A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 42 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 8

Richard se deteve quando ouviu a porta dá cela abrir-se. Do lado de fora estavam o capitão da polícia local e um dos seus homens, cercados por quatro biotas, duas Garcias e dois Lincolns, todos de luvas. Nenhum dos biotas falou. Uma das Garcias abriu a porta e os quatro biotas entraram na cela onde estavam Richard e Archie. Um instante depois, as luzes se apagaram, ouviu-se um barulho abafado de luta, Richard gritou e um corpo caiu contra as barras da cela. Depois fez-se silêncio.

 

— Agora, Franz — disse Katie quando eles abriram a porta do posto poli-cial —, use sua patente. Ele é apenas um capitão local, e não vai lhe dizer que você não pode ver os prisioneiros.

Eles entraram um instante depois que os dois funcionários locais fecha-ram a porta da cela por trás dos biotas.

— Capitão Miyazawa — disse Franz em tom oficial —, sou o capitão Franz Bauer, do centro de operações... Vim ver os prisioneiros.

— Tenho ordens estritas da mais alta autoridade, capitão Bauer, para não deixar ninguém entrar na cela — disse o policial.

A sala de repente ficou às escuras.

— O que está acontecendo? — perguntou Franz.

— Deve ser um fusível queimado — replicou o capitão Miyazawa. — Westermark, vá lá fora checar o circuito.

Franz e Katie ouviram o grito. Depois do que pareceu uma eternidade, eles ouviram a porta da cela abrir-se e em seguida uns passos. Três biotas desapareceram pela porta da frente do posto quando as luzes voltaram.

Katie correu para a porta.

— Olhe, Franz — gritou frenética. — Sangue, eles tinham sangue nas roupas. Precisamos ver meu pai.

Katie passou correndo pelos três policiais no corredor.

— Oh, meu Deus — gritou ela, quando se aproximou da cela e viu seu pai no chão e sangue por todo lado. — Ele está morto, Franz. Papai está morto.

 

8

Nicole tinha visto o vídeo duas vezes. Apesar dos seus olhos inchados e da exaustão emocional, ela perguntou se podia ver mais uma vez. O dr. Azul passou-lhe um copo de água.

— Tem certeza de que quer ver mais? — perguntou a octoaranha.

Ela fez que sim. Mais uma vez não é demais, pensou Nicole. Quero cada cena, por pior que seja, guardada para sempre na minha memória.

— Por favor, comece na audiência — pediu Nicole. — Em velocidade normal até os biotas entrarem na cela. Depois passe em câmara lenta.

Richard nunca quis ser herói, pensou Nicole enquanto voltava à cena da audiência. Não era do seu feitio. Ele só foi com Archie para que eu não precisasse ir. Nicole estremeceu quando o guarda bateu em Richard e ele caiu no chão. O plano não poderia ter êxito, disse ela para si mesma quando os policiais do Novo Éden tiraram Archie e Richard do palácio de Nakamura. As octoaranhas sabiam disso. Eu também sabia. Por que não abri a boca depois que tive minha premonição?

Nicole pediu ao dr. Azul que pulasse para os últimos minutos do vídeo. Pelo menos eles ficaram juntos até o fim, pensou ela quando Richard e Archie estavam conversando pela última vez. E Archie tentou proteger Richard... Os quatro biotas apareceram na tela e o vídeo entrou em câmara lenta. Nicole viu a expressão nos olhos de Richard mudarem de surpresa para medo no momento em que os biotas entraram na cela.

Quando as luzes se apagaram, o filme mudou de qualidade. As imagens infravermelhas tiradas pelos quadróides mais pareciam negativos de fotos. Os biotas pareciam lúgubres, com os olhos esbugalhados, nas imagens infravermelhas.

