A Revelação de Rama
Capítulo 2
Então agora tudo começa de novo, pensou Nicole. Essa Rama reconstruída entrará em breve em outro conjunto de sistemas estelares. E o que irá encontrar? Quais serão os próximos viajantes espaciais a pisar neste solo? Ou a subir a montanha?
O trator parou num platô bem perto do cume e os três passageiros de-sembarcaram. A vista era deslumbrante. Enquanto Nicole olhava o cenário, lembrou-se de como havia ficado maravilhada na sua primeira viagem em Rama, quando desceu no teleférico e o vasto mundo alienígena estendeu-se à sua frente. Obrigada, pensou, dirigindo-se à Águia, por me manter viva. Você tinha razão. Basta esta única experiência e as memórias que ela suscita para me dar uma razão mais do que suficiente para continuar.
Nicole virou-se para olhar o resto da montanha, e viu uma coisa pequena voando para dentro e para fora de uma espécie de arbustos vermelhos, a apenas uns vinte metros de distância. Foi andando até lá e pegou um dos objetos voadores, do tamanho e da forma de uma borboleta. As asas eram decoradas com uma variedade de motivos assimétricos, absolutamente diferentes de quaisquer outros que Nicole já vira. Ela soltou o objeto e pegou outro. O padrão dessa segunda borboleta ramaiana era completamente diferente, mas também tinha cores e desenhos.
A Águia e o dr. Azul foram encontrar-se com ela. Nicole mostrou o que tinha na mão.
— São biotas voadores — disse a Águia sem qualquer outro comentário.
Nicole maravilhou-se com as minúsculas criaturas. Alguma coisa espantosa acontece todo dia, Richard lhe dissera uma vez. E nós somos sempre lembrados da alegria de estarmos vivos.
2
Nicole tinha terminado seu banho quando os dois biotas entraram no quarto. Um era um caranguejo e o outro uma espécie de caminhão de brinquedo gigante. O caranguejo usou suas poderosas pinças e seus vários dispositivos auxiliares para cortar o container de Nicole em pedaços, que foram empilhados no caminhão. Quando ia saindo do quarto, menos de um minuto depois, o caranguejo pegou a banheira branca e as cadeiras restantes e colocou tudo no alto das pilhas do caminhão. Depois pôs a mesa nas costas e desapareceu do quarto vazio por trás do caminhão biota. Nicole ajeitou o vestido.
— Nunca vou me esquecer da primeira vez em que vi um biota — comen-tou com seus dois companheiros. — Foi na imensa tela do centro de controle de Newton, muitos e muitos anos atrás. Nós todos ficamos apavorados.
— Então chegou o dia. Você está preparada para ir ao Grande Hotel? — perguntou o dr. Azul em várias cores.
— Provavelmente não — disse ela com um sorriso. — Pelo que você e a Águia disseram, acho que desfrutei do meu último minuto de solidão.
— Sua família e seus amigos estão loucos para vê-la — disse a Águia. — Estive com eles ontem e disse que você iria... Você vai ficar com Max, Eponine, Ellie, Marius e Nikki. Patrick, Nai, Benjy, Kepler e Maria moram no quarto ao lado. Como lhe expliquei na semana passada, Patrick e Nai têm cuidado de Maria como se ela fosse uma filha desde que todos acordaram... Eles souberam que você a salvou do bombardeio...
— Não sei se salvar é o verbo apropriado — disse Nicole, lembrando-se claramente das suas últimas horas na antiga nave espacial Rama. — Eu peguei Maria porque não havia ninguém para cuidar dela. Qualquer um teria feito o mesmo.
— Você salvou a vida dela — disse a Águia. — Uma hora depois de você sair do zôo com a menina, três grandes bombas devastaram toda aquela área e as duas seções adjacentes. Maria teria morrido se você não a tivesse encontrado.
— Ela é agora uma moça bonita e inteligente — disse o dr. Azul. — Eu a vi uma vez há algumas semanas. Ellie disse que Maria tem uma energia incrível. Segundo ela, é a primeira a acordar de manhã e a última a dormir à noite.
