A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 41 de 56

Páginas do PDF

A Revelação de Rama

Capítulo 7

Nós caminhamos sozinhos na viagem final.

Nenhuma mão pode nos ajudar no dia da morte.

É melhor aprendermos enquanto é tempo, amigo,

A confiar em nós mesmos e a manter o fôlego.

 

Nicole leu o poema várias vezes, e logo depois percebeu que estava com-pletamente exausta. Debruçou-se sobre a mesa da sala e mergulhou no sono.

 

O dr. Azul bateu de mansinho no ombro de Nicole com um de seus tentá-culos. Nicole se mexeu e abriu os olhos.

— Você está dormindo há quase duas horas — disse a octoaranha. — Estão esperando-a no centro administrativo.

— O que está acontecendo? — perguntou Nicole esfregando os olhos. — Por que estão me esperando?

— Nakamura fez um longo discurso no Novo Éden, e o Chefe Otimizador quer discutir o assunto com você.

Nicole deu um pulo. Apoiou a mão na mesa e em alguns segundos sua tontura havia passado.

— Obrigada, dr. Azul, por tudo — disse. — Estarei lá num minuto.

 

7

 

— Eu realmente acho que Nikki não deve assistir ao discurso — disse Robert. — Ela vai ficar assustada.

— O que Nakamura disser vai afetar tanto a vida de Nikki quanto a nossa — disse Ellie. — Se ela quiser ir, acho que devemos deixar... Afinal, Robert, ela viveu com as octoaranhas.

— Mas ela não pode entender o que tudo isso significa — argumentou Robert. — Nikki ainda não tem nem quatro anos.

O assunto continuou em suspenso até um instante antes de avisarem que o ditador do Novo Éden iria aparecer na televisão. Naquela hora, Nikki entrou na sala e aproximou-se da mãe.

— Eu não vou assistir — disse a menininha com uma incrível percepção — porque não quero que você e papai briguem.

Uma das salas do palácio de Nakamura fora convertida num estúdio de televisão, e era daí que o tirano geralmente se dirigia aos cidadãos do Novo Éden. Seu último discurso fora há três meses, quando anunciou que as tropas seriam mandadas ao Hemicilindro Sul para enfrentar a ameaça alienígena. Embora os jornais e a televisão controlados pelo governo dessem notícias regulares do front, muitas delas criando a idéia de uma intensa resistência oferecida pelas octoaranhas, aquele era o primeiro comentário público de Nakamura sobre o desenrolar e a direção da guerra no sul.

Para o discurso, Nakamura tinha ordenado que seus alfaiates lhe confec-cionassem uma roupa completa de shogun, ornamentada com espada e adaga. Ele ia aparecer com esse traje marcial japonês, dissera aos seus assessores, para reforçar seu papel de chefe guerreiro e protetor dos colonos. No dia da trans-missão, os assessores de Nakamura ajudaram-no a colocar dois cinturões pe-sados para que ele passasse a idéia de guerreiro poderoso e ameaçador.

Nakamura falou de pé, olhando na direção da câmera, sem mudar sua expressão séria durante todo o discurso.

— Todos nós nos sacrificamos nestes últimos meses — começou ele — para apoiar nossos valentes soldados que lutam ao sul do mar Cilíndrico contra um hediondo e implacável inimigo alienígena. Nosso serviço de inteligência nos informou que essas octoaranhas, descritas em detalhes a vocês pelo dr. Robert Turner depois de sua corajosa fuga, estão planejando um grande ataque contra o Novo Éden em futuro próximo. Neste momento crítico da nossa história, devemos redobrar nossa determinação e nos mantermos unidos contra o agressor alienígena. Nossos generais da frente de batalha recomendaram que penetremos além da barreira da floresta que protege a maior parte do domínio das octoaranhas e interditemos seus suprimentos e material bélico antes que elas comecem a nos atacar. Nossos engenheiros, que trabalham dia e noite para a sobrevivência da colônia, fizeram modificações na nossa frota de helicópteros para que essa interdição seja possível. Nossa ofensiva começará muito em breve. Convenceremos os alienígenas de que eles não podem nos atacar impunemente. Nesse meio-tempo, nossos guerreiros terminaram de fortificar toda a área de Rama entre o mar Cilíndrico e a barreira da floresta. Durante ferozes batalhas, destruímos centenas de inimigos e também suprimentos de água e usinas elétricas. Nossas baixas foram poucas, basicamente em razão de nossos excelentes planos de batalha e do heroísmo das nossas tropas. Mas não devemos ficar excessivamente confiantes. Ao contrário, temos sobejas razões para acreditar que ainda não enfrentamos a elite do Corpo da Morte que o dr. Turner ouviu as octoaranhas mencionarem quando era prisioneiro delas. Temos certeza de que é esse Corpo da Morte que estará na vanguarda dos alienígenas se não nos mobilizarmos depressa para evitar um ataque ao Novo Éden. Lembrem-se, o tempo é nosso inimigo. Devemos agir agora e destruir totalmente a capacidade guerreira das octoaranhas. Há um pequeno item que eu gostaria de abordar esta noite. Recentemente, o traidor Richard Wakefield e uma octoaranha renderam-se às nossas tropas no sul. Disseram-se representantes do comando militar alienígena em missão de paz. Suspeito que isso seja um truque, uma espécie de cavalo-de-tróia, mas é meu dever, como chefe, promover um encontro com eles nos próximos dias. Tenham certeza de que não negociarei nossa segurança, e comunicarei o resultado desse encontro tão logo ele seja consumado.