No instante em que a cela ficou escura, uma das Garcias agarrou Richard pela garganta, e as outras três tiraram as luvas e usaram os dedos pontudos e afiados como lâminas. Quatro dos poderosos tentáculos de Archie enrolaram-se na Garcia que tentava estrangular Richard. Quando a Garcia despedaçou-se, formando um monte de cacos no chão da cela, os outros três biotas atacaram Archie furiosamente. Richard tentou ajudá-lo, mas um Lincoln deu um soco tão violento no pescoço de Archie que quase o decapitou. Richard gritou quando sentiu o líquido interno do corpo de Archie empapando sua roupa. Com a octoaranha fora da jogada, os biotas devastaram Richard, perfurando seu corpo várias vezes com os dedos. Ele caiu contra as barras de ferro e escorregou pelo chão. Seu sangue e o de Archie, de cores diferentes na imagem infravermelho, correram pelo chão. da cela, formando uma poça.

O vídeo continuou, mas Nicole não via mais nada. Agora finalmente compreendia que seu marido Richard, o único amigo íntimo que tivera em sua vida adulta, estava realmente morto. Na tela, Franz levava Katie pelo corredor, aos prantos, e depois acabavam as imagens. Nicole não se moveu. Ficou sentada, quieta, olhando para o monitor. Seus olhos estavam secos, seu corpo não tremia, ela parecia estar completamente controlada. Mas não conseguia se mover.

A luz era mortiça na sala de vídeo. O dr. Azul ainda estava sentado ao lado de Nicole.

— Acho — disse ela devagar, surpresa por sua voz parecer tão distante — que não acreditei nas duas primeiras vezes... Quer dizer, devo ter ficado tão chocada... talvez ainda esteja... — Nicole não conseguiu continuar. Estava com dificuldade para respirar.

— Você precisa beber um pouco de água e descansar — disse o dr. Azul.

Richard foi morto. Richard está morto. — Ah, sim, por favor — disse ela baixinho. Nunca mais vou ver meu marido. Nunca mais vou falar com ele. — Água fria, se for possível. — Eu vi Richard morrer. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Richard está morto.

Havia outra octoaranha na sala de vídeo. As duas criaturas ficaram con-versando, mas Nicole não conseguiu seguir as cores. Richard se foi para sempre. Estou sozinha. O dr. Azul tentou fazer Nicole beber a água, mas ela não conse-guiu engolir. Richard foi morto. Tudo era escuridão.

 

Alguém segurava sua mão. Era uma mão quente e agradável, fazendo cari-nho na sua. Nicole abriu os olhos.

— Alô, mamãe — disse Patrick carinhosamente. — Está se sentindo melhor?

Nicole fechou os olhos de novo. Onde eu estou?, pensou. Depois lembrou-se. Richard está morto. Devo ter desmaiado.

— Uhmmmm — disse ela.

— Quer um pouco de água? — perguntou Patrick.

— Por favor — murmurou ela, com voz estranha. Nicole tentou sentar-se e beber a água, mas não conseguiu.

— Calma — disse Patrick. — Não temos pressa.

Sua cabeça começou a funcionar. Eu preciso contar para eles. Richard e Archie estão mortos. Os helicópteros estão vindo. Precisamos ter muito cuidado e proteger as crianças.

— Richard... — conseguiu dizer.

— Nós já sabemos, mãe — falou Patrick.

Como eles souberam?, pensou Nicole. Eu sou a única aqui que sabe ler as cores...

— As octoaranhas escreveram tudo, com muita dificuldade. Não ficou perfeito, mas deu para entender o que elas contavam... E contaram também da guerra...

Meu Deus, eles sabem. Eu posso dormir. Dentro da sua cabeça ela ainda ouvia um eco. Richard está morto.

 

— De vez em quando ouço as bombas, mas acho que nenhuma delas atin-giu a cúpula — dizia Max. — Talvez eles não tenham descoberto onde fica a cidade.

— A cidade está completamente escura do lado de fora — disse Patrick.

— Eles aumentaram a cobertura e apagaram as luzes da rua.

— As bombas devem estar caindo no Domínio Alternativo. Não há como esconder aquele lugar — disse Max.