Como Katie, pensou Nicole. Quem é você, Maria? E por que entrou na minha vida naquela hora?
— ...Ellie também disse que Maria e Nikki são inseparáveis — continuou o dr. Azul. — Estudam juntas, comem juntas e conversam sem parar sobre tudo... Nikki contou a Maria tudo sobre você.
— Como é possível isso? — disse Nicole com um sorriso. —- Nikki só tinha quatro anos na última vez em que estive com ela. As crianças humanas não se lembram de coisas que se passaram assim tão cedo...
— Mas se dormirem durante os quinze anos seguintes lembram-se de tudo — explicou a Águia. — Kepler e Galileu também têm muitas lembranças daqueles dias... Mas é melhor conversarmos durante a viagem. Está na hora de irmos embora.
A Águia ajudou Nicole e o dr. Azul a colocarem suas roupas espaciais, e depois pegou a mala e os pertences de Nicole.
— Você guardou sua maleta de remédios junto com as roupas e os cos-méticos que vem usando nesses últimos dias — disse a Águia.
— Minha maleta? — perguntou ela rindo. — Meu Deus, eu tinha quase me esquecido... Ela estava comigo quando encontrei Maria, não foi?... Obrigada.
Os três saíram do quarto, localizado no fundo da grande pirâmide. Mi-nutos depois passaram pela grande entrada em arco do prédio. O veículo espacial os esperava do lado de fora, na brilhante luz da fábrica.
— Vamos levar só uma meia hora até os elevadores de alta velocidade — disse a Águia. — Nosso foguete está estacionado na Doca, no nível superior.
Quando o veículo espacial deu a partida, Nicole virou-se para olhar para trás. Para além da pirâmide ficava a alta montanha que haviam subido três dias antes.
— Então você não sabe mesmo por que as borboletas biotas estão aqui? — perguntou Nicole pelo microfone da sua roupa espacial.
— Não — respondeu a Águia. — Minha tarefa cobre apenas o ciclo de vocês.
Nicole continuou a olhar para trás. O veículo passou por um conjunto de postes altos, uns dez ou doze ao todo, ligados por arames no alto, no meio e embaixo. Tudo isso fará parte da nova Rama, pensou Nicole. E, ao perceber de re-pente que estava vendo o mundo de Rama pela última vez, sentiu uma imensa tristeza. Aqui foi a minha casa, e estou indo embora para sempre, disse para si mesma.
— Seria possível — perguntou Nicole para a Águia sem se virar — ver outras partes de Rama antes de partir para sempre?
— Para quê? — perguntou a Águia.
— Não estou bem certa... Talvez só para poder ficar por aqui mais uma hora.
— Os dois bojos e o Hemicilindro Sul já foram completamente remode-lados. Você não os reconheceria. O mar Cilíndrico foi drenado e retirado, e até Nova York está sendo desmontada...
— Mas não está completamente destruída, está? — perguntou ela.
— Não, ainda não — replicou a Águia.
— Então dá para irmos até lá um pouquinho? Por favor...
Por favor, faça a vontade de uma velha senhora, pensou Nicole. Mesmo que ela própria não compreenda por que quer ir lá.
— Tudo bem — disse a Águia —, mas nós vamos nos atrasar. Nova York fica em outra parte da fábrica.
Eles estavam em um parapeito perto do topo de um dos arranha-céus. A maior parte de Nova York não existia mais; os prédios haviam sido empilhados pela força fantástica dos grandes biotas. Restavam apenas uns vinte ou trinta edifícios em volta da praça.
— Havia três tocas debaixo da cidade — explicou Nicole ao dr. Azul. — Uma nossa, outra das aves e a terceira das suas primas octoaranhas... Eu estava na toca das aves quando Richard veio me buscar... — Nicole parou quando percebeu que já havia contado essa história ao dr. Azul e que as octoaranhas não se esquecem de nada. — Você se importa de ouvir? — perguntou Nicole.
— Por favor, continue — disse ele.