 

— Mas, Robert — disse Ellie —, você sabe que grande parte do que ele está dizendo é mentira... Não há Corpo da Morte, e as octoaranhas não oferece-ram resistência. Como pode ficar calado? Como permite que ele lhe atribua declarações que você nunca fez?

— Isso é política, Ellie — falou Robert. — Todo mundo sabe disso. Ninguém acredita realmente...

— Mas isso é pior ainda. Você não vê o que está acontecendo? Robert fez menção de sair de casa.

— Aonde você vai agora? — perguntou Ellie.

— Vou voltar para o hospital — respondeu Robert. — Tenho de visitar os doentes.

Ellie não podia acreditar. Ficou olhando para o marido um instante e depois descontrolou-se.

— É esta a sua reação — gritou Ellie. — Política, como sempre. Um luná-tico anuncia um plano que provavelmente resultará na morte de todos nós e você acha que é política... Robert, quem é você? Você não liga para nada?

Robert deu um passo até Ellie, furioso.

— Não venha de novo com essa atitude santificada — disse. — Nem sempre você tem razão, Ellie, e não pode ter certeza de que todos nós seremos mortos. Talvez o plano de Nakamura funcione...

— Você está se iludindo, Robert. Você se vira para o outro lado e diz a si próprio que, enquanto seu pequeno mundo não for afetado, talvez as coisas estejam bem... Você está errado, Robert. Muito errado. E, se não vai fazer nada a respeito disso, então eu vou.

— Vai fazer o quê? — perguntou Robert elevando a voz. — Dizer ao mundo que seu marido é um mentiroso? Tentar convencer a todos que aquelas octoaranhas repugnantes são pacíficas? Ninguém vai acreditar em você, Ellie... E ainda digo mais; assim que você abrir a boca será presa e julgada por traição. Eles matarão você, Ellie, como vão matar seu pai... É isso que você quer? Nunca mais ver sua filha?

Ellie percebeu um misto de tristeza e raiva nos olhos de Robert. Eu não conheço esse homem, pensou ela. Como pode ser o mesmo homem que passou milhares de horas cuidando de graça de pacientes terminais? Isso não faz sentido.

Ellie resolveu não dizer mais nada.

— Agora vou embora — falou Robert enfim. — Devo chegar em casa por volta de meia-noite.

Ellie foi para os fundos da casa e abriu a porta do quarto de Nikki, que por sorte estava dormindo. Ellie sentia-se muito deprimida ao voltar para a sala, mais arrependida do que nunca por ter saído da Cidade de Esmeralda. Mas tinha saído, e agora, o que faria? Seria fácil se eu não tivesse de pensar em Nikki, disse para si mesma, sacudindo a cabeça para a frente e para trás, e finalmente soltando as lágrimas que estava contendo.

 

— Então, como é que eu estou? — perguntou Katie, fazendo uma pirueta para Franz.

— Bonita, deslumbrante — respondeu ele. — Mais linda do que nunca. Katie estava com um vestido preto simples, justo no corpo, com uma faixa branca descendo dos dois lados. Era decotado na frente, mas um decote discreto, e ela usava um colar de brilhantes e ouro.

Katie deu uma olhada no relógio.

— Meu Deus, pelo menos uma vez estou adiantada — disse, atravessando a sala para acender um cigarro que tirou de cima da mesa.

A farda de Franz estava recém-passada e os sapatos engraxados à perfeição.

— Então acho que temos tempo para a minha surpresa — disse ele, se-guindo Katie até o sofá e entregando-lhe uma caixinha de veludo.

— O que é isso? — perguntou Katie.

— Abra — disse Franz.

Dentro da caixa havia um anel de brilhante, um solitário.