— O que as octoaranhas estão fazendo? — perguntou Patrick. — Nós nem ao menos sabemos se elas estão contra-atacando.

— Não se sabe ao certo, mas não posso acreditar que ainda não estejam fazendo nada — replicou Max.

Nicole ouviu passos no corredor.

— Os meninos estão ficando claustrofóbicos — disse Nai. — Será que podíamos deixar que eles brincassem lá fora?... Os clarões já passaram há meia hora.

— Não vejo por que não — disse Patrick. — Mas diga para eles entrarem caso vejam um clarão ou ouçam bombas.

— Eu vou ficar lá fora com eles — falou Nai.

— Onde está minha mulher? — perguntou Max.

— Está lendo com Benjy. Marius está dormindo — respondeu Nai. Nicole virou para o outro lado. Tentou sentar, mas sentiu-se muito cansada.

Começou a sonhar acordada, lembrando-se de sua infância. O que é preciso para ser uma princesa?, a pequena Nicole perguntou a seu pai. Ter um pai rei ou um marido príncipe, respondeu o pai sorrindo e dando-lhe um beijo. Então eu já sou uma princesa, porque você é um rei para mim...

— Como está Nicole? — perguntou Eponine.

— Ela se mexeu de novo hoje de manhã — falou Patrick. — A nota do dr. Azul diz que talvez ela consiga sentar-se hoje à noite ou amanhã. Diz também que eles constataram que o ataque não foi grave, que o coração não sofreu uma lesão permanente, e que ela está respondendo bem ao tratamento.

— Posso ver minha mãe agora? — perguntou Benjy.

— Ainda não, Benjy, ela está descansando — respondeu Eponine.

— As octoaranhas têm sido maravilhosas, não é? — comentou Patrick. — Mesmo no meio dessa guerra, elas encontram tempo para nos mandar mensagens...

— Até eu estou acreditando nelas — falou Max. — E nunca pensei que isso fosse possível.

Então eu tive um ataque cardíaco, pensou Nicole. Não foi apenas um desmaio quando eu soube que Richard... Na primeira vez, ela não conseguiu terminar a frase... que ele tinha morrido.

Ela ficou divagando, meio dormindo meio acordada, até que ouviu uma voz familiar chamando seu nome. É você, Richard?, perguntou excitada. Sim, Nicole, ele respondeu. Onde você está? Quero te ver, disse ela, e o rosto dele apareceu em uma nuvem no meio do seu sonho. Você está parecendo ótimo. Está bem mesmo? Estou, respondeu Richard, mas preciso falar com você.

O que foi, querido? Nicole perguntou. Você deve continuar sem mim, disse ele, deve ser um exemplo para os outros. O rosto dele começou a alterar-se quando a forma das nuvens mudaram. É claro, disse Nicole, mas para onde você vai? Ela não podia mais ver o marido. Adeus, disse ele. Adeus, Richard, respondeu Nicole.

 

Quando Nicole acordou da vez seguinte sua cabeça estava clara. Sentou-se na cama e olhou em volta. Estava escuro, mas dava para ver que era o seu próprio quarto na Cidade de Esmeralda.

Nicole não ouviu som algum, e pensou que fosse noite. Empurrou as cobertas e pôs as pernas para fora da cama. Até agora tudo bem, pensou. Saiu da cama e ficou de pé bem devagar. Suas pernas estavam trêmulas.

Havia um copo de suco na ponta da mesa-de-cabeceira. Nicole deu dois passos com cuidado, segurando na cama com a mão direita, e pegou o copo. O suco estava delicioso. Contente consigo própria, Nicole foi até o armário procurar uma roupa para vestir, mas depois de dar alguns passos ficou tonta e tentou voltar para a cama.

— Mãe, é você? — disse Patrick, aparecendo na porta.

— Sou eu, Patrick.