— Durante o tempo em que vivemos aqui, ninguém na ilha sabia que havia entradas para alguns desses edifícios. Não é incrível? Oh, como eu gostaria que Richard estivesse vivo e eu pudesse ver o rosto dele quando a Águia abriu a porta do octaedro... Teria ficado chocado... De qualquer forma — continuou Nicole —, Richard voltou para Rama a fim de me procurar... E quando nós nos apaixonamos e descobrimos que podíamos fugir da ilha usando as aves... Foi um dia glorioso, há muitos e muitos anos...
Nicole deu um passo à frente, segurou-se na balaustrada com as duas mãos, olhou em volta e viu em imaginação a antiga Nova York. Ali ficavam as muradas. Mais adiante, o mar Cilíndrico... e mais ou menos no meio daquelas horríveis pilhas de metal ficavam o celeiro e o poço onde eu quase morri.
De repente, seus olhos ficaram cheios de lágrimas inesperadas, que lhe desceram pelo rosto. Nicole não se virou. Cinco dos meus filhos nasceram ali, debaixo do solo. Dois anos depois de Richard ter ido embora, nós o encontramos do lado de fora da nossa toca, em coma, pensou Nicole.
As lembranças vieram uma a uma à sua cabeça, provocando uma dor vaga no coração e novas lágrimas, que ela não conseguiu deter. Em certo momen-to, ela descia na toca das octoaranhas para salvar Katie, em outro sentia-se excitada e alegre voando por cima do mar Cilíndrico, montada em três aves com arreios. Nós temos de morrer um dia, pensou Nicole, limpando as lágrimas com as costas da mão, pois não sobra lugar no nosso cérebro para mais lembranças.
Enquanto olhava a paisagem destruída de Nova York, transformando-a pela imaginação no que havia sido anos antes, teve uma forte recordação de um tempo ainda mais anterior na sua vida. Lembrou-se de uma noite fria de fim de outono em Beauvois, nos seus últimos dias na Terra, logo antes de Geneviève e ela irem esquiar em Davos. Estava sentada com seu pai e sua filha em frente à lareira na villa. Pierre estava muito pensativo naquela noite, e contou histórias para a filha e para a neta de muitos momentos especiais do seu namoro com a mãe de Nicole.
Mais tarde, na hora de ir para a cama, Geneviève fez uma pergunta à mãe.
— Por que o vovô fala tanto sobre o que aconteceu há tanto tempo?
— Porque isso é o que importa para ele — respondera Nicole. Desculpem-me, pensou Nicole, olhando ainda os arranha-céus em frente a ela. Peço desculpas a todas as pessoas idosas cujas histórias não me interessaram. Eu não tinha intenção de ser rude nem complacente. Mas é que não compreendia o significado da velhice. Nicole suspirou, respirou fundo e virou-se.
— Você está bem? — perguntou-lhe o dr. Azul
Com um gesto, disse que sim. Depois falou para a Águia, com voz entrecortada:
— Obrigada por termos vindo. Agora estou pronta.
Ela viu as luzes assim que o pequeno foguete saiu do hangar. Embora as luzes ainda estivessem a mais de cem quilômetros dali, já podiam ser vistas contra o fundo escuro e as estrelas distantes.
— Este Nodo tem um vértice extra — disse a Águia —, formando um tetraedro perfeito. O Nodo em que você esteve, perto de Sírius, não tinha o Módulo do Conhecimento.
Nicole olhou para fora da janela do foguete, prendendo a respiração. Aquela construção iluminada girando lentamente a distância parecia irreal, como se criada por sua imaginação. Havia quatro grandes esferas nos vértices, ligadas entre si por seis corredores de transporte lineares. As esferas tinham exatamente o mesmo tamanho, e as seis longas linhas com que se comunicavam umas às outras eram do mesmo comprimento. Naquela distância, todas as luzes dentro do Nodo transparente combinavam-se em um contínuo, fazendo com que tudo aquilo parecesse uma grande tocha tetraédrica na escuridão espacial.
— Que beleza! — disse Nicole, incapaz de encontrar outra palavra para expressar seu assombro.