— Katie — disse Franz desajeitado —, quer se casar comigo?

Katie olhou para ele e depois para o lado. Deu uma tragada no cigarro e soprou a fumaça no ar.

— Sinto-me lisonjeada, Franz — disse, levantando-se e beijando-o no rosto. — De verdade... Mas isso não funcionaria. — Fechou a caixa e devolveu-lhe o anel.

— Por que não? Você não me ama?

— Amo... acho que sim... se eu for capaz de ter esse tipo de emoção... Mas, Franz, já falamos sobre isso. Não sou o tipo de mulher com quem você deve se casar.

— Por que não me deixa decidir isso, Katie? Como pode saber de que tipo de mulher eu preciso?

— Olhe, Franz — disse Katie, mostrando uma certa agitação —, prefiro não falar nisso agora... Como eu disse, estou lisonjeada... mas ando nervosa com essa audiência do meu pai, e você sabe que não lido bem com muita merda ao mesmo tempo...

— Você sempre dá alguma razão para não querer falar sobre isso — reclamou Franz, irritado. — Se você me ama, acho que mereço uma explicação. E já...

Os olhos de Katie faiscaram.

— Você quer uma explicação agora, capitão Bauer... Muito bem, eu vou dar... Siga-me, por favor... — Katie levou-o para o seu quarto de vestir. — Agora fique aí, Franz, e preste bem atenção.

Katie abriu a penteadeira, tirou uma seringa e uma tira de borracha, colocou a perna direita no banquinho e levantou o vestido acima das marcas de sua coxa. Franz instintivamente virou o rosto para o lado.

— Não — disse Katie, virando-lhe o rosto para que ele a olhasse de frente. — Não olhe para o lado, Franz... Quero que você me veja como eu sou...

Ela desceu a meia-calça e apertou a borracha. Olhou para cima para ver se Franz ainda estava observando a cena, e viu que seu olhar estava triste.

— Está vendo, Franz? Não posso me casar com você porque já sou casa-da... com essa droga mágica que nunca me desaponta... Está entendendo? Não há jeito de você competir com essa droga.

Katie enfiou a seringa na veia e esperou uns segundos pelo efeito.

— Você me contentaria por umas semanas ou uns meses — disse Katie, falando mais rápido agora —, porém mais cedo ou mais tarde entraria em baixa... E eu o substituiria de coração por essa droga de novo.

Katie limpou as duas gotas de sangue com um papel fino e colocou a seringa na pia. Franz estava desesperado.

— Anime-se — disse Katie, dando-lhe uma palmadinha no rosto. — Você não perdeu sua parceira de cama... Ainda estarei aqui para todas as maluquices que sonharmos fazer...

Franz virou-se e colocou a caixa de veludo no bolso da farda. Katie foi até a mesa e deu uma última tragada no cigarro que estava queimando no cinzeiro.

— Agora, capitão Bauer, temos de ir à audiência.

 

A audiência foi realizada no salão de baile, no andar térreo do palácio de Nakamura. Havia cerca de sessenta cadeiras ao longo das paredes, distribuídas em quatro fileiras, para os convidados especiais. O próprio Nakamura, com a mesma roupa japonesa do discurso na televisão dois dias antes, sentou-se em uma grande cadeira entalhada, sobre um estrado colocado numa extremidade da sala. Dois guarda-costas, também vestidos de samurais, estavam a seu lado. O salão de baile era decorado em estilo japonês do século dezesseis, o que reforçava a imagem do todo-poderoso shogun do Novo Éden que Nakamura tentava criar.

Richard e Archie, que só tinham sido avisados da audiência quatro horas antes de saírem do porão, foram trazidos por três policiais e sentaram-se numas almofadas pequenas no chão, a vinte metros de Nakamura. Katie notou que seu pai parecia cansado e muito velho, e teve de resistir ao impulso de correr para lá e falar com ele.

Um funcionário anunciou que a audiência estava aberta e lembrou a todos os espectadores que não deviam falar nada nem interferir de forma alguma nos procedimentos. Terminado o anúncio, Nakamura levantou-se e desceu pomposamente os dois degraus do estrado.