— Por que a gente não acende a luz? — disse ele. Bateu na parede e um vaga-lume voou no meio do quarto. — Meu Deus, o que você está fazendo de pé? — perguntou.

— Não posso ficar na cama a vida toda — respondeu Nicole.

— Mas tem de ir aos pouquinhos no começo — falou Patrick, aproximou-se dela, ajudando-a a chegar até a cama.

Ela se agarrou ao braço do filho.

— Ouça bem, meu filho. Não tenho intenção de ficar inválida nem de ser tratada como tal. Espero voltar a ser eu mesma em poucos dias, no máximo uma semana.

— Sim, mãe — disse Patrick, com um sorriso preocupado.

 

O dr. Azul ficou encantado com a recuperação de Nicole. Depois de quatro dias, ela andou até a parada do carro de transporte e de lá até em casa, apesar de andar devagar e com a ajuda de Benjy.

— Não force muito seu organismo — disse o dr. Azul durante um exame noturno. — Você está indo muito bem, mas me preocupa...

Quando a octoaranha terminou e se preparava para sair do quarto, Max entrou e avisou que havia duas octoaranhas esperando por ele lá fora. O dr. Azul saiu às pressas e voltou um instante depois com o Chefe Otimizador e um dos membros da sua equipe.

O Chefe Otimizador desculpou-se por chegar sem avisar e por não ter esperado até Nicole estar completamente restabelecida.

— Mas nós estamos numa situação de emergência e achamos que devíamos nos comunicar com você imediatamente — disse o líder das octoaranhas.

Nicole sentiu seu pulso acelerar-se e tentou manter a calma.

— O que aconteceu? — perguntou.

— Você provavelmente notou que não tem havido bombardeios nos últi-mos dias — disse o Chefe Otimizador. — Os humanos pararam de atacar com os helicópteros enquanto avaliam nosso ultimato... Há cinco dias levamos a mesma mensagem para os três acampamentos das tropas. Nessa mensagem nós dizemos que não toleraremos mais os bombardeios e que usaremos nossa tecnologia superior para desfechar um ataque decisivo caso as hostilidades não cessem imediatamente... Para ilustrar nossa capacidade tecnológica, incluímos na mensagem uma cronologia nillet a nillet de tudo o que Nakamura e Macmillan fizeram durante dois dias úteis na semana passada. Os líderes humanos ficaram frenéticos, achando que nós havíamos subornado algum oficial do governo de alto escalão e que conhecíamos todos os seus planos. Macmillan recomendou que fosse aceito o nosso cessar-fogo e que as tropas se retirassem do nosso território. Nakamura ficou furioso, mandou Macmillan sumir de sua presença e reorganizou sua estrutura de comando. Em particular, ele admitiu para seu chefe de segurança que qualquer retirada arruinaria a sua posição na colônia. Anteontem, alguém sugeriu a Nakamura que talvez sua filha Ellie soubesse como obtivemos essas informações. Ela foi levada ao palácio e interrogada pelo próprio Nakamura. Ellie informou que em certos campos nós somos mais avançados do que os humanos. E informou também que acredita que temos plena capacidade de obter informações sobre acontecimentos no Novo Éden sem usar espiões nem outros métodos convencionais da inteligência. Como Ellie foi muito direta, Nakamura convenceu-se de que ela sabia mais do que estava contando. Interrogou-a duran-te horas sobre vários assuntos, inclusive nossa capacidade militar e a geografia do nosso domínio. Ellie astutamente evitou dar qualquer informação relevante, como a existência da Cidade de Esmeralda, por exemplo, e respondeu várias vezes que nunca havia visto nossas armas, nem soldados. Nakamura não acreditou nela e a certa altura mandou que a levassem para a prisão e lhe dessem uma surra. Desde então, Ellie tem se mantido em silêncio, apesar dos maus-tratos que tem sofrido.

O Chefe Otimizador fez uma pausa. Nicole ficara muito pálida quando ele descreveu o ocorrido com Ellie. O líder das octoaranhas virou-se para o dr. Azul e perguntou:

— Posso continuar?

