido respeito — interrompeu Nicole gentilmente, encostando a mão no colega octoaranha —, não fiz uma pergunta clínica, de médico para médico. Fiz uma pergunta de amigo para amigo.

Uma curta explosão de raios roxos e depois azuis, desconexos, passou em volta da cabeça do dr. Azul, que respondeu:

— Sim, eu tive uma sensação de perda. Mas sabia que isso iria acontecer, mais cedo ou mais tarde. Quando Archie foi trabalhar nos preparativos de guerra, seu fim ficou evidente... Além disso, minha obrigação naquele momento era ajudar você.

A porta do quarto abriu-se e a Águia entrou. O alienígena carregava uma grande caixa cheia de comida, roupas e artigos diversos, e informou a Nicole que tinha trazido sua roupa espacial, e que muito em breve ela iria aventurar-se fora do seu ambiente controlado.

— O dr. Azul disse que você sabe falar em cores — disse Nicole brincando. — Será que pode me mostrar?

— O que quer que eu diga? — respondeu a Águia com faixas coloridas ordenadas saindo do lado esquerdo de sua testa e passando para o direito.

— Isso basta — falou Nicole, dando uma gargalhada. — Você é realmente incrível.

 

Nicole ficou de pé na fábrica gigantesca, olhando a pirâmide à sua frente. À direita, a menos de um quilômetro de distância, um grupo de biotas para finalidades especiais e dois tratores enormes construíam uma montanha alta.

— Por que vocês estão fazendo isso? — perguntou Nicole pelo mini-microfone no interior de seu capacete.

— É parte do próximo ciclo — respondeu a Águia. — Nós determinamos que essas construções específicas aumentam a possibilidade de tirarmos o que queremos da experiência.

— Então vocês já sabem alguma coisa sobre os novos viajantes espaciais?

— Não sei responder a isso — disse a Águia. — Não tenho nenhuma associação com o futuro de Rama.

— Mas você nos disse antes — falou Nicole, não satisfeita com a resposta — que nenhuma mudança foi feita, a não ser as necessárias...

— Eu não posso ajudá-la — repetiu a Águia. — Vamos, entre no veículo, o dr. Azul quer olhar a montanha mais de perto.

A octoaranha estava engraçada com sua roupa espacial. Na verdade, Nicole riu alto quando viu pela primeira vez o dr. Azul com a roupa branca justa cobrindo seu corpo escuro e seus oito tentáculos. O dr. Azul também tinha um capacete transparente na cabeça, através do qual era fácil ler as cores.

— Eu fiquei atônita — disse Nicole ao dr. Azul, que estava sentado ao seu lado, quando o veículo atravessou o terreno plano em direção à montanha — assim que nós saímos aqui fora... Não, essa palavra não é suficientemente forte... Você e a Águia haviam me dito que estávamos na fábrica, e que Rama estava sendo preparada para outra viagem, mas eu não esperava tudo isso...

— A pirâmide foi construída à sua volta enquanto você dormia — disse a Águia do banco do motorista em frente a eles. — Sem perturbar o seu ambiente. Se não tivéssemos conseguido fazer isso, você teria sido acordada muito mais cedo.

— E toda essa coisa não o deixa fascinado? — perguntou Nicole ao dr. Azul. — Você não fica imaginando que tipo de seres teria concebido esse grande projeto? E também criado uma inteligência artificial como a Águia? É quase impossível imaginar...

— Não é tão difícil assim para nós — falou a octoaranha. — Lembre-se de que ouvimos falar de seres superiores desde o início. Nós só existimos como criaturas inteligentes porque os precursores alteraram nossos genes. Nunca tivemos um período na nossa história em que pensássemos que estávamos no ápice da vida.

— Nós também não pensaremos nunca mais — brincou Nicole. — A história humana, independentemente de como irá terminar, foi alterada de forma profunda e irrevogável.

— Talvez não — disse a Águia do banco da frente. — Nosso banco de dados indica que algumas espécies não sofrem muito impacto quando entram em contato conosco. Nossas experiências são programadas para que haja essa possibilidade. Nosso contato ocorre durante um período finito, só com uma pequena percentagem da população. Não há um intercâmbio contínuo, a não ser que a espécie em estudo tome a iniciativa de criar esse intercâmbio... Eu duvido que a vida na Terra neste momento seja muito diferente do que teria sido se nenhuma espaçonave Rama tivesse entrado no sistema solar de vocês. Nicole debruçou-se para a frente no banco.

— Você tem certeza disso, ou está apenas supondo? A resposta da Águia foi vaga.

— Certamente a história da Terra foi mudada com o aparecimento de Rama. Acontecimentos importantes não teriam ocorrido se não tivesse havido nenhum contato. Porém, daqui a uns cem anos, ou quinhentos anos... A Terra será tão diferente do que teria sido?

— Mas o ponto de vista humano deve ter mudado — argumentou Nicole. — Certamente o conhecimento de que existe no universo, ou pelo menos existiu em alguma época anterior, uma inteligência avançada o suficiente para construir uma nave espacial robotizada interestelar do tamanho de uma cidade muito grande não pode ser desconsiderado como se fosse uma informação insignificante... Isso cria uma perspectiva diferente para toda a gama de experiências humanas. A religião, a filosofia e até mesmo os fundamentos da biologia devem ser revistos diante da...

— Estou contente de ver — interrompeu a Águia — que pelo menos um pouco do seu otimismo e idealismo se manteve ao longo de todos esses anos... Lembre-se, porém, que no Novo Éden os humanos sabiam que estavam vivendo em um domínio construído especialmente para eles por extraterrestres. E foram informados, por você e por outros, que estavam sendo continuamente observados. Mesmo assim, quando se tornou aparente que os alienígenas, quem quer que fossem, não pretendiam interferir nas atividades diárias dos humanos, a existência desses seres avançados tornou-se irrelevante.

O veículo chegou na base da montanha.

— Eu tinha muita curiosidade de vir aqui — disse o dr. Azul. — Como vocês sabem, não tínhamos nenhuma montanha no nosso reino em Rama. E não tínhamos muitas na região do nosso planeta de origem quando eu era criança... Achei que devia ser bom ficar no alto...

— Solicitei um desses tratores grandes — disse a Águia. — Nossa viagem até o cume levará só dez minutos... Talvez vocês fiquem assustados em alguns pontos por causa do declive da subida, mas é perfeitamente seguro, desde que vocês usem o cinto de segurança.

 

Nicole não estava velha demais para apreciar a subida espetacular. O trator, do tamanho de um prédio de escritórios, não tinha bancos muito confortáveis para os passageiros, e alguns solavancos eram bem violentos, mas o panorama descortinado à medida que subiam valia todo aquele desconforto.

A montanha tinha mais de um quilômetro de altura e cerca de dez de circunferência. Nicole pôde ver claramente a pirâmide onde estivera antes quando o trator estava a apenas um quarto do caminho da montanha. Mais adiante, o horizonte estava salpicado em todas as direções de isolados projetos de construções de finalidade desconhecida.