— Esta audiência foi convocada pelo governo do Novo Éden — disse ele de forma áspera, andando de um lado para o outro — para determinar se o representante do inimigo alienígena está preparado, em nome da sua espécie, a aceitar a rendição incondicional que exigimos como pré-requisito indispensável à cessação das hostilidades entre nós. Se o ex-cidadão Wakefield, que é capaz de comunicar-se com os alienígenas, for capaz de convencê-lo de que deve aceitar nossas exigências, inclusive a de entregar todas as armas de guerra e preparar-se para a nossa ocupação e administração de todas as terras alienígenas, então, estaremos dispostos a ser misericordiosos. Em recompensa à sua ajuda para a conclusão desse terrível conflito, estaríamos até dispostos a trocar a sentença de morte do sr. Wakefield para prisão perpétua. Porém —, continuou Nakamura, elevando a voz —, se este traidor e seu cúmplice alienígena se entregaram às nossas tropas vitoriosas como parte de um plano traiçoeiro para minar nossa vontade coletiva de punir os alienígenas por seus ataques agressivos contra nós, então usaremos esses dois como exemplo para mandar uma mensagem incon-testável ao nosso inimigo. Queremos que os líderes alienígenas saibam que os cidadãos do Novo Éden se mantêm inabaláveis contra as metas expansionistas deles.

Até aquele momento, Nakamura havia se dirigido a toda a platéia. Agora, dirigia-se aos dois prisioneiros isolados no chão do salão de baile.

— Sr. Wakefield, este alienígena ao seu lado está autorizado a falar pela sua espécie?

Richard levantou-se.

— Ao que eu saiba, está sim.

— E este alienígena então está preparado para ratificar o documento de rendição incondicional que lhes foi mostrado?

— Nós só recebemos o documento há poucas horas, e não tivemos tempo ainda de conversar sobre o seu teor. Expliquei as partes mais importantes para Archie, mas ainda não sei...

— Eles estão criando obstáculos — gritou Nakamura, dirigindo-se à platéia e sacudindo uma folha de papel no ar. — Esta única folha contém todos os termos da rendição. — Virou-se de novo para Richard e Archie. — A questão requer apenas uma simples resposta. Sim ou não?

Faixas coloridas jorraram da cabeça de Archie, e houve um murmúrio na platéia. Richard olhou para Archie, fez uma pergunta a ele aos sussurros e depois interpretou a resposta. Olhou para Nakamura e disse:

— A octoaranha deseja saber exatamente o que acontecerá caso o docu-mento seja ratificado. Que acontecimentos se seguirão e em que ordem. Nada disso está especificado no acordo.

Nakamura fez uma ligeira pausa.

— Primeiro, todos os soldados alienígenas deverão apresentar-se com suas armas e entregar-se às nossas tropas no sul. Segundo, o governo alienígena, ou qualquer que seja o equivalente a isso, deve nos enviar um inventário completo de tudo o que existe em seu domínio. Terceiro, eles devem anunciar a todos os membros da sua espécie que ocuparemos sua colônia, e que todos os alienígenas deverão cooperar de todas as maneiras com nossos soldados e cidadãos.

Richard e Archie conversaram brevemente.

— O que acontecerá a todas as octoaranhas e aos outros animais que apóiam a sociedade deles? — perguntou Richard.

— Eles terão permissão de voltar à sua vida normal, com algumas restri-ções, é claro. Nossas leis e nosso cidadãos funcionarão como o governo atuante das terras ocupadas.

— E então vocês acrescentarão uma emenda ou apêndice a esse docu-mento de rendição, garantindo a vida e a segurança das octoaranhas, e dos outros animais, desde que eles não violem nenhuma das leis promulgadas no território ocupado?

Os olhos de Nakamura apertaram-se.

— Eu pessoalmente garantirei a segurança das octoaranhas que obedece-rem às leis de ocupação... exceto os indivíduos alienígenas que forem consi-derados responsáveis pela guerra agressiva desencadeada contra nós. Mas isso são detalhes que não precisam ser escritos no documento de rendição.

Mais uma vez, Richard e Archie conversaram. Do lado da sala, Katie ob-servava de perto a expressão do rosto do seu pai. De início, Richard pareceu discordar da octoaranha, mas ao longo da conversa tornou-se mais cordato, quase resignado. Katie teve a impressão de que ele estava memorizando uma coisa...

A longa pausa durante a audiência irritou Nakamura. Os convidados especiais começaram a cochichar entre si, e finalmente Nakamura falou de novo.

— Muito bem. Vocês já tiveram bastante tempo. Qual é a resposta?

A cabeça de Archie ainda estava coberta de cores. A uma certa altura, os parceiros pararam de falar e Richard deu um passo à frente, hesitando um instante antes de falar.

— A octoaranha deseja a paz — disse ele lentamente —, e gostaria de encontrar uma forma de terminar esse conflito. Se a moral não fosse uma das características dessa espécie, Archie poderia concordar em ratificar este docu-mento de rendição para ganhar algum tempo. Mas as octoaranhas não agem assim. Meu amigo alienígena, chamado Archie, só faria um acordo em nome da sua espécie se tivesse certeza de que o tratado era conveniente para a sua colônia e de que suas companheiras octoaranhas honrariam esse tratado.