Max e Patrick estavam na porta. Eles não podiam compreender o que o Chefe Otimizador dizia, mas viram a palidez de Nicole. Então Patrick entrou no quarto e falou:

— Minha mãe esteve muito doente...

— Está tudo bem — interrompeu Nicole, fazendo um sinal com a mão e respirando fundo. — Por favor, continue — disse para o Chefe Otimizador.

— Nakamura — continuou ele — agora convenceu-se, assim como os seus assessores principais, de que nossa ameaça é um engodo. Ele acredita que, em-bora nossa tecnologia seja muito avançada em alguma áreas, nós não temos um bom esquema militar... Na última reunião com sua equipe, há apenas alguns terts, ele concordou com um plano para nos vencer usando todo o seu arma-mento disponível. O primeiro de seus ataques maciços será hoje de manhã.

— Portanto, nós concluímos com relutância que precisamos revidar a esses ataques, caso contrário a sobrevivência da nossa colônia correrá risco. Antes de vir ver você, autorizei a implementação do Plano de Guerra número 41, uma de nossas respostas de força intermediária. Esse plano não resulta na aniquilação dos colonos do Novo Éden, mas será suficientemente devastador para que a guerra chegue a um rápido fim. Nossos analistas avaliam que vinte a trinta por cento dos humanos morrerão...

O Chefe Otimizador parou quando viu a expressão de sofrimento no rosto de Nicole. Ela bebeu um copo de água e perguntou com voz lenta:

— Nós poderemos saber mais detalhes sobre o seu ataque?

— Escolhemos um agente microbiológico, quimicamente muito semelhante a uma enzima, que interfere na reprodução das células da sua espécie. Os humanos jovens e saudáveis abaixo de quarenta anos têm defesas naturais fortes o bastante para resistir à investida do agente. Os humanos mais velhos ou pouco saudáveis sucumbirão rapidamente. Suas células não poderão se reproduzir de forma adequada, e seus organismos simplesmente pararão de funcionar... Nós usamos sangue, pele e outras células tiradas de todos vocês aqui da Cidade de Esmeralda para verificar nossas previsões teóricas. Temos certeza de que os jovens não serão afetados.

— Nossa espécie considera a guerra biológica imoral — disse Nicole depois de uma breve pausa.

— Nós temos consciência — disse o Chefe Otimizador — de que dentro do seu sistema de valores alguns tipos de guerra são mais aceitáveis do que outros. Para nós, toda guerra é inaceitável. Nós só lutamos quando é absolutamente necessário. Não podemos imaginar que faça diferença ser morto por um fuzil, uma bomba, uma arma nuclear ou um agente biológico... Além do mais, teremos de lutar com as armas de que dispomos.

Houve um longo silêncio. Nicole deu um suspiro, sacudiu a cabeça e enfim falou.

— Eu devia estar agradecida por vocês nos contarem o que está aconte-cendo nessa guerra estúpida, embora o espectro de tantas mortes seja muito assustador. Gostaria que os resultados tivessem sido outros...

Quando as três octoaranhas fizeram menção de sair, Max e Patrick co-meçaram a fazer perguntas a Nicole mesmo antes da saída dos visitantes.

— Espere um instante — disse Nicole aflita. — Chame os outros todos aqui. Vou explicar só uma vez o que as octoaranhas me contaram.

 

Nicole não conseguiu dormir. Por mais que tentasse, não podia parar de pensar no povo que iria morrer no Novo Éden. Rostos, a maioria de gente mais velha, rostos de gente que ela conhecera e com quem tinha trabalhado durante sua época ativa na colônia passavam por sua cabeça.

E Katie e Ellie?, pensou Nicole. E se as octoaranhas cometeram um erro? Nicole viu Ellie como a vira da última vez, com seu marido e sua filha em casa. Lembrou-se das brigas que tinha presenciado entre Ellie e Robert. O rosto can-sado e gasto dele ficou fixado em sua mente. E Robert, oh, meu Deus. Ele é mais velho e não se cuida nada.