— Você devia ver isso do terraço de observação do Grande Hotel — disse o dr. Azul. — É deslumbrante. Dá para ver as várias luzes dentro das esferas, e até mesmo seguir os veículos que passam zunindo para a frente e para trás ao longo dos corredores de transporte... Muitos residentes do Grande Hotel ficam no terraço durante horas, tentando adivinhar quais são as atividades representadas pelo movimento das luzes internas.
Nicole sentiu o braço arrepiar-se quando olhou para Nodo em silêncio. Ouviu a voz distante de Francesca Sabatini, e o primeiro poema que aprendera no colégio.
"Tigre! Tigre! que brilhas
Nas florestas da noite,
Que mão ou olho imortal
Terá criado tua temível simetria?"
Aquele que fez o Cordeiro te fez?, refletiu Nicole ao ver o tetraedro de luz girando. E lembrou-se de uma conversa no fim da noite com Michael O'Toole, quando estavam em Nodo, perto de Sírius.
— Devemos liberar Deus depois dessa experiência — dissera ele. — E acabar com nossas limitações homocêntricas sobre Ele... O Deus que criou os arquitetos de Nodo deve divertir-se com nossas patéticas tentativas de defini-Lo em termos que nós humanos possamos compreender imediatamente.
Nicole ficou fascinada com Nodo. Mesmo a distância, girando lentamente, os diferentes aspectos apresentados pelo tetraedro hipnotizavam. Enquanto observava, o veículo tomou uma posição em que um dos quatro triângulos eqüiláteros que formavam as faces vazias de Nodo ficou perpendicular à sua rota de vôo. Nodo pareceu inteiramente diferente, como se não tivesse profundidade. O quarto vértice, que estava na realidade a uns trinta quilômetros para além do foguete, do lado oposto a Nicole, parecia ser um elo de luz no centro do triângulo à sua frente.
Quando o foguete mudou abruptamente de direção, não se pôde mais ver Nodo. Mas, a distância, Nicole identificou uma estrela solitária de luz amarela.
— É Tau Ceti — disse a Águia —, uma estrela muito parecida com o seu Sol.
— E por que Nodo está aqui, nas proximidades da Tau Ceti? — perguntou Nicole.
— É o melhor posicionamento temporário para dar apoio às nossas ati-vidades de coleta de dados nesta parte da galáxia — respondeu a Águia.
Nicole deu uma cutucada no dr. Azul.
— Os seus engenheiros às vezes falam em cores coisas sem sentido? — perguntou com um sorriso. — Nosso anfitrião acaba de dar uma resposta sem sentido.
— Somos mais humildes, como espécie, do que vocês — respondeu a octoaranha. — Provavelmente devido ao nosso relacionamento com os precursores. Nós não fingimos que podemos compreender tudo.
— Falamos muito pouco sobre a sua espécie desde que acordei — falou Nicole, como que se desculpando por sentir-se de repente autocentrada. — Mas lembro do senhor me dizendo que seu antigo Chefe Otimizador, sua equipe e todos os que levaram adiante a guerra tinham sido exterminados de uma forma ordenada. A nova liderança está se saindo bem?
— Mais ou menos — respondeu o dr. Azul —, considerando a dificuldade da nossa situação de vida. Jamie está trabalhando nos escalões mais baixos da nova equipe, e está sempre muito ocupado. Ainda não conseguimos chegar a um equilíbrio na nossa colônia, porque há um constante atrito do lado de fora.
— Em grande parte por causa dos humanos a bordo — falou a Águia.
— Nós não discutimos esse assunto ainda, Nicole, mas agora seria uma boa hora... Estamos surpresos com a dificuldade que os humanos têm de se adaptarem a viver com outras espécies. Só muito poucos aceitam a idéia de que outras espécies podem ser tão importantes e capazes como eles.
— Eu lhe disse isso logo depois de nos conhecermos, muitos anos atrás — comentou Nicole. — Expliquei que, por inúmeras razões históricas e sociais, os humanos respondem a novas idéias e conceitos de várias formas diferentes.
