A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 54 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 10

Ellie disse a Nicole que ela era uma velha teimosa, mas que, como a amava e respeitava muito, tentaria apoiá-la nas poucas horas que lhe restavam. Depois perguntou se Nicole pretendia fazer alguma coisa específica para apressar sua morte. Nicole riu e disse para a filha que não seria necessário tomar medidas drásticas, pois a Águia lhe garantira que sem uma medicação complementar seu coração não duraria muitas horas.

A conversa com Benjy não foi tão difícil. Ellie ofereceu-se para ajudar a explicar tudo, e Nicole aceitou o oferecimento. Benjy sabia que a saúde de sua mãe estava precária, e não tinha conhecimento de que os alienígenas podiam resolver seus problemas médicos. Ellie garantiu a Benjy que Max, Eponine, Nikki, Kepler, Marius e Maria continuariam a fazer parte do seu mundo diário.

Quando ao grande grupo, só Eponine ficou com lágrimas nos olhos quando Nicole os informou da sua decisão. Max disse que não estava tão surpreso. Maria falou que tinha pena de não ter passado mais tempo com a mulher que salvara sua vida. Kepler, Marius e até mesmo Nikki ficaram sem saber o que dizer.

Quando Nicole se preparava para dormir, prometeu a si mesma que lo-calizaria o dr. Azul de manhã cedo para despedir-se da amiga octoaranha. Antes de Nicole apagar as luzes, Benjy aproximou-se da mãe e perguntou se podia ficar abraçado com ela como quando era pequeno, já que seria a última noite que passariam juntos. Nicole concordou, e, depois que Benjy enroscou-se nela, lágrimas lhe rolaram pelo rosto, molhando suas orelhas e a esteira de dormir.

 

10

Nicole acordou cedo. Benjy já estava vestido, mas Kepler ainda dormia do outro lado do quarto. Benjy ajudou mais uma vez Nicole a tomar uma ducha e a vestir-se.

Max chegou no apartamento pouco depois. Depois de acordar Kepler, foi até a cadeira de rodas de Nicole e pegou sua mão.

— Eu não falei muito na noite passada, minha amiga, porque não en-contrei as palavras certas... Mesmo agora não sei bem o que dizer...

Virou a cabeça para o outro lado e disse, com a voz entrecortada, sem olhar para ela.

— Que merda, Nicole. Sabe muito bem o que eu sinto por você... você é uma pessoa linda, linda.

Max se calou. O único ruído que se ouvia no quarto era a água do banho de Kepler. Nicole apertou a mão dele.

— Obrigada, Max, isso significa muito para mim — disse, com muito carinho.

— Quando eu tinha dezoito anos — disse Max virando-se para Nicole, hesitante —, meu pai morreu de um câncer raro... Todos nós sabíamos que tinha chegado a sua hora. Clyde, mamãe e eu vimos que ele estava definhando há meses... Mas eu não queria acreditar, mesmo quando o vi deitado no caixão... Fizemos uma cerimônia no cemitério, só para os amigos das fazendas vizinhas e um mecânico de De Queen chamado Willie Townsend, que tomava um porre com meu pai todo sábado à noite...

Max sorriu e relaxou. Ele adorava contar histórias.

— Willie era um bom sujeito, um solteirão de aspecto durão, mas muito doce por dentro... Ele levou um fora da rainha dos esportes do ginásio de De Queen quando era um garotão e nunca mais teve uma namorada... Minha mãe me pediu para dizer umas palavras no túmulo do papai, e eu concordei... Eu mesmo escrevi o discurso, decorei tudo e até mesmo pratiquei em voz alta em frente de Clyde... Na hora da cerimônia eu estava pronto para fazer o discurso... "Meu pai, Henry Allan Puckett, era um bom homem", comecei. Depois fiz uma pausa, como tinha planejado, e olhei em volta. Willie já estava fungando e olhando para o chão... De repente, não consegui me lembrar de mais nada do discurso que estava preparado. Ficamos parados debaixo do sol quente do Arkansas durante uns trinta segundos, que me pareceram um eternidade... Nunca mais me lembrei do resto do discurso... Finalmente, por desespero e constrangimento, eu disse "Ah, merda", e Willie completou imediatamente com um alto "Amém". Nicole estava rindo.

— Max Puckett, não pode haver ninguém como você em todo o universo. Max riu.

— Na noite passada, quando a francesinha e eu estávamos na cama, conversamos sobre a outra Nicole criada pelos alienígenas para Simone e Michael, e Ep ficou imaginando se eles poderiam fazer um robô Max Puckett para ela. Disse que gostaria de ter um marido perfeito que fizesse sempre exatamente o que ela queria... Mesmo à noite... Nós rimos a mais não poder tentando imaginar, bem, você sabe, o que o robô saberia fazer na cama...

— Que vergonha, Max — falou Nicole.

— Na verdade, a francesinha é que foi mais imaginativa... Bem, eu fui mandado aqui especificamente para informar a você que está sendo preparado um lauto café da manhã no apartamento ao lado, uma cortesia dos cabeças de blocos, para tentarmos nos despedir de você, ou desejar bon voyage, ou o que for mais apropriado... E isso vai acontecer dentro de exatamente oito minutos...

 

Nicole ficou encantada quando viu que o ambiente na mesa do café estava agradável e leve. Ela tinha dito várias vezes na noite anterior que não queria que sua partida fosse motivo de tristeza, que deveria ser celebrada como o final de uma vida feliz. Aparentemente, sua família e amigos tinham aceitado seu pedido de coração, pois não havia um rosto sombrio ali.