Richard fez uma pausa.

— Nós não precisamos de um discurso — disse Nakamura impaciente. — Só queremos uma resposta.

— As octoaranhas — falou Richard num tom mais alto — nos disseram para negociar uma paz honrosa, não para nos rendermos incondicionalmente. Se o Novo Éden não estiver disposto a negociar e a fazer um acordo respeitando a integridade do domínio das octoaranhas, então elas não terão escolha... Por favor — gritou Richard, olhando para os convidados dos dois lados da sala —, compreendam que vocês não poderão vencer se as octoaranhas realmente lutarem. Até agora elas não ofereceram resistência alguma. Vocês devem convencer seus líderes a entrarem numa discussão equilibrada...

— Levem os prisioneiros — ordenou Nakamura.

— ...senão todos vocês morrerão. As octoaranhas são muito mais avan-çadas do que nós. Acreditem em mim. Estou vivendo no meio delas há mais de...

Um dos policiais deu um soco na nuca de Richard e ele caiu no chão, sangrando. Katie deu um pulo, mas Franz prendeu-a nos seus braços. Richard estava com a mão na cabeça quando Archie e ele foram retirados da sala.

 

Richard e Archie estavam numa pequena cela no posto policial de Hakone, perto do palácio de Nakamura.

— Como está sua cabeça? — perguntou a octoaranha em cores.

— Está bem — respondeu Richard. — Mas ainda muito inchada.

— Eles vão nos matar, não é? — perguntou Archie.

— Provavelmente — disse Richard entristecido.

— Obrigado por ter tentado — acrescentou Archie depois de longo silêncio.

Richard deu de ombros.

— Não adiantou muito... De qualquer forma, eu é que devia lhe agradecer. Se você não tivesse se oferecido para vir, estaria seguro na Cidade de Esmeralda.

Richard foi até a bacia no canto para lavar o pano que estava servindo de curativo para sua cabeça.

— Você não disse que a maioria dos humanos acredita na vida após a morte? — perguntou Archie quando Richard voltou para o seu lado.

— Disse. Muita gente acredita que nós somos reencarnados e voltamos a viver de novo como outra pessoa, ou até mesmo como um animal. Outros acreditam que se a vida foi bem vivida há uma recompensa, uma vida eterna em um lugar bonito e sem sofrimento chamado Céu...

— E você, Richard — interrompeu Archie com as cores —, em que você acredita pessoalmente?

Richard sorriu e pensou um instante antes de responder.

— Eu sempre acreditei que qualquer coisa única que houvesse em nós, definindo nossa personalidade especial e individual, desapareceria na hora da morte. É claro que nossa química pode ser reciclada em outras criaturas vivas, mas não há uma continuidade real, não em termos do que os humanos chamam de alma... Richard riu.

— Mas agora, quando minha mente lógica diz que não tenho possibilidade de viver muito mais, uma voz dentro de mim me pede para encampar uma dessas histórias de fadas sobre a vida do além... Admito que seria fácil... Mas essa conversão de última hora seria incoerente com a forma como vivi todos esses anos...

Richard foi andando até a frente da cela, pôs as mãos nas barras de ferro e olhou pelo corredor durante alguns minutos sem dizer nada.

— E o que as octoaranhas acham que ocorre depois da morte? — per-guntou ele, virando-se para seu companheiro de cela.

— Os precursores nos ensinaram que cada vida é um intervalo finito, com um começo e um fim. Nenhuma criatura individual, embora seja um milagre, é tão importante no esquema das coisas como um todo. O que importa, diziam os precursores, é a continuidade e a renovação. Segundo eles, cada um de nós é imortal, não porque uma coisa relacionada a um indivíduo específico viva para sempre, mas porque cada vida torna-se um elo crítico, em termos genéticos ou culturais, da infindável cadeia da vida. Quando os precursores nos tiraram da ignorância, aprendemos a não ter medo da morte, e a aceitar a renovação que se segue a ela.

— Então você não sente tristeza nem medo ao ver que sua morte está próxima?

— Idealmente não — respondeu Archie.

— Essa é a forma aceita na nossa sociedade para enfrentar a morte... Mas é muito mais fácil quando na hora final o indivíduo está cercado de amigos e de outros que representam a renovação que sua morte trará.

Richard pôs o braço em volta de Archie.

— Você e eu só temos um ao outro, meu amigo. É também a consciência de que tentamos juntos parar uma guerra que provavelmente acabará matando milhares. Não pode haver muitas causas...