— Sei disso, mas a experiência que tivemos com você e sua família nos indicava o contrário. Até todos os sobreviventes serem despertados, achávamos que o que tinha acontecido no Novo Éden — os humanos agressivos tomando conta do poder — era uma anomalia explicada pela composição específica dos colonos. Mas agora, depois de observar durante um ano as interações no Grande Hotel, concluímos que tínhamos uma típica amostragem de humanos dentro de Rama.
— Está me parecendo que vou enfrentar uma situação desagradável — disse Nicole. — Há mais coisas que devo saber antes de chegar?
— Creio que não — falou a Águia. — Agora está tudo sob controle. Estou certo de que seus colegas lhe contarão os detalhes mais importantes de suas experiências... Além do mais, a situação atual é apenas temporária, e essa fase está quase terminando.
— De início — contou o dr. Azul —, todos os sobreviventes de Rama espalharam-se pela Estrela do Mar. Em cada raio havia humanos, octoaranhas e alguns dos nossos animais de apoio que tiveram permissão de sobreviver graças ao importante papel que desempenham na estrutura social de vocês. Tudo isso foi mudado há alguns meses, basicamente por causa da contínua hostilidade e agressividade dos humanos... Agora, as moradias de cada espécie concentram-se numa única região...
— Segregação — disse Nicole com tristeza. — É uma das características que definem a minha espécie.
— A interação entre espécies diferentes agora se dá apenas na lanchonete e em outros lugares públicos no centro da Estrela do Mar — disse a Águia. — Porém, mais da metade dos humanos só sai do seu raio para comer, e mesmo nessas ocasiões evita a interação... Do nosso ponto de vista, os seres humanos são incrivelmente xenófobos. Não há, em nosso banco de dados, muitos exemplos de viajantes espaciais tão retrógrados socialmente quanto os da sua espécie.
O foguete mudou novamente de direção, e mais uma vez apareceu o magnífico tetraedro. Eles estavam muito perto agora. Muitas luzes individuais podiam ser vistas, tanto dentro das esferas quanto nas longas linhas de transporte que as ligavam. Nicole olhou toda aquela beleza à sua frente e deu um suspiro. A conversa com o dr. Azul e a Águia a tinha deprimido. Talvez Richard tivesse razão, disse para si mesma, talvez a humanidade não possa ser mudada, a não ser que toda a sua memória seja apagada, e comecemos de novo, em um outro ambiente, com um sistema operacional mais avançado.
Nicole foi ficando nervosa quando o foguete se aproximou da Estrela do Mar. Disse a si própria que não devia se preocupar com bobagens, mas mesmo assim ficou aflita com a sua aparência. Olhou-se no espelho quando retocou a maquiagem e não conseguiu diminuir sua ansiedade. Estou velha. As crianças vão me achar horrível, pensou.
A Estrela do Mar não era tão grande quanto Rama, e Nicole logo com-preendeu por que lá dentro estava tão lotado. A Águia explicara que a viagem para Nodo tinha sido um plano de contingência, e que Rama chegara lá, conseqüentemente, vários anos antes do programado. Aquela nave espacial específica, obsoleta, que não passara pelo processo de reciclagem, fora transformada num hotel temporário para abrigar os ocupantes de Rama até poderem ser transferidos para outro lugar.
— Demos ordens estritas — disse a Águia — para que sua chegada seja a mais calma possível. Não queremos que você se esforce mais que o necessário. O Grande Bloco e seu exército limparam os corredores e as áreas comuns que vão da estação do foguete até seu quarto.
— Então vocês não vão entrar comigo? — perguntou Nicole para a Águia.
— Não, tenho muito que fazer em Nodo — respondeu a Águia.
— Vou acompanhá-la pelo terraço de observação, até entrar no raio dos humanos — disse o dr. Azul. — Depois você fica por conta própria. Por sorte, sua casa não é longe da entrada do raio.
A Águia permaneceu no foguete, enquanto Nicole e o dr. Azul desem-barcavam. O homem-pássaro alienígena deu adeus para os dois quando eles entraram na câmara intermediária. Um instante depois, quando passaram por uma grande sala do outro lado da câmara, Nicole e o dr. Azul foram saudados pelo robô conhecido como Grande Bloco.