Ellie e Benjy sentaram-se dos dois lados de Nicole na longa mesa prepa-rada pelos robôs-bloco. Ao lado de Ellie estava Nikki, depois Maria e o dr. Azul. Ao lado de Benjy, Max, Eponine, depois Marius, Kepler e a Águia. Durante a refeição, Nicole notou com surpresa que Maria estava conversando com o dr. Azul.

— Eu não sabia que você podia ler as cores — falou Nicole, em tom elogioso.

— Só um pouco — disse a menina, um tanto encabulada com a atenção. — Ellie tem me ensinado.

— Que ótimo — comentou Nicole.

— É claro que o verdadeira lingüista deste grupo — disse Max — é aquele estranho homem-pássaro no final da mesa... Ontem ele estava conversando com os iguanas em bizarros guinchos.

— Ui — disse Nikki —, eu não gostaria de conversar com aquelas criaturas nojentas.

— Elas têm uma visão do mundo totalmente diferente de nós — disse a Águia. — Uma forma muito simples, muito primitiva.

— Eu gostaria de saber — disse Eponine, inclinando-se para a frente e dirigindo-se à Águia — o que preciso fazer para ter um companheiro robô alienígena só para mim. Quero um que se pareça com Max, só que sem a rebeldia dele, e que tenha alguns atributos aprimorados...

Todos riram. Nicole sorriu para si mesma quando olhou a mesa. Está tudo perfeito. Eu não poderia ter uma despedida melhor, pensou.

 

O dr. Azul e a Águia deram a Nicole uma última dose do líquido azul enquanto ela arrumava a mala, contente de poder despedir-se da octoaranha a sós.

— Muito obrigada por tudo — disse ela simplesmente, abraçando a colega octoaranha.

— Vamos sentir a sua falta — falou o dr. Azul em cores. — O novo Chefe Otimizador queria organizar uma grande despedida para você, mas eu disse que não achava apropriado... Ele me pediu para eu dizer adeus a você em nome de toda a nossa espécie.

Todos acompanharam Nicole até a câmara de compressão. Depois de uma outra sessão de abraços, a Águia e Nicole atravessaram a câmara de compressão.

Nicole deu um suspiro quando a Águia a colocou no assento do veículo espacial e dobrou sua cadeira de rodas.

— Eles foram ótimos, não é? — disse Nicole.

— Todos amam e respeitam muito você — comentou a Águia. Depois que saíram da Estrela do Mar, o grande tetraedro de luz virou-se de novo lentamente à vista deles.

— Como está se sentindo? — perguntou a Águia.

— Aliviada e um pouco assustada — respondeu Nicole.

— Isso é de se esperar — disse a Águia.

— Quanto tempo tenho ainda? — perguntou Nicole um pouco depois. — Até meu coração parar de funcionar?

— É difícil dizer exatamente.

— Eu sei, eu sei — falou Nicole impaciente. — Mas vocês são cientistas... Devem ter computado esses dados...

— Entre seis e dez horas — respondeu a Águia.

Entre seis e dez horas estarei morta, pensou Nicole, agora com um medo palpável que não conseguia controlar por completo.

— Como é estar morta? — perguntou ela.

— Nós achamos que você faria essa pergunta — respondeu a Águia. — Disseram-nos que é como ter perdido toda a energia.

— Uma nulidade para sempre? — disse Nicole.

— Creio que sim.

— E o próprio ato de morrer? Há alguma coisa especial sobre isso?

— Nós não sabemos — disse a Águia. — Esperamos que você nos conte o mais que puder sobre isso.

Os dois voaram em silêncio durante algum tempo. À frente deles, Nodo aumentava rapidamente de tamanho. Em certo ponto, a nave espacial mudou ligeiramente de orientação e o Módulo do Conhecimento apareceu no centro da janela. Durante a aproximação final, os outros três vértices de Nodo ficaram abaixo deles.

— Você se importa se eu lhe fizer uma pergunta? — disse a Águia.

— É claro que não — respondeu Nicole, virando-se para o alienígena e sorrindo pelo capacete espacial. — Espero que você não vá ficar tímido a essa altura.

— Eu não queria perturbar os seus pensamentos.

— Na realidade, neste momento não estou pensando em nada específico. Estou com a cabeça no ar.

— Por que você quer passar seus últimos momentos no Módulo do Co-nhecimento? — perguntou a Águia.

Nicole riu.

— É a primeira vez que ouço uma pergunta pré-programada. Já posso ver minha resposta registrada num desses intermináveis arquivos, classificada como "Morte: Seres Humanos", e em outras categorias correlatas.

A Águia não disse nada.

— Quando Richard e eu ficamos perdidos em Nova York, há muitos anos, e pensávamos que não teríamos muita chance de escapar, conversávamos sobre o que gostaríamos de fazer nos últimos momentos anteriores à nossa morte. Concordamos que nossa primeira escolha seria fazer amor, e a segunda aprender alguma coisa nova, para sentir a emoção da descoberta pela última vez...

— É um conceito muito avançado — comentou a Águia.

— E muito prático também — disse Nicole. — Pode ser que eu esteja errada, mas creio que vou achar esse Módulo do Conhecimento tão intrigante que nem vou me dar conta de que os últimos segundos da minha vida estão próximos... Estou tão comprometida com esta ação que creio que seria tomada de medo se não estivesse ativamente engajada durante minhas últimas horas.

O Módulo do Conhecimento enchia agora toda a janela.

— Antes de entrar — disse a Águia —, quero dar umas informações sobre este lugar... O módulo esférico consiste na verdade de três domínios concêntricos separados, cada um com um objetivo diferente. A região menor e mais externa concentra-se no conhecimento associado ao presente, ou ao presente próximo. A região do meio é onde estão registradas todas as informações históricas sobre esta parte da galáxia. E a esfera grande e interna contém todos os modelos de previsão do futuro, e também seqüências aleatórias das próximas eras...