Nicole virava-se na cama, frustrada por não poder fazer nada, até que finalmente decidiu ficar sentada na escuro. Não sei se é tarde demais, disse para si mesma. E pensou em Robert de novo. Eu não concordo com ele, e nem ao menos tenho certeza de que é um bom marido para Ellie. Mas mesmo assim é o pai de Nikki.

Um plano começou a desenvolver-se em sua cabeça. Nicole saiu da cama animada e foi até o closet vestir uma roupa. Talvez eu não possa ajudar, mas pelo menos saberei que tentei, pensou.

Nicole passou pelo corredor sem fazer o menor ruído. Não queria acordar Patrick ou Nai, que estavam dormindo no quarto de Ellie desde que ela tivera o ataque cardíaco. Eles me obrigariam a voltar para a cama.

Na Cidade de Esmeralda, do lado de fora, estava quase tão escuro quanto dentro de casa. Nicole ficou na porta, esperando que seus olhos se acostumassem para poder ver a casa ao lado. Depois de alguns minutos, conseguiu ver sombras. Saiu do portal e virou para a direita.

Sua caminhada foi lenta. Dava uma meia dúzia de passos e parava para olhar em volta. Levou vários minutos para chegar na porta da casa do dr. Azul.

Agora, se eu tiver sorte, pensou Nicole, lembrando-se, ele deve estar dormindo no segundo quarto à esquerda. Ao entrar no quarto da octoaranha, bateu levemente na parede. Um vaga-lume iluminou ligeiramente duas octoaranhas empilhadas. O dr. Azul e Jamie dormiam juntinhos, com os tentáculos emaranhados. Nicole deu uns passos e tocou de leve na cabeça do dr. Azul, mas não houve resposta. Tocou com um pouco mais de força e a lente do dr. Azul começou a girar.

— O que está fazendo aqui? — perguntou o dr. Azul em cores um instante depois.

— Preciso da sua ajuda — respondeu Nicole. — É importante.

A octoaranha moveu-se lentamente, tentando soltar seus tentáculos sem perturbar Jamie, mas em vão. O jovem octoaranha acordou. O dr. Azul disse para Jamie voltar a dormir e foi até a porta com Nicole.

— Você devia estar na cama —- falou o dr. Azul.

— Eu sei, mas é uma emergência. Preciso falar com o Chefe Otimizador, e queria que o senhor fosse comigo.

— A essa hora da noite?

— Não sei quanto tempo nos resta — disse Nicole. — Preciso ver o Chefe Otimizador antes que esses agentes biológicos comecem a matar o povo do Novo Éden... Estou preocupada com Katie e com toda a família de Ellie...

— Nikki e Ellie não sofrerão nada. Katie também é bem jovem, se é que compreendi...

— Mas o organismo de Katie está corroído pelas drogas — interrompeu Nicole. — O corpo dela provavelmente está velho... e Robert está desgastado de tanto trabalho...

— Não tenho certeza se compreendi o que você me disse — falou o dr. Azul. — Por que você quer ver o Chefe Otimizador?

— Para pedir um tratamento especial para Katie e Robert, partindo do princípio de que Ellie e Nikki estarão bem... Deve haver algum modo, com a sua mágica biológica, de eles serem identificados e poupados... por isso é que eu quero que venha comigo... Para me apoiar.

A octoaranha não disse nada durante algum tempo.

— Tudo bem, Nicole — falou enfim —, eu vou, mas acho que você devia estar na cama... E duvido que a gente possa fazer alguma coisa.

— Muito obrigada — falou Nicole, perdendo a formalidade por um instante e abraçando o pescoço do dr. Azul.

— Você tem de me prometer uma coisa... — falou o dr. Azul enquanto saíam pela porta da frente. — Não deve se esforçar demais... Se estiver se sen-tindo fraca, me diga.