— Seja bem-vinda, Nicole des Jardins Wakefield — disse o robô gigante. — Estamos contentes por você ter finalmente chegado... Por favor, coloque sua roupa espacial que está no banco à sua direita.
O Grande Bloco, com pouco menos de três metros de altura, quase dois metros de largura, construído com blocos retangulares semelhantes àqueles com os quais as crianças humanas brincam, era exatamente igual ao robô que supervisionara os testes de engenharia aos quais Nicole e sua família tinham sido submetidos em Nodo, perto de Sírius, há muitos anos, antes de voltarem para o sistema solar. O robô foi flutuando até Nicole e a octoaranha, menor que ela.
— Embora eu esteja certo de que vocês não vão causar nenhum problema — disse o Grande Bloco com sua voz mecânica —, quero lembrar-lhes que todas as ordens dadas por mim ou por um dos robôs menores devem ser seguidas sem hesitação. É nosso propósito manter a ordem nesta espaçonave... Agora, por favor, sigam-me.
O Grande Bloco virou-se, girando nas juntas do meio do seu corpo, e rodou para a frente no seu único pé cilíndrico.
— Esta sala grande é chamada de terraço de observação — disse o robô.
— Em geral é a mais popular de nossas salas comunitárias. Nós a esvazia-mos esta noite para que ficasse mais fácil você chegar à sua moradia.
O dr. Azul e Nicole pararam um instante diante de uma imensa janela em frente a Nodo. A vista era realmente espetacular, mas Nicole não conseguia se concentrar na beleza e na ordem da soberba arquitetura extraterrestre. Ela estava ansiosa para ver sua família e seus amigos.
O Grande Bloco permaneceu no terraço de observação, enquanto Nicole e sua companheira octoaranha andavam ao longo do amplo corredor que rodeava a nave. O dr. Azul explicou a Nicole como localizar e identificar os lugares onde os bondinhos paravam. A octoaranha também lhe informou que os humanos estavam no terceiro raio, que se estendia dos dois lados da estação do foguete, e as octoaranhas nos dois raios seguintes, encaminhando-se para a direita da estação.
— O quarto e o quinto raios — explicou ele em cores — são projetados de forma diferente. Todas as outras criaturas vivem lá, e também os humanos e octoaranhas que estão sob vigilância.
— Então Galileu está numa espécie de prisão? — perguntou Nicole.
— Não é bem isso — respondeu o dr. Azul. — Só que há um número muito maior de pequenos robôs de bloco naquela parte da Estrela do Mar.
Eles desceram juntos do bonde, depois de percorrerem uma parte da Estrela do Mar. Quando chegaram à entrada do raio dos humanos, o dr. Azul segurou o monitor na frente de Nicole e leu as cores da tela. Baseado nos dados iniciais, a octoaranha usou os cílios debaixo dos seus tentáculos para solicitar mais informações.
— Alguma coisa errada? — perguntou Nicole.
— Você teve umas palpitações nesta última hora — foi a resposta. — Só queria checar a amplitude e a freqüência dessas irregularidades.
— Estou muito excitada — comentou Nicole. — É normal nos humanos ter palpitações quando...
— Eu sei — falou o dr. Azul —, mas a Águia me recomendou muita cautela. — Não saíram cores de sua cabeça enquanto ele examinava os dados da tela. — Acho que está tudo bem — disse finalmente —, mas se você sentir uma mínima dor no peito, ou alguma falta de ar, aperte logo o botão de emergência do seu quarto.
Nicole deu um grande abraço no dr. Azul.
— Muito obrigada. Você foi maravilhoso — disse ela.
— Foi um prazer — falou o dr. Azul. — Espero que tudo corra bem... Seu quarto é o de número quarenta e um; descendo o corredor, é mais ou menos a vigésima porta à esquerda. O bonde pára a cada cinco quartos.
Nicole respirou fundo, virou-se e viu que o bonde menor esperava por ela. Foi até lá, deslizando os pés no chão, entrou e deu adeus ao dr. Azul. Em um ou dois minutos, estava diante de uma porta comum, com o número quarenta e um